sábado, 1 de agosto de 2009

Galileo, por Bertold Brecht...



Vida de Galileu
(Galileo)
Galileo XviD Dual Audio Eng Spa



A peça mais conhecida dentre todas de Bertolt Brecht ganha uma versão que, se não pode ser chamada de definitiva, chega muito próximo disso (especialmente se forem levadas em conta as várias adaptações de obras teatrais que grassam nos circuitos comerciais de cinema).
Nesta adaptação vemos o célebre físico Galileu Galilei (interpretado por Topol) comprovar, por meio de instrumentos e verificação científica, a validade das teorias de Copérnico. Suas teorias e o trabalho de Galileu fazem ir abaixo toda uma ordem conceitual que justificava o poder da Igreja Católica na época.
É lógico que as autoridades eclesiásticas não gostam nem um pouco disso e, mesmo em um primeiro momento comprovando as teorias de Galileu, optam por mantê-lo calado, por meio da força, de modo que suas ideias não se espalhem pelo continente europeu.
Um filme (e uma peça também, já que Brecht aparece aqui respeitado tanto em forma quanto em conteúdo) absolutamente atual, principalmente se forem levadas em conta as lutas entre a geração que faz parte da Geração Internet e as megacorporações que tentam, através de mecanismos "legais", barrar o avanço humano e científico.
A realização do homem na sua condição humana.




ELENCO

Topol
James Aubrey
Colin Blakely
Robert Bridges
Georgia Brown
Tom Chatto
Dermot Colman
Tom Conti
(mais ver IMDB)

INFORMAÇÕES SOBRE O FILME
Gênero: Drama / Teatro Épico
Diretor: Joseph Losey
Duração: 145 minutos
Ano de Lançamento: 1975
País de Origem: Inglaterra
Idioma do Áudio: Inglês / Espanhol
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0073029/

RELEASE
Qualidade de Vídeo: DVD Rip
Vídeo Codec: XviD
Vídeo Bitrate: 1.037 Kbps
Áudio Codec: AC3
Áudio Bitrate: 192 kbps CBR 48 KHz
Resolução: 640 x 352
Aspect Ratio: 1.818
Formato de Tela: Widescreen (16x9)
Frame Rate: 25.000 FPS
Tamanho: 1,36 GB
Legendas: Em anexo

CREDITOS: FARRA - LOBOWOLF


Contraponto a midia de esgoto...

Blogs matarão censura

Do blog Cidadania.com de Eduardo Guimarães

Por ele mesmo...

O leitor Arruda, comerciante de São Paulo, em comentário neste blog fez uma observação que me permitirá explicar um fato importantíssimo. Para resumir o comentário em questão, ele pontuou que os blogs estariam “sempre correndo atrás” de desmentir a grande imprensa, quando o correto seria não se deixarem pautar por ela.

Entendo a preocupação do leitor, mas ele não entendeu ainda o valor da blogosfera. Ela existe justamente para se contrapor à propaganda política, ideológica, econômica, de costumes e de valores que existe hoje para esmagar idéias divergentes.

Com efeito, os blogs constituem uma arma social nova e inédita na história que já permite o combate frontal ao que sempre houve de mais nefasto na comunicação no Brasil, ou seja, o combate a uma máquina de dominação social e econômica baseada, fundamentalmente, na censura.

Os blogs – e, de forma cada vez mais importante, o Twitter – conformaram-se em ferramentas com um poder ainda não mensurado adequadamente, o poder de literalmente destruir a Teoria da Censura, que é a de impedir a difusão da verdade mesmo quando é dita pelos que têm só a própria voz e jamais os meios de amplificá-la ao volume da voz dos que detêm o monopólio da comunicação de massas.

Por atingirem contingentes populacionais muito menores do que conseguem atingir os meios de comunicação corporativos, os blogs ainda são vistos pelos controladores daqueles meios como incapazes de lhes provocar maiores problemas para venderem seus interesses políticos, ideológicos, econômicos, sociais e comerciais, e para venderem tais interesses sobretudo àqueles aos quais esses interesses são danosos, pois são maioria.

Estão enganados. Acredito nisso e tenho até provado isso com este blog. Acho que as novas mídias populares destroem a teoria que fundamenta as ações dos grandes impérios de mídia que infelicitam este país, este continente e grande parte do mundo, que é a Teoria da Censura.

Essa teoria se baseia em não permitir que ninguém fale, ao menos de forma pública e para maiores contingentes de pessoas, porque a mínima capacidade de reunir muitos – ainda que menos do que aqueles que assistem aos grandes meios de comunicação – em torno de algum idéia pode produzir um efeito de amplificação capilar na sociedade que, cedo ou tarde, terminaria por envolvê-la toda naquele conhecimento que se quer sufocar.

É por isso que acredito que os blogs repercutirem o grande noticiário de forma diametralmente oposta à forma que aquele noticiário pretendeu vender à sociedade, isso estaria fazendo o que realmente importa fazer neste momento, que é difundir o “vírus” benigno do contraditório, que se infiltra na sociedade e atua com impacto crescente, ainda que muito mais lentamente do que o impacto da pandemia maligna e avassaladora da censura.

É preciso dar resposta e argumentos àqueles que verão suas opiniões esmagadas pelo grande noticiário e que não saberiam formular por si mesmos muitos dos argumentos para reagirem devido, unicamente, à falta de informação contrária, mas que agora os blogs estão provendo num processo que acho convictamente que é possível que culmine com a morte definitiva da censura no Brasil.

Imagens que falam

Tucanos, demos e o “mensalão” da mídia

Do blog do Miro

Altamiro Borges

Por razões econômicas e ideológicas, a mídia hegemônica adora explorar os escândalos políticos. A crise mais recente é que a atinge o Senado Federal, no qual as denúncias das graves distorções se fundem com objetivos eleitoreiros marotos – que só os ingênuos não percebem. Ela só não faz sensacionalismo com os seus próprios negócios sinistros. Evita falar dela mesma, de seus pobres. Entre uma e outra denúncia de corrupção, ela deveria averiguar dois casos graves que envolvem poderosas corporações midiáticas. Ambos podem confirmar a exigência de um estranho “mensalão”, no qual governos demos-tucanos compram o apoio dos veículos de comunicação.

Os demos e o Correio Braziliense

O caso mais recente ocorreu no Distrito Federal, onde o governador José Roberto Arruda garfou R$ 442,4 mil do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) para comprar assinaturas da revista Veja. Mais grave ainda, o demo desembolsou quase R$ 3 milhões na compra de 7.562 assinaturas do Correio Braziliense. O Sindicato dos Professores do Distrito Federal, um dos principais alvos dos ataques raivosos e recorrentes deste jornal, criticou o uso dos recursos públicos e a forma irregular e suspeita como foi firmado este convênio:

“O convênio foi feito sem licitação, sem um projeto pedagógico definido, sem discussão com os professores e sem transparência. Enquanto isso, as bibliotecas de nossas escolas estão em petição de miséria, sem livros e estrutura de funcionamento... Esses recursos poderiam ser utilizados para equipá-las com clássicos da nossa literatura, para dotá-las de banda larga na internet, o que garantiria a diversidade e a pluralidade das informações... É no mínimo uma contradição que o Correio, tão veemente ao atacar o Senado por causa dos atos secretos, anuncie este convênio sem dizer os valores envolvidos e sem especificar o embasamento legal para que ele ocorra”.

Relações promíscuas com o poder

O professor Venício de Lima, um atento crítico das relações promíscuas entre os barões da mídia e os poderes públicos, foi um dos primeiros a denunciar este acordo. Ele lembra que, em março passado, o jornal Correio Braziliense, “principal jornal do Distrito Federal, dedicou duas páginas (uma delas a capa) do seu caderno ‘Cidades’ a ampla matéria na qual encampava publicamente a posição de porta-voz do governo contrária à anunciada greve dos professores da rede pública de ensino”. Com os títulos “greve sem causa” e “crime de lesa-futuro”, o jornal compôs a tropa de choque do demo José Roberto Arruda contra a reivindicação de reajuste salarial dos docentes.

“O leitor certamente terá notado, à época, que contrariamente às regras elementares e básicas do jornalismo, a longa matéria opinativa do Correio Braziliense, além de defender um dos lados, isto é, não ser isenta, omitia inteiramente o ‘outro lado’ envolvido na disputa: os professores não foram ouvidos, simplesmente não aparecem na matéria para explicar e defender sua posição”. De forma curiosa, quatro meses depois, em 22 de junho, o governo retribuiu com a compra de 7.562 assinaturas do jornal, que chegarão às 199 escolas da rede pública. Para Venício de Lima, esta suspeita aquisição representa 16% da tiragem média do jornal e retira R$ 2,9 milhões do Fundeb.

“Em tempos de crise da mídia impressa (salvo dos jornais populares e gratuitos), que coloca em risco a própria sobrevivência no mercado de alguns jornalões, não seria ético e salutar que jornais como o Correio Braziliense – além de zelar pela credibilidade fazendo jornalismo de notícias e não de matérias opinativas – praticassem, para si mesmos, aquilo que corretamente têm exigido de outras esferas do poder? Ou o critério da transparência na destinação do dinheiro público não se aplica quando beneficia a própria grande mídia?”, questiona Venício de Lima.

Serra e as relações perigosas com a Abril

Antes desta estranha negociata, outro caso bem suspeito já tinha vindo a púbico através dos sítios alternativos da internet e não da “grande mídia”. Em abril passado, o Ministério Público acolheu representação do deputado federal Ivan Valente (PSOL) e abriu inquérito civil para apurar as irregularidades no contrato firmado entre o governo paulista e a Editora Abril na compra de 220 mil assinaturas da revista Nova Escola. O valor desta obscura transação foi de R$ 3,7 milhões e confirmou as perigosas relações entre o tucano José Serra e a Grupo Civita, que também publica a revista Veja, o principal palanque de oposição ao governo Lula.

A compra das 220 mil assinaturas representa quase 25% da tiragem total da Nova Escola. Mas este não é o único caso de privilégio a este ao grupo direitista. O governo José Serra apresentou recentemente proposta curricular que obriga a inclusão no ensino médio de aulas baseadas em edições encalhadas do Guia do Estudante, outra publicação da Editora Abril. Como observa do deputado Ivan Valente, “cada vez mais, a editora ocupa espaço nas escolas de São Paulo, tendo até mesmo publicações adotadas como material didático. Isso totaliza, hoje, cerca de R$ 10 milhões de recursos públicos destinados a esta instituição privada, considerado apenas o segundo semestre de 2008”.

A midia de esgoto volta a atacar....


Folha quer o fim da emissora da TV Brasil

Por Marcelo Salles

Reproduzido do blog do autor,

A Folha de S.Paulo quer o fim da TV Brasil. Em editorial publicado na sexta-feira (31/7) argumenta que a audiência é baixa, que sua criação não foi um ato democrático (porque nasceu de um decreto) e que gasta, por ano, 350 milhões de reais do dinheiro do contribuinte. Por isso, encerra o texto da seguinte forma: "Os vícios de origem e o retumbante fracasso de audiência recomendam que a TV seja fechada – antes que se desperdice mais dinheiro do contribuinte" [veja a íntegra abaixo].

Tenho críticas à TV Brasil, mas nenhuma delas tem a ver com a opinião da Folha. Aliás, seria bom perguntar: a quem serve a Folha? No cabeçalho se diz que é "um jornal a serviço do Brasil", o que soa como piada para quem conhece minimamente a história da imprensa do país. Para não ir muito longe, basta dizer que o jornalão emprestou veículos para a ditadura. Mas talvez isso seja uma questão de ponto de vista: estavam, diria o jornal da "ditabranda", a serviço do Brasil contra a Comunidade Comunista, que pretendia se instalar no governo federal.

"Inimigo interno"

Voltando. A TV Brasil é uma tentativa de cumprir a Constituição, que determina a complementariedade entre os serviços privado, público e estatal. Hoje só existe o privado e, tenho certeza, isto tem a ver com o lixo jogado no ar todos os dias. Sim, a televisão privada brasileira é um lixo. Não presta. Raríssimos são os programas razoáveis. Na Globo, por exemplo, nada menos que metade da programação entre 12h e 24h é de novela. E de uma novela que dissemina os piores valores morais que existem.

Posso concordar que existem erros graves na TV Brasil, e o primeiro deles foi a entrega dos cargos de direção para jornalistas oriundos das corporações de mídia. Com isso o governo indicou uma conciliação, não uma mudança substancial no jeito de fazer jornalismo. Assim, não é à toa que muito do conteúdo veiculado pela TV Brasil, sobretudo nos telejornais, tem sido muito parecido com aquele das corporações privadas (ver "Carta à TV Brasil").

Por outro lado, não dá para dizer que é tudo igual. Se pegarmos a programação como um todo, veremos a existência de iniciativas que jamais teriam vez no atual sistema privado de televisão. É o caso dos documentários, que dão voz e vez aos segmentos da sociedade que só aparecem na mídia corporativa como bandidos.

Por isso, o governo precisa se manter firme diante da pressão da Folha. E contra-atacar. Para começar, coloque em pauta a mudança na lei que criminaliza as rádios comunitárias e determine que sua Polícia Federal vá se preocupar com aqueles que realmente ameaçam a sociedade. Essa babaquice de inimigo interno já fez muito mal ao país. Enquanto calam as vozes do povo, armas e drogas atravessam nossas fronteiras numa boa. O Rio está infestado delas, e boa parte da culpa é da falta de fiscalização.

Comunicação apátrida

No Brasil arcaico do século 21, as emissoras privadas de televisão, todas golpistas, ainda recebem dinheiro grosso do governo (meu, seu, nosso) para veicular campanhas publicitárias de saúde pública. Em países um pouquinho mais civilizados isso não é assim, pois como as emissoras privadas são concessões públicas (decididas pelo meu, seu, nossos representantes no Congresso), trata-se de uma obrigação ceder espaço para veiculação de mensagens de interesse público, sobretudo em relação a epidemias (como, atualmente, a gripe suína). Isso a Folha não critica.

Assim como não vê problemas na existência de um oligopólio privado na televisão aberta. Justo o jornal que faz propaganda dizendo-se democrata ("quem lê a Folha fortalece a democracia"). Deveria ser processado por propaganda enganosa. A Folha não se incomoda com a SS brasileira, a Sociedade Sinistra que congrega TV Globo, RedeTV!, Band, CNT, SBT e Record. É como se fosse natural que apenas seis empresas tivessem o direito de se comunicar via TV com 191 milhões de pessoas. E, pior, é como se fosse natural que esse oligopólio se posicionasse, compacto, pela economia de mercado, pela cultura enlatada, pela política coronelista (Sarney foi "descoberto" com 30 anos de atraso), pelo imperialismo e pela exploração das riquezas e do povo brasileiro. É isso que veiculam, todos os dias, e, se discordam, desafio qualquer diretor de qualquer uma dessas empresas para um debate público, de preferência veiculado em cadeia nacional de rádio e televisão.

Eis a dupla desgraça brasileira. Um sistema de comunicação apátrida, a serviço do capitalismo internacional, e um governo – eleito pelo povo e pelos movimentos sociais organizados – que não se livra disso.

Al Di Meola - Di Meola Plays Piazzolla (1996)

http://i32.tinypic.com/2ltgf10.jpg


Al Di Meola - Di Meola Plays Piazzolla (1996)

Artista: Al Di Meola
Album: Di Meola Plays Piazzolla
Ano: 1996
Genero: Jazz/ Tango progressista
Formato: mp3@320 / 134Mb


Músicas
1. Oblivon (6:03)
2. Cafe 1930 (6:15)
3. Tango Suite Part I (8:48)
4. Tango Suite Part II (8:50)
5. Verano Reflections (4:12)
6. Night Club 1960 (5:49)
7. Tango II (5:35)
8. Bordel 1900 (4:32)
9. Milonga Del Angel (3:48)
10. Last Tango For Astor (6:18)

Músicos:
Al DiMeola (guitar);
Dino Saluzzi (bandoneon).

Dowloads:

1 - Hotfile

2 - Rapidshare

Luto no 4 de Julho


John Pilger






Neste ensaio para o New Statesman, Pilger argumenta que enquanto os liberais agora celebram o retorno da América aos seus "ideais morais", mantêm-se silenciosos acerca de um tabu venerável: o do americanismo, uma ideologia que se caracteriza por não se reconhecer como ideologia. O presidente Obama é a sua corporificação.




John Pilger*

A monção entrelaçara-se em espessos novelos de neblina sobre as terras altas centrais do Vietname. Eu era um jovem correspondente de guerra, acampado na aldeia de Tuylon com uma unidade dos US marines cujas ordens era conquistar corações e mentes. "Não estamos aqui para matar", dizia o sargento, "estamos aqui para difundir o Caminho Americano da Liberdade tal como declarado no Manual de Pacificação. Isto destina-se a conquistar os corações e mentes dos sujeitos, como se diz na página 86".

A página 86 era intitulada WHAM ("Winning Hearts And Minds"). A unidade do sargento era chamada uma companhia de acção combinada, o que significava, como ele explicou, "nós atacamos estes sujeitos às segundas-feiras e conquistamos os seus corações e mentes às terças-feiras". Estava a brincar, apesar de não muito. De pé num jipe à beira de um arrozal, anunciou através de um alto-falante: "Venham para fora, toda a gente. Temos arroz, doces e escovas de dentes para dar a vocês".

Silêncio. Nem uma sombra se moveu.

"Agora ouçam, ou vocês bastardos (gooks) saem de onde quer que estejam ou nós vamos aí e apanhamos vocês!"

O povo de Tuylon finalmente saiu e fez fila para receber pacotes de arroz Uncle Ben's Long Grain Rice, barras de chocolate Hershey, balões de festa e vários milhares de escovas de dentes. Três sanitários portáteis com descarga amarela, operados a bateria, foram preparados para a chegada do coronel. E quando o coronel chegou naquela noite, o chefe do distrito foi convocado e os sanitários com descarga amarela foram inaugurados.

"Sr. Chefe do Distrito e todos vocês aqui", disse o coronel, "o que estas prendas representam é mais do que a soma das suas partes. Elas transportam o espírito da América. Senhoras e senhores, não há um lugar sobre a terra como a América. É uma luz orientadora para mim, e para si. Vocês vêm, quando voltamos para casa, consideramo-nos como realmente felizes por ter a maior democracia que o mundo alguma vez conheceu e queremos que vocês, bons sujeitos, participem da nossa boa fortuna".

Thomas Jefferson, George Washington e Davy Crockett ganhavam uma menção. "Farol" era outra favorita e ele evocava a "cidade sobre uma colina" de John Winthrop, os marines aplaudiam e as crianças aplaudiam, sem entenderem nem uma palavra.

Isto era uma lição do que os historiadores chamam o "excepcionalismo", a noção de que os Estados Unidos têm o direito divino de levar o que descrevem como liberdade e democracia ao resto do mundo. Que isto disfarçava simplesmente um sistema de dominação, o qual Martin Luther King, pouco antes do seu assassinato, descreveu como "o maior fornecedor de violência do mundo" era algo indizível.

Como destacou Howard Zinn, o grande historiador do povo, a muito citada descrição de Winthrop da Massachusetts Bay Colony no século XVII como uma "cidade sobre uma colina", um lugar de ilimitada bem aventurança e nobreza, era raramente contrastada com a violência dos primeiros colonos, para os quais queimar vivos uns 400 índios Pequot era uma "alegria triunfante". Os incontáveis massacres que se seguiram, escreveu Zinn, eram justificados pela "ideia de que a expansão americana é divinamente ordenada".

Não há muito, visitei o American Museum of History, parte da celebrada Smithsonian Institution, em Washington, DC. Uma das exposições populares era "O preço da liberdade: Americanos em guerra". Era um feriado e filas de pessoas, incluindo muitas crianças, entravam reverencialmente numa gruta de guerra e conquista onde eram dispensadas mensagens acerca da "grande missão" do seu país. Isto incluía tributos aos "americanos excepcionais que salvaram milhões de vida" no Vietname, onde estavam "determinados a travar a expansão comunista". No Iraque, outras boas almas "utilizavam ataques aéreos de precisão sem precedentes". O que era chocante não era tanto a descrição revisionista de dois dos tremendos crimes dos tempos modernos mas sim a escala de omissão total.

"A história sem memória", declarava a revista Time no fim do século XX, "confina os americanos a uma espécie de eterno presente. Eles são especialmente fracos em recordar o que fizeram a outros povos, em oposição ao que eles lhes fizeram". Ironicamente, foi Henry Luce, fundador da Time, que em 1941 previu o "século americano" como uma "vitória" americana social, política e cultural sobre a humanidade e o direito da "exercer sobre o mundo o pleno impacto da nossa influência, para os propósitos que consideremos adequados e pelos meios que considerarmos adequados".

Nada disto é para sugerir que o orgulho é exclusivo dos Estados Unidos. Os britânicos apresentaram a sua dominação de grande parte do mundo, muitas vezes violenta, como o progresso natural de cavalheiros cristãos a civilizarem os nativos de forma abnegada e os actuais historiadores da TV perpetuam os mitos. Os franceses ainda celebram a sua sangrenta "missão civilizadora". Antes da Segunda Guerra Mundial, "imperialista" era um título político honroso na Europa, ao passo que nos EUA era preferido o de "idade inocente". A América era diferente do Velho Mundo, diziam os seus mitólogos. A América era a Terra da Liberdade, não interessada em conquistas. Mas e quanto ao apelo de George Washington por um "império ascendente" e o de James Madison por "lançar a fundação de um grande império"? E quanto à escravidão, ao roubo do Texas ao México, à sangrenta subjugação da América Central, de Cuba e das Filipinas?

Uma memória nacional comandada destinou isto às margens da história e "imperialismo" foi quase desacreditado nos Estados Unidos, especialmente após Adolf Hitler e os fascistas, com as suas ideias de superioridade racial e cultural, deixaram um legado de culpa por associação. Os nazis, afinal de contas, haviam sido imperialistas orgulhosos e a Alemanha era, também, "excepcional". A ideia de imperialismo, a própria palavra, foi quase expurgada do léxico americano, "com o fundamento de que ela falsamente atribui motivos imorais à política externa do ocidente", argumentou um historiador. Aqueles que persistiam em utilizá-la eram "infames agitadores" e estavam "inspirados pela doutrina comunista", ou eram "intelectuais negros que tinham ressentimentos contra o capitalismo branco".

Enquanto isso, a "cidade sobre a colina" permanecei um farol de voracidade quando o capital estado-unidense começou a realizar o sonho de Luce e a recolonizar os impérios europeus nos anos do pós-guerra. Isto foi a "a marcha da livre empresa". Na verdade, foi conduzida por um boom de produção subsidiada num país não devastado pela guerra: uma espécie de socialismo para as grandes corporações, ou capitalismo de estado, o qual deixava metade da riqueza do mundo em mãos americanas. A pedra fundamental deste novo imperialismo foi colocada em 1944 na conferência dos aliados ocidentais em Bretton Woods, New Hampshire. Descrita como "negociações acerca da estabilidade económica", a conferência marcou a conquista da maior parte do mundo pela América.

O que a elite americana pedia, escreveu Frederic F. Clairmont em The Rise and Fall of Economic Liberalism, "era não aliados mas estados clientes servis. O que Bretton Woods deixou como legado para o mundo foi um plano totalitário letal para a repartição dos mercados mundiais". O Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, o Banco de Desenvolvimento Asiático, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Africano de Desenvolvimento foram com efeito estabelecidos como braços do Tesouro dos EUA e conceberiam e policiariam a nova ordem. Os militares estado-unidenses e seus clientes guardariam as portas destas instituições "internacionais" e um "governo invisível" dos media asseguraria os mitos, disse Edward Bernays.

Bernays, descrito como o pai da era dos media, era o sobrinho de Sigmund Freud. "Propaganda", escreveu ele, "acabou por ser uma palavra má devido aos alemães... de modo que o que fiz foi tentar e encontrar outras palavras [tais como] Relações Publicas". Bernays utilizou teorias de Freud acerca do controle do subconsciente para promover uma "cultura de massa" destinada a promover o medo dos inimigos oficiais e o servilismo ao consumo. Foi Bernays quem, em prol da indústria tabaco, fez campanha para as mulheres americanas assumirem o fumar como um acto de libertação feminista, chamando os cigarros de "tochas da liberdade"; e foi a sua noção de desinformação que aplicada para a derrubada de governos, tal como a democracia da Guatemala em 1954.

O objectivo, acima de tudo, era distrair e desviar os impulsos democráticos e sociais do povo trabalhador. O big business, com a sua reputação pública de uma espécie de máfia, foi elevado à de força patriótica. A "livre empresa" tornou-se uma divindidade. "No princípio da década de 1950", escreveu Noam Chomsky, "20 milhões de pessoas por semana estavam a assistir filmes patrocinados pelos negócios. A indústria do entretenimento foi alistada na causa, retratando os sindicatos como o inimigo, o intruso que rompe a "harmonia" do "American way of life"... Todo aspecto da vida social era visado e permeava escolas, universidades, igrejas e mesmo programas recreativos. Por volta de 1954, a propaganda de negócios nas escolas públicas atingiu a metade da quantia gasta com manuais escolares.

O novo "ismo" era americanismo, uma ideologia cuja distinção é negar que seja uma ideologia. Recentemente, vi o musical de 1957 Silk Stockings, estrelado por Fred Astaire e Cyd Charisse. Entre as cenas de dança maravilhosas e uma actuação de Cole Porter havia uma série de declarações de lealdade que aquele coronel no Vietname poderia muito bem ter escrito. Eu havia esquecido quão bruta e penetrante era a propaganda; os soviéticos nunca poderiam competir. Um juramento de lealdade para com todas as coisas americanas tornava-se um compromisso ideológico aos gigantes dos negócios: desde o negócio de armamentos e guerra (o qual consome 42 centavos de cada dólar hoje) ao negócio dos alimentos, conhecido como "agripower" (o qual recebe US$157 mil milhões por ano em subsídios do governo).

Barack Obama é a corporificação deste "ismo". Desde os seus primeiros tempos na política, o tema infalível de Obama tem sido não "mudança", o slogan desta campanha presidencial, mas o direito de a América dominar e ordenar o mundo. A partir dos Estados Unidos, afirmou ele, "conduzimos o mundo na batalha aos males imediatos e pela promoção do bem final... Devemos conduzir pela construção de uma força militar do século XXI para assegurar a segurança do nosso povo e o avanço da segurança de todos os povos". E: "Em momentos de grande perigo no século passado os nossos líderes asseguraram que a América, pelos feitos e pelo exemplo, conduzisse e levantasse o mundo, que nos sustivéssemos e combatêssemos pelas liberdades procuradas por milhares de milhões de pessoas para além das suas fronteiras".

Desde 1945, pelos feitos e pelo exemplo, os EUA derrubaram 50 governos, incluindo democracias, esmagaram 30 movimentos de libertação e apoiaram tiranias desde o Egipto até a Guatemala (ver histórias de William Blum). Bombardeamento é torta de maçã. Tendo apinhado o seu governo de belicistas, compadres da Wall Street e poluidores das eras Bush e Clinton, o 45º presidente está meramente a manter a tradição. A farsa dos corações e mentes que testemunhei no Vietname é hoje repetida em aldeias no Afeganistão e, por procuração, no Paquistão, as quais são guerras de Obama.

No seu discurso de aceitação do Prémio Nobel de Literatura de 2005, Harold Pinter notou que "todos sabem que terríveis crimes foram cometidos pela União Soviética no período do pós guerra, mas "os crimes dos EUA no mesmo período foram apenas superficialmente registados, muito menos documentados, muito menos admitidos, muito menos reconhecidos como crimes". É como se "isto nunca aconteceu. Nada alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto estava a acontecer, não estava a acontecer. Você tem de apoiar a América... mascará-la como força para o bem universal. É um acto de hipnose brilhante, mesmo astuto, altamente bem sucedido".

Quando Obama enviou drones [1] para matar (desde Janeiro) uns 700 civis, distintos liberais rejubilaram porque a América é mais uma vez uma "nação de ideais morais", como Paul Krugman escreveu no New York Times. Na Grã-Bretanha, a elite viu há muito na excepcional América um lugar permanente para a "influência" britânica, embora como serviçal ou fantoche. O historiador pop Tristram Hunt diz que a América sob Obama é uma terra "onde os milagres acontecem". Justin Webb, até recentemente o homem da BBC em Washington, refere-se reverencialmente, um tanto como o coronel no Vietname, à "cidade sobre a colina".

Para além desta fachada de "intensificação do sentimento e degradação do signficado" (Walter Lippman), os americanos comuns estão a agitar-se talvez como nunca antes, como que a abandonar a deidade do "Sonho Americano" de que a prosperidade é uma garantia com trabalho árduo e parcimónia. Milhões de emails irados provenientes de pessoas comuns inundaram Washington, exprimindo uma indignação que a novidade de Obama não acalmou. Ao contrário, aqueles cujos empregos desapareceram e cujos lares são retomados vêem o novo presidente a premiar bancos desonestos e uma obesa força militar, no essencial a proteger o terreno de George W. Bush.

Minha suposição é que um populismo emergirá dentro de poucos anos, ateando uma força poderosa que jaz sob a superfície da América e que tem um passado orgulhoso. Não posso prever que caminho irá tomar. Contudo, a partir de um autêntico americanismo de raiz veio o sufrágio das mulheres, o dia de oito horas, o imposto escalonado sobre o rendimento e a propriedade publica. No fim do século XIX, os populistas foram traídos pelos líderes que os pressionaram ao compromisso e fundiram-se com o Partido Democrata. Na era Obama, a familiaridade disto ressoa.

O que é mais extraordinário acerca dos Estados Unidos de hoje é a rejeição e o desafio, em tantas atitudes, à propaganda histórica e contemporânea que tudo permeia do "governo invisível". Inquéritos críveis confirmaram há muito que mais de dois terços dos americanos mantêm pontos de vista progressistas. A maioria quer que o governo cuide daqueles que não podem cuidar-se a si próprios. Eles pagariam impostos mais altos para garantir cuidados de saúde para toda a gente. Querem completar o desarmamento nuclear, 72 por cento quer que os EUA finalize as suas guerras coloniais; e assim por diante. São informados, subversivos e até "anti-americanos".

Certa vez pedi a uma amiga, a grande correspondente de guerra americana Martha Gelhorn, a explicar-me a expressão. "Vou dizer-lhe o que é 'anti-americano' ", disse ela. "É ao que os governos e os interesses a ele ligados chamam aqueles que honram a América ao objectarem à guerra e ao roubo de recursos e acreditarem em toda a humanidade. Há milhões destes anti-americanos nos Estados Unidos. Eles são pessoas ordinárias que pertencem à elite e que julgam o seu governo em termos morais, embora chamem a isso decência comum. Não são pessoas fúteis. São as pessoas com consciência desperta, o melhor dos cidadãos americanos. Pode-se confiar neles. Estavam no Sul com o movimento dos direitos civis, acabando com a escravatura. Estavam nas ruas a exigir o fim das guerras na Ásia. Certamente desapareceram da vista agora e então, mas são como sementes debaixo da neve. Eu diria que eles são realmente excepcionais".


[1] Drones: Aviões sem piloto que os EUA estão a utilizar no Afeganistão e Paquistão para disparar mísseis contra populações civis.


Adaptado do discurso "Império, Obama e o último tabu", de John Pilger, na conferência Socialism 2009, em San Francisco, a 04 de Julho.


* Jornalista australiano

O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=539

Este artigo foi publicado em resistir.info .

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Divulgando...

Assista ao Fórum da Cultura

Eduardo Guimarães


Nesta sexta-feira, 31 de julho, em auditório improvisado no saguão do prédio da Fiesp/Sesi, na avenida Paulista, em São Paulo, à partir das 15 horas, teve lugar um debate público com o ministro da Cultura, Juca Ferreira.

A convite da jornalista Lia Rangel (ex-Roda Viva, da TV Cultura, onde fazia excelentes entrevistas de “bastidores” com entrevistados e entrevistadores e a quem conheci quando me convidou para participar de um dos programas) participei desse evento e nele pude fazer minhas colocações e um questionamento importantíssimo ao ministro por conta da Conferência Nacional de Comunicação, que terá lugar no fim deste ano, quando serão discutidos temas candentes como a concentração da propriedade midiática, sobretudo da eletrônica, e, acima de tudo, para onde continuarão indo as verbas oficiais que irrigam a comunicação brasileira.

O vídeo acima é longo, porém de excelente qualidade. Minha participação, mais correlata aos assuntos dos quais tratamos aqui, acontece aos 38 minutos do vídeo e se estende por cerca de três minutos. À minha manifestação seguem-se duas questões correlatas de outros dois blogueiros, que, como eu e mais umas duas dezenas, foram convidados pela jornalista para o evento. Em seguida, um membro do ministério da Cultura responde, sendo novamente aparteado por mim (porém, sem que, desta vez, minha voz e imagem apareçam no vídeo) sugerindo-lhe uma campanha publicitária anunciando a Conferência Nacional de Comunicação, sugestão à qual acedeu. Por fim, aos 50 minutos de vídeo, o próprio ministro da Cultura aborda minha questão e, fora do vídeo, faço alguns apartes que ele responde depois de concordar com suas premissas.

Contudo, quem tiver coragem e paciência para assistir às mais de duas horas totais do vídeo, com certeza entenderá o que se quer dizer com Cultura Digital, tema de uma importância e de uma abrangência que, como o vídeo mostrará a quem assisti-lo atentamente, são muito maiores do que pode supor nossa vã filosofia.

Para localizar algum ponto específico do vídeo, há que clicar com o cursor do mouse pelos diversos pontos da barra de progresso e atentar para o contador de tempo no canto inferior direito da tela. Como exemplo, para localizar minha fala, aos 38 minutos, há que localizar, no contador, a posição 00:38:00. Demora alguns segundos para aparecer a nova contagem.

Espero que assistam. Travaram-se ali discussões importantíssimas para o futuro da comunicação no Brasil.

Está no Correio da Cidadania...


Boaventura de Sousa Santos

A esquerda é burra?

Tragicamente para FHC e seus aliados a frase de autoria do ex-presidente brasileiro mostrou-se errada em todos os seus significados desde a eleição de Lula até à crise do agora defunto (ressuscitará?) neoliberalismo.

A frase “a esquerda é burra” é de autoria de Fernando Henrique Cardoso (FHC), sociólogo de renome internacional e Presidente do Brasil entre 1995 e 2003. Ficou famosa pelo simplismo com que desqualificava os adversários das políticas neoliberais do seu governo. Curiosamente tais políticas desqualificavam tudo o que ele antes tinha escrito enquanto sociólogo, o que o levou a pronunciar outra frase que ficou igualmente famosa: “esqueçam tudo o que eu escrevi”.

Tive ocasião de discutir com ele o significado da frase sobre a esquerda. Discordava do seu sentido mais óbvio e intrigava-me a sua arrogância. Para FHC a frase tinha vários significados: a esquerda ainda não entendera que o neoliberalismo era a única solução para a economia mundial e a melhor garantia contra as propaladas crises do capitalismo; o principal líder da esquerda, Inácio Lula da Silva, era um operário ignorante e sem preparação para governar o país; a esquerda estava minada pelo fraccionismo e nunca se uniria (ao contrário da direita) para assumir o poder. Tragicamente para FHC e seus aliados a frase mostrou-se errada em todos os seus significados desde a eleição de Lula até à crise do agora defunto (ressuscitará?) neoliberalismo.

Mas, apesar disso, a frase ficou como um fantasma da esquerda brasileira, como se a esquerda tivesse de demonstrar a cada momento que não era burra e como se o mesmo ônus não impendesse, por outras razões mas com a mesma justificação, sobre a direita, ela sim, afinal perdedora. É sabido que os fantasmas, tal como os espíritos, atravessam tempos e fronteiras. Tal como discordei da caracterização simplista da esquerda brasileira, discordaria dela se aplicada à esquerda portuguesa. Apesar disso, ante os atos eleitorais que se aproximam, pergunto-me se, a título preventivo e como dúvida metódica, não fará sentido pôr a questão: será a esquerda portuguesa burra? Ou melhor: nos próximos atos eleitorais quem se revelará menos burra, a esquerda ou a direita?

Ao contrário dos confusionistas do costume, dou de barato que há esquerda e direita. Tanto uma como outra são plurais, estão divididas em vários partidos e em várias tendências dentro de cada partido. Se tomarmos como referência as últimas eleições para o parlamento europeu e talvez a maioria dos actos eleitorais desde o 25 de Abril de 1974, os portugueses votam majoritariamente à esquerda. De algum modo, a ideia de solidariedade social tem-se sobreposto à de darwinismo social, a ideia de um Estado protetor à ideia de um Estado predador, a ideia do bem público à ideia do interesse privado. E se é verdade que a esquerda governante tem frustrado consistentemente as expectativas que decorrem destas ideias, não é menos verdade que os portugueses têm teimado em crer que tal não é uma fatalidade e que a direita não oferece uma alternativa exceto em desespero de causa.

Daí que as frustrações com a esquerda governante se tenham traduzido, menos no crescimento da direita, do que no crescimento de opções pela esquerda até agora não governante, um fenômeno inédito na Europa de hoje. Em face disto, e a menos que os portugueses se sintam numa situação de desespero de causa, podemos concluir que, se nos próximos atos eleitorais a direita ganhar, a esquerda é mais burra que a direita.

Nas condições portuguesas, a esquerda corre o risco de ser mais burra que a direita por duas razões principais: confundir-se com a direita; dividir-se ao ponto de não poder unir-se no principal: impedir a eleição de um governo de direita. Pelo que disse acima, quando a direita tenta se confundir com a esquerda (o que tem acontecido frequentemente) corre sempre menos riscos que a esquerda quando esta se confunde com a direita. Por outro lado, a direita tem uma história unitária muito mais consistente que a esquerda. Para que estes riscos se não concretizem, as esquerdas têm de mostrar aos portugueses que o coração da esperança continua a bater mais fortemente que o coração do desespero. Não é tarefa fácil mas não é impossível. E isto que é válido para as eleições legislativas é igualmente válido para as eleições autárquicas. No que respeita a estas últimas, o caso de Lisboa será paradigmático. Parece óbvio que só por desespero se pode votar no candidato da direita. Por sua vez, o candidato principal da esquerda é um dos mais brilhantes políticos da nova geração de líderes de esquerda, só comparável ao líder da esquerda mais inovadora da última década. Se ele sair derrotado nas próximas eleições, obviamente a esquerda é burra. Espero vivamente que tal não seja o caso.


Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

Está no sitio do CPERS-sindicato...




Pesquisa revela que 87% da comunidade escolar têm preconceito contra homossexuais


Nas escolas públicas brasileiras, 87% da comunidade - sejam alunos, pais, professores ou servidores - têm algum grau de preconceito contra homossexuais. O dado faz parte de pesquisa divulgada recentemente pela FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo) e revela um problema que estudantes e educadores homossexuais, bissexuais e travestis enfrentam diariamente nas escolas: a homofobia.

O levantamento foi realizado com base em entrevistas feitas com 18,5 mil alunos, pais, professores, diretores e funcionários, de 501 unidades de ensino de todo o país.

"A violência dura, relacionada a armas, gangues e brigas, é visível. Já o preconceito a escola tem muita dificuldade de perceber porque não existe diálogo. Isso é empurrado para debaixo do tapete, o que impera é a lei é a do silêncio", destaca a socióloga e especialista em educação e violência, Miriam Abromovay.

Um estudo coordenado por ela e divulgado este ano indica que nas escolas públicas do Distrito Federal 44% dos estudantes do sexo masculino afirmaram não gostariam de estudar com homossexuais. Entre as meninas, o índice é de 14%. A socióloga acredita que o problema não ocorre apenas no DF, mas se repete em todo o país.

"Isso significa que existe uma forma única de se enxergar a sexualidade e ela é heterossexual. Um outro tipo de comportamento não é admitido na sociedade e consequentemente não é aceito no ambiente escolar. Mas a escola deveria ser um lugar de diversidade, ela teria que combater em vez de aceitar e reproduzir", defende.

A coordenadora-geral de Direitos Humanos do Ministério da Educação (MEC), Rosiléa Wille, também avalia que a escola não sabe lidar com as diferenças. "Você tem que estar dentro de um padrão de normalidade e, quando o aluno foge disso, não é bem-compreendido naquele espaço."

As piadas preconceituosas, os cochichos nos corredores, as exclusões em atividades escolares e até mesmo as agressões físicas contra alunos homossexuais têm impacto direto na autoestima e no rendimento escolar desses jovens. Em casos extremos, os estudantes preferem interromper os estudos.

"Esse aluno desenvolve um ódio pela escola. Para quem sofre violência, independentemente do tipo, aquele espaço vira um inferno. Imagina ir todo dia a um lugar onde você vai ser violentado, xingado. Quem é violentado não aprende", alerta o educador Beto de Jesus, representante na América Latina da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo (ILGA).

Para Rosiléa Wille, o enfrentamento do preconceito não depende apenas da escola, mas deve ser um esforço de toda a sociedade. "A gente está tendo a coragem de se olhar e ver onde estão as nossas fragilidades, perceber que a forma como se tem agido na escola reforça a rejeição ao outro. Temos uma responsabilidade e um compromisso porque estamos formando nossas crianças e adolescentes. Mas o Legislativo, o Judiciário, a mídia, todas as instâncias da sociedade deveriam se olhar também”.

Fonte: Agência Brasil/CNTE

"Flatrate": a crise chega aos bordéis

Será que chegará ao Brasil???

Por Flávio Aguiar

Site de bordel promete "mulheres e bebidas" por € 99: polêmica deflagrou operações policiais (Foto: Reprodução sueddeutsche.de)

Há uma polêmica enorme nos jornais alemães. O tema chama-se “Flatrate Bordell”. O que é isso? É uma “Freudenhaus” – literalmente “casa do prazer ou da alegria” – como na Alemanha se chamam essas casas, que cobram um preço único (“Flatrate”, “Pauschaltarif”, em alemão) do freguês, pelo direito de lá ficar a noite inteira. O preço inclui mulheres, comida e bebida, o quanto o freguês quiser e puder, e varia de € 70 a € 100 por até 16 horas.

Esse tipo de casa, que, ao que parece, foi inventada na Alemanha por uma empresária romena, levantou poeira nos jornais, entre autoridades, organizações de direitos humanos, jornalistas, empresários do ramo, juristas, com posições contra e a favor, a partir de uma ampla gama de valores, que vão desde um moralismo conservador até as preocupações trabalhistas implicadas, passando, é claro, pela situação mais ou menos precária quanto a direitos e tratamento das “Sexarbeiterinnen” (“trabalhadoras do sexo”), denominação mais respeitosa com que se chamam as prostitutas, ou “Huren”, como se diz vulgarmente por aqui.

A polêmica ganhou tal amplitude que uma associação de casas do gênero (“Dona Carmen”) divulgou uma matéria paga em sua defesa, em dois dos principais jornais alemães (o Frankfurter Rundschau e o Süddeutscher Zeitung), assinada por 77 “Sexarbeiterinnen”, ao custo de aproximadamente € 25 mil (cerca de R$ 72 mil).

A polêmica também deflagrou algumas batidas da polícia nessas casas. Pelo menos duas foram fechadas, mas não pelo “Flatrate”, e sim por irregularidades quanto às normas para esse tipo de casa. Mas a pressão teve efeitos: uma dessas casas (Calígula – que nome!) em avenida no bairro onde moro (Schöneberg), que anunciava com estardalhaço o “Flatrate” a € 99 por noite, retirou o anúncio da fachada, embora o tenha mantido em seu site na internet.

Um ponto interessante foi levantado por uma porta-voz da Hydra, uma organização fundada por mulheres (algumas delas prostitutas, outras não) para lutar contra o preconceito e pelos direitos das prostitutas. A preocupação manifesta era de que isso podia significar uma quebra de preços, com o peso disso recaindo, é claro, sobre as mulheres trabalhadoras. Ou seja, a crise financeira mundial e seus desdobramentos chegaram também a esse ramo de trabalho.

Em Berlim, assim como em outras cidades, há um processo espantoso de ofertas e liquidação em lojas de todo o tipo, numa espiral deflacionária inquietante. As que não estão quebrando vêem-se obrigadas a também rebaixar seus preços diante dessa “concorrência falimentar”. O “Flatrate” seria, assim, uma resposta também a esse encurtamento generalizado dos meios de pagamento disponíveis. Um dos argumentos oferecidos pelos proprietários e gerentes de tais casas é que nelas as mulheres têm uma renda fixa garantida – de € 100 a € 200 por noite – independentemente do número de fregueses que as frequentem.

A Hydra (www.hydra-ev.org) foi fundada em 1980 e, desde 1985, recebe verbas públicas, oferecendo todo o tipo de apoio às “Sexarbeiterinnen”, e também a homens. Segundo a associação, há 400 mil mulheres trabalhando no ramo na Alemanha (um pouco menos do que 1% da população economicamente ativa). Desde 2002 o “Sexarbeit” (“trabalho com sexo”) é uma profissão reconhecida, dando direito à seguridade social sob a forma de seguro-saúde, seguro-desemprego e aposentadoria. As mulheres têm também o direito assegurado legalmente de escolha do lugar onde exercer a profissão, do tempo de trabalho, bem como de com quem exercê-la e também sobre o que fazer e o que não fazer, e isso inclui as casas “Flatrate”.

Mas na prática a realidade é mais complicada, e mais difícil. Para começo de conversa, segundo a mesma Hydra, metade das 400 mil mulheres são estrangeiras. Uma grande parte delas vêm do leste europeu, onde grassa o desemprego, potenciado pela crise. Outras vêm da América Latina, Ásia e África. Desse contingente de 200 mil, um grande número está na Alemanha em condições ilegais. Essas mulheres são refratárias a buscar o amparo legal, pois isso pode lhes custar a permanência no país ou até na União Européia. Elas passam a ser dependentes dos seus “chefes” e “chefas” para tudo, até em termos de cuidados médicos, o que se aproxima da condição que no Brasil chamaríamos de “moderno trabalho escravo”. Por isso um dos esforços da Hydra, além do de assistir às mulheres que queiram continuar na profissão, é o de oferecer ajuda a quem quiser buscar outro tipo de trabalho. Não se trata de moralismo, mas de assegurar um direito: a liberdade.