quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ação na Aracruz representou um marco para o movimento ambientalista


Por Raquel Casiraghi
Da Página do MST



Mesmo com a abordagem bastante negativa feita pela mídia burguesa na época, a ocupação do horto florestal da Aracruz e a destruição das mudas, que completou cinco anos em 8 de março, conseguiram levar a discussão dos impactos da monocultura do pínus e do eucalipto para a população. Ambientalistas avaliam também que a ação das mulheres da Via Campesina, em 2006, foi um divisor de águas para o movimento ambientalista.

"Na hora, dentro das entidades, não conseguia se avaliar o que fazer. Me lembro que vinha, dos movimentos, solicitações de apoio formal. Nas organizações, se deu este debate de como iríamos apoiar, de como iríamos encarar esta situação porque, a partir dali, mudou tudo. Aquela ação foi um marco", diz
Clarissa Trois Abreu, da organização não-governamental Amigos da Terra Brasil.

"Esta ação representou um 'corte' entre quem apoiava a iniciativa da Via Campesina e quem se assustava com as questões de propriedade privada e de pesquisa da empresa. Possibilitou o debate interno das organizações e auxiliou muito para que se posicionassem de forma crítica em relação às empresas e ao capital, essa compreensão do que é o agronegócio, juntou tudo, se formou uma frente", avalia Fernando Campos Costa, também da Amigos da Terra Brasil,

Para Clarissa, a ação das mulheres também contribuiu para que os movimentos sociais e os ambientalistas se unissem em torno do debate e da luta contra a monocultura dos eucaliptos. "Antes da ação, o movimento em si ainda não tinha também entrado na luta. Com aquela ação, o movimento mostrou que entrou com tudo. E a partir daí, ou todos se unem, já que a causa é a mesma de todos, ou não. O que aconteceu foi que os movimentos ambientalistas e social se aproximaram", avalia.

Os ambientalistas acreditam que entrada da Via Campesina no tema contribuiu na luta já travada contra a monocultura de eucalipto. Clarissa afirma que a ocupação do horto pelas mulheres criou o fato que faltava para que a população conseguisse vislumbrar o debate que até então se fazia contra a monocultura e os seus prejuízos.

"Por mais que naqueles primeiros momentos a mídia convencional fez tudo para que o protesto  prejudicasse a luta, isso ao longo do tempo foi sendo limitado e agora, cinco anos depois, a gente tem a nítida noção de que aquele momento foi importante. Foi criado o fato, foi colocado o marco, a 'estaca' que não se tinha. E que provavelmente o movimento ambiental não iria ter esse poder, essa força popular. A entrada da Via colocou a estaca, marcou, e criou a polêmica, acho que esse era também o objetivo. Agora, tanto tempo depois, a avaliação é positiva. A ação na Aracruz e a entrada da Via foi um marco da luta contra a monocultura", analisa.

A ação das mulheres da Via Campesina, diz Clarissa, também fez com que as entidades ambientalistas se posicionassem sobre a problemática da monocultura de eucalipto. “Com a ação na Aracruz, as organizações tiveram que se mostrar, se definir, o que não era um processo fácil internamente, já que as organizações também têm seus debates internos e seus não-consensos. A ação das mulheres foi um divisor de águas também para o movimento”, afirmou Clarissa.

Depois disso, o movimento social e as organizações ambientais que se juntaram e compartilhavam das mesmas visões seguiram construindo a luta juntos.

Celulose, cinco anos depois

Entre a ação das mulheres da Via Campesina na Aracruz, em 2006, e o estopim da crise financeira mundial, em 2008, as empresas fizeram grandes investimentos no setor da celulose.
“Tentaram mostrar muito poder, até por causa da ação das mulheres, criminalizar e se promover. Mostrar um ‘outro lado’ do setor, para que a sociedade ignorasse a ação das mulheres e criminalizasse. Usaram o dinheiro para se colocar na mídia como um fator importante e que iria trazer o desenvolvimento, tanto econômico como social e ambiental“, analisa Clarissa.
“Tinham um repertório grande de publicidade em parques, nos jornais. Foi reflexo da ação das mulheres”, lembra Fernando.

Após a ação das mulheres, as três principais empresas do setor no Rio Grande do Sul – Aracruz, Votorantim e Stora Enso – expandiram seus negócios e seus plantios até 2008. Foi neste ano, com o estouro da crise financeira mundial, que as empresas, principalmente a Aracruz, que na época foi acusada até mesmo pelo governo brasileiro de fazer especulação financeira, paralisaram seus investimentos no estado.
Em 2009, o preço da celulose, taxado em dólar no mercado internacional, caiu, bem como o da lenha e o da madeira. Com isso, todos que tinham expectativa de fazer muito dinheiro também perderam.
“A falência da Aracruz só foi mais uma conseqüência da crise. Mas, por outro lado, também gerou uma oportunidade de negócio, já quem que com a quebra dela foi criada a Fibria [empresa resultante da fusão entre a Aracruz e a Votorantim], então não foi de todo prejudicial. Por mais que no mercado local as pessoas que apostaram nesse projeto foram prejudicadas, a empresa em si acabou criando uma ótima oportunidade de negócio para outras empresas que tinham condições de bancar. Assim, veio a Fibria, que ficou maior do que a própria Aracruz”.
No entanto, este negócio, que é positivo para as empresas, não refletiu na geração de emprego nem no desenvolvimento e no crescimento regional, dos municípios.
Atualmente, não há notícias de que as empresas estejam comprando grande quantia de terras no Rio Grande do Sul. A empresa chilena CMPC assumiu a fábrica da Aracruz na cidade de Guaíba, região metropolitana, e as demais estruturas da empresa. Ainda há a Stora Enso, que desistiu – pelo menos momentaneamente - de implementar uma fábrica de celulose no estado, ficando somente com as terras que tinha comprado, migrando para o Uruguai e para o projeto da Veracel na Bahia.
“Muito por conta da antipatia que eles tiveram, junto à opinião pública, de ser uma empresa estrangeira e ter comprado terras na faixa de fronteira. Ainda teve a ação das mulheres da Via Campesina em 2008 na área da empresa em Rosário do Sul, em que dezenas ficaram feridas após uma ação violenta da Brigada Militar. Isso, para a imagem da empresa, foi complicadíssimo”, opina Clarissa.

Monocultura contra Reforma Agrária

Para Clarissa Trois Abreu, da ONG Amigos da Terra, o primeiro impacto da expansão das monoculturas do Rio Grande do Sul pôde ser verificado na disputa das empresas por terras que seriam destinadas à reforma agrária.
“A partir de 2004, com a compra de terras pelas empresas, o que mais se sentiu de imediato foi bater de frente com a questão da Reforma Agrária, pois disputaram os mesmos territórios. Até podemos lembrar aquela situação da Fazenda Southall [São Gabriel, Fronteira Oeste do RS], em que o proprietário, na época, oferecia a área tanto para o Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) quanto para a Aracruz”.
Antes do impacto ambiental, ficou mais clara a disputa por território, pois as empresas pretendiam comprar áreas na metade Sul gaúcho e ali já tinha todo o processo de democratização da terra, que já vinha muito antes. “O preço da terra subiu bastante, paralisando a Reforma Agrária”, avalia a ambientalista.
Em relação ao meio ambiente, Clarissa lembra que os órgãos ambientais dos governos não estavam preparados para licenciar milhares de hectares de terra das empresas em tão pouco tempo, o que provocou com que o setor da celulose dissesse que estavam emperrando o processo.
Ela também relembra toda a mobilização de organizações ambientais, movimentos populares e cientistas para que fosse feito o zoneamento ambiental da silvicultura no estado, a fim de proteger os biomas naturais da monocultura, e a pressão dos setores do agronegócio, da celulose e do próprio governo Yeda Crusius para facilitar os plantios.
“Resultou no zoneamento que a gente tem hoje, que não conseguiu restringir o plantio exatamente nas áreas naturais mais frágeis, muitas por problema de solo e de deficiência hídrica, que é o caso da Metade Sul do estado, a mesma região que atualmente sofre muito com a estiagem. Não é a toa que o zoneamento diz que é uma região frágil e que teria que ter limitação”, diz a ambientalista.

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