quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Chegou a hora de uma nova ordem monetária internacional


A contínua diluição das dívidas em dólar pede a mudança para uma nova ordem multi-divisas. A defesa da revisão — pelos países ocidentais liderados pelos Estados Unidos — da forma como as atuais contas correntes são mensuradas expõe plenamente suas tentativas de transferir as responsabilidade dos desequilíbrios da economia global aos países que têm superavit no comércio exterior.


Por Zhang Monan, no China Daily via Portal Vermelho

Os desequilíbrios econômicos globais são em essência um resultado do desequilíbrio das vantagens trabalhistas comparadas entre diferentes países. Existem duas grandes divisões na atual economia global, nomeadamente o comércio e as finanças.

A primeira categoria é representada principalmente pela Alemanha, Japão e China, todos exportadores de commodities que sustentam um grande saldo positivo nas suas contas, e o segundo é representado pelos Estados Unidos e algumas nações europeias, que usufruem de grandes vantagens financeiras na exportação de capital e vários tipos de produtos financeiros e serviços que contribuem para seu grande déficit nas contas correntes.

Enquanto o setor industrial global foi transferido dos países desenvolvidos para os mercados emergentes, as economias desenvolvidas ainda conseguem reter seu status como centros financeiros mundiais.

Países em desenvolvimento, devido a seus sistemas e mercados financeiros menos vulneráveis, tiveram de empregar reservas monetárias estabelecidas por seus preços, ajustes, empréstimos e investimentos. Em resultado disso, as economias emergentes têm de sustentar uma taxa de câmbio cada vez maior e riscos de investimentos.

O gigantesco déficit nas contas correntes dos EUA é um reflexo do atual deslocamento da ordem monetária internacional. Em 31 de janeiro de 2011, o débito público estadunidense correspondia a US$ 14,13 trilhões, 96,4% do PIB do país, que é de US$ 17,7 trilhões.

Tomando vantagem de seu longo domínio monetário, os Estados Unidos têm uma longa história de abuso de crédito e seus déficits fiscais e comerciais aumentaram muito mais rapidamente que a produção. O volume dos débitos nacionais dos EUA em mãos de países e regiões estrangeiras tem se mantido em ascensão na última década e já significa 32% do valor total dos títulos em todo o mundo.

Entretanto, Washington habilmente utilizou o dólar como reserva monetária internacional para financiar seu débito nacional, promovendo sua circulação internacional em seu próprio benefício.

O sistema padrão dólar não só ajudou os EUA a circularem internacionalmente seu enorme débito nacional como também ajudou a maior economia do mundo a aumentar suas riquezas nacionais, por meio da monetização ou desvalorização do dólar. O status do dólar como principal moeda internacional também aumentou a capacidade dos Estados Unidos de liquidar sua dívida externa por meio da superprodução e emissão em excesso de papel moeda.

Somente de 2002 a 2006, os Estados Unidos diluiram o valor acumulado de US$ 3,58 trilhões de sua dívida nacional utilizando tal estratégia. Com a evaporação de grande volume das dívidas nacionais dos Estados Unidos, a riqueza de outros países, especialmente aqueles que possuiam papéis da dívida internan americana, tiveram sérias perdas nos últimos anos.

Em 2009, o valor global das reservas internacionais era pouco mais de 13% do PIB mundial. Deste valor, mais de 60% era de ativos baseados no dólar. No mesmo ano, o volume bruto dos ativos americanos em mãos de países estrangeiros, não incluindo aí os derivativos, era 1,25 vez o seu PIB nominal. Entretanto, a depreciação do dólar acelerou a transferência desta grande quantidade de riqueza, um processo no qual os Estados Unidos resultaram ser os maiores beneficiários.

A atual ordem monetária internacional baseada no dólar já fracassa em refletir os últimos desenvolvimentos da estrutura econômica global. Na ausência de um sistema monetário correspondente, a economia mundial está encontrando uma série de desafios e dilemas, induzidos pelas políticas conflitivas entre diferentes países em relação ao crescimento econômico, inflação, emprego e taxa de juros. Em resumo, a última crise financeira global é um ajuste inevitável das disparidades na distribuição dos juros globais e uma retificação de alguns problemas disparatados no processo da globalização.

Devido ao desequilíbrio da estrutura monetária global ter produzido um desequilíbrio nas contas correntes globais, tem havido fortes sinais da comunidade internacional por uma reforma do sistema monetário internacional, desde o início da crise financeira global. Seguindo a proposta da China de criar uma moeda super-soberana para as reservas internacionais, os países europeus, que estão diante da possibilidade da crise da dívida se alastrar, também clamaram pelo estabelecimento de uma moeda global, por meio de reformas do sistema monetário internacional, sob um mecanismo de consulta subordinado ao G20.

Considerando o alastramento internacional das críticas ao atual sistema monetário liderado pelo dólar, um sistema global diversificado permanece como uma boa opção para promover um desenvolvimento equilibrado e saudável da economia global.

O fim da hegemonia de décadas do dólar e a formação de um sistema multi-divisas, que inclua também o euro, o iene japonês e o iuane chinês, ajudará a economia global a se desenvolver em uma direção mais equilibrada.

O autor é pesquisador de economia do Centro Estatal de Informação.

Fonte: China Daily

Mulheres conduzem luta pelo meio ambiente

Um poderoso movimento social, destinado a proteger os recursos naturais e adaptar-se à mudança climática, apoia-se em mulheres que assumiram papeis de liderança nesta região costeira de El Salvador.

Por Dahr Jamail na Revista Forum

Um poderoso movimento social, destinado a proteger os recursos naturais e adaptar-se à mudança climática, apoia-se em mulheres que assumiram papeis de liderança nesta região costeira de El Salvador.

Cristina Reyes cumpre seu segundo período como presidente da junta diretora da comunidade Ciudad Romero, no departamento de Usulután, no Pacífico. O trabalho feito, motivo de sua reeleição, vai desde conseguir eletricidade, água potável e estradas até instalar serviços de combate à violência contra as mulheres. Antes desta fase de construção, sua vida e a de muitos na região pode ser contada como uma história épica de aventuras, sobrevivência e resistência.

Cristina e sua família tiveram que fugir de sua aldeia natal nos anos de violência política que desembocaram na guerra civil (1980-1992), que deixou cerca de 75 mil mortos. Escondendo-se com uma irmã na selva, fugindo dos militares que combatiam toda a oposição apoiados pelos Estados Unidos, Cristina buscou refúgio na vizinha Honduras. Contudo, “em 1980 tivemos de regressar porque os militares hondurenhos realizavam uma campanha de repressão contra a sociedade exatamente como a de El Salvador”, recorda Cristina. De volta ao seu país, “o Exército continuava com a mesma política”.

Cristina descreve ações brutais como o incêndio de casas, as prisões e a repressão contra sacerdotes católicos que defendiam os direitos humanos. O nome da que agora é sua comunidade é homenagem a um deles, o arcebispo Óscar Arnulfo Romero, assassinado em 1980 quando rezava a missa. “Ao voltar para casa não restava nada, nem um cachorro. Nos juntamos à guerrilha por causa dos massacres que presenciamos”, recorda.

Na época, diferentes grupos armados haviam se unificado na Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN). Cristina e sua irmã trabalhavam em uma emissora de rádio da insurgência e ajudavam as mulheres que haviam perdido seus maridos e filhos na guerra. Essas tarefas a levaram a somar-se a organizações de mulheres na capital e finalmente mudar-se para a região do baixo Rio Lempa, em Usulután, onde Ciudad Romero e outras comunidades se formaram pelos ex-combatentes e refugiados que voltavam ao país.

Hoje olha para frente. “Ajudamos a criar programas de alimentos e agora trabalhamos para melhorar o serviço elétrico. E temos plano de construir um hospital” afirma. Cristina faz parte de um movimento social que se aglutina na Coordenadoria do Baixo Lempa e Baía de Jiquilisco, uma coalizão de grupos de base que atuam em mais de cem comunidades desta região que a Unesco declarou em 2007 Reserva da Biosfera Xiriualtique Jiquilisco. Trata-se de uma planície costeira, banhada pelo Rio Lempa e margeada por mangues.

As juntas diretoras de cada comunidade, constituídas legalmente, são as encarregadas de tomar as decisões políticas. A Associação Mangue, que faz parte da Coordenadoria, funciona como resposta às frequentes crises causadas pela mudança climática: inundações e transbordamento de rios. O movimento social tenta fortalecer a agricultura sustentável e diversificada, a alimentação orgânica, a segurança alimentar e a adaptação às alterações do clima.

“Neste movimento as comunidades cuidam de seus próprios recursos”, explica à IPS Estela Hernández, que integra a junta diretora da Associação Mangue. “E, ao mesmo tempo, trabalhamos para que as políticas do novo governo nacional incluam nossas ações para conseguir a soberania alimentar, o manejo ambiental e hídrico e a tomada de decisões no plano local”, afirma Estela, entrevistada em seu escritório.

O novo governo nacional do qual fala Estela está nas mãos do FMLN, que deixou as armas após os acordos de paz de 1992 e, convertido no principal partido opositor, ganhou as eleições de 2009, levando a esquerda ao poder pela primeira vez neste pequeno país de seis milhões de habitantes.

Maria Elena Vigil, também dirigente da Associação Mangue, dedica-se a organizar a população afetada pelas operações da estatal Comissão Executiva Hidrelétricas do Rio Lempa (CEL), que administra quatro empresas. Na estação chuvosa, as descargas de água de uma delas, a 15 de Setembro, às vezes sem aviso, destruíam as plantações rio abaixo. Assim foram perdidos muitos cultivos, e “inclusive algumas vidas”, assegura. “As comunidades estão sumindo pela inundação. Assim, as estamos organizando contra as hidrelétricas”, completou Maria Elena.

Maria Elena também tem tempo para combater as práticas da indústria açucareira local, que aplica nos canaviais produtos agrotóxicos aos quais se atribui o aumento de doenças como a insuficiência renal. “Há mais doenças. O veneno cai dos aviões usados para aplicá-los e entra em nossa comida e nossa água, e inclusive atinge os mangues da costa”, descreve.

Dolores Esperanza Maravilla coloca sua capacidade de organização a serviço da resistência contra a CEL, a qual responsabiliza por agravar as inundações. “As hidrelétricas são responsáveis por isto. E há outras falhas como esta”, disse Dolores, apontando uma terraplenagem rachada pelas inundações de alguns meses atrás.

Ela foi uma das primeiras a chegar ao lugar quando a barreira cedeu, e usou as fotos que fez do desastre com seu telefone celular para exigir do Ministério da Agricultura que se fizesse presente na área e tomasse medidas. Além destes esforços, muitas mulheres salvadorenhas assumiram a tarefa de estudar, aproveitando um programa nacional de alfabetização.

Em um círculo de leitura e escrita organizado na aldeia de El Carmen, três mulheres resolvem problemas matemáticos com a conversão de divisas. “Esperamos muito por isto”, disse uma delas, María Concepción Ortillo. “A guerra nos impediu de estudar, a maioria de nós estava na guerrilha ou no Exército. Hoje estou feliz de estar aqui e que as mulheres possam avançar na sociedade”.

Para Cristina, um dos êxitos maiores é “a confiança que damos umas às outras e, sobretudo, como combinamos isto com a criação dos filhos”. Ela ajudou a construir um abrigo administrado por sua comunidade, que proporciona assistência psicológica e um mecanismo para que as mulheres possam denunciar de forma confidencial se sofrem violência doméstica ou abuso sexual e consigam ajuda.

Sua própria vida é um exemplo do papel relevante que as mulheres estão desempenhando na organização social da região. “Estamos em um lugar onde tentamos fazer mais pelas mulheres. Esperamos o futuro e mais trabalho como este”, disse.

Por Envolverde/IPS. Foto por http://www.flickr.com/photos/38076430@N05/.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

“Ninguém sabe como lidar com o crack”

Jairo Werner na Revista Fórum

 Para o psiquiatra e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Jairo Werner, um dos principais problemas em relação ao tratamento de usuários de crack no país é a falta de um protocolo de tratamento. Segundo ele, até mesmo o meio acadêmico enfrenta sérias dificuldades nesse aspecto. “Temos que evoluir muito o trabalho para chegar a um consenso”, pondera. Leia a entrevista abaixo: 

Por Thalita Pires


Fórum - O crack realmente causa mais dependência que outras drogas?

Jairo Werner - O crack causa dependência de forma similar a todas as outras drogas. A diferença é o tempo que esse processo leva. O crack chega mais rapidamente ao cérebro, o caminho da droga pelo pulmão é mais curto. Logo depois da tragada, o cérebro é “inundado” por neurotransmissores, mas não é isso que causa a dependência. A sensação é muito forte e isso faz com que a pessoa queira fumar outra vez, o mais rápido possível. Não gosto de falar isso porque posso ser mal-compreendido, mas a violência da sensação que o crack proporciona é da ordem de vários orgasmos. A pessoa não vai ter orgasmos fumando crack, mas a magnitude do efeito é semelhante. É por isso que o crack causa uma dependência mais rápida.

Fórum - Por que o crack é a escolha das crianças de rua, se o preço de um cigarro de maconha e de uma pedra de crack é semelhante?

Werner - A maconha relaxa, o crack estimula. Pessoas que não têm o que comer não vão fumar maconha, que além de relaxar dá mais fome, mas sim o crack, que faz com que todas as outras sensações sejam suplantadas.

Fórum - É possível dizer que o crack deixou de ser uma droga usada por moradores de rua e passou para a classe média?

Werner - Isso é um processo dinâmico. Não é porque a droga começou a ser usada principalmente por moradores de rua que isso não pode mudar. O tipo de usuário muda sim. Minha esperiência clínica mostra que a droga está chegando na classe média. Há dez anos não víamos dependentes de crack de classe média, hoje isso já acontece.

Fórum - Qual a sua opinião sobre o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas, lançado no ano passado pelo governo federal?

Werner - Qualquer plano já é alguma coisa, já que antes não havia nada. Mas é bom lembrar que, na UERJ, denunciamos a existência do crack há cinco anos. Isso significa que essa iniciativa já chega atrasada. O problema é que o crack já está em uma dimensão muito maior do que qualquer plano.

Fórum – Dentro dele, quais seriam os pontos positivos? O texto enfatiza, por exemplo, a atuação de atores sociais como igrejas e líderes comunitários.

Werner - Sim, a participação social é importantíssima. Quando a comunidade que cerca o usuário está envolvida, é possível fornecer uma acolhida imediata. Isso é importante porque o usuário ou dependente não vai buscar ajuda no começo. Se isso acontecer, vai ser apenas quando sua situação chegar num nível muito perigoso. Então, essa é uma forma de buscar o usuário ativamente, e não apenas esperar que ele busque tratamento.

Fórum – E em relação à rede de atendimento ao usuário?

Werner - Temos um atendimento, hoje, que não é uma rede. Precisamos de equipamentos de saúde em todos os níveis, que sejam de fato integrados. Tudo tem que trabalhar junto, a educação, a saúde, a assistência social. Os municípios, no entanto, são muito setorizados, os secretários, em vez de colaborarem, brigam entre si. Esse é um problema que um plano federal pode ajudar a resolver.

Fórum – E quais as falhas, o que pode dar errado no Plano?

Werner - Tenho medo, por exemplo, de que se criem “cracolândias terapêuticas”, um depósito de viciados. Isso já se mostrou ineficaz. O crack é diferente de outras drogas. O problema é que não temos especialistas nem métodos reconhecidos para tratar os dependentes. Uma parte desses pacientes são crianças, mas ninguém sabe lidar com isso. Em resumo, ninguém sabe como lidar com o crack não há protocolo de tratamento e é nisso que devemos trabalhar.

Fórum – O meio acadêmico não pode ajudar a criar esse protocolo de tratamento?

Werner - A universidade também não sabe como lidar com isso. Temos que evoluir muito o trabalho para chegar a um consenso.

Fórum - O que impede a criação desse consenso?

Werner - Nossa discussão sobre drogas é muito ideologizada. Algumas pessoas querem segregar o usuário, tratá-lo separadamente e depois reintegrá-lo à sociedade. Isso já foi tentado e não funcionou. Outros acham que o problema da dependência é estritamente social, então o usuário deve ser deixado como está, pois sua situação só vai melhorar com uma mudança da sociedade. Esses dois extremos ficam debatendo e não chegamos a conclusão alguma.

Nos EUA, por exemplo, existe a Justiça Terapêutica. A pessoa deixa de ser processada por alguns crimes se aceitar o tratamento contra a dependência. Hoje isso jamais seria aceito no Brasil, por que há quem trate o usuário como criminoso. Aqui ou querem o autoritarismo ou a permissividade; ou as crianças ficam nas ruas ou vão para mini-Carandirus. Nenhuma dessas opções é a certa.

O que é ser de esquerda, hoje?

No final do século 19, ser de esquerda era lutar pelos direitos políticos e pelo sufrágio universal. Não mais que isso. Ao longo do século 20, outras bandeiras incorporaram-se ao (nosso) prontuário de lutas identitárias: as ações pelos direitos civis e sociais, contra o colonialismo e pela independência nacional, o combate à hegemonia imperial estadunidense, a equanimidade entre homens e mulheres, as afirmações étnicas, o respeito às diferenças, a integração dos países latino-americanos, a inversão de prioridades na administração pública e, ainda, a democracia participativa, cuja inspiração acha-se na máxima de Marx de que “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. A partir dos anos 70, surgiu a questão ecológica.
Luiz Marques no Sul21

A “modernidade” nasceu com o Renascimento, a Reforma e a conquista das Américas. Encerrou-se com os horrores das duas Guerras Mundiais. Começou então a gincana intelectual para achar uma expressão adequada à sociedade que sobreveio. “Pós-industrial”, arriscou-se nos anos 50. “Pós-moderna”, insinuou-se nos 80. “Era nova”, comemorou-se no auge da globalização teleguiada pelo capital financeiro, nos 90. Esses termos suscitaram discussões e confusões semânticas na academia e nos cafés, o que esvaziou o potencial analítico de cada um. Mas ajudaram a compreender a crise dos paradigmas modernos e suas negatividades intrínsecas.
Que paradigmas? 1) a economia de mercado, que acelerou a urbanização do ser humano, desembocando no neoliberalismo e na violência no cotidiano das metrópoles; 2) o progresso nas ciências e nas técnicas de manipulação da matéria não-viva (exploração da energia atômica) e viva (descoberta do DNA, práticas de clonagem), com desenlaces imprevisíveis, indo de uma possível hecatombe a servidões jamais imaginadas; 3) os esforços seculares da opinião pública para controlar o poder político, que não consideraram o fato de a mídia induzir em larga escala o juízo da cidadania, através da radiofonia, da televisão e dos jornais, que a propriedade cruzada agrava; 4) a conversão do indivíduo em vértice social e moral da sociedade, que não levou em conta que a massificação (heteronomia) corrói a livre consciência (autonomia) e; 5) a preeminência do eurocentrismo na avaliação de outras culturas, que conduziu ao colonialismo.
A lição a ser tirada, conforme o filósofo francês Pierre Fougeyrollas (A crise dos paradigmas modernos e o novo pensamento, 2007), remete a uma forma de pensar comprometida com a espécie e o planeta. “Cósmica”, para reintegrar a humanidade no cosmos. “Lúdica”, para estampar a criatividade poética e artística na abordagem do real. “Demiúrgica”, para apropriar-se do existente e promover uma recriação de tudo, com espírito ecumênico. “Interativa”, para subverter as hierarquias clássicas do conhecimento, conectando intuições e conceitos, ideias e imagens. Os eixos estratégicos do “novo pensamento” decorrem de um olhar realista sobre o presente.
Esse programa traduz a luta dos movimentos sociais e ambientalistas que reúnem-se nas edições do Fórum Social Mundial e, para 2012, já preparam um rol de intervenções visando a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que marcará duas décadas da Eco-92. O modelo de desenvolvimento ocidental (o modo de produção e de consumo), baseado na dominação da natureza, sem nenhum planejamento democrático, esgotou-se. Urge um mundo de fraternidade. Como pregou São Francisco de Assis, ao celebrar o Irmão Sol (Fratello Sole) e a Irmã Lua (Sorella Luna). Ou como indicou Marx, no terceiro volume d’O Capital, ao definir o socialismo como a sociedade onde “os produtores associados organizam racionalmente as suas trocas com a natureza”. No caso, a emotiva prece cristã e o prognóstico ateu coincidem.
Ecossocialismo
Publicado em 2002, o “Manifesto Ecossocialista Internacional” conjuga o socialismo e o ecologismo, de maneira orgânica. “Na nossa visão, as crises ecológicas e o colapso social estão relacionados e deveriam ser encarados como manifestações diferentes das mesmas forças estruturais”, lê-se no documento. Os desequilíbrios são o preço pago pela incontrolável dinâmica da acumulação, da ânsia de rentabilidade que não pode ser cancelada, da suposição de que os recursos naturais são infinitos, do ideal de enriquecimento pessoal. “Cresça ou morra”, é o lema do capitalismo. Seja “vencedor”, não “perdedor”, é o imperativo do mercado. No entanto, a lógica do produtivismo é insuportável. Orientada pelo valor de troca em detrimento do valor de uso, a produção ilimitada causa danos ambientais de proporções irreparáveis.
“Não se trata de opor os ‘maus’ capitalistas ecocidas aos ‘bons’ capitalistas verdes: é o próprio sistema, ancorado na concorrência impiedosa, nas exigências de lucro rápido, que é o destruidor do meio ambiente”, sublinha Michael Löwy. Sob certo aspecto, a falsa subdivisão apareceu no Protocolo de Kyoto (1997), que empregou dois mecanismos na tentativa de conter as emissões de carbono na atmosfera, o Cap and Trade: um teto máximo de emissões e um mercado de troca de títulos de direito de emissão de carbono no hemisfério Sul, para compensar a poluição provocada pelas nações industrializadas do Norte. Com o que o carbono atmosférico virou uma commodity. Forjado nas leis do mercado, o artifício para sensibilizar (a rigor, chantagear) o “empreendorismo” fracassou e as emissões aumentaram três vezes mais. A autonomização da economia não permite a sua subordinação a um controle social, político ou ético-ambiental.
O resultado é a profusão de bens desnecessários, e a escassez daqueles necessários às demandas sociais e ao equilíbrio ecológico. A política econômica capitalista é alinhavada por valores monetários. Não se rege por nenhuma consciência de espécie e tampouco planetária. Por isso, acarreta riscos iminentes para o futuro. “Se a primeira contradição do capitalismo se dá entre as forças produtivas e as relações de produção, a segunda ocorre entre as forças produtivas e as condições de produção (trabalhadores, espaço urbano, natureza)”, observou James O’Connor, editor da revista norte-americana Capitalism, Nature and Socialism. Hoje, não existe a contradição principal e a secundária, elas apresentam-se imbricadas. O ecossocialismo pugna em ambas as frentes.
O marxismo renovou-se ao encontrar a ecologia, a problemática de gênero e raça. Não se confirmou a assertiva de que suas categorias teóricas (os modos de produção e a formação econômico-social) seriam demasiado esquemáticas para apreender a sobreposição das esferas ideológica, política e econômica, e a articulação dos processos ecológicos, tecnológicos e culturais que constituem os suportes de sustentabilidade da produção. O marxismo revelou-se aberto às oposições não-classistas e comedido em relação à noção de “progresso”. Atento às forças destrutivas do capitalismo. Reside aí a contribuição do ecologismo à práxis marxista. Em contrapartida, os movimentos ecologistas que estenderam as mãos ao marxismo somaram, à denúncia do produtivismo, a percepção crítica sobre as estruturas sócio-econômicas que impulsionam a ganância.
Ecologia de mercado
Não raros, circunscrevem as mobilizações ecológicas aos temas pontuais, sem contextualizá-las em uma totalidade significativa. Apostam em um “capitalismo limpo”, que combine a “responsabilidade social”, apregoada pelos que elidiram do Estado a obrigação de políticas para erradicar a pobreza, e a “responsabilidade verde”, destacada com ridículas medalhas ao mérito para as empresas que adotam uma praça ou um canteiro de plantas. Abstêm-se de pressionar o aparelho estatal para que tome iniciativas em prol dos setores sociais desfavorecidos e do combalido meio ambiente. Propõem “ecotaxas” aos infratores da legalidade, se tanto. Preocupam-se com os “excessos”, não com o que rotiniza a predação. Tais inhapas são absorvidas pelo status quo, passando a impressão que a ameaça sobre a Terra (Gaia, no dizer de um pioneiro, José Lutzenberger) pode ser revertida com um marketing de “varejo”, prescindindo das políticas de “atacado”.
Se essa parcela de ativistas exprime um discernimento precário ao agir, o mesmo ocorre quando o movimento operário alia-se ao lobby da indústria automobilística para forçar vantagens fiscais. O automóvel, glamourizado e erotizado pela publicidade, é um símbolo do american way of life, da incitação ao consumo individual. Calcula-se que 45% do território de Los Angeles esteja reservado aos carros, incluindo a área viária e os estacionamentos. Em São Paulo, chega-se a algo em torno de 35%. Politicamente correto é investir no transporte coletivo de qualidade, em faixas segregadas para ônibus, trens de superfície, metrôs e bicicletas nas cidades para evitar os congestionamentos, bem como pleitear ferrovias para desafogo dos pesados caminhões de carga nas estradas, que engordam as estatísticas de acidentes com vítimas. Tragédias, aliás, que não se resolvem em mesas redondas com as associações de construtores de veículos automotivos e os consumidores para estudar os dispositivos de freios, o raiado dos pneus, etc. Resolvem-se com o participacionismo social, desde que este postule um outro modo de vida, sob um horizonte civilizacional que supere o fetichismo da mercadoria de rodas.
Os verdes tendem a abstrair da história a defesa ambiental, tecendo uma responsabilização genérica, como se um ascensorista de elevador tivesse idêntica parcela de envolvimento que o proprietário de uma fábrica de celulose. “A culpa é do homem”, são as manchetes jornalísticas nos cadernos especiais sobre a agenda do crescimento sustentável. Vale salientar, contudo, que os ambientalistas europeus fizeram a leitura correta das eleições presidenciais brasileiras. Declararam apoio a Dilma Rousseff, no segundo turno, para que “o voto libertário em Marina Silva paradoxalmente não se transformasse em uma catástrofe para as mulheres, para os direitos humanos e para os direitos da natureza… José Serra não é um socialdemocrata de centro… Por trás dele, a direita mobiliza o que há de pior… preconceitos sexistas, machistas e homofóbicos, junto com interesses econômicos escusos e míopes”. Entre os signatários, Dany Cohn Bendit (Alemanha), Alain Lipietz (França), Philippe Lamberts (Bélgica), Monica Frassoni (Itália).
O bom senso (que veio do frio) não contagiou Marina que, ao invés de dramatizar o momento em que decidia-se a continuidade do projeto representado pelo governo Lula (avanços sociais, participação cidadã, política externa soberana) ou a volta ao neoliberalismo (privatizações, desemprego, corrupção, submissão à Alca e aos EUA), optaram pela neutralidade. Com o que, dois terços dos eleitores do PV penderam para o candidato do atraso, sem um gesto sequer da dirigente-mor para impedir o deslizamento político. A pequenez tirou do partido o papel de educador das massas, despolitizou as escolhas e fez tábua rasa das duras batalhas contra as desigualdades sociais e regionais. Ao contrário de situar os verdes nativos como uma pretensa alternativa, o vergonhoso silêncio erigiu-os em tristes bengalas auxiliares da reação nas urnas.
Esquerda versus Direita
Anthony Giddens (Para além da esquerda e da direita, 1994), mentor da “Terceira Via”, tentou uma síntese superior entre o conservadorismo e o socialismo, os quais teriam sido abatidos pela marcha da globalização e a expansão da reflexividade social. O campo da política, assim, haveria se alterado e cedido terreno aos paradoxos do neoliberalismo. Sua sugestão para “repensar” o Welfare State (o Estado de bem-estar social) foi acolhida pelo primeiro-ministro britânico, e em nada diferenciou-se do receituário de Thatcher/Major. Tony Blair manteve a legislação que flexibilizava e desregulamentava o contrato de trabalho e, com cinismo, explicitou em um discurso a essência da Third Way: “flexibilização sim, mas com fair play”. O livro do sociólogo inglês mostra o quanto a esquerda desceu ao inferno no período, rendendo-se ao Consenso de Washington.
Coube a Norberto Bobbio (Direita e esquerda, 1994) defender a atualidade da díade política que remonta à Revolução Francesa. A esquerda teria como epicentro o valor da “igualdade” (as pessoas são mais iguais que desiguais, socialmente). A direita, o valor da “liberdade” (as pessoas são mais desiguais que iguais, naturalmente). A importância da reflexão, lançada numa época em que o capitalismo triunfante trombeteava o “fim das ideologias”, esteve em (re)legitimar a dualidade político-ideológica. O opúsculo do jurista italiano teve 200 mil exemplares vendidos e 19 traduções em um curto prazo. Como Fênix, o pássaro da mitologia grega, a esquerda renascia depois de assassinada pelas agências internacionais de notícias, que viram na queda do Muro de Berlim (1989) a domesticação da utopia e o desaparecimento da rebeldia e da esperança.
Mas o princípio da igualdade não exaure a conceituação sobre o que significa externar uma atitude anticapitalista. No final do século 19, ser de esquerda era lutar pelos direitos políticos e pelo sufrágio universal. Não mais que isso. Ao longo do século 20, outras bandeiras incorporaram-se ao (nosso) prontuário de lutas identitárias: as ações pelos direitos civis e sociais, contra o colonialismo e pela independência nacional, o combate à hegemonia imperial estadunidense, a equanimidade de gênero, as afirmações étnicas, o respeito às diferenças, a integração dos países latino-americanos, a inversão de prioridades na administração pública e, ainda, a democracia participativa, cuja inspiração acha-se condensada na máxima de que “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. A partir dos anos 70, surgiu a questão ecológica.
O perfil da esquerda sofreu uma mutação com o tempo, abrindo um leque complexo de temáticas, antes, desapercebidas. Quem nunca mudou foi a burguesia continental, que sempre opôs-se à distribuição de renda, à desconcentração das terras e à socialização do poder político e econômico. Aquela, desde priscas eras, reitera uma contrariedade ao pagamento de impostos. Não porque sejam regressivos ou recolhidos com critérios tributários que penalizam as classes trabalhadoras. Mas porque, com a ascensão de governos democrático-populares na América Latina, os fundos públicos são redirecionados por políticas republicanas à dignificação da vida da população. “Prefiro ser essa metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, cantava Raul Seixas. Isso, para preservar a coerência com a “justiça social” no enfrentamento à “ordem estabelecida”. Acrescente-se, no metafórico aniversário de 31 anos do PT.

Luiz Marques é professor de Ciência Política da Ufrgs

Chegou a vez do Coronel Kadafi?


A Líbia foi reabilitada de seu status de Estado pária, em 2003, concordando em abandonar seu programa nuclear e promover a abertura aos investimentos ocidentais, principalmente para as grandes empresas petrolíferas que assinaram contratos bilionários. Em 2006, o coronel Kadafi aderiu a um programa para instaurar o livre mercado e reconheceu o papel central da iniciativa privada na Líbia, preparando o caminho para implementar as chamadas reformas econômicas sob a supervisão do FMI e do Banco Mundial. O artigo é de Reginaldo Nasser.


A marcha das revoluções continua com vigor no mundo árabe. Agora é a vez da Líbia. Os protestos tiveram início com a prisão do advogado líbio e ativista dos direitos humanos Fathi Terbil dias antes do "Dia de Fúria" (17 de fevereiro). Terbil representa um grupo de famílias cujos filhos foram massacrados (por volta de 1200 prisioneiros opositores do regime) pelas autoridades da Líbia, em 1996, em Trípoli (prisão de Abu Salim). No dia 17 de fevereiro, o líbio-americano Najla Abdurrahman escrevia, indignado, um artigo na revista Foreign Policy com o seguinte título: líbios estão entregando suas vidas para derrubar Muammar al-Gaddafi. Será que ninguém está prestando atenção?

Com razão. Até o momento não há nenhum sinal de qualquer ação mais contundente da celebrada “comunidade internacional”. Mesmo após centenas de mortos, no 5º dia de repressão, a repercussão ainda é pequena. O que seria de se estranhar, num primeiro momento, pois o regime de coronel Kadafi está no poder mais tempo do que qualquer outra ditadura no mundo árabe (42 anos) além de ser responsável por várias ações terroristas na década de 80.

Mas, não deixa de ser tão surpreendente assim se lembrarmos que, em 2008, a então secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, realizou um tour no norte da África passando por Tunísia, Argélia, Marrocos e Líbia ( coincidência?) declarando, ao final, que as relações entre os EUA e a Líbia entravam numa nova era de cooperação. Quando questionada sobre o problema dos direitos humanos naquele pais, Rice disse que havia discutido com o Sr Kadafi “de maneira respeitosa”. O ministro líbio de Relações Exteriores, por sua vez, disse que a presença de Rice foi a prova de que a Líbia, os EUA e o mundo tinham mudado. Sem dúvida nenhuma que o mundo mudou! A Líbia foi reabilitada de seu status de Estado pária, em 2003, concordando em abandonar seu programa nuclear e promover a abertura aos investimentos ocidentais, principalmente para as grandes empresas petrolíferas que assinaram contratos bilionários. A Líbia, conformando-se às resoluções da ONU, livrou-se do embargo econômico, e passou a restabelecer seus laços políticos e diplomáticos com os países europeus e os EUA, reintegrando-se na comunidade internacional. Em 2006, o coronel Kadafi aderiu a um programa para instaurar o livre mercado e reconheceu o papel central da iniciativa privada na Líbia, preparando o caminho para implementar as chamadas reformas econômicas sob a supervisão do FMI e do Banco Mundial. O ministro Tony Blair teve atuação destacada nesse entendimento aprovando ainda a venda de gás lacrimogêneo, armas de “controle de multidões”, fuzis e metralhadoras para Bahrein e Líbia.

O embaixador norte-americano na Líbia, Cretz, em depoimento no Carnegie Endowment for Peace, em 2008, informou que houve grandes progressos durante esses dois anos de “normalização” nas relações EUA-Líbia e que estava iniciando uma cooperação significativa entre os dois países. Cretz elogiou ainda os esforços de privatização, enfatizando que as missões de comércio dos EUA tiveram excelente receptividade. No que se refere aos Direitos Humanos, o embaixador afirmou existir um diálogo aberto e franco entre os dois paises, reconhecendo, entretanto, que a promoção da democracia é uma questão delicada e deve ser abordada com cuidado.

Mas o embaixador esqueceu de mencionar que a economia da Líbia continua extremamente dependente das flutuações dos preços internacionais do petróleo e do gás. Os bilhões de dólares acumulados ao longo dos anos não foram utilizados para diversificar a economia. Há uma enorme discrepância entre as várias classes sociais e seus respectivos setores produtivos. O setor agrícola, por exemplo, emprega 20% da força de trabalho, embora contribua apenas com 2% do PIB. O setor industrial, incluindo petróleo, gás e petroquímica, é responsável por mais de 60% do PIB, e emprega menos de 25% da força de trabalho. As taxas de desemprego variam entre 20 a 30 %.

É importante notar que a Líbia é um Estado-nação sui generis onde as ligações tribais são fundamentais. Kadafi tem governado por meio da mediação de um "comitê de liderança social", composto por cerca de 15 representantes de várias tribos que tem presença até mesmo dentro das fileiras das forças armadas, cada qual representando um grupo tribal. Assim, ao contrário dos militares da Tunísia ou Egito, a inexistência de coesão e profissionalismo não permite a intervenção para resolver o conflito com os manifestantes. Ainda não se sabe quais as unidades militares foram envolvidas na tentativa de conter os distúrbios e se há cisão entre elas. Também não sabemos se são verídicas as informações de que há mercenários e criminosos contratados pelo governo. Entretanto algumas declarações que começam a circular na mídia podem indicar o desfecho da crise. Uma das lideranças mais destacadas da poderosa tribo Al-Zuwayya disse à rede Al Jazeera que já intimou o coronel Kadafi deixar o país, ameaçando cortar as exportações de petróleo.

Infelizmente, ao que tudo indica, o alerta do filho de Kadafi, de que há risco iminente de uma verdadeira guerra civil, parece ser procedente, pois como bem observou um jornalista perspicaz o comportamento dos manifestantes e das forças de segurança dão razão para acreditamos que qualquer recuo de um dos lados significará a morte ou a prisão definitiva. Será que ninguém está disposto a ajudar os líbios?

(*) Professor de Relações Internacionais da PUC-SP

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Fidel denuncia: “O plano da Otan é ocupar a Líbia”


O líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, em sua mais recente Reflexão fala das pérfidas intenções das potências imperialistas sobre a Líbia e adverte para a possibilidade de os Estados ordenarem uma invasão da Otan no país árabe.

O petróleo se converteu na principal riqueza em mãos das grandes transnacionais ianques; através dessa fonte de energia dispuseram de um instrumento que acrescentou consideravelmente seu poder político no mundo. Foi sua principal arma quando decidiram liquidar facilmente a Revolução Cubana tão logo foram promulgadas as primeiras leis justas e soberanas em nossa Pátria: privá-la de petróleo.

Fidel Castro Ruz no Portal Vermelho
 

Sobre essa fonte de energia se desenvolveu a civilização atual. A Venezuela foi a nação desse hemisfério que pagou o maior preço. Os Estados Unidos se fizeram donos das enormes jazidas com que a natureza dotou esse país irmão.

Ao terminar a última Guerra Mundial começou a extrair maiores quantidades de petróleo das jazidas do Irã, assim como das reservas da Arábia Saudita, do Iraque e dos países árabes situados ao redor deles. Estes passaram a ser os principais fornecedores. O consumo mundial se elevou progressivamente à fabulosa cifra de aproximadamente 80 milhões de barris diários, incluídos os que são extraídos no território dos Estados Unidos, aos que ulteriormente se somaram o gás, a energia hidráulica e a nuclear. Até o início do século 20 o carvão tinha sido a fonte fundamental de energia que tornou possível o desenvolvimento industrial, antes que fossem produzidos bilhões de automóveis e motores consumidores de combustível líquido.
O residuo do petróleo e do gás está associado a uma das maiores tragédias, não resolvida em absoluto, que sofre a humanidade: a mudança climática.
Quando nossa Revolução surgiu, a Argélia, a Líbia e o Egito não eram ainda produtores de petróleo, e grande parte das enormes reservas da Arábia Saudita, do Iraque, do Irã e dos Emirados Árabes Unidos estavam ainda por ser descobertas.
Em dezembro de 1951, a Líbia se converte no primeiro país africano a alcançar sua independência depois da Segunda Guerra Mundial, na qual seu território foi cenário de importantes combates entre tropas alemãs e do Reino Unido, que deram fama aos generais Erwin Rommel e Bernard L. Montgomery.
95 % de seu território é totalmente desértico. A tecnologia permitiu descobrir importantes jazidas de petróleo leve de excelente qualidade que hoje alcançam 1,8 milhão de barris diários e abundantes depósitos de gás natural. Tal riqueza lhe permitiu alcançar uma perspectiva de vida que atinge quase 75 anos, e a mais alta renda per cápita da África. Seu rigoroso deserto está situado sobre um enorme lago de água fóssil, equivalente a mais de três vezes a superfície de Cuba, o que lhe tornou possível construir uma ampla rede de aquedutos de água doce que se estende por todo o país.
A Líbia, que tinha 1 milhão de habitantes ao conquistar sua independência, conta hoje com algo mais que 6 milhões.
A Revolução Líbia teve lugar no mês de setembro de1969. Seu principal dirigente foi Muamar Kadafi, militar de origem beduína, que em sua mais distante juventude se inspirou nas ideias do líder egípcio Gamal Abdel Nasser. Sem dúvida que muitas de suas decisões estão associadas às mudanças que se produziram quando, assim como no Egito, uma monarquia débil e corrupta foi derrocada na Líbia.
Os habitantes desse país têm milenares tradições guerreiras. Diz-se que os antigos líbios fizeram parte do exército de Aníbal quando esteve a ponto de liquidar a Antiga Roma com a força que cruzou os Alpes.
Poderá estar-se ou não de ascordo com Kadafi. O mundo foi tomado por todo tipo de notícias, empregando especialmente os meios de informação de massas. É preciso esperar o tempo necessário para conhecer com rigor o quanto há de verdade ou mentira, ou uma mescla de fatos de todo tipo que, em meio ao caos, ocorreram na Líbia. O que para mim é absolutamente evidente é que ao governo dos Estados Unidos não preocupa em absoluto a paz na Líbia, e não vacilará en dar à Otan a ordem de invadir esse rico país, talvez em questão de horas ou muito breves dias.
Os que com pérfidas intenções inventaram a mentira de que Kadafi se dirigia à Venezuela, assim como fizeram na tarde de domingo, 20 de fevereiro, receberam hoje una digna resposta do ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Nicolás Maduro, quando expressou textualmente que fazia “votos para que o povo líbio encontre, no exercício de sua soberania, uma solução pacífica a suas dificuldades, que preserve a integridade do povo e a nação líbia, sem a ingerência do imperialismo…”
Por minha parte, não imagino o dirigente líbio abandonando o país, eludindo as responsabilidades que lhe são imputadas. Sejam ou não falsas em parte ou em sua totalidade.
Uma pessoa honesta estará sempre contra qualquer injustiça que se cometa com qualquier povo do mundo, e a pior delas, neste instante, seria guardar silêncio diante do crime que a Otan se prepara para cometer contra o povo líbio.
Para o comando dessa organização belicista é urgente fazê-lo. É preciso denunciar isto!

"Governo do estado deveria ser responsabilizado pelo 'garimpo' de policiais"

A ação da PF demonstrou que, assim como no governo anterior, a corrupção continua incrustada na cúpula da polícia fluminense




Justiça Global 

A "Operação Guilhotina”, realizada pela Polícia Federal (PF), comprova as denúncias feitas por organizações de direitos humanos e moradores sobre a ocupação policial no Complexo do Alemão e da Penha. Em manifesto divulgado no dia 21 de dezembro de 2010, afirmávamos: “…toda a região está sendo ‘garimpada’ por policiais, no que foi classificado como a ‘caça ao tesouro’ do tráfico”. Na última sexta-feira, escutas telefônicas veiculadas pela imprensa mostraram policiais comparando a região com a Serra Pelada.

Durante visitas às favelas da região, tivemos contato com diversos moradores que tiveram suas casas reviradas e saqueadas. A confirmação dessas denúncias reforça ainda as suspeitas, levantadas também por moradores e organizações de direitos humanos, de que o número de mortos nessa operação foi maior do que aquele oficialmente divulgado.

A ação da PF demonstrou que, assim como no governo anterior, a corrupção continua incrustada na cúpula da polícia fluminense. Essa investigação puxou uma das linhas de um novelo que vai dar no conluio das milícias e seu poder econômico com a máquina do Estado. O fato de mais um policial do alto escalão da Polícia Civil ter sido preso por uma operação da PF – há menos de três anos, outra operação levou o ex-chefe e ex-deputado federal Álvaro Lins para a cadeia – reforça o que as organizações afirmaram em dezembro: “as forças policiais exercem um papel central nas engrenagens do crime. Qualquer análise feita por caminhos fáceis e simplificadores é, portanto, irresponsável.”

Neste sentido, é importante rechaçar mais uma vez o discurso da ‘vitória’ do ‘bem’ contra  o ‘mal’, adotado pelo governo após as ocupações policiais de novembro. A prisão do inspetor que foi transformado em uma espécie de ‘herói’ da mega-operação do Complexo do Alemão em 2007 – que terminou com 19 mortos em apenas um dia – é um claro sinal de alerta para o perigo deste discurso. A tentativa do governo do estado de melhorar a imagem de suas tropas é evidente, mas essa é apenas uma estratégia de propaganda que não altera as condições estruturais que permitem que o crime se organize facilmente por dentro das corporações policiais.

O resultado da Operação Guilhotina reforça, portanto, a necessidade urgente de retomar de forma objetiva o debate sobre a reforma das polícias. Não podemos depender apenas de investigações eficientes da Polícia Federal e, muito menos, de investigações internas que frequentemente são contaminadas pelo corporativismo ou até mesmo por disputas internas. Temos que pensar em novas estruturas que garantam a transparência, a fiscalização e o controle externo e independente da atividade policial.

A Justiça Global acredita que o governo do estado do Rio de Janeiro deve ser responsabilizado pelos roubos e pelas invasões de domicílio praticados por policiais nas favelas do Complexo do Alemão e da Penha. Vamos lembrar que, logo após a ocupação, o coronel Mario Sergio Duarte, comandante da Polícia Militar, foi à imprensa e deu carta branca aos abusos e às violações de direitos na região ao afirmar: “A ordem é vasculhar casa por casa”. Acreditamos que, com as provas levantadas pela PF, o Estado tem obrigação de fazer um pedido de desculpas formal à população local, e de reconhecer e indenizar os danos morais e materiais dos moradores atingidos pela violência estatal.

Missing - Desaparecido

Missing - Desaparecido
(Missing)
Release não informado
Poster
Sinopse
Num restaurante em Santiago do Chile, um jovem jornalista norte-americano, residente nesse país, acaba escutando uma conversa na mesa ao lado, entre um agente da CIA e militares chilenos, que deixa clara a participação do governo norte-americano no golpe militar que depôs o governo socialista de Salvador Allende e inaugurou a ditadura do general Augusto Pinochet.
A obra de Costa Gavras focaliza inicialmente o cotidiano do jornalista no Chile, até seu desaparecimento, dias após o golpe de Estado do general Pinochet. O filme prossegue até o final com a busca desesperada do pai e da mulher do jornalista, na tentativa de encontrá-lo.
O Chile pós-golpe de Estado, os primeiros dias da repressão e todo horror da ditadura chilena, considerada uma das mais violentas da América Latina, são fielmente retratados pelo filme, que venceu a Palma de Ouro e o prêmio de melhor ator no festival de Cannes, além do Oscar de melhor roteiro adaptado.
Screenshots




Elenco
Informações sobre o filme
Informações sobre o release
Jack Lemmon ... Ed Horman
Sissy Spacek ... Beth Horman
Melanie Mayron ... Terry Simon
John Shea ... Charles 'Charlie' Horman
Charles Cioffi ... Capt. Ray Tower, USN
David Clennon ... Consul Phil Putnam
Richard Venture ... U.S. Ambassador
Jerry Hardin ... Col. Sean Patrick
Richard Bradford ... Andrew Babcock

Joe Regalbuto ... Frank Teruggi
Keith Szarabajka ... David Holloway
John Doolittle ... David McGeary
Janice Rule ... Kate Newman
Gênero: Drama Político
Diretor: Costa-Gavras
Duração: 122 minutos
Ano de Lançamento: 1982
País de Origem: EUA
Idioma do Áudio: Francês
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0084335/
Qualidade de Vídeo: DVD Rip
Vídeo Codec: XvID
Vídeo Bitrate: 125 Kbps
Áudio Codec: MPEG L3
Áudio Bitrate: 128
Resolução: 640 x 352
Formato de Tela: Widescreen (16x9)
Frame Rate: 25.000 FPS
Tamanho: 861 Mb
Legendas: No torrent
Premiações
Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, melhor ator, melhor atriz, fotografia.

BAFTA - Melhor filme e melhor roteiro.

Cannes - Palma de ouro melhor filme. Melhor ator.

Vários outros.

Curiosidades
- Foi filmado no México sob forte esquema de segurança.
O conteúdo era considerado deveras controverso pelos produtores.

- O Diretor e o elenco lamentaram de nunca ter havido justiça com relação aos
fatos narrados.

- Um teste de DNA provou, anos mais tarde, que o corpo enviado aos EUA (como é
mostrado no filme), não era do filho de Charles Horman.
Crítica
CONTEXTO HISTÓRICO

Após a Revolução Cubana em 1959, a guerra fria se radicalizou na América Latina, onde qualquer proposta política mais popular, democrática ou nacionalista, era tida como esquerdista e anti-capitalista, ou seja, anti-EUA.
Entre 1964 e 1970, o Chile conheceu alguns avanços sociais com o governo democrata-cristão de Eduardo Frei.
Em 1970 através de eleições, Salvador Allende, candidato da União Popular (frente progressista liderada por comunistas e socialistas), assumiu a presidência do país. Já nos primeiros meses, Allende nacionalizou as minas e os bancos e acelerou o processo de reforma agrária, iniciado no governo de Eduardo Frei. Essas medidas contrastavam-se cada vez mais com o contexto de radicalização da Guerra Fria, e Salvador Allende, começava a sofrer uma forte oposição por parte das oligarquias internas, temerosas com os avanços populares. Soma-se a essa oposição, o boicote norte-americano, que agravou a crise econômica do país, isolando ainda mais o governo socialista de Allende, que perdia o apoio dos democratas-cristãos e de representativos setores da classe média.

Nesse cenário, em 11 de setembro de 1973, Salvador Allende foi deposto e assassinado por um golpe militar. Iniciava-se no Chile uma das mais sangrentas ditaduras militares da América Latina, comandada pelo general Augusto Pinochet, proclamado no ano seguinte "Chefe Supremo da Nação".
Imediatamente após o golpe, o general inicia uma repressão cruel contra as oposições, proibindo qualquer atividade política e oprimindo os setores de esquerda com prisões, torturas e execuções em massa, espalhando o terror por todo país.

Já no final dos anos 80 pressões internacionais contribuíram para algumas liberdades, como o retorno ao país de vários exilados políticos. No plebiscito de 1988, o "não" à manutenção de Pinochet na presidência venceu com 54% dos votos. O general deixou o comando do país em 11 de março de 1990, após a vitória do democrata-cristão Patrício Aylwin nas eleições presidenciais. Contudo, Pinochet permaneceu à frente das Forças Armadas chilenas, provocando uma série de conflitos com o poder executivo. Em março de 1991, o relatório da Comissão de Verdade e Reconciliação, revelou perto de 2.300 assassinatos políticos cometidos pelo governo de Pinochet entre 1973 e 1990.
Coopere, deixe semeando ao menos duas vezes o tamanho do arquivo que baixar.

CRÉDITOS:  santoro - makingoff

Quem desejar o torrent peça por email....turcoluis@gmail.com

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

TECNOCRACIA DE ESQUERDA?


Sei que a blogosfera petista não concordará comigo, mas a meu ver uma das principais razões para ter existido segundo turno deve-se diretamente à candidata escolhida por Lula. Com todo respeito à história da Presidenta Dilma, em especial sua irresignação contra a Ditadura Militar (que não é tema do post, mas já consignando: esse blogueiro nega-se a considerar que a resistência a um regime ilegítimo possa ser equiparada aos atos desse regime, como na doutrina dos “dois demônios“), tratava-se visivelmente de uma candidata sem grande consistência e inferior, por exemplo, aos Governadores Tarso Genro e Jaques Wagner, do próprio PT. Com um índice de aprovação superior a 70%, o Governo Lula terminou de forma tão avassaladoramente popular que, como disse na época Paulo Ghiraldelli Jr., o voto ideológico passou a ser o da direita (ou seja, a maioria da população votou com simples pragmatismo). E, no entanto, apesar de decolar inicialmente a partir do acoplamento da sua imagem ao Governo (para o qual, sejamos justos, foi fundamental) e uma atuação nem excepcional nem péssima na campanha, Dilma caiu um pouco nos índices e chegou a ter um pequeno momento de risco no início do segundo turno. Mas, bem, são fatos passados.
O que me surpreende é ver na Presidenta Dilma exatamente aquilo que seu perfil indicava: baixa politização e muita tecnocracia. Uma tecnocracia com perfil de esquerda, diga-se de passagem, preocupada com o mais fundamental dos problemas brasileiros: a erradicação da miséria. Mas ainda assim uma tecnocracia.
Há muitos sinais nesse sentido, e eles são de dois tipos. De um lado, aqueles que simplesmente privilegiam o eficientismo, os mais óbvios. De outro, e esses são os que mais me espantam, aqueles que “queimam” qualquer real politização do debate. Dilma parece cumprir bem o papel que lhe parece reservado: o de uma Presidenta eficiente, mas que para levar adiante seus planos sem riscos “congelou” o debate político. Nesse sentido, acontecimentos relativamente heterogêneos como a demissão de Pedro Abramovay, o recuo nas promissoras politicas do MinC com a Ministra Ana Buarque de Hollanda, a nomeação de um Ministro anódino para o STF, a não-abertura dos arquivos da Ditadura e a manutenção do salário-mínimo nos patamares “contratuais”, entre outros (alguns inclusive durantes as eleições, como a questão do aborto e da criminalização da homofobia), parecem todos apontar para um curiosíssimo “eficientismo de esquerda”, onde a politização é vista como negativa e desnecessária, devendo ser substituída por uma gestão técnica capaz de dar conta de problemas crônicas sem se desgastar na esfera pública.
Não quero simplesmente jogar no lixo todo progresso que esse eficientismo pode gerar, inclusive na melhoria da qualidade dos serviços públicos e dos índices de pobreza no país. Tudo isso não é desprezível, ao contrário, e de certa forma aprofunda o legado do Governo Lula. Enfim, é uma estratégia. Mas queremos mais.
Olhando inclusive de um ponto estritamente estratégico, há um risco nessa manobra da Presidenta Dilma. Sabemos que se testemunha no Brasil a ascensão de um grande contingente de pessoas para a classe média ou, no mínimo, acima da linha da extrema pobreza. Como bem percebeu André Singer, o “lulismo” caiu como uma luva para esse público, pobre e paradoxalmente conservador, pois mexeu na estrutura social sem “baderna”. O risco, contudo, é que esse contingente imenso de pessoas não se torne adepto de políticas de esquerda voltadas para a transformação social (inclusive em áreas mais nervosas como a comportamental e a educacional), mas estabilize uma maioria conservadora a dar novo combustível para a direita. De alguma forma, o eficientismo do Governo Dilma é devedor do dogma marxista mais atrasado, o de que “a infraestrutura determina a superestrutura”. Acreditar que apenas reformas econômicas são suficientes para transformar a sociedade é de um simplismo atroz, que o diga a perseguição de homossexuais em Cuba. Será por isso que Dilma nomeou um dos intelectuais de esquerda mais atrasados para uma importante função na cultura? Deixa para lá.
Em todo caso, se mesmo do ponto de vista estratégico esse eficientismo é muito arriscado, do ponto de vista político – ou seja, da esfera onde se dão nossas formas-de-vida – essa posição não é apenas perigosa, como pode ser inclusive suicida. Torçamos para que não.

A longa revolução árabe

Abundam explicações para a Revolta Árabe. Há os que se refugiam em leituras trans-históricas, vendo nela um exemplo da luta por dignidade humana. Os árabes enfureceram-se. Já não aguentam. Tudo bem, mas é uma explicação excessivamente geral. Por que só agora se teriam enfurecido? Por que os protestos são o que são hoje? Por que as massas exigem o que hoje exigem?

Por Vijay Prashad na Revista Fórum

A Revolução Árabe de 2011 prossegue. Os protestos continuam nos locais mais improváveis (no Bahrein, por exemplo). No Valentine’s Day, uma marcha de protesto em Manama não mostrou amor algum pelos parentes de al-Khalifah. Queriam dar o seu recado. “Exigimos uma Constituição escrita pelo povo”, cantavam os manifestantes. O líder da oposição disse à imprensa que “Há um número incontável de tropas de choque, mas mostramos que a violência contra nós só nos fortalece”. A polícia disparou balas revestidas de borracha e dispersou a multidão, ainda pequena. “Foi só o começo”, disse Hussain, depois de espancado e expulso das ruas.

Esses protestos pareciam improváveis, apenas porque a onda de resistência que se iniciou no final dos anos 1950 e alcançou o auge nos anos 1970 foi esmagada no início dos anos 1980. Encorajada pela queda da monarquia no Egito, no golpe liderado por Gamal Abdel Nasser, gente comum em todo o mundo árabe passou a ambicionar as suas próprias revoltas. Depois, foram o Iraque e o Líbano. Na península, as pessoas queriam o que Fred Halliday chamou de “Arábia sem sultões”.

A Frente Popular para a Libertação do Golfo Árabe Ocupado [ing. People’s Front for the Liberation of the Occupied Arab Gulf] emergiu das lutas em Dhofar (Omã). Queriam levar a sua luta para toda a península. No Bahrein, o braço mais tímido desse grupo foi a Frente Popular. Não durou muito. Com o nasserismo em declínio nos anos 1970, algum novo ímpeto desse republicanismo árabe só reapareceria com a Revolução Iraniana de 1979. A Frente Islâmica de Libertação do Bahrain tentou um golpe em 1981. Havia inspiração, mas não organização. Esse arquipélago árabe não podia seguir a via do Iêmen, onde uma organização marxista chegou ao poder em 1967.

Frutos dessas forças revitalizadas nos anos 1990 encontraram dura repressão pelo regime de al-Khalifah. Mas o novo regente, Hamad (formado na Universidade de Cambridge), foi esperto. Sabia lá uma ou outra coisinha sobre hegemonia. Impotente para esmagar os cabecilhas da resistência islamita, tratou logo de organizar eleições e arranjar um Parlamento eleito, deu direito de voto às mulheres e libertou alguns prisioneiros políticos. Foi o que bastou para satisfazer Washington e as empresas de petróleo. Nada como “estabilidade” para fazer crer que haja “democracia”.

Mas o vírus egípcio de 2011 superou até a democracia criada pelo Hamas. Os protestos estão de volta às ruas.

O contágio não é só político. É também, e talvez decisivamente, econômico. O Bahrein depende do petróleo para existir. O dinheiro do petróleo gerou especulação imobiliária (modelo de Dubai). Os beneficiários desse processo são a família real e a claque real que a cerca. As massas, de maioria xiita, estão furiosas ante tanta riqueza que não gera qualquer progresso social. Com medo das massas xiitas, o monarca importou 50 mil trabalhadores estrangeiros para reconfigurar a paisagem demográfica. Essa política de Bahrenização visava pôr a força de trabalho (local) contra a força de trabalho (estrangeira). Não funcionou. E a crise agravou-se desde 2007, por causa da ideia do governo do Bahrein de cortar os subsídios para alimentos e combustível. Essas leis já foram suspensas, por causa da reação popular. A juventude na Tunísia, no Egipto e no Iêmen conhece e admira os jovens britânicos, irlandeses, franceses, italianos – os mesmos que, esse ano, ocuparam as ruas de suas cidades, em protesto contra as medidas “de austeridade” de seus governos. Os jovens aparecem na linha de frente das revoltas, porque são os que mais perdem com os cortes de gastos públicos e com as políticas “de austeridade” que, na prática, hipotecam o futuro deles. São convulsões, também, contra os banqueiros e seus salários e bônus escandalosos – a elite de Davos e suas instituições.

Enquanto isso, a 5ª Frota dos EUA permanece atracada no Bahrein. O vice-almirante Mark Fox aquece os motores dos EA-6B Prowlers[i]para ação de emergência.

Abundam explicações para a Revolta Árabe. Há os que se refugiam em leituras trans-históricas, vendo nela um exemplo da luta por dignidade humana. Os árabes enfureceram-se. Já não aguentam. Tudo bem, mas é uma explicação excessivamente geral. Por que só agora se teriam enfurecido? Por que os protestos são o que são hoje? Por que as massas exigem o que hoje exigem?

Há também os que andam noutra direcção, abandonando as leituras trans-históricas e procurando examinar circunstâncias específicas. Para esses,explicações generalistas são reducionistas e, portanto, limitam-se ao contingente: um evento (a auto-imolação) levou a outro evento (o protesto) que levou a outro evento (a ocupação da praça Tahrir) e assim se chega ao megaevento (Mubarak mudou-se para a casa da praia). A história torna-se uma sequência de eventos que se unem pela superfície, sem qualquer conexão abaixo da superfície.

Esses esforços para entender a Revolta Árabe levam a duas consequências: tomam essas revoltas como se fossem revolução, e tendem a vê-las como alguma Revolução “de 2011”, contra a Revolução “de 1952” liderada por Nasser. Por mais inspiradoras que as actuais revoltas sejam, são elos de um longo processo no mundo árabe que se estende até o século 19. Esse longo processo é a Revolução Árabe, que anseia por uma total transformação das estruturas de dominação que encarceram o futuro dos países árabes. A revolta de 1952 comandada por Nasser é um episódio dessa longa Revolução Árabe. Foi derrotada no final dos anos 1960s – e o Egipto (e o mundo árabe) foram devolvidos às condições de subordinação de antes. A actual onda de agitação é mais um episódio daquela mesma longa Revolução Árabe.

A longa Revolução Árabe põe duas questões que permanecem sem resposta. Essas respostas são parte do andaime que se tem de construir para entender o que se passa nas terras árabes. A primeira questão diz respeito à economia daquela parte do mundo; a segunda, incide sobre a política.

Política

Quando o povo árabe se autogovernará ele mesmo, não mais governado por ditaduras e monarcas de partido único lá implantados para os mercados e capitais estrangeiros? Não há muito tempo, Sarkozy da França e Clinton dos EUA elogiaram os seus amigos “democráticos” Ben Ali e Mubarak. Para mais completa obscenidade, Obama discutiu com os sauditas a transição democrática no Egito – que é o mesmo que consultar especialista em churrasco de costela gorda sobre receitas vegetarianas.

Em 1953, o velho rei Farouk, de seu veleiro al-Mahrusa, escoltado pela Marinha do Egipto, acenou para o povo que o rei considerava inferior: Nasser, filho de carteiro, e Sadat, filho de pequeno agricultor. O Golpe dos Coronéis dos dois visava a arrancar o Egipto da monarquia e da dominação imperial. A nacionalização do comando da economia veio acompanhada de reformas na propriedade da terra. Mas foram reformas mal concebidas, e não conseguiram arrancar o poder das mãos da burguesia egípcia (cujo vício em dinheiro rápido continuou, com três quartos dos novos investimentos ajudando a insuflar a bolha imobiliária). A economia foi sangrada para ampliar o aparato militar, necessário, principalmente, para combater os exércitos israelitas apoiados pelos EUA. A derrota do Egito na guerra de 1967 contra Israel levou à renúncia de Nasser, no dia 10 de junho. Milhares de egípcios tomaram as ruas do Cairo, daquela vez para pedir a volta de Nasser. E ele voltou, embora muito enfraquecido.

Mas a abertura democrática de 1952 não conseguiu emergir. Os oficiais do exército, mesmo os progressistas, não soltaram as rédeas do poder. O aparato de segurança foi usado para perseguir a Fraternidade Muçulmana, sim, mas também os comunistas. Nasser não construiu uma cultura política independente sólida. O seu "socialismo", como Stavrianos colocou, “foi socialismo por decreto presidencial, implementado pelo exército e pela polícia política. Não houve nem iniciativas nem participação dos movimentos de base”. Por isso, quando Sadat empurrou o país na direção da direita, nos anos 1970, praticamente não encontrou oposição. O nasserismo depois de Nasser foi tão vazio quanto o peronismo depois de Perón.

A actual revolta no Egipto é contra o regime implantado por Sadat e desenvolvido por Mubarak. É um estado de segurança nacional sem pretensões democráticas. Em 1977, Sadat identificou o nasserismo com “campos de prisioneiros, pessoas sob ‘custódia’, sequestros, sistema de opinião única e partido único”. Sadat admitiu que emergissem três tipos de forças políticas, mas arrancou-lhes os dentes e as garras (o National Progressive Grouping Party, da esquerda), cooptou-os (o Arab Socialist Party e o Socialist Liberal Party), ou tolerou que existissem (a Fraternidade Muçulmana). Matreiramente, Sadat implantou o que acusara Nasser de estar construindo. No governo de Sadat (e de Mubarak, comandados por Omar Suleiman) os campos de prisioneiros e centros de tortura multiplicaram-se.

Na praça Tahrir, Ahmed Abdel Moneim, 22 anos, disse que “a Revolução Francesa demorou muito para dar ao povo os direitos que o povo exigia”. A sua luta, em 2011, combate o estado de segurança nacional. Essa é a principal demanda. A dinâmica de que Ahmed quer ser parte ativa é a dinâmica do nasserismo, mas, dessa vez, terá de ser sem os militares. Foi o que o Egito aprendeu com a história.

A outra lição vem de Nadine Naber, que faz lembrar que as mulheres são parte crucial dessa onda de revolta, como sempre foram, antes, e apesar disso, quando a revolta impõe-se, as mulheres são postas de lado, como agentes políticos de segunda classe. “Qual a possibilidade de que haja alguma democratização de direitos no Egito”, pergunta Naber, “que ponha no centro do processo a participação das mulheres, os direitos das mulheres, a lei da família e o direito de organizar-se, protestar e se manifestar com plena liberdade?”

Naber repete a mesma pergunta feita em 1957 por Karima El-Said, ministra da Educação da República Árabe Unida (“nos países afro-asiáticos, onde o povo sofre sob o tacão do colonialismo, as mulheres participam ativamente da luta por completa independência nacional. Estão convencidas de que a independência é o primeiro passo para a emancipação das mulheres e lhes permitirá ocupar seu verdadeiro espaço na sociedade”). É a segunda lição da história: que a democracia que venha capacite os cidadãos.

Economia

A segunda pergunta ainda não respondida da longa Revolução Árabe pergunta sobre pão e o direito a trabalho digno. Quando as economias nacionais na região árabe serão capazes de alimentar as populações, mais do que engordar as organizações financeiras do mundo Atlântico e garantir fundos massivos de dinheiro para ditadores e monarcas? Amaldiçoado pelo petróleo, o mundo árabe não conhece diversidade económica nem jamais fez qualquer tentativa para usar a riqueza do petróleo para gerar desenvolvimento social equilibrado para o povo. Em vez disso, o dinheiro do petróleo voa para o ocidente, para gerar crédito a consumidores na economia superaquecida dos EUA, e para prover bancos e banqueiros com quantidades incríveis de dinheiro que, por muito tempo, foi convertido em poupança por quem o recebia (os americanos, por muito tempo, pouparam 1% dos salários, número compreensível, dada a estagnação dos salários desde 1973). O dinheiro do petróleo também foi canalizado para o boom imobiliário no Golfo e para as mesas de baccarat e serviços de acompanhantes de luxo no Mônaco (a Las Vegas da Europa, onde reina Albert II, mais um monarca decrépito).

Como parte da des-nasserização do Egito operada por Sadat, a economia foi aberta (infatah) ao capital estrangeiro. Fim da nacionalização e dos subsídios, e criaram-se zonas livres para instalação de empresas, em fevereiro de 1974. Sadat queria uma “transfusão de sangue” para a economia egípcia, e os bancos atlânticos começaram a arrancar galões de sangue dos trabalhadores egípcios. Surgiram centenas de lojas de bebidas, bares e clubes nocturnos (alvo das revoltas de janeiro de 1977 no Cairo).

Construiu-se a desigualdade no Egito e as políticas neoliberais inventaram uma alta burguesia que tinha mais investimentos em Londres que em Alexandria. Em 2008, cerca de 40% da população vivia com menos de 2 dólares por dia. Em outubro de 2010, as cortes obrigaram o governo a aumentar o salário mínimo, de $70 para $207 mensais.

Porque Sadat e Mubarak caparam o esforço para criar diversidade na economia, o Egito depende hoje de ganhos de renda para sobreviver (dinheiro enviado do exterior por trabalhadores egípcios, taxas cobradas para transitar pelo Canal de Suez, exportação de petróleo e gás e pagamentos recebidos por privatizações, entre outros). E parte considerável dessas rendas foram desviadas por Mubarak para as suas contas em bancos suíços. Não há via fácil para democratizar essa economia. Mubarak não é o único tirano: há também o FMI, o Banco Mundial, todos os bancos, o ‘mercado’, as empresas transnacionais.

Há greves em todo o Egipto, protestos à frente dos ministérios, protestos contra a carestia – essa é a face da revolta em curso. Os egípcios parecem ver claramente que a partida de Mubarak significa o fim da estrutura neoliberal que foi montada a partir dos anos 1970s. Querem aumentos de salários e melhor gestão da riqueza que entra no país – e expandir a actividade económica.

Ao longo dos últimos vinte anos, vimos dois tipos de revoltas. O primeiro, como, por exemplo, as revoltas na Europa Oriental, foram revoltas contra o sufocamento que se viu na fase final do estado soviético. Indiferente às promessas envelhecidas daquele socialismo, o povo buscou refúgio no glamour da economia de mercado. Foi revolta pelo mercado. Duas décadas depois, os sonhos do leste europeu já se converteram em horrível pesadelo.

O segundo tipo de revoltas, que se vêem hoje no mundo árabe, mas também na revolta do povo das Filipinas contra Marcos e na revolta do povo da Indonésia contra Suharto, são revoltas contra o mercado. São revoltas de massas populares que querem aumento do salário social. Começaram como revoltas contra autocratas envelhecidos (Ben Ali, Mubarak, Marcos, Suharto) e logo se converteram em revoltas que aspiram a uma nova ordem social e económica.

Nas terras árabes, esses eventos de 2011 não marcam o início de alguma nova história: são a continuação de lutas que ficaram inacabadas há quase cem anos. Alguns se afundam no desencanto, e diminuem a importância das duas grandes vitórias que foram a deposição de Ben Ali e de Mubarak. São movimentos que fazem aumentar a confiança das pessoas e empurram adiante outras lutas. A velha ordem ainda resiste, mas já sabe que sua hora está próxima. No filme Gladiator (2000), os germânicos degolam um soldado romano e jogam a cabeça à frente das legiões romanas. Um dos generais de Roma diz: “Deveriam saber que estão derrotados”. Falava dos germânicos ainda beligerantes. Os ditadores do mundo árabe ainda jogarão algumas cabeças decepadas, para impedir o avanço do povo. Mas já deveriam saber que estão derrotados. É questão de tempo: cem anos, ou dez.

Publicado por Esquerda.net. Tradução por Vila Vudu. Foto de Omamr Robert Hamilton, Flickr.

http://www.counterpunch.org/prashad02152011.html