terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A insutentável leveza do sexo

A insutentável leveza do sexo

FacebooTwitteLinkedInTumbEmaiWhatsA
Estar sozinho. Sentir-se sozinho. Ter apenas o próprio reflexo. A solidão é algo que todos de uma maneira ou de outra buscam afastar-se. Seja pela dificuldade que temos de olhar a si mesmo (como dizia Pascal), seja pela dificuldade de encarar a existência, com toda sua complexidade, sem nada para se apoiar. A solidão nos aflige, porque há um vazio dentro de nós, o qual só pode ser preenchido por outra pessoa. Sendo assim, busca-se no amor a solução para o vazio existencial.
No mundo líquido, esse vazio existencial é preenchido pelo sexo. As pessoas possuem incontáveis “parceiros”, contudo, são incapazes de relacionar-se, de tal modo que o sexo casual, totalmente desconectado com um relacionamento e, consequentemente, com o amor não pode preencher esse vazio, mas antes, afastá-lo dos outros. Erich Fromm, sabiamente, diz:
“O sexo só pode ser um instrumento de fusão genuína – em vez de uma efêmera, dúbia e, em última instância, autodestrutiva impressão de fusão – graças a sua conjunção com o amor. Qualquer que seja capacidade de fusão que o sexo possa ter, ela vem de sua camaradagem com o amor.”
Não quero fazer um culto de negação ao corpo, mas parece-me que o sexo desvencilhado do amor ou de qualquer outra coisa, isto é, o sexo livre de ligações no dia seguinte, não conseguiu o que prometia. Em um primeiro momento, pode ser empolgante caminhar no mundo do “sexo puro”, mas, quando a correnteza não puder ser controlada? Afinal, deve-se ser livre, ter algo que o prenda é proibido nesse jogo. Então, estar à deriva é tão bom assim? Preenche o vazio? Segundo Bauman não, pois,
“Voar suavemente traz contentamento, voar sem direção provoca estresse. A mudança é jubilosa; a volatilidade incômoda. A insustentável leveza do sexo?”
Essa insustentável leveza do sexo pode ser percebida nos muitos casos, que chegam aos consultórios, de pessoas frustradas, já que o remédio que prometia curar causou mais moléstias. Dessa forma, o sofrimento torna-se ainda maior, pois na medida em que se tentou afastar-se da solidão com o “sexo puro”, percebeu-se que se estava mais só que antes. Essa frustração ocorre porque o sexo esvaziou-se de sentimentos e, portanto, não permite nele a capacidade de realização que se pretende. Em outras palavras,
“Quando o sexo se apresenta como um evento fisiológico do corpo e a palavra sensualidade pouca evoca senão uma prazerosa sensação física, ele não está liberado de fardos supérfluos, avulsos, inúteis, incômodos e restritivos. Está, ao contrário, sobrecarregado, inundado de expectativas que superam sua capacidade de realização.”
Assim sendo, o “sexo puro” é caracterizado pela rotatividade e não pela qualidade ou capacidade de realização. Essa rotatividade é uma das principais características do “homo consumens”, uma vez que, na modernidade líquida, o sucesso não é caracterizado pela capacidade de ter bens, pois para que você possua algo é preciso guardá-lo, e o homem pós-moderno ou “consumens” não quer ter esse trabalho. O sucesso, assim, é medido pela capacidade de usar, desfazer-se e usar algo novo.
“É a rotatividade, não o volume de compras, que mede o sucesso na vida do homo consumens.”
O “sexo puro” encontra-se em perfeita consonância com essa ideia, em que os encontros não devem passar de um episódio e todos devem estar preparados para ser descartados. O grande paradoxo nisso, é que esse “sexo puro” prometia resolver o problema da solidão. Mas, parece-me improvável que assim o seja, quando o outro vale menos que uma camisa, visto que esta é usada mais de uma vez.
Quando se determina que os encontros não devam passar de um episódio cria-se uma ditadura, em que toda forma de relacionamento deve ser assim. Há, dessa maneira, o banimento dos sentimentos do sexo. Entretanto, esquecem que quando se tenta retirar o acaso, o inesperado da vida, retira-se, imprescindivelmente, o que há de mais sublime na vida: o amor.
O “sexo puro” é a tentativa de uma sociedade insegura de sair da solidão, mas sem sair da zona de conforto. Obviamente, que quando não se cria expectativas no outro, dificilmente, haverá decepção. Mas, se não se espera nada no outro, talvez isso não seja amor. Para muitos estudiosos, na raiz do verbo amor está impressa a ideia de plantar, semear. Portanto, necessariamente, se há amor, há expectativas, pois ninguém semeia sem acreditar na colheita.
A insustentável leveza do sexo consiste em acreditar que pode se relacionar com outra pessoa e portá-la para dentro de si sem que haja envolvimento. Todavia, para que algo se desenvolva, é preciso envolvimento, muito embora, essa não seja uma característica do homem líquido. Criar laços fortes pode deixar-nos mais vulneráveis, mas ao amor são inerentes a vulnerabilidade e a incerteza, e já disse que as melhoras coisas só acontecem no terreno do inexplicável.


Ler mais: http://www.contioutra.com/a-insutentavel-leveza-do-sexo/#ixzz3z1tBvq9t

domingo, 6 de dezembro de 2015

[Hidef] O Sacrifício / Offret (1986) - Andrei Tarkovsky - Making Off

O Sacrifício
(Offret)
The.Sacrifice.1986.720p.BluRay.x264-CiNEFiLE
Poster
Sinopse
Intelectual
aposentado e ateu, Alexander vive confinado em sua casa de campo com a
mulher, o filho pequeno e seus dilemas existenciais. Durante seu
aniversário, na companhia de amigos, a televisão anuncia uma tragédia
nuclear que poderá causar a extinção da humanidade. O medo do fim leva
todos ao desespero e provoca reações inesperadas nos convidados. Movido
pela irracionalidade da fé que sempre desdenhou, o anfitrião busca uma
saída espiritual para salvar o planeta.

Último trabalho do
diretor russo Andrei Tarkovsky – e com o qual arrematou o prêmio
especial de júri e crítica em Cannes-, o Sacrifício foi rodado na Suécia
com a ajuda de colaboradores do seu grande ídolo Ingmar Bergman. Nele,
Tarkovsky dá sua última e derradeira mensagem: de que nos momentos
difíceis, mesmo aqueles que crêem no livre-arbítrio, acabam sempre
esbarrando na espiritualidade.

No desespero, toda descrença e
subversão agnóstica caem por terra e o homem cabalmente sucumbe a Deus
para encontrar refúgio. Como tudo parece um grande pesadelo, o filme
também permite outras leituras como a paranóia de um conflito nuclear,
já que a Guerra Fria ainda era presente na década de 80 ou mesmo uma
crise existencial agravada pela reclusão do protagonista.

De: http://blig.ig.com.b...ky-suecia-1986/
Screenshots (clique na imagem para ver em tamanho real)

Elenco
Informações sobre o filme
Informações sobre o release
Erland
Josephson, Susan Fleetwood, Allan Edwall, Guðrún Gísladóttir, Sven
Wollter, Valérie Mairesse, Filippa Franzén, Tommy Kjellqvist, Per
Källman, Tommy Nordahl

Para detalhes, vide IMDB
Gênero: Drama
Diretor: Andrey Tarkovsky
Duração: 2h 28mn
Ano de Lançamento: 1986
País de Origem: Suécia
Idioma do Áudio: Sueco
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0091670/
Qualidade de Vídeo: BR Rip
Container: MKV
Vídeo Codec: V_MPEG4/ISO/AVC
Vídeo Bitrate: 4517 Kbps
Áudio Codec: AC3
Áudio Bitrate: 640 Kbps
Resolução: 1200x720
Aspect Ratio: 1.667
Formato de Tela: Widescreen
Frame Rate: 23.976
Tamanho: 5.465 GiB
Legendas: Em anexo
Crítica
Palavras,
palavras. Teatro insuficiente das palavras. "Ninguém vai fazer nada?" –
pergunta a si mesmo o patriarca da família. "Tudo será sempre igual, se
fizermos tudo sempre da mesma forma?" O Sacrifício é o testamento de um
cinema em busca de um ultrapassamento, de um cinema em que a fissura da
superfície aparece como obsessão – de uma vida de imagens debruçadas
sobre a possibilidade da ruptura, da quebra, do estilhaçar de um certo
apaziguamento aparente das coisas. Em O Sacrifício, a normalidade
aparece na forma marcada e gélida de uma família sueca que se encontra
para comemorar o aniversário de seu patriarca. A tensão dos gestos, a
aspereza dos diálogos, a rugosidade das paredes vazias ao longo do
primeiro terço do filme, todo o teatro das cenas remete a um lugar ao
mesmo tempo de conforto/acomodação e de profundo incômodo. Há um grito
latente no perambular dos personagens, nas trocas de olhares entre pais e
filhos, patrões e empregados, maridos e esposas... Atores e mobílias da
casa parecem se igualar na sua manutenção da ordem, na sua economia dos
espaços. Em meio a toda essa frieza, o patriarca se sobressai como a
figura que carrega no peito uma angústia, um se indispor diante da
vida-posta, uma condição espiritual que dá a ele um sentido patético,
uma espécie de fantasma de gestos vagos.

É apenas com o seu
pequeno filho, porém (e só com ele), que o homem consegue travar um
embate direto – ironia-poética de Tarkovski, o menino acaba de passar
por uma cirurgia na garganta e não pode falar – se comunicando apenas
por gestos e grunhidos, sob um chapéu de pano branco que lhe esconde o
rosto. Desde o primeiro plano essa relação é estabelecida, como se
naquele menino estivesse a imagem reposta de uma esperança ainda sem
palavras. O filme se inicia assim: com os dois personagens, ao longe,
plantando juntos uma árvore à beira de um lago, enquanto o homem narra a
fábula de um homem cuja sina era regar uma árvore morta (até que ela
florescesse novamente...). Nesse certo sentimento de impossível,
Alexander (o pai) reitera a figura do desviante, do visionário trágico,
presente em diversos aspectos da obra do diretor. É ele que, numa
espécie de sonho-sono-previsão do futuro, vê ou antevê a explosão de uma
guerra nuclear de proporções mundiais que aparecia como o anúncio do
apocalipse. Alexander se ajoelha e lança os olhos para o alto: por cerca
de um minuto, faz sua súplica ao vazio, coloca a própria ordem
(família, casa, filhos) de sua vida em sacrifício e promete deixar tudo
para trás "se tudo voltar a ser como antes...". Nesse misto de transe,
de histeria, o personagem quase-nonsense do carteiro faz as vezes de um
anjo mensageiro/consciência, que sussurra para Alexander a única e
absurda saída: fazer amor com uma misteriosa empregada da casa, uma
bruxa capaz de reverter o destino trágico da humanidade.

Tarkovski
não faz diferenças de tom, de verdade, entre as possíveis alucinações e
a rotina da casa, tudo é apresentado no mesmo tom, na mesma cadência, e
às vezes o absurdo parece mais plausível do que a ordem tão
naturalizada das coisas. O filme, sem palavras claras, vai aos poucos
narrando as ações de Alexander, e nos fazendo reconhecer em suas ações
os gestos extremos das palavras proferidas em sua súplica. A casa em
chamas, uma certa alegria trágica. O Sacrifico é um elogio dos gestos
extremos, da incapacidade de deixar que tudo permaneça, do
ultrapassamento de seus sentimentos mais sedimentados para a
possibilidade de uma sobrevida do homem. Loucura e libertação andam
juntas, e é belíssimo ver como Tarkovski inscreve esse sentido na carne
do filme. É notável o longo plano-seqüência em que Alexander corre de
seus familiares e da ambulância antes de ser capturado num vasto campo
gramado – a casa em chamas ao fundo e a correria quase ridícula, tira o
filme da sintonia apática, dos gestos marcados, da câmera dura. Há um
pequeno caos, uma pequena ruptura, um pequeno sacrifício da vida como
ela é, para que a própria vida possa perpetuar-se/expandir-se para além
do hábito. O apocalipse não como fim de tudo, mas como o findar de tudo
numa repetição sem limites. O Sacrifício é um elogio do ir além, uma ode
à vida como possibilidade de reinvenção e não como manutenção do mesmo.
A saúde da loucura, sua capacidade de tirar as coisas do lugar, como
esse necessário sacrifício do espírito diante da amenização da vida.

Último
filme de Tarkovski, O Sacrifício é dedicado a seu filho e termina com o
menino de Alexander deitado aos pés da árvore morta, que ainda não
floresceu. Essa imagem final, de esperança (mais do que de melancolia), é
o plano final da filmografia do diretor. É quando ouvimos, pela
primeira vez (e somente), a voz pequena do menino e ele profere a
pergunta primeira, a mais essencial de todas ("No início era o verbo" –
ação primordial do espírito) – aquela que talvez fosse a saída para o
recomeço que o cinema de Andrei Tarkovski sempre se esmerou em intuir,
ou seja: "Por que, meu pai, por quê?".

Felipe Bragança, em Contracampo
Coopere, deixe semeando ao menos duas vezes o tamanho do arquivo que baixar.


Versão
baixada do Karagarga, mas disponível em http em diversos fóruns
(HDArena, tehParadox, etc). Rip do Blu-Ray da Kino Lorber lançado
recentemente.

Upgrade de O Sacrifício / Offret (1986)

O torrent, com a legenda em inglês embutida no arquivo:

Arquivo anexado
 The.Sacrifice.1986.720p.BluRay.x264-CiNEFiLE.6553840.TPB.torrent   14.51K
  994 Downloads

A legenda em português, devidamente sincronizada:

Arquivo anexado
 The.Sacrifice.1986.720p.BluRay.x264-CiNEFiLE.rar   21.91K
  898 Downloads

sábado, 5 de dezembro de 2015

Altamiro Borges: Crise venezuelana e golpe paraguaio

Crise venezuelana e golpe paraguaio

Por Francisco Fonseca, no site Carta Maior:

A admissão do processo de impeachment da presidente Dilma, formalmente deflagrado em 03 de dezembro é o desfecho esperado de uma conjunção de fatores:

1) A derrota eleitoral do PSDB – a quarta consecutiva, nunca é demais relembrar – e do rentismo deletério que representa, o que vem implicando toda sorte de revanchismo antidemocrático

2) ascensão do carbonário deputado Eduardo Cunha, representante do que há de mais escuso na vida “pública”, com seu séquito do “baixo clero” que tem no Congresso um balcão de negócios;

3) Da saída às ruas (e do armário) da direita – com tonalidades protofascistas – proveniente das classes médias superiores, incomodada com a ampliação dos direitos sociais;

4) Do terror apocalíptico promovido pelo Partido da Imprensa Golpista (o conhecido PIG), jamais enfrentado por qualquer governo;

5) Das contradições econômicas do próprio Governo Dilma, notadamente o antissocial e o antidesenvolvimento “ajuste fiscal” levado a cabo por um neoliberal de carteirinha, e, em termos políticos, da tentativa de manutenção da esgarçada “aliança de classes” expressa na lógica da coalizão;

6) Da histórica “lógica privatizante” do Sistema Político brasileiro: financiamento legal e ilegal de campanhas e partidos, igualmente jamais reformado;

7) Da obtusa “Operação Lava Jato” quanto às ilegalidades constitucionais (notadamente prisões sem motivações legais); ao “mercado das delações premiadas”; à ilegalidade de grampos no cárcere de Curitiba com o consequente “mercado” das gravações; à seletividade de julgamentos (e de vazamentos ao PIG); e ao fato de delegar a um juiz de primeira instância tamanho poder; entre outras.

Esse conjunto de fatores torna a conjuntura altamente complexa e fluida, com movimentos e contramovimentos de lado a lado: esquerda, legalistas, progressistas e desenvolvimentista versus direita, golpistas, neoliberais e rentistas. Isso tudo com o apoio ingênuo de um sem-número de “inocentes úteis”, muitos dos quais foram às “manifestações conservadoras” promovidas e apoiadas por imorais em nome da moralidade!

Nesse contexto, o ambiente político brasileiro – institucional e social – vem sendo tumultuado e polarizado por forças conservadoras e reacionárias, tal como na Venezuela. Um sem-número de “Capriles” parece povoar nosso ambiente! Isso tudo sem Chaves, chavismo, bolivarianismo e reformas radicais!

Pois bem, a admissibilidade do processo de impeachment – deve-se considerar que o processo tem um longo caminho entre Câmara e Senado e STF – cada vez mais se assemelha com o que se deu no Paraguai com a derrubada do presidente Lugo. A “peça” produzida pelos “juristas” Reali e Bicudo, encomendada pelo PSDB com a “consultoria” de Gilmar Mendes, lida em plenário pelo “pré-cassado” (quiçá preso) Eduardo Cunha é um “faz-me-rir” jurídico. Os “argumentos” elencados – sem estofo – seriam suficientes para enforcar qualquer um num regime de exceção que nos remete a Kafka.

Diferentemente da opinião majoritária, não se tratou de “chantagem” de Cunha, pois independentemente da posição do PT o presidente da Câmara levaria o processo de impeachment a cabo, uma vez que sintetiza a reação não apenas à presidente Dilma e ao PT, e sim aos direitos sociais, trabalhistas e civis, que implicam varrer a esquerda e a agenda progressista e civilizatória: não foram esses os objetivos do PDS, depois PFL, depois DEM...e agora PSDB?

Trata-se, pois, de forças econômicas e sociais catalisadas por Cunha, isto é, da luta de classes com todas as modulações aí implicadas. Mais ainda, trata-se de redefinição – tal como está ocorrendo na Argentina neste exato momento e de longa data na Venezuela – política, econômica, social e internacional.

Derrotar os golpistas é impedir a “paraguaização política” da sociedade brasileira, consolidar o Estado de Direito Democrático e a democracia política e SOCIAL brasileira, numa perspectiva de inclusão social e internacional. Especificamente quanto à América Latina, o que ocorrer no Brasil terá enorme impacto no subcontinente.

Por tudo isso, nunca a ação de “ir às ruas” e “ocupar democraticamente os espaços públicos” foi tão importante como agora. Trata-se, com a derrota do golpismo – impedindo o impeachment –, do estabelecimento de nova correlação de forças que permitirá ao Governo Dilma de fato governar, e “virar à esquerda” com políticas econômicas progressistas e com reformas político/institucionais que sejam radicalizadoras da democracia, movimento que constrangerá o Congresso conservador a novas pautas. Poderá ser um “novo governo”, tal como o foi, guardadas as realidades distintas, o Governo Lula pós Dirceu/Palocci.

O mote da “crise como parteira da história” nunca foi vigente como nos dias de hoje. A chance de derrotar a direita – social e institucional –, reformar as instituições no sentido de aprofundar sua democratização e combater os poderes tradicionais (agronegócio, rentismo, mídia, entre inúmeros outros), renovando as políticas públicas, nunca esteve, paradoxalmente, possibilitado de maneira tão vigorosa como agora.

Depende, para tanto, dos embates e da articulação dos movimentos sociais, da defesa da legalidade pelas instituições democráticas e do amplo campo democrático. Ao PT e ao Governo Dilma caberão, como não poderia deixar de ser, papeis cruciais nesse processo, superando suas erráticas trajetórias recentes, o que implicará “virar à esquerda” se quiserem continuar relevantes na história brasileira.

A ver!

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

“A luta de classes nunca tirou férias neste país”, afirma o professor da UFRJ José Paulo Netto

nettoBrasil - Brasil de Fato - [Camilla Hoshino e Leandro Taques] Em entrevista ao Brasil de Fato e aos Jornalistas Livres, o pesquisador e professor da UFRJ, José Paulo Netto, analisa as recentes manifestações de ódio contra determinados setores da sociedade a partir da formação social e da cultura política brasileira.

José Paulo Netto, intelectual marxista. Foto: Leandro Taques/Jornalistas Livres

Manifestações de ódio, racismo, declarações machistas e ameaças verbais e físicas contra lideranças da esquerda têm sido constantes no último período no país. Segundo o professor José Paulo Netto, essas atitudes têm relação com a tentativa das classes dominantes de “afastar a massa do povo dos centros de decisão política”.

José Paulo Netto é doutor em serviço social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Foi vice-diretor da Escola de Serviço Social da UFRJ e do seu Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, tendo título de professor emérito na instituição. Tradutor e organizador de textos de autores clássicos como Marx, Engels, Lênin e Lukács, em que se destaca como grande especialista, produziu obras teóricas e políticas sobre o capitalismo, serviço social e marxismo. É membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e atua em parceria com movimentos sociais, como o MST.

Em entrevista ao Brasil de Fato e aos Jornalistas Livres, ele faz uma análise das classes dominantes a partir da formação social brasileira, fala sobre o quadro político atual no país e sobre como atuam as elites em face da crise do capitalismo contemporâneo.

Para Netto, é justamente em momentos de tensões políticas e econômicas que “todo esse porão da sociedade brasileira, com um forte sentimento antipovo, antipopular, antimassa, racista e discriminador, vem à tona”.

Brasil de Fato - Estamos presenciando a todo o momento ataques da direita brasileira que deixam explícitos o preconceito, o racismo e o sentimento de ódio contra determinados setores da sociedade. Como a nossa formação social pode nos ajudar a compreender essas atitudes?

José Paulo Netto - Se analisarmos com cuidado a história brasileira, vamos encontrar algumas constantes que são traços constitutivos da nossa formação social e que, portanto, são elementos constitutivos da cultura política brasileira. Um traço muito visível de meados do século XIX em diante tem sido a capacidade das franjas das camadas mais ativas das classes dominantes em afastar a massa do povo dos centros de decisão política. Mesmo quando tivemos, ao longo do século XX, momentos de institucionalização mais ampla da participação política, tivemos elementos, mecanismos, meios e modos que constrangeram ou limitaram essa participação política a processos adjetivos. Costumo dizer que tivemos no Brasil um processo tardio, lento, desigual e sinuoso de socialização da política.

Isso ganhou certa magnitude com a derrota da ditadura instaurada em 1964. A constituição de 1988 consagrou direitos políticos essenciais, abriu caminho para se repensar direitos civis e, sobretudo, ampliou o leque dos direitos sociais no país. Com todas as desigualdades e assimetrias, creio que se pode dizer que no pós-1988 tivemos formalmente a institucionalização da cidadania moderna no Brasil. Entretanto, se observarmos o processo de luta contra a ditadura, de crise da ditadura e de transição democrática no Brasil, teremos a clara percepção dessa capacidade das franjas mais ativas das classes dominantes de encontrar meios de excluir a massa do povo de processos decisórios. Tivemos um processo de socialização da política, mas nem de longe um processo de socialização do poder político. Isso tem relação com o que eu chamo de linhas de continuidade na nossa história.

O senhor pode citar alguns exemplos disso?

O Brasil foi um país escravocrata. Em 1888 tivemos uma abolição inteiramente formal, em que não se criou nenhuma pré-condição para que o liberto pudesse construir sua vida autonomamente. Da noite para o dia foram libertos, mas sem ter terra, sem ter nada. Esta cultura escravocrata não desapareceu. Há exemplos recentes. As camadas médias (não necessariamente camadas oligárquicas) reagiram negativamente em face da legislação acerca do trabalho doméstico. Poderíamos citar outros exemplos como o acesso à universidade, historicamente elitista. É só observar a dimensão das nossas universidades e a população em condições etária e formal de ingressar ali.

Deste modo, podemos perceber que a sociedade foi construída para que muito poucos usufruíssem dos direitos formais que ela veio (bem ou mal) escrevendo no seu ordenamento jurídico-político. Em momentos de crise ou em momentos de tensão, em que se agudiza abertamente a luta de classes (para utilizar um jargão da esquerda), todo esse porão da sociedade brasileira, com um forte sentimento antipovo, antipopular, antimassa, racista e discriminador, vem à tona. O processo de transição da ditadura fez com que amplos setores tivessem vergonha do seu conservadorismo. Mas isso acabou.

Qual foi o impacto do PT na mudança dessa atmosfera política?

Eu diria que o PT teve um papel duplo. Pensando no PT como força de governo, a partir de janeiro de 2003, foram tomadas providências de caráter emergencial, mas que foram apresentadas como políticas duradouras de Estado e que beneficiaram objetivamente a massa mais pobre. Isso foi muito positivo. Ao mesmo tempo, isso foi feito no marco de uma orientação macroeconômica que privilegiou os grupos financeiros do país, que não restringiu em absoluto a fome lucrativa dos monopólios nacionais e internacionais. Isso criou uma situação paradoxal que pode ser observada ao cabo do mandato do Lula. Mas as elites jamais suportaram o significado simbólico de ter um trabalhador que tomava cachaça e falava errado na Presidência da República. O efeito PT (quando Lula se elege) é enorme do ponto de vista simbólico. Enfim um sujeito aparentemente igual à maioria da população chega lá.

“Marolinha”

Lula elege sua sucessora no marco de uma crise econômica internacional gravíssima, a qual ele caracterizou como uma “marolinha”. Só que os efeitos daquela crise rebateram na periferia de formas distintas. Sob o governo dele, uma orientação macroeconômica conseguiu driblar bem esses efeitos. A articulação de economia política que funcionou nos dois governos dele não funcionou no governo Dilma. Não foi por incompetência da equipe gestora. Houve sim falhas técnicas, mas elas não são as mais importantes. Mas é que a “marolinha” virou um “tsunami”. Neste momento, aqueles mesmos grupos que foram altamente beneficiados no governo Lula põem para fora todo o seu preconceito de classe que vem acompanhado de manifestações de ódio de classe, de marcas racistas e, sobretudo, de uma entrada em cena, sem qualquer tipo de maquiagem, do velho elitismo brasileiro. Penso que este é o quadro em que estamos vivendo hoje.

Como este elitismo se expressa?

Penso que o processo eleitoral mostrou isso com clareza. Tivemos uma vitória eleitoral democrática que mostrou uma sociedade dividida. Não ponho em dúvida a legitimidade de vitória de Dilma. Mas não há duvida nenhuma que há uma legitimidade expressa eleitoralmente muito estreita em termos de maioria e que, portanto, é muito vulnerável. Exatamente sobre esta vulnerabilidade atuam as elites. Também operam através de uma mídia historicamente oficialista e porta voz de tudo aquilo que atravanca a conquista, a realização e a ampliação de direitos.

De 1888 a 2015, quando se tem uma crise (não no sentido de possibilidade de quebra do regime, mas uma crise financeira do Estado), se não há orientações claras e políticas claras em face desta dificuldade, o momento se torna ideal para que os segmentos mais retrógrados se apresentem como são. Temos uma composição do legislativo que me parece a mais anódina e amorfa dos últimos trinta anos e, portanto, facilmente catalisada com propostas de oportunismo meramente eleitoral. Os que querem desestabilizar tem um prato feito. Não sei como vai se desdobrar esse processo governativo, mas tenho a impressão de que a presidente Dilma vai travar uma guerrilha diária. Não se satisfaz a fome de leão do PMDB com alface.

O senhor utilizou os termos “luta de classes”, “ preconceito de classe” e “ódio de classe”. Com toda a complexidade da divisão socioeconômica e das ramificações do trabalho na nossa sociedade, ainda podemos falar em classes sociais?

Não tenho a menor dúvida. Classe social é uma categoria teórica que expressa elementos fundamentais da realidade em uma sociedade como a nossa. A sociedade brasileira tem hoje uma estrutura de classes muito complexa e eu desconheço qualquer estudo rigoroso e sério sobre isso. Não estou falando daqueles estudos publicitários que separam a nossa sociedade em classes A, B, C, D, etc., mas de estudos que tragam relações com os meios de produção e com a consciência de um projeto político. A luta de classes nunca tirou férias neste país. Ela esteve latente ou expressa ao longo desses últimos doze anos em manifestações referentes a determinados projetos de políticas públicas e em como fazer a orientação macroeconômica. Isso foi uma luta que atravessou o governo Fernando Henrique, o governo Lula e atravessa o governo Dilma. O que temos agora é uma emersão clara das posições de classe.

E como é possível mediar essas tensões?

Eu percebo um dilaceramento do tecido social brasileiro do ponto de vista político. O que é preocupante, porque não estão em jogo projetos políticos, mas projetos de nação. Que sociedade nós queremos? Nós queremos uma sociedade onde quem tem orientação diferente é objeto de espancamento e onde o dissenso político é resolvido com ameaças físicas? Vivemos uma conjuntura internacional difícil, com ajustamento na divisão internacional do trabalho. Nós vamos nos inserir nisso de maneira subalterna ou soberana? Temos que vir a público para determinar com clareza que tipo de sociedade nós queremos e para chegar lá são possíveis vários meios.

Estamos com problemas que não vieram do governo Dilma, do governo Lula ou do governo Fernando Henrique. Eles vêm da nossa transição interrompida. Eu espero que tenhamos firmeza de princípios e sabedoria para resolvê-los sem romper um pacto civilizatório que fizemos pelos menos em 1988 e que, na minha opinião, está ameaçado por expressões de preconceito e ódio de classe. Não podemos repetir experiências traumáticas do passado, cujos resultados foram desastrosos para a massa do povo brasileiro, ainda que tenham sido excelentes para as suas elites.

Nesse sentido, penso que temos que olhar a política brasileira para além das expressões institucionais abastardadas, onde se troca ministério por voto no Congresso Nacional. Isto não é o Brasil. Isto é a expressão institucional da política brasileira. A política brasileira está nas universidades, nas fábricas, nas usinas, nos escritórios, no comércio e nas ruas.

O senhor é um grande especialista da obra de Marx, um nome que causa arrepio nas elites e nos setores mais conservadores da sociedade. Os intelectuais que se utilizam deste referencial teórico tem sido acusados de promover “doutrinação ideológica” nas universidades. O que o senhor pensa disso? É possível resgatarmos Marx para analisar a sociedade contemporânea?

Uma das coisas que mais tem me divertido na exposição do pensamento da direita brasileira (se é que ela pensa) é imaginar que os comunistas estão no poder. Isso é coisa do Olavo de Carvalho, não é? É uma calúnia contra o PT e contra os comunistas, mas deixemos isso de lado. Primeiro, eu diria que no universo cultural, resultado de experiências históricas e da batalha de ideias sob a hegemonia burguesa, o marxismo andou muito desprestigiado e muito desacreditado. No final da década de 1990 houve um acantonamento do pensamento marxista. Isso mudou nos últimos dez anos na universidade e fora dela. Houve um interesse renovado pelas ideias de Marx, não apenas no Brasil. Segundo, eu acho que Marx é um incômodo contemporâneo para nós. Essa crise sistêmica que o capitalismo está experimentando (pelo menos desde o início do século) está trazendo a discussão sobre uma série de projeções que Marx fez. Ele é extremamente atual. É impossível tentar compreender com seriedade as mutações econômicas dos últimos 30,40 anos sem Marx.

Socialismo

Não há solução para a crise do capitalismo. Ela é global não no sentido do globo, mas por ser uma crise ética, política, econômica e ecológica. O padrão de civilização capitalista se exauriu. Não adianta dar carros para todo mundo, pois não haverá lugar para jogá-los fora. Nós não podemos continuar nessas cidades que crescem loucamente sem nenhum planejamento. O capitalismo só tem a oferecer mais insegurança, mais instabilidade e mais violência. Nesse sentido, esgotado o capitalismo, a única alternativa para ele é o socialismo. Não posso ser original: “Ou o socialismo ou a barbárie”. E a barbárie já está aí pertinho. Sob esse aspecto, o socialismo é extremamente atual. Agora a questão é se essa atualidade é transformada em viabilidade. E eu não vejo essa viabilidade em curto prazo. O que me torna muito pessimista, pois quanto mais tardia a alternativa do socialismo, maior será a destruição que o capitalismo pode realizar.

Por que o senhor não vê essa alternativa no horizonte?

Porque o socialismo não resulta da crise e da exaustão do capitalismo, mas de um duro, longo e difícil processo em que massas organizadas de homens e mulheres mudam o curso da vida coletiva e individual. Eu não vejo isso se desenhando em curto prazo no horizonte. Vou dizer algo que já foi dito por Antônio Gramsci e que é adequado para pensar o agora: “Quando aquilo que é velho ainda não morreu e aquilo que é novo ainda não emergiu, nesses tempos de transição, revelam-se fenômenos que são verdadeiras sociopatias”. Estou convencido de que a ordem do capital, que é o velho, ainda não morreu e a ordem do futuro ainda não emergiu. Então estes são períodos históricos que oscilam entre o trágico e o dramático.

A esquerda fala em revolução, em protagonismo da classe operária e em tomada de consciência pela massa. Mas também defende que qualquer tipo de transição radical passa por uma formação séria dos trabalhadores. Como o senhor vê isso? E como essa formação de caráter teórico se transforma em prática?

Eu não penso que as massas revolucionárias serão massas teoricamente muito ilustradas. O que leva os trabalhadores a querer mudar de vida é o momento em que suas vidas se tornam insuportáveis. É evidente que camadas de trabalhadores letradas e informadas são muito mais capazes de tomar consciência dos seus interesses do que camadas trabalhadoras rústicas, mantidas na ignorância pelas classes dominantes. Acredito que a questão central seja a formação política dos militantes. Líderes e dirigentes não fazem a revolução. É inteiramente irrealista imaginar que o conjunto das classes trabalhadoras vai se transformar em líderes da transformação social. Segmentos que vão constituir as suas vanguardas (no plural) é que podem dirigir um processo de transformação social. O investimento na formação desses segmentos é absolutamente essencial. É preciso formação política com base teórica. Aqui não me refiro à agitação e propaganda ou doutrinação, mas sim a conhecimentos de teoria social que permitam discernir e distinguir o essencial do acessório, o substantivo do episódico.

Teoria e prática

A teoria é absolutamente indispensável para a formação de vanguardas que sejam capazes de, em momentos de ruptura e de tensão social, dar orientações claras, lúcidas, sérias e responsáveis às massas. Rupturas sociais são sempre processos traumáticos. Não apenas no sentido da violência material, mas elas envolvem rupturas ideológicas, intelectuais, éticas, etc. Se lideranças não tiverem competência teórica e sabedoria política, o resultado dessas rupturas pode ser catastrófico. Pode ser a derrota de bandeiras e demandas generosas e legitimas. Isso significa que ninguém avança no domínio do progresso social, da universalização de direitos, da criação de condições de uma consciência e de uma nova cultura política só pela militância operativa. É preciso formação teórica e cultural. Eu me atreveria a dizer que sem isso não caminharemos.

Queria ser original, mas alguém já disse há cerca de 110 anos que “sem teoria revolucionária, não há revolução” [Lênin]. É preciso estudar, estudar e estudar para poder mobilizar e organizar com competência. Uma revolução não pode ser o arrebentar de uma represa de demandas reprimidas e de esperanças humilhadas. É sobre esse chão, sobre a indignação e sobre a revolta que corre a possibilidade de outro mundo. Mas ele tem que ser construído com cientificidade, competência e com uma palavra que está desgastada que a sabedoria.


sábado, 14 de novembro de 2015

A História Da Eternidade (2014) - Nacional - Making Off

A História da Eternidade
(A História da Eternidade)
A História da Eternidade (Camilo Cavalcante, 2014)
Poster
Sinopse
Em
um pequeno vilarejo no Sertão, três histórias de amor e desejo
revolucionam a paisagem afetiva de seus moradores. Personagens de um
mundo romanesco, no qual suas concepções da vida estão limitadas, de um
lado pelos instintos humanos, do outro por um destino cego e fatalista.
Screenshots


Elenco
Informações sobre o filme
Informações sobre o release
Marcela Cartaxo - Querência
Leonardo França - Aderaldo
Débora Ingrid - Afonsina
Claudio Jaborandy - Nataniel
Zezita Matos - Dona Das Dores
Maxwell Nascimento - Geraldo
Irandhir Santos - João
Gênero: Drama
Diretor: Camilo Cavalcante
Duração: 120 minutos
Ano de Lançamento: 2014
País de Origem: Brasil
Idioma do Áudio: Português
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt3565050/
Qualidade de Vídeo: Web DL
Container: MKV
Vídeo Codec: MPEG-4 AVC
Vídeo Bitrate: 1.963 Kbps
Áudio Codec: A_AAC
Áudio Bitrate: 384 kbps  48 KHz Kbps
Resolução: 1280 x 720
Formato de Tela: Widescreen (16x9)
Frame Rate: 25.000 FPS
Tamanho: 1.655 Gb
Legendas: Sem Legenda
Crítica
A Eternidade conta uma história
por Marcelo Miranda

A
escolha pelo artigo definido para o título deste primeiro
longa-metragem de Camilo Cavalcante (A História da Eternidade), antes do
sentido totalizante que parece carregar, impõe, num primeiro contato
com o filme, ao menos duas possibilidades, de acordo com o viés que se
adotar. A hipótese inicial seria a de que veremos a grande história,
quem sabe definitiva, de o que é o conceito de “eternidade”, e aí existe
uma ambição fadada à impossibilidade cósmica de defini-lo; a segunda
hipótese, menos evidente (e talvez mais escorregadia), é a de que
veremos, de fato, uma história contada do ponto de vista da Eternidade, a
palavra aqui deixando de ser apenas conceito abstrato para se ser ela
mesma personagem (ou mito), tornando-se a instância narradora. Por essa
segunda possibilidade, tem-se um filme menos centrado na derivação de
alguma grande narrativa do que na ocupação do quadro com elementos
constitutivos de uma pictorialidade que será, afinal, sua maior
característica visual. (O uso do scope amplia a noção de vastidão num
espaço relativamente pequeno de um vilarejo isolado.) A Eternidade seria
tudo aquilo a ocupar o espaço da tela – cada elemento de linguagem e de
encenação que se consiga ver, ouvir ou imaginar, sendo a articulação
entre eles o escopo do que é efetivamente o filme de Camilo Cavalcante. A
Eternidade, portanto, é o que é mostrado a partir da existência da
câmera, e não apenas pelo relato temático (que, por sua vez, seria o
elemento mais importante da primeira hipótese).

A diferenciação é
importante na medida em que A História da Eternidade alimenta a mise en
scène com um manancial de símbolos e referências pictóricas e
literárias que expandem seu universo para além do cinema (eis a beleza
da impureza, como diria André Bazin). Pensar a Eternidade como o ponto
de saída da narração do filme o localiza fora de algum tempo e espaço. A
iconografia do sertão, tão cara à filmografia brasileira ao longo de
toda a sua história, aqui se desprende do imaginário pré-fabricado e
caminha sozinha, como se fosse outra coisa que, mesmo reconhecendo a
base, ainda está a ser descoberta na totalidade. O filme não é cínico,
porém: Camilo Cavalcante jamais disfarça a evidência de estar sempre no
sertão – muito pelo contrário: talvez os maiores desarranjos do filme
estejam em momentos de mais ostentação desse universo facilmente
assimilável. Mas a honestidade de A História da Eternidade está em, sem
omitir o dado essencial, seguir adiante com ele e se esforçar por dar ao
espectador alguma visão ainda inédita, na possibilidade de olhar (no
sentido do olho humano mesmo) algo que surpreenda pelo inusitado e pelo
maravilhamento a emanar daquilo que vem do quadro.

A tela larga
de A História da Eternidade possibilita ao filme se apresentar com alto
grau de grandiloquência na criação desse lugar indefinido, de tempo
próprio, já explicitado no primeiro plano: em enquadramento aberto, um
sanfoneiro cego se senta em uma árvore de galhos retorcidos,
reenquadrado pelo infinito do céu e da terra – imagem forte da “mais
remota lonjura” descrita pelo escritor mexicano Juan Rulfo. Depois de
alguns minutos, um cortejo fúnebre carregando o caixão de uma criança
atravessa o quadro, lentamente. Da pintura imóvel anterior tem-se agora o
movimento, mas esse movimento traz morte e tristeza. O prólogo é
prenúncio de todo o resto: visualmente, o filme trabalha a imagem até o
limite da composição, às vezes em planos ainda mais abertos, nos quais
se vislumbra, em meio ao cenário natural, o movimento dos corpos de
personagens a se deslocar de um canto a outro (algo similar, por
exemplo, ao visto no cinema de Sergio Leone).

A História da
Eternidade se fixa na obsessão pelo número três – são três conflitos,
apresentados ao longo de três capítulos delimitados, sobre a intimidade
de três mulheres representantes de três gerações. Essa triangulação já
pode ser vista nos pontos de atenção da cena inicial e o movimento
triangular do filme será também o seu eixo estético. A mise en scéne
depende sempre de como os personagens circulam pelo pequeno vilarejo
onde a ação é ambientada, indo de um lugar a outro de acordo com os
espaços permitidos pela direção de fotografia, assinada por Beto
Martins. Existe não apenas o foco na ação de primeiro plano, mas também
na profundidade de campo do scope, que deixa o ator ganhar existência
mais plena a partir da composição que lhe é cabida. Martins já disse em
entrevistas ter se inspirado na pintura de Caravaggio, algo perceptível
não só nas escolhas de onde colocar a câmera, mas também na luz
utilizada no plano, no claro-escuro para delinear o cenário e as junções
dos corpos com os objetos em cena. Em dois momentos, o filme se entrega
a movimentos circulares em plano-sequência que poderiam se tornar
apenas fetichistas, mas o cuidado na construção anterior de outros tipos
de espaços cênicos integra-os na artesania do filme. Se na maior parte
das cenas a câmera está fixa, sua movimentação se assemelha a um
acontecimento próximo do milagroso, considerando o universo mítico e
fabular tratado por Cavalcante.

Os tais dois rodopios se dão em
instantes de epifania: num, o artista rebelde e desprezado vivido por
Irandhir Santos dança e canta ao som de “Fala”, dos Secos &
Molhados; no outro, o mesmo personagem leva a sobrinha adolescente
(Débora Ingrid) para ver um mar imaginário que só existe num truque
simples de montagem no ápice do plano circular. Nos dois momentos,
tem-se a performance como elemento central, junto à consciência (dos
personagens e também do filme) de aquilo que não se vê ganhar concretude
na forma como se apresenta diante dos olhos. O olhar em A História da
Eternidade tem esse poder de materialização: a avó (Zezita Matos) passa a
desejar o neto (e a se afligir e infligir dor) quando vê fotografias
pornográficas numa revista do garoto e percebe nele não mais um menino,
mas um homem; a mulher solteira e amarga (Marcélia Cartaxo) é cortejada
pelo sanfoneiro cego e ferido, que obviamente não a enxerga, mas
acredita ter a chance de um momento de intimidade com ela, ficando
diariamente na espera de um sinal que ele espera sentir, mas não ver.
Todas as três mulheres, portanto, partem do olhar para ultrapassarem os
próprios limites e desejos. A superação vem da visão renovada diante de
uma realidade que parecia estanque e arcaica.

Os arquétipos do
filme carregam características de lendas e crenças que se misturam umas
às outras para chegar a um desenlace próprio do “realismo maravilhoso”
muito próximo de uma certa literatura latina (de novo Juan Rulfo, mas
pode-se invocar também García Márquez e Ariano Suassuna): a chuva no
semi-árido, que não vem lavar pecados ou purificar os corpos (como faz o
mar de Fernando de Noronha em Sangue Azul, de Lírio Ferreira), mas
diluir o sangue de uns, celebrar o batismo luxurioso de outros e ser a
paisagem de uma Pietà emoldurada pela violência do mundo exterior, que
invade o isolamento daquele novo sertão para também submetê-lo a uma
reconfiguração.

Fonte: Revista Cinética
Coopere, deixe semeando ao menos duas vezes o tamanho do arquivo que baixar.

Arquivo(s) anexado(s)

A História Da Eternidade (2014) - Nacional - Making Off

A História da Eternidade
(A História da Eternidade)
A História da Eternidade (Camilo Cavalcante, 2014)
Poster
Sinopse
Em
um pequeno vilarejo no Sertão, três histórias de amor e desejo
revolucionam a paisagem afetiva de seus moradores. Personagens de um
mundo romanesco, no qual suas concepções da vida estão limitadas, de um
lado pelos instintos humanos, do outro por um destino cego e fatalista.
Screenshots


Elenco
Informações sobre o filme
Informações sobre o release
Marcela Cartaxo - Querência
Leonardo França - Aderaldo
Débora Ingrid - Afonsina
Claudio Jaborandy - Nataniel
Zezita Matos - Dona Das Dores
Maxwell Nascimento - Geraldo
Irandhir Santos - João
Gênero: Drama
Diretor: Camilo Cavalcante
Duração: 120 minutos
Ano de Lançamento: 2014
País de Origem: Brasil
Idioma do Áudio: Português
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt3565050/
Qualidade de Vídeo: Web DL
Container: MKV
Vídeo Codec: MPEG-4 AVC
Vídeo Bitrate: 1.963 Kbps
Áudio Codec: A_AAC
Áudio Bitrate: 384 kbps  48 KHz Kbps
Resolução: 1280 x 720
Formato de Tela: Widescreen (16x9)
Frame Rate: 25.000 FPS
Tamanho: 1.655 Gb
Legendas: Sem Legenda
Crítica
A Eternidade conta uma história
por Marcelo Miranda

A
escolha pelo artigo definido para o título deste primeiro
longa-metragem de Camilo Cavalcante (A História da Eternidade), antes do
sentido totalizante que parece carregar, impõe, num primeiro contato
com o filme, ao menos duas possibilidades, de acordo com o viés que se
adotar. A hipótese inicial seria a de que veremos a grande história,
quem sabe definitiva, de o que é o conceito de “eternidade”, e aí existe
uma ambição fadada à impossibilidade cósmica de defini-lo; a segunda
hipótese, menos evidente (e talvez mais escorregadia), é a de que
veremos, de fato, uma história contada do ponto de vista da Eternidade, a
palavra aqui deixando de ser apenas conceito abstrato para se ser ela
mesma personagem (ou mito), tornando-se a instância narradora. Por essa
segunda possibilidade, tem-se um filme menos centrado na derivação de
alguma grande narrativa do que na ocupação do quadro com elementos
constitutivos de uma pictorialidade que será, afinal, sua maior
característica visual. (O uso do scope amplia a noção de vastidão num
espaço relativamente pequeno de um vilarejo isolado.) A Eternidade seria
tudo aquilo a ocupar o espaço da tela – cada elemento de linguagem e de
encenação que se consiga ver, ouvir ou imaginar, sendo a articulação
entre eles o escopo do que é efetivamente o filme de Camilo Cavalcante. A
Eternidade, portanto, é o que é mostrado a partir da existência da
câmera, e não apenas pelo relato temático (que, por sua vez, seria o
elemento mais importante da primeira hipótese).

A diferenciação é
importante na medida em que A História da Eternidade alimenta a mise en
scène com um manancial de símbolos e referências pictóricas e
literárias que expandem seu universo para além do cinema (eis a beleza
da impureza, como diria André Bazin). Pensar a Eternidade como o ponto
de saída da narração do filme o localiza fora de algum tempo e espaço. A
iconografia do sertão, tão cara à filmografia brasileira ao longo de
toda a sua história, aqui se desprende do imaginário pré-fabricado e
caminha sozinha, como se fosse outra coisa que, mesmo reconhecendo a
base, ainda está a ser descoberta na totalidade. O filme não é cínico,
porém: Camilo Cavalcante jamais disfarça a evidência de estar sempre no
sertão – muito pelo contrário: talvez os maiores desarranjos do filme
estejam em momentos de mais ostentação desse universo facilmente
assimilável. Mas a honestidade de A História da Eternidade está em, sem
omitir o dado essencial, seguir adiante com ele e se esforçar por dar ao
espectador alguma visão ainda inédita, na possibilidade de olhar (no
sentido do olho humano mesmo) algo que surpreenda pelo inusitado e pelo
maravilhamento a emanar daquilo que vem do quadro.

A tela larga
de A História da Eternidade possibilita ao filme se apresentar com alto
grau de grandiloquência na criação desse lugar indefinido, de tempo
próprio, já explicitado no primeiro plano: em enquadramento aberto, um
sanfoneiro cego se senta em uma árvore de galhos retorcidos,
reenquadrado pelo infinito do céu e da terra – imagem forte da “mais
remota lonjura” descrita pelo escritor mexicano Juan Rulfo. Depois de
alguns minutos, um cortejo fúnebre carregando o caixão de uma criança
atravessa o quadro, lentamente. Da pintura imóvel anterior tem-se agora o
movimento, mas esse movimento traz morte e tristeza. O prólogo é
prenúncio de todo o resto: visualmente, o filme trabalha a imagem até o
limite da composição, às vezes em planos ainda mais abertos, nos quais
se vislumbra, em meio ao cenário natural, o movimento dos corpos de
personagens a se deslocar de um canto a outro (algo similar, por
exemplo, ao visto no cinema de Sergio Leone).

A História da
Eternidade se fixa na obsessão pelo número três – são três conflitos,
apresentados ao longo de três capítulos delimitados, sobre a intimidade
de três mulheres representantes de três gerações. Essa triangulação já
pode ser vista nos pontos de atenção da cena inicial e o movimento
triangular do filme será também o seu eixo estético. A mise en scéne
depende sempre de como os personagens circulam pelo pequeno vilarejo
onde a ação é ambientada, indo de um lugar a outro de acordo com os
espaços permitidos pela direção de fotografia, assinada por Beto
Martins. Existe não apenas o foco na ação de primeiro plano, mas também
na profundidade de campo do scope, que deixa o ator ganhar existência
mais plena a partir da composição que lhe é cabida. Martins já disse em
entrevistas ter se inspirado na pintura de Caravaggio, algo perceptível
não só nas escolhas de onde colocar a câmera, mas também na luz
utilizada no plano, no claro-escuro para delinear o cenário e as junções
dos corpos com os objetos em cena. Em dois momentos, o filme se entrega
a movimentos circulares em plano-sequência que poderiam se tornar
apenas fetichistas, mas o cuidado na construção anterior de outros tipos
de espaços cênicos integra-os na artesania do filme. Se na maior parte
das cenas a câmera está fixa, sua movimentação se assemelha a um
acontecimento próximo do milagroso, considerando o universo mítico e
fabular tratado por Cavalcante.

Os tais dois rodopios se dão em
instantes de epifania: num, o artista rebelde e desprezado vivido por
Irandhir Santos dança e canta ao som de “Fala”, dos Secos &
Molhados; no outro, o mesmo personagem leva a sobrinha adolescente
(Débora Ingrid) para ver um mar imaginário que só existe num truque
simples de montagem no ápice do plano circular. Nos dois momentos,
tem-se a performance como elemento central, junto à consciência (dos
personagens e também do filme) de aquilo que não se vê ganhar concretude
na forma como se apresenta diante dos olhos. O olhar em A História da
Eternidade tem esse poder de materialização: a avó (Zezita Matos) passa a
desejar o neto (e a se afligir e infligir dor) quando vê fotografias
pornográficas numa revista do garoto e percebe nele não mais um menino,
mas um homem; a mulher solteira e amarga (Marcélia Cartaxo) é cortejada
pelo sanfoneiro cego e ferido, que obviamente não a enxerga, mas
acredita ter a chance de um momento de intimidade com ela, ficando
diariamente na espera de um sinal que ele espera sentir, mas não ver.
Todas as três mulheres, portanto, partem do olhar para ultrapassarem os
próprios limites e desejos. A superação vem da visão renovada diante de
uma realidade que parecia estanque e arcaica.

Os arquétipos do
filme carregam características de lendas e crenças que se misturam umas
às outras para chegar a um desenlace próprio do “realismo maravilhoso”
muito próximo de uma certa literatura latina (de novo Juan Rulfo, mas
pode-se invocar também García Márquez e Ariano Suassuna): a chuva no
semi-árido, que não vem lavar pecados ou purificar os corpos (como faz o
mar de Fernando de Noronha em Sangue Azul, de Lírio Ferreira), mas
diluir o sangue de uns, celebrar o batismo luxurioso de outros e ser a
paisagem de uma Pietà emoldurada pela violência do mundo exterior, que
invade o isolamento daquele novo sertão para também submetê-lo a uma
reconfiguração.

Fonte: Revista Cinética
Coopere, deixe semeando ao menos duas vezes o tamanho do arquivo que baixar.

Arquivo(s) anexado(s)

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Putin ganha pontos no Oriente Médio


 Putin ganha pontos no Oriente Médio


Como Obama repetiu não poucas vezes, o ISIS (Estado Islâmico) é uma
ameaça à paz mundial e os EUA têm todo empenho em acabar com eles.

Por isso mesmo, convocou o mundo civilizado para a guerra contra essa
praga. Logo o presidente deveria receber com palmas a entrada da Rússia
para lutar a seu lado, não é?

Não é.

Voltando de Bagdá, após reunião com Abadi, primeiro-ministro do
Iraque, o general Joe Durnford, chefe do Estado-maior das forças armadas
dos EUA, informou o contrário.

Segundo o site da CBS NEWS (22 de outubro), foram estas as
suas palavras: “eu disse (a Abadi) que seria muito difícil para nós dar o
apoio que você precisa se os russos também estiverem conduzindo
operações bélicas. Não poderemos conduzir operações se os russos
estiverem operando no Iraque agora”.

O iraquiano ficou numa saia justa. Afinal, os EUA já gastaram cerca
de 20 bilhões de dólares no armamento, treinamento, assessoramento e,
principalmente, apoio aéreo ao exército local.
Até agora, não adiantou muito.

Desde que a aviação dos EUA entrou em ação, há um ano, o ISIS tomou a
importante cidade de Ramadi e mantém em seu poder um terço do
território do país.

Nos últimos meses, reforçadas também pelas tropas xiitas, as forças
armadas do Iraque começam a encarar os ultrafanáticos, tendo passado à
ofensiva em algumas frentes.

Por enquanto, os russos têm se limitado a fornecer armas e assessores
técnicos aos xiitas. O comando da campanha ISIS continua nas mãos de
oficiais norte-americanos e iraquianos.

Putin afirmou que está pronto para vir com tudo, formando uma coalizão com os EUA e o Iraque.

Mas primeiro o Iraque deve solicitar sua ajuda oficialmente. Abadi diz “claro, ótimo”, mas hesita.

Seus partidários pressionam para que ele aceite. Abadi resiste, diz
que ainda não é hora. Se topar, os norte-americanos podem sair e ele
teme um futuro incerto sem o braço amigo de Tio Sam.

Enquanto isso, espera que os estadunidenses acabem concordando na
aliança com os russos, em nome da necessidade de derrotar o ISIS, que se
torna um inimigo cada vez mais forte.

Além de solidificarem seu califado instalado no Iraque e na Síria, os
ultrarradicais se expandem pelo Oriente Médio e África. Já têm filiais
em sete regiões: Egito, Líbia, Nigéria, Iêmen, Afeganistão, Paquistão e
Cáucaso.

Pior: segundo pesquisa da consultoria inglesa de segurança, a IHS, o
ISIS aumentou em 42% suas ações entre julho e setembro de 2015,
comparando com o mesmo período no ano passado.

Indiferentes a esses dados assustadores, os EUA seguem querendo ver os russos pelas costas, tanto no Iraque quanto na Síria.

Nesse país, Putin cansou-se de propor sua participação na coalizão de nações formada pelos EUA para destruir o ISIS.

Nada feito, Washington se opõe devido ao apoio russo ao presidente
Assad, da Síria, que Obama condenou ao inferno e age para o defenestrar,
armando e treinando as forças rebeldes.

Bem que Putin tentou (e ainda tenta) tirar da frente este obstáculo
ao fim de uma guerra que está massacrando o povo sírio e devastando o
país.

Propôs várias vezes uma reunião entre governo, rebeldes, EUA, Rússia,
Irã, União Europeia, países do Golfo, Turquia, todos os envolvidos na
questão para negociar a paz, através de um governo de transição, com
representantes das partes em luta.

Claro, Putin não pode abandonar seu aliado Assad: exige ao menos que ele participe das negociações.

Aí, tudo volta ao marco zero porque Obama não perdoa Assad. Com a presença do líder sírio, não tem conversa.

Cansado das rejeições às suas duas iniciativas, Putin resolveu agir
tanto para enfraquecer o ISIS quanto para fortalecer o amigo Assad,
atualmente perdendo terreno.

Enviou seus aviões para passarem a bombardear o ISIS por sua conta,
incluindo nos alvos grupos terroristas, integrantes das forças
anti-Assad.

Obama saiu do sério. Acusou os russos de, no duro, não estarem
atacando os ultrarradicais, mas sim as tropas de moderados, que
também fazem parte do exército rebelde.

Não é bem assim. A imprensa e os observadores neutros admitem que os
aviões russos já fizeram mesmo dezenas de bombardeios contra o ISIS,
causando muito estrago em depósitos de armas, concentração de tropas e
quartéis-generais.

Mas também lançaram muitos mísseis contra as forças rebeldes, matando um número indeterminado de soldados.

O problema é saber se os atingidos seriam “moderados” ou terroristas.
A maioria dos membros do exército rebelde é formada por milicianos do
Nusra (filial da al Qaeda na Síria) o grupo mais forte – e salafitas,
partidários da uma seita islâmica também radical.

Os chamados “rebeldes moderados” (ex-soldados de Assad e militantes
seculares) representam uma minoria, pouco significativa. Provavelmente,
alguns deles foram mesmo atingidos pelos mísseis russos.

Não é de se crer que os pilotos tenham recebido instruções de Moscou
para se preocuparem em distinguir entre terroristas e moderados, a fim
de poupar estes últimos.

De qualquer forma, as ações bélicas de Putin não violam as leis
internacionais. Como Assad foi eleito, seu governo é legítimo e,
portanto, os russos têm direito de defendê-lo contra movimentos
revolucionários, ainda mais quando, como é o caso, contam com milicianos
estrangeiros e apoio financeiro, político e militar de outros países.

A maioria desses países – a Alemanha, a França, a Turquia e os
Estados do Golfo – parecem estar mudando de posição e aceitam
negociações com Assad e até mesmo sua permanência num governo de
transição durante seis meses, segundo informou o ex-ministro do Exterior
turco Yasar Yaki ao jornal Daily Zaman.

Depois da triste e trágica onda de imigrantes sírios que invadiu a Europa, até os próprios EUA estariam caindo em si.

Em 20 de outubro, fontes turcas da Reuters informaram: “nós avançamos
nesta questão até um certo degrau com os EUA e outros aliados. Não há
um consenso exato sobre quando começaria o período de seis meses (de
transição com Assad), mas pensamos que não demoraria muito”.

Vamos torcer que não sejam meros boatos. Por enquanto, Obama
demonstra estar mais preocupado em impedir que a Rússia colabore na
queda do ISIS e na paz na Síria do que em resolver esses dois
importantíssimos problemas.

Não é o que se espera de um prêmio Nobel da Paz. Putin, visto como um
autêntico déspota (talvez até seja), vem se comportando de uma forma
muito mais digna.

Sua oferta de união aos norte-americanos para ajudar o Iraque a se
livrar do ISIS merece palmas. O mesmo para sua atuação na Síria,
atacando os bárbaros do Estado islâmico e os terroristas e exercendo seu
direito de auxiliar um aliado ameaçado por uma “revolução”.

Ganhou mais pontos ainda ao formular propostas aceitáveis para acabar com a terrível guerra que vem devastando a nação síria.

Obama vê tudo isso com maus olhos. Por seus atos e palavras deixa
claro que o mais importante para os EUA é deter o protagonismo da Rússia
em questões internacionais e impedir que se torne uma potência
influente no Oriente Médio.

Questões como o ISIS e a guerra da Síria estão ficando em segundo plano. Será isso o excepcionalismo estadunidense?