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terça-feira, 10 de julho de 2012

Kardec Foi um Filósofo?


  •  Jaci Regis no PENSE


  • Três questões serão debatidas neste trabalho:
    1.) Como conciliar o fato de o Espiritismo se declarar, simultaneamente, uma revelação e uma filosofia;
    2.) É possível caracterizar a obra de Kardec como uma obra filosófica?
    3.) Como resolver o paradoxo da fé raciocinada?
    O objetivo final é provar que o Espiritismo é uma filosofia.

    I

    No livro “A Gênese”, Allan Kardec afirma que o Espiritismo é uma revelação e procura mostrar o seu caráter. Mas, também, ao longo de sua obra e de forma taxativa, caracteriza-o como uma filosofia.

    Devemos, pois, em primeiro lugar, tentar compreender o que sejam filosofia e revelação. Comecemos por filosofia.

    Não tem sido fácil definir o que seja filosofia. Entretanto, existe um conceito espontâneo de que a filosofia é uma parte essencial da atividade do homem. Ligada à sabedoria, ao exame e à discussão exaustiva, embora não conclusiva, das causas e dos seres, a filosofia tem sido caracterizada como uma atividade superior do homem, um exercício indispensável ao saber e à certeza.

    Historicamente, distinguem-se duas formas de exercício da filosofia: de um lado a socrático-platônica, que exprime uma concepção do eu, isto é, uma autorreflexão do espírito sobre os seus supremos valores teóricos e práticos, sobre os valores do verdadeiro, o bom e o belo. De outro, a aristotélica, que apresenta, antes de tudo, uma concepção do universo. Embora tenha havido uma regularidade pendular entre essas duas concepções, tende-se a uma acumulação, a uma conjugação desses pontos, pois a filosofia é simultaneamente as duas coisas: uma concepção do eu e uma concepção do universo.

    Em síntese, pode-se compreender que a filosofia é uma autorreflexão do espírito sobre seu comportamento e, ao mesmo tempo, uma aspiração ao conhecimento das últimas ligações entre as coisas.

    Quanto à revelação, analisaremos, ainda que rapidamente, as colocações feitas por Allan Kardec no capítulo I de “A Gênese”, servindo-nos da tradução de Guillon Ribeiro (edição da FEB). Nele, o autor define revelação como “dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida”. Logo, “deste ponto de vista, todas as ciências que nos fazem conhecer os mistérios da Natureza são revelações e pode dizer-se que há para a Humanidade uma revelação incessante” (item 2). E adiante: “O que de novo ensinam aos homens (os grandes gênios, messias, missionários) quer na ordem física, quer na ordem filosófica, são revelações (grifo de Kardec). “Se Deus suscita reveladores para as verdades científicas, pode, com mais forte razão, suscitá-las para as verdades morais, que constituem elementos essenciais do progresso. Tais são os filósofos, cujas ideias atravessam os séculos” (item 6). No tocante à revelação religiosa, diz Kardec: “implica a passividade absoluta e é aceita sem verificação, sem exame e discussão” (item 7).

    Finalmente, quanto ao Espiritismo, afirma Kardec: “é uma verdadeira revelação, na acepção científica da palavra”, isto é, dá “a conhecer o mundo invisível que nos cerca e no meio do qual vivemos sem o suspeitarmos, assim como as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos seres que o habitam e, por conseguinte, o destino do homem depois da morte” (item 12).

    Kardec coloca o Espiritismo como uma “revelação científica” que é caracterizada por ser “divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem”. É uma revelação científica, enfatiza: “por não ser ensino (dos Espíritos) privilégio de indivíduo algum, mas ministrado a todos do mesmo modo; por não serem os que o transmitem e os que o recebem seres passivos, dispensados do trabalho da observação e da pesquisa, por não renunciarem ao raciocínio e ao livre-arbítrio; porque não lhes é interdito o exame, mas, ao contrário, recomendado; enfim, porque a doutrina não foi ditada completa, nem imposta à crença cega; porque é deduzida pelo trabalho do homem, da observação aos fatos que os Espíritos lhe põem sob os olhos e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, a fim de tirar ele próprio as ilações e aplicações” (item 13 - grifos de Kardec).

    Isso fica mais claro ainda quando ele analisa a questão: “qual a autoridade da revelação espírita, uma vez que emana de seres de limitadas luzes e não infalíveis?” Nessa aparente fragilidade, o Codificador aponta sua característica básica, ao afirmar que o Espiritismo é fruto da elaboração entre pessoas de dois planos de vida. Os Espíritos propõem, mas os homens concorrem com o seu raciocínio e seu critério, tudo submetem ao cadinho da lógica e do bom senso. Isto é, o homem se beneficia dos conhecimentos especiais que os Espíritos dispõem pela posição em que se acham, sem abdicar do uso da própria razão (item 57).

    Esse caráter específico da revelação espírita é, também, uma inovação no campo filosófico, antes dominado apenas pela cogitação a partir de um ponto de observação unilateral, isto é, da busca e da inquietação do homem perante o mistério e as contradições do ser, diante de si mesmo, da existência e do universo. Agora, esse mesmo cogitar é enriquecido pela contribuição de homens que passaram a existir numa dimensão diferente, — os Espíritos — mas dentro da humanidade.

    Sendo, em lato senso, urna elaboração da razão humana — encarnada e desencarnada — o Espiritismo é uma reflexão sobre o ser e o universo, abrangendo a totalidade e não se detendo no particular. A palavra “revelação” é, num primeiro sentido, uma contradição nesse quadro e só é aceita por Kardec a partir de uma visão didática, para que a intervenção das inteligências desencarnadas seja compreendida no processo.

    II

    Poderá a obra de Allan Kardec ser categorizada como filosófica? Ou melhor seria considerá-la uma obra didática? Encontramos no seu transcorrer uma reflexão sobre o ser, o belo, o bom? Há, em seu bojo, cogitações sobre a natureza essencial das coisas, uma visão do universo e das relações últimas entre os objetos? Sim, a resposta é afirmativa.

    Entretanto, o fato desses temas serem abordados não significa, necessariamente, que a obra seja filosófica. O que caracteriza esse aspecto é o fato de apresentar uma reflexão, propor soluções e inovar na abordagem de temas que, sendo universais e se constituírem razão da cogitação da inteligência, se enquadrem num quadro amplo da inquietação do homem.

    Analisada sob esse ângulo, a obra de Kardec é, em seu conjunto, uma reflexão filosófica. O próprio “O Livro dos Espíritos” é um filosofar dialético entre duas inteligências humanas, reunidas no ato de refletir sobre os fundamentos do ser, do destino e de Deus. Semelhante ao diálogo do Banquete, de Platão, Kardec e o Espírito da Verdade, maieuticamente confabulam num mesmo nível de inquietude. Esse debate dialético não espelha um superior ministrando lições a um inferior. Mas, duas potências do saber dialogam, exprimindo visões específicas que resultam na síntese doutrinária do Espiritismo. A partir desse diálogo, Kardec, seja nos comentários que aduz às questões ou em capítulos inteiros de “O Livro dos Espíritos”, evidencia o tratamento filosófico das ideias.

    O que caracteriza, por outro lado, a filosofia kardecista, se assim podemos falar, é a sua praticidade. Marx afirmou que “os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diferentes maneiras; trata-se é de transformá-lo”, exigindo a crítica radical, que vai às raízes e à práxis, isto é, à ação revolucionária. Essa tese foi lançada por Marx por volta de 1845, doze anos antes de “O Livro dos Espíritos”. Pode-se dizer que Kardec também realizou, a seu modo, uma filosofia de ação, de pratos, transformadora e revolucionária, ao propor uma nova reflexão sobre os fundamentos da vida, do ser e do mundo, inaugurando a visão espírita. E, também, promoveu a elevação dos Espíritos à categoria de seres existentes e não potenciais, ao abrir, por assim dizer, a cortina que separava o homem vivente no plano corpóreo ao homem vivente no plano extrafísico.

    A filosofia que Kardec desenvolveu foi discursiva-racional, não considerando a intuição como uma fonte autônoma de conhecimento. Embora reconhecendo a totalidade emocional, volitiva e cognitiva do Espírito, não poderia deixar de cingir-se à razão como juíza do saber. Não nega a intuição como uma das formas de apreensão da realidade. Todavia, “toda intuição tem que legitimar-se perante o tribunal da razão”.

    Embora seguindo, sob certos aspectos, um esquema muito ligado às preocupações teológicas, Kardec manteve-se numa linha de equilíbrio racional, definindo, por fim, o Espiritismo como filosofia moral, com o que se libertou das amarras de uma teologia. A reflexão sobre a reencarnação, como instrumento de desenvolvimento das potências do Espírito, define a filosofia espírita, em oposição à teologia.

    Na verdade, o esquema kardecista seguiu, em linhas gerais, a própria estrutura do pensamento filosófico da época. Foi a partir do século 19 que as ciências se libertaram definitivamente da filosofia, mudando esta seu campo de atividade e atuação formal.

    O didatismo de Kardec não prejudica a sua obra, nem lhe descaracteriza a fundamentação filosófica. Exprime, apenas, uma face da capacidade de comunicação própria do autor, cujo estilo sem adjetivação excessiva, o torna objetivo, desprendido de palavras e formulações tortuosas. Deve-se ter em mente que o professor Rivail mostrou em sua obra — cerca de 21 volumes — um poder de objetividade, de concisão ainda não suficientemente estudado, antecipando-se aos progressos da linguagem atuais tanto da informática, quanto da linguística. O fato de escrever numa linguagem direta, limpa, inova mais uma vez, enriquecendo o conteúdo filosófico.

    Se acompanharmos o pensamento kardecista, não apenas nos livros fundamentais, mas ao longo das edições da “Revista Espírita”, haveremos de reconhecer a posição de Kardec como homem prático, jornalista, administrador, pesquisador, orador, líder, polemista, es¬critor, o que naturalmente não lhe poupava tempo para elucubrações excessivamente teóricas. No espaço de apenas 14 anos escreveu mais de 20 livros, incluindo as edições da “Revista Espírita”, que redigiu sozinho e desenvolveu uma atividade realmente exaustiva. Realizou, todavia, uma teorização sobre os fatos, de modo que não se perdessem os resultados das pesquisas e das observações.

    Flammarion chamou-lhe de “Bom Senso Encarnado”, mas negou-lhe o caráter de cientista. Todavia, com o desenvolvimento das ciências humanas, já não se pode negar a Kardec, também, esse título porque realizou, como Bozzano, embora em menor escala, é verdade, um árduo trabalho de pesquisa, observações pes¬soais e coleta de dados. Com todo esse material, deduziu um conjunto de ideias e fundamentos. Foi filósofo do real, da ação, da prática, apoiando-se em dados experimentais. Deduziu sobre os fundamentos morais do universo — refletindo sobre a natureza do homem, suas dimensões físico-espirituais, o processo evolutivo a que está submetido, sua imortalidade e seu destino. Especulou sobre o absoluto, Deus, como centro de interesse e equilíbrio do Universo.

    Mesmo nos livros que numa falsa visão cultural são chamado de “religiosos”, manteve essa postura filosófica. Tanto no “Evangelho Segundo o Espiritismo”, como no “O Céu e o Inferno”, que abordam temas da teologia, comportou-se de maneira coerente com sua visão filosófica e é sob este ângulo que examina, tanto a contribuição de Jesus de Nazaré, que libera dos aspectos místicos, para concentrar-se no conteúdo moral de seu ensino, quanto os aspectos da Jus¬tiça Divina, em “O Céu e o Inferno”.

    III

    Se Allan Kardec estruturou a Doutrina Espírita como uma filosofia moral, porque, contraditoriamente, adotou o tema “Fé raciocinada”? Se, como ele repetidas vezes afirmou, o Espiritismo é uma doutrina positiva, repudiando todo o misticismo, qual o motivo que o teria levado a mencionar a fé como uma condição importante para o homem?

    Mostramos que a estrutura filosófica do Espiritismo é discursiva-racional e que abrange tanto uma concepção do ser, como uma concepção do universo e, mais ainda, projeta-se como uma práxis, atuando no mundo para modificá-lo. Trata-se como se vê, de tentativa para sintetizar a angústia humana, convergindo, inevitavelmente, para o campo moral. Ora, as religiões sempre se colocaram como guardiãs da moralidade, embora, quase sempre, decaindo para um moralismo. Kardec não podia negligenciar o fato de que a moralidade é a meta principal do Espiritismo — embora enfocada sob uma visão libertadora. Daí o ter afirmado que o Espiritismo é forte por tocar os pontos principais das religiões: Deus, o espírito e as penas futuras. Chegou mesmo a tentar colocar o Espiritismo como o elo, a aliança entre a ciência e a religião.

    E aí se situa a sabedoria da proposta espírita. Não é uma postura inflexível porque é progressiva e isso lhe garante a mobilidade, abrindo-se para compreender as múltiplas formas de expressão do Espírito em sua caminhada evolutiva. E, nessa caminhada, a religião tem sido um fator marcante, embora nem sempre positivo, ao contrário, o que levou Kardec a lamentar que “infelizmente as religiões hão sido sempre instrumentos de do¬minação” (“A Gênese”, cap. I, item 8).

    No domínio da fé, temos uma atitude específica do Espírito. Ela é intuitiva, é a apreensão da totalidade, a germinação da certeza interna, surgida da vivência, dos valores. David Hume, filósofo inglês, definiu-a dessa forma: “a fé é muito mais um ato da parte afetiva de nossa natureza do que de sua parte pensante”.

    Ao postular a “fé raciocinada”, Kardec inseria um paradoxo, considerando as bases da filosofia espírita, chamando-nos à reflexão. Definindo essa contradição, Kardec afirma: “fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da humanidade” (“O Evangelho Segundo o Espiritismo”, tradução de Guillon Ribeiro - FEB). Quer dizer, ele afirma que a inabalavidade da fé depende da razão, ou seja, que a apreensão intuitiva da totalidade, como uma certeza interna, pode ser falsa, incorrer em erro de interpretação, se não passar pelo crivo da razão. Dessa atitude surge uma nova fé que seria motivadora, totalizadora, porque submetida ao juízo racional.

    Dentro dessa perspectiva, o Espiritismo se propõe a aliar a ciência e a religião, mas, todavia, não se reduz nem a uma nem a outra, mas transcende-as. Dialeticamente, aceitando a ciência e a religião como posições reais no conhecimento e vivência humanas, o Espiritismo procura transformá-las. De um lado, sendo ciência do Espírito, completa a ciência convencional cujo objeto é o conhecimento do meio físico como o único concreto e possível. De outro, destruindo o sobrenatural em que a religião se assenta, liberta o homem de um conceito estreito e falacioso da vida, propondo-se como filosofia moral, onde os con¬ceitos morais coexistem com a racionalidade e desataviados dos prejuízos do culto.

    Kardec rejeitou o fato de que o ho¬mem crer em Deus e orar se caracterizasse como um ato místico. Ao contrário, afirmou ser uma atitude positiva, decorrente da abertura que o Espiritismo, filosoficamente, promove. Logo, a fé que Kardec aborda é, sobretudo, saber, crença baseada na razão. E se estrutura como uma nova postura do homem perante a vida, pois que não nega o impulso da experiência interna na apreensão da totalidade, mas indica o caminho da crítica e da atividade construtiva, para que a fé não continue sendo contemplação e alienação místicas.

    IV

    Sendo o Espiritismo uma nova visão do homem e do mundo, caracteriza-se como um pensar filosófico, como uma filosofia estruturada na pesquisa do conhecimento, do ser e do universo. Tendo base experimental, seu filosofar é existencial, atua no mundo para modificá-lo. O pensamento kardecista — isto é, espírita — apresenta-se como um sistema de ideias claramente definido e eficien¬temente deduzido. Essa afirmativa nos leva à conclusão de que o professor Hipollyte Léon Denizard Rivail — Allan Kardec — pode ser conceituado como um autêntico filósofo, na lídima acepção do termo.

    Observação: No tocante às definições de filosofia, usamos expressões do livro “Teoria do Conhecimento”, do professor Johannes Hessen, 3a ediçã.o - Armênio Amado Editor, Coimbra - Portugal.

    Fonte: revista “A Reencarnação”, n º 401 - Ano L - outubro de 1984, órgão de divulgação da Federação Espírita do Rio Grande do Sul.

    Jaci Regis (1932-2010), psicólogo, jornalista, economista e escritor espírita, foi o fundador e presidente do Instituto Cultural Kardecista de Santos (ICKS), idealizador do Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), fundador e editor do jornal de cultura espírita “Abertura” e autor dos livros “Amor, Casamento & Família”, “Comportamento Espírita”, “Uma Nova Visão do Homem e do Mundo”, “A Delicada Questão do Sexo e do Amor”, “Novo Pensar - Deus, Homem e Mundo”, dentre outros

    domingo, 20 de maio de 2012

    A Doutrina Espírita e as Transformações Sociais

  •  Maria Solange Guarino Tavares no PENSE

  • Objetivo:
    O objetivo deste trabalho é a discussão da participação da Doutrina Espírita nas Transformações Sociais, com os estudos de Allan Kardec, na França., ou seja a interação entre o social e o espiritual.

    Etimologia:
    Sociologia é um vocábulo composto:
    – da palavra latina societas (sociedade, socius = companheiro) e
    – da palavra grega logos (estudo, ciência).
    A Sociologia é, então, a ciência da sociedade ou da associação ou do companheirismo.
    Assim, a Sociologia é o estudo científico das formas fundamentais da convivência humana, ou ainda segundo, Santos, T M dos, citado por GREGÓRIO, em seu Manual de Sociologia, Sociologia é:
    – a ciência que tem por objeto o estudo dos fatos sociais;
    – um grande complexo de relações humanas ou;
    – um sistema de interação.

    O objeto da Sociologia é estudo dos fatos sociais, considerando-se como fato social:
    "O fato social são todas as formas de associações humanas e as maneiras de agir, sentir, e pensar, padronizadas e socialmente sancionadas; ou em uma palavra, os modos de ser, sentir, pensar e agir comuns aos grupos sociais".

    A Sociologia limita-se a estudar os fatos sociais tais como são e inteirar-se de como é a sociedade e não se propõe de como deve ser. Em síntese mostra o que é a sociedade e não como deve ser.

    Histórico:
    O homem é um animal social e a sociedade está em constante transformação que embora ocorram muito rapidamente, é possível historicamente registrar-se historicamente grandes mudanças sociais que marcaram época.

    Os períodos de transformações mais marcantes estão relacionados com as grandes descobertas ou com as revoluções nos paradigmas vigentes.

    A revolução tecnológica e industrial se iniciou com o domínio do fogo e das técnicas de agricultura, causando as primeiras grandes renovações no comportamento social do ser humano. A agricultura fixou o homem em pontos estratégicos, garantindo uma subsistência mais duradoura. Ao desfrutar de interesses comuns, ele se organizou socialmente e passou a defender com mais empenho o seu território.

    As descobertas de imprensa, da máquina a vapor, do motor a combustão, do rádio, do cinema, do telefone, da televisão, do computador entre outras provocaram transformações vultosas exigindo novas sistemáticas de organização para o trabalho e para a hierarquia da sociedade. Essas conquistas instrumentalizaram o homem, permitindo que ele multiplique sua força, amplie sua velocidade, economize seu tempo, difunda suas ideias, divulgue seus costumes, e enfim, concretize seus sonhos.

    A revolução dos paradigmas científicos ocorreu em épocas diversas, repercutiu também no comportamento e nos costumes das sociedades humanas. Tanto na Antiguidade Clássica quanto na Idade Média as relações sociais não chegavam a apresentar um "problema" a ser investigado. Além do mais o deve ser prevalecia sobre o que é.

    O surgimento da Sociologia só foi possível como resposta aos abalos provocados pela Revolução Industrial, pelas novas condições de existência por ela criadas.

    Num espaço de 150 anos, ou seja, de Copérnico a Newton, a ciência passou por notável progresso, mudando até mesmo a localização do planeta Terra no cosmo. Assim, as contribuições dos pensadores para a mudança do deve ser para o que é foram:
    – Nicolau Copérnico (1473-1543) desloca o centro da terra para o Sol.
    – Francis Bacon (1561-1626) diz que a teologia deve ceder lugar à dúvida metódica. Para ele a observação e a experiência ampliariam infinitamente o poder do homem e deveriam ser estendidas e aplicadas ao estudo da sociedade. Quis realizar experimentos a fim de descobrir e formular leis gerais sobre a sociedade.
    – Vico (1668-1744) expressa que o homem produz a própria história. Apoiando-se nesse ponto de vista, afirmava que a sociedade podia ser compreendida porque, ao contrário da natureza, ela constitui obra dos próprios indivíduos.
    – Montesquieu (1689-1755), iluminista, estabeleceu uma série de observações sobre a população, o comércio, a religião, a moral, a família etc. O intuito, ao estudar as instituições de sua época, era demonstrar que elas eram irracionais e injustas, que atentavam contra a natureza dos indivíduos e, nesse sentido, impediam a liberdade do homem.
    – Revolução Francesa (1789-1799) desorganiza o Estado tradicional.
    – Pensadores franceses como Saint-Simon, Comte, Le Play e outros concentrarão suas reflexões sobre a natureza e as consequências da revolução. A tarefa que esses pensadores se propõem é a de racionalizar a nova ordem, encontrando soluções para o estado de "desorganização" então existente. Mas para estabelecer a "ordem e a paz", pois é a esta missão que esses pensadores se entregam, para encontrar um estado de equilíbrio na nova sociedade, seria necessário, segundo eles, conhecer as leis que regem os fatos sociais, instituindo, portanto, uma ciência da sociedade.

    Neste ponto, cabe lembrar que filósofos sociais como Voltaire, Montesquieu, Diderot, Rousseau(1995), Locke, Beccaria, desenvolveram os princípios ético-políticos da organização social democrática, os quais serviram de base para as lutas que deflagram a Revolução Francesa (1789). Sendo esta uma revolução tipicamente de classe na qual a Burguesia soube mobilizar as outras classes sociais (camponeses, proletários urbanos, nobres insatisfeitos, intelectuais etc.) em favor de seus objetivos e com o intuito de derrubar o “Ancien Regime”, a sociedade do arbítrio, dominada pela desigualdade política, pelo despotismo e pela tradição.

    Neste sentido, a experiência social da modernidade, fundada em pressupostos democráticos de igualdade, reciprocidade de direitos e deveres dos cidadãos perante a lei, liberdade econômica para empreender e gerir negócios, possibilidade de desenvolver habilidades técnicas no sentido do progresso individual e social, são desdobramentos político-sociais trazidos pela Revolução Francesa, e que tiveram sua origem nas concepções ideológicas do Iluminismo.

    O pensador Augusto Comte (1798-1857), criador do vocábulo "Sociologia", pretendeu oferecer uma coexistência pacífica entre a ordem dos conservadores e o progresso dos revolucionários.

    A criação da Sociologia tem o objetivo de separar o conhecimento da teologia e da metafísica, dando-lhe um caráter "positivo". O sentido positivo emprestado à nova ciência, fê-la distinto de outras, tais como a Economia, o Direito e a Política.

    Augusto Comte utiliza-se dos métodos já elaborados pelas ciências naturais e constrói comparativamente os fundamentos da Sociologia, estabelecendo leis invariáveis para a sociedade, da mesma forma que a física e a química. Mostra o que é a sociedade (ciência) e não o que deve ser (filosofia) e deu ênfase ao estado positivo, mas criou o religioso, obedecendo a hierarquia católica, com a diferença de que os seus deuses são os homens célebres que se foram, tais como Sócrates, Platão, César etc.

    São esse os Estados:
    – Teológico ou Fetichista, em que se nota a adoração de totens;
    – Metafísico ou Racional, em que a inteligência já pode tentar a especulação sobre as primeiras causas;
    – Científico ou Positivo, em que não se necessita de forças sobrenaturais, nem de deuses nem de anjos, porque dispõe de recursos para compreender a natureza.

    O Espiritismo de Allan Kardec aceita os três estados citados, mas nos diz que eles coexistem, inclusive, numa comunidade cientifica. Amplia a visão do fato social quando o inter-relaciona com a mediunidade.

    Enquanto para a Sociologia o "fato social" diz respeito ao presente (ela não cogita de Deus nem de Espíritos), para o Espiritismo ele tem uma dimensão cósmica, ou seja, há um entrelaçamento entre o aqui e o agora com o ontem e o amanhã, pois tudo se encadeia na natureza.

    A Sociologia observa, formula hipóteses, experimenta e tira conclusões dos fatos sociais. Não tem a incumbência de emitir juízos de valor. Diz-nos como são os fatos sociais e não como devem ser.

    A atualidade cultural representa um grande desafio à compreensão histórica e social de uma época. Afinal, trata-se da tentativa de “decifrar” os caminhos sociais e as tendências culturais de um período histórico, que em boa medida, é organizado no seu contexto de espaço e tempo. Tal empreendimento de estudo, diz respeito à necessidade de compreendermos o “momento histórico” em que vivemos e as diferentes modalidades de organização da vida nos mundos sociais contemporâneos ao nosso.

    Neste sentido, o contemporâneo é sempre plural, porquanto as tendências culturais de uma sociedade não se repetem necessariamente noutro contexto, podendo inclusive a pluralidade significar diferentes ritmos históricos, econômicos, sociais, comportamentais e éticos. Pode parecer estranho falar de atualidades culturais em termos de tendências plurais, sobretudo nestes tempos de globalização econômica e comunicacional.

    A questão da cultura contemporânea é uma preocupação generalizada da humanidade que experimenta o impacto das mudanças econômicas, tecnológicas, políticas e sociais. E não pode ser menos relevante para nós, espíritas, sobretudo quando consideramos que Allan Kardec, ao organizar o sistema teórico-metodológico do Espiritismo no século 19, manteve um diálogo cultural intenso com as principais tendências filosóficas e científicas do seu tempo, bem como propôs que o Espiritismo “lançasse luz sobre todas as questões da economia social”.

    Kardec em “O Que é o Espiritismo” e na “Revista Espírita” analisou inúmeros problemas filosóficos do seu tempo e esclareceu questões práticas, sociais, buscando apresentar a “Solução de alguns problemas com auxílio da Doutrina Espírita”. (O Que é o Espiritismo, cap.III, Allan Kardec), segundo SOUZA.

    As formas de organização do mundo social contemporâneo e as práticas culturais do nosso tempo têm sido definidas de muitas maneiras: pós-modernidade, sociedades-em-rede, sociedade pós-industrial, sociedade da informação e do conhecimento, sociedades de consumo, sendo que tais denominações foram elaboradas no contexto das mudanças porque passa o mundo na globalização.

    É possível identificar, no contexto da globalização econômica, o esvaziamento político-social de algumas categorias tipicamente modernas: o “estado-nação”, que enfraquecido, perde em controle econômico e fonte social de identidades coletivas; a crise da ciência moderna, enquanto razão universal, face à diversidade de tradições culturais não-ocidentais; o deslocamento do eixo da economia industrial para o âmbito da “informação”. O que se observa é um esforço dos cientistas sociais e historiadores em compreender as consequências políticas, culturais e éticas da formação de uma sociedade mundial.

    A cultura contemporânea em sua complexidade é simultaneamente tecnocientífica e mística, global e local, tecnológica e tradicional, democrática e fundamentalista, racional e dogmática. Assim sendo, ela reflete as novas maneiras de “organizar os mundos sociais” os quais estão ideologicamente fragmentados, esteticamente plurais, voltados ao espírito de “seita” em desfavor da “religião oficial”, economicamente integrados, interligados pelo regime tecnológico da comunicação em redes, com a hegemonia crescente da cultura de consumo e finalmente vivendo a crise de valores da atualidade: a perda das referências nacionais, ideológicas, religiosas, filosóficas, políticas e éticas do nosso tempo. Nestas rápidas considerações, temos algumas características do cenário cultural contemporâneo.

    Na nossa época, a sociedade em que vivemos, continua sendo influenciada pelos ideais iluministas:
    – o sentido social de pertencimento,
    – as identidades culturais que partilhamos com os demais membros da comunidade, ainda são constituídas por influência da nacionalidade que nos abriga;
    – a imprensa, tornada possível pela reprodução tipográfica de Gutenberg, foi a principal responsável pela criação da “esfera pública burguesa”, este espaço democrático de livre intercâmbio de informações e troca de mercadorias;
    – o mercado e o comportamento econômico típicos da sociedade mundial, expansionista, integrada, interdependente, hegemônica, são aspectos que tem origem nos ideais do Pensamento Iluminista;
    – a crise do pensamento religioso, sua precária legitimidade nas modernas sociedades de consumo, remete ao processo de racionalização da vida social promovido pela ciência e técnica modernas;
    – a necessidade política da divisão, autonomia e equilíbrio dos três poderes (legislativo, executivo e judiciário) como fator de manutenção do regime democrático, faz-nos voltar às páginas de “L’Esprit des Lois” do Barão de Montesquieu, este precursor iluminista da ciência política contemporânea;
    – o caráter secular do pensamento (a laicização da cultura), segundo os Iluministas, uma etapa necessária ao progresso da humanidade; finalmente,
    – a descoberta da “razão histórica” (“leis da história” que controlam o devenir) que nos levaria ao desenvolvimento econômico, social, político e individual, à plena realização da “natureza humana”, da sua racionalidade, do seu progresso intelectual.

    Pelo visto, a influência do Iluminismo sobre o mundo contemporâneo pode ser encontrada nos vários domínios da vida social. Nós, os cidadãos das sociedades democráticas, com seus parlamentos, seu estado de direito, sua economia de mercado, com o incrível avanço tecnológico que logramos, somos herdeiros dos chamados filósofos das luzes.

    Se por um lado é possível associar a herança cultural do Iluminismo ao progresso econômico e social, às liberdades políticas e conquistas democráticas, ao estado de direito, às luzes da razão e da técnica, ao declínio da concepção medieval do mundo (geocêntrica, teocêntrica, clerical, arbitrária), por outro lado, é necessário reconhecer o caráter secular (“desencantamento do mundo” - universo como máquina) da herança intelectual do Iluminismo.

    Em outras palavras, a racionalização da visão de mundo europeia que surge com o trabalho intelectual de iluministas como René Descartes, Francis Bacon, Galileu, Kepler, Newton, promoveu uma cultura baseada na “secularização da consciência”, na “geometrização do espaço” e no “mecanicismo científico”. Estes aspectos da herança iluminista refletem o rompimento com a Ideologia religiosa dominante e, por decorrência, a formação daquilo que foi celebrizado e mitificado na modernidade como sendo a “autonomia da razão”, as “luzes da razão”, uma concepção mecanicista, materialista e desencantada do mundo, da vida e do universo.

    Trata-se do esvaziamento da alma do mundo, da sua explicação por razões estritamente materiais, onde “a matéria explica a matéria” e o universo é unidimensional. Assim, a ciência moderna esta filha legítima do Iluminismo nasce do trabalho científico de Galileu, da aplicação do cálculo aos fenômenos astronômicos e da física clássica desenvolvida pelo físico inglês Isaac Newton. A partir deste modelo do universo regido por leis matemáticas é estabelecido o “materialismo científico”, a ciência objetivista e linear.

    As principais teorias e concepções científicas do século 19, o positivismo, o evolucionismo, o marxismo, tiveram a marca do legado iluminista, ao mesmo tempo progressista, racionalista e experimental. A imagem do mundo projetada por esta cultura científica não contemplava a possibilidade de qualquer realidade fora do domínio “material”. Ou seja, a “matéria objetiva” era a “única dimensão” que poderia ser explicada através do experimento em laboratório, da verificabilidade racional das causas dos fenômenos naturais, do controle de suas variáveis por meio do cálculo, da comprovação das leis que regem os fenômenos naturais, físicos, biológicos ou sociais.

    Neste contexto do século das luzes, na França onde o Iluminismo assumiu sua feição intelectual mais vigorosa, o Espiritismo é elaborado pelo iluminista-romântico Allan Kardec. No “Caráter da Revelação Espírita”, verdadeiro tratado de epistemologia do Espiritismo, Kardec define que a natureza deste último:
    “É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação. As ciências só fizeram progressos importantes depois que seus estudos se basearam sobre o método experimental; até então, acreditou-se que esse método também só era aplicável à matéria, ao passo que o é também às coisas metafísicas”. (Kardec, 1990:20)

    Pelo que se observa neste trecho do capítulo I do livro “La Genèse, Les Miracles et Les Prédictions Selon le Spiritisme”, publicado em Paris aos 6 de janeiro de 1868, torna-se evidente a herança intelectual Iluminista do Espiritismo.

    Na segunda metade do século 19 — período do trabalho intelectual-espírita de Allan Kardec (1854 a1869) — já era do domínio científico as principais noções, metodologias e conceitos que foram trazidos pelo Iluminismo: a teoria do progresso da natureza humana, a racionalidade e a experimentação como métodos da Ciência, a racionalização da vida social, a noção de leis universais que regem o desenvolvimento da humanidade, o evolucionismo biológico, as noções de contrato social, educação racional, legalismo e estado de direito, justiça social, direitos individuais e outras.

    Conforme visto acima, Allan Kardec não apenas reconhecia o papel fundamental do método positivo no avanço e consolidação da ciência moderna, como também desenvolveu procedimentos para empregar tal método em seus estudos dos fenômenos espíritas. Vivendo à época da ciência positiva, contemporâneo de Augusto Comte, Kardec soube submeter à observação os fatos espíritas objetivos, à comparação, os dados e informações espirituais, aplicar o princípio classificatório na escala espírita, encontrar a causalidade racional dos fenômenos mediúnicos através de estudo rigoroso das suas várias hipóteses de explicação, manter os conceitos espíritas na racionalização lógica e coerente.

    Observando o aspecto metodológico do trabalho investigativo de Allan Kardec, é possível constatar a significativa influência das principais vertentes do pensamento iluminista (racionalismo, experimentalismo, evolucionismo) sobre o Espiritismo.

    Todavia, não apenas no método de elaboração o Espiritismo é herdeiro do pensamento iluminista, o é também em toda a teoria espírita. Em “O Livro dos Espíritos”, obra que contém a formulação da codificação kardeciana resumida em capítulos, encontramos a sua parte terceira dedicada exclusivamente às “Leis Morais”, todas elas concebidas, estudadas, utilizadas e defendidas pelo Iluminismo. Pensadores como Rousseau no seu “O Contrato Social”, Montesquieu em “O Espírito das Leis”, Maquiavel em “O Príncipe”, Descartes em “O Discurso do Método”, Voltaire, Diderot e muitos outros Iluministas escreveram sobre as “Leis históricas do devenir”, Leis da sociedade, Lei do Progresso, de Igualdade, de Liberdade, de Justiça e outras.

    A noção de Leis da História, do desenvolvimento da humanidade, do aperfeiçoamento racional da natureza humana, do progresso da sociedade, foram ideias fundamentais ao pensamento e práxis do movimento intelectual e político das Luzes. A Visão que o Espiritismo proporciona da evolução da humanidade é, neste sentido das leis, iluminista, uma abordagem não teológica do progresso, que rompe com a ideia da suposta intervenção constante e pessoal de Deus na História.

    Ao contrário disso, o Espiritismo assume uma feição naturalista, isto é, concebe a evolução da vida e da humanidade por meio de leis naturais, entre elas a reencarnação e a influência recíproca dos diferentes planos da vida. A Teologia conheceu a sua maior crise na modernidade exatamente porque ignorava as leis naturais, todas elas divinas e progressivamente conhecidas pela humanidade.

    Portanto, o caráter iluminista do Espiritismo aparece no seu método, na sua compreensão da transformação da sociedade através da mudança do nível de consciência e da irresistível força do progresso (moral, social, antropológico), bem como no conhecimento racional das leis espirituais, sua aplicação no campo psicológico, das crenças, dos usos sociais, das instituições e dos valores econômicos, políticos e culturais.

    Em verdade, Allan Kardec, respirando o clima cultural da França do século das luzes, soube transcendê-lo. Trabalhando com um modelo epistemológico que estava à frente de seu tempo, Kardec desenvolveu, no diálogo com os espíritos, uma racionalidade aberta, complexa, integrada, que reunia interpretações filosóficas, dados objetivos da ciência de sua época, relatos etnográficos dos espíritos, empatia espiritual e a vivência de uma consciência religiosa autêntica e profunda.

    Enquanto o modelo da ciência positiva instaurou o império da “razão objetiva”, unidimensional e mecanicista, passando a considerar todo o conhecimento religioso um fóssil do passado, Allan Kardec, no intercâmbio com os “mortos”, descobrira formas de vida e matéria em outras frequências e planos. Deste diálogo com o desconhecido, foi possível desfazer o aparente abismo da transcendência.

    Desta forma, Allan Kardec com sua infidelidade ao paradigma cientificista da sua época, soube construir uma nova ciência, uma nova linguagem, que em muito superou os condicionamentos da ciência newton-cartesiana. Afinal, descrever formas de matéria cujo grau de eterização rompia com a física corpuscular de Newton, em pleno século 19, significou avançar na direção de uma Concepção Quântica do Universo.

    Sendo assim, o Espiritismo é por um lado iluminista, em seu conhecimento racional das leis que regem a evolução bio-psico-sócio-espiritual do gênero humano e por outro, é herdeiro da tradição filosófica do Romantismo, reencantando o mundo com os valores espirituais, com o amor e a fraternidade universais, com o significado profundo de cada nível evolutivo, em cada reencarnação, em cada ser, em toda individualidade, em diferentes esferas e manifestações da vida, na grande teia do universo que não é outra coisa senão o pensamento de Deus.

    O Espiritismo nasceu com a modernidade, no berço cultural da nova civilização industrial e democrática, na França da segunda metade do século 19 e, por consequência, disso traz em sua identidade a marca cultural desse contexto, sua síntese e superação. Graças ao espírito transcendental do pensamento de Kardec, a metodologia original que desenvolveu no estudo dos fenômenos espirituais (análise sintética, interface entre racionalidade e transcendência, verificação experimental e diálogo transcendental com os espíritos, análise dos fatos mediúnicos e interpretação complexa dos fenômenos espirituais em suas múltiplas dimensões), foi possível ao construtor do Espiritismo uma atitude intelectual autônoma face às limitações do materialismo filosófico e científico (Marxismo e Positivismo), ao dogmatismo religioso e a crença tradicionalista na fé cega (cristandade tradicional), SOUZA.

    A busca pelo desenvolvimento, seja dos países capitalistas ou mesmo ditatoriais, consiste em criar um complexo industrial sob o controle do Estado e suas burocracias; mantido pelos verdadeiros intelectuais que auxiliam no desenvolvimento da ciência, tecnologia, produz a literatura, a arte que domina os meios de comunicação.

    Os complexos industriais, estatais e “intelectuais” constituem a força dominante dos países nesse século com a predominância em alguns dos governos, da força estatal e em outros das corporações industriais e até mesmo do aparelho militar.

    Independentemente do rótulo de democracia capitalista ou socialista que detenham, todos buscam expandir seus domínios políticos , econômicos e sociais e com isso explorar sem medidas a natureza, os outros países e os seres humanos com características de expansão e exploração.

    O objetivo do desenvolvimento é o de conseguir um tipo de vida que se convencionou chamar de “boa vida”, que se caracteriza por:
    – eliminar os trabalhos braçais, pesados ou sujos, bem como o caminhar;
    – utilizar: roupas, aparelhos para o conforto extremo, inclusive na presença de alterações climáticas( conforto material );
    – privacidade no sentido de evitar as coisas de uso coletivo, eliminando a diversidade e encorajando os indivíduos a encapsular-se nos grupos iguais, da mesma classe social, profissão, raça, religião e/ou retirar-se em família;
    – amar o diferente, o estrangeiro, ouvir novas ideias, exigir um esforço de tolerância para o qual não se é educado;
    – em relação à segurança utilizar todo um aparato militar, seguro de vida e outros que preservam esse conforto, a privacidade, e o trabalho não braçal de forma a manter-se cada vez mais preservado tudo aquilo que as pessoas conseguiram ou a maioria, sendo a segurança direcionada para a elite ou para a maioria da população relacionada ao enfoque político de cada país e/ou grupo social.

    Foram as estruturas sociais que estabeleceram ao longo da história, através da força e da imposição, o cultivo de metas e valores, os quais estruturam a ideologia dessa mesma sociedade.

    A estrutura ideológica das sociedades do final do século 20, tem por base os seguintes princípios:
    – hierarquia entre os países, os povos e as famílias; aos superiores cabe o domínio, a decisão, a imposição de seus interesses, os quais, irradiam suas determinações para a base ou periferia;
    – progresso pelo crescimento, expansão e exploração leva à crise, conflitos e guerras;
    – conhecimento considerado verdadeiro, é obtido de forma dedutiva, dicotômica e atomística, as coisas são analisadas separadamente;
    – as relações pessoais são verticais e hierárquicas, competitivas e exploratórias;
    – as relações com a natureza são de dominação e exploração.

    O mau desenvolvimento dos países se reflete na sociedade, nos seres humanos, na natureza, nas estruturas comerciais e na sobrevivência.

    Na Sociedade:
    A superprodução, com a mecanização, a informatização e a falta de abastecimento, leva consequentemente ao desemprego, ao trabalho reduzido e à ociosidade. A distribuição é desigual, há injustiça por sexo e idade, os custos recaem sobre os mais pobres.
    As instituições e empresas tendem à centralização, ao aumento, tornando-se setorizadas. Promovem a autoexploração, as pessoas trabalham mais, não participam das decisões, não avaliam os resultados e só executam ordens, além de trabalharem acima da sua capacidade física e mental e, consequentemente, ficam esgotadas e doentes.
    O espectadorismo se reflete no isolamento da juventude e da velhice. As pessoas são mantidas como espectadores no esporte, só assistindo, na arte, vendo, nada para participar, realizar, conviver, ser envolvido.
    Em relação à cultura, a qual domina e é imposta, levando ao desprezo das culturas próprias dos povos indígenas e minorias, isto leva a eliminá-las ou destruí-las.

    Nos Seres Humanos:
    – o corpo: mergulhado no sistema social, trabalhando em serviços desinteressantes, desestimulantes e sem convivência afetiva, desenvolve doenças próprias do sistema como: moléstias cardiovasculares; câncer, enfermidades crônicas, agravadas pela falta de exercícios físicos e alimentação incorreta.
    – a mente: propícia a desordens mentais, suicídios e enfermidades crônicas.
    – o espírito: em consequência da despersonalização imposta pelo trabalho, pela falta de convivência entre as pessoas, especialmente de idades variadas e diferentes grupos sociais, étnicos e culturais, apáticos, com desesperança, refletem a falta de sentido na vida.

    Na Natureza:
    A destruição dos ecossistemas, pela falta de respeito às limitações naturais na busca pelo desenvolvimento, destrói e maltrata a terra, que perde a capacidade de reconstituição e torna a vida consequentemente impossível aos serem que a habitam.

    Nas Estruturas Comerciais Mundiais:
    Considerando que a sociedade deve perpetuar a sua hierarquia e reproduzir o seu sistema de expansão e exploração, mantendo-os, cria-se, através de marketing agressivo, necessidades para os povos dependentes e para o homem em sua individualidade. Ficando o consumidor a serviço da produção, ou seja, com o objetivo de aumentar as suas necessidades para alimentar o sistema. Assim, a ideia de que a produção e o consumo sejam decisivos a partir das necessidades reais das pessoas é uma ideia considerada subversiva, pois levaria a uma gestão econômica de que o máximo das necessidades se fizesse com um mínimo de trabalho, de capital e de recursos naturais.
    Fazer mais e viver melhor com menos, com produtos duráveis que poderão ter por muito tempo, daria ao ser humano possibilidades de se desenvolver como pessoa, ao invés de se preocupar em ter mais coisas e/ou coisas novas, segundo necessidades criadas artificialmente.

    Na Sobrevivência:
    As crises mundiais, segundo o modelo econômico que produzem discrepâncias derivam:
    – da grande produção, sem mercado;
    – da ameaça da competição entre países ou instituições;
    – das guerras de comércio, que fomentam guerras locais com motivos religiosos ou não.

    Propostas de mudanças na resolução de sintomas ou problemas criados pelo desenvolvimento que busca essa “boa vida”, surgem na estrutura social para resolvê-los, mas sem mudar de paradigma, ou seja, mantendo o par: expansão x exploração, reforçando a estrutura e a ideologia.

    As bases para as soluções são tentadas pelos governos socialistas ou capitalistas, com pequenas diferenças quanto à ênfase em um ou outro tipo de solução, que apenas mascaram ou encobrem os problemas.

    O poder tem sido exercido quase sempre de maneira autoritária, centralizadora, subjugando povos inteiros e manipulando a consciência humana, impondo regras para os costumes e os comportamentos sociais.

    Mesmo assim, e apesar disso, o livre-arbítrio e a liberdade individual têm sido o ideal e a esperança desejada por todos os povos e, sempre que essas condições deixaram de ser respeitadas, ultrapassando-se o grau de liberdade, o direito de cada um e as tradições de cada povo, o Homem se aviltou e a suja sociedade sucumbiu.

    Talvez, angustiado pela sua fragilidade e perplexo diante da Natureza que o cerca, o homem desenvolveu um caráter místico e transcendente. Ao criar suas tradições e crenças religiosas, ele estabeleceu regras que disciplinaram a ética e a moral fazendo-o distinguir o comportamento certo do errado e o objeto sagrado do profano.

    Porém, a maioria das religiões que deveriam abrir a mente humana favorecendo as conquistas espirituais para todos, quase sempre, se constituiu em doutrinas sectárias que estabeleceram limites rígidos de liberdade física e psicológica. E, quase todas, criaram um sistema de troca de favores com Deus ou com suas divindades, ignoraram o princípio de igualdade entre os homens perante Deus, estabelecendo um sistema hierárquico entre seus sacerdotes e uma escala de privilégios entre seus seguidores.

    Por isso, ainda hoje, o fanatismo religioso serve de argumento para oprimir e segregar a mulher nos países muçulmanos, para separar em dezenas de grupos o mesmo povo na Índia, ou para guerrear e matar na Palestina.

    Na atualidade, uma transformação social profunda através da religião só ocorrerá quando cada um por si mesmo realizar sua reforma interior. O homem terá que desenvolver sua segurança através da sua autoconfiança. Ele terá que se libertar das amarras culturais e dos preconceitos, de mitos, crendices e dos estigmas sociais. Ele terá que saber que pode aprender de tudo, mas só deverá vivenciar o melhor.

    Ele terá que evoluir por experiência própria e decidir por si mesmo os seus caminhos e as suas companhias. Suas relações com seus semelhantes e com o meio onde respira a vida deverão ser de cordialidade, de cooperação, de parceria solidária uns com os outros.

    Por enquanto, o homem ainda vive e convive com os mesmos costumes primitivos que colocam uns contra os outros, na disputa do poder, na ostentação de valores materiais ou na permissividade de vícios ou paixões sem limites.

    Nas últimas décadas, transformações sociais gigantescas e rápidas ultrapassaram qualquer previsão calculada e atropelaram qualquer controle político ou cultural. Curiosamente, ao lado de ganhos tecnológicos espantosos, o homem atual vive um paradoxo de perdas morais. Dispondo de conhecimentos para alimentar todos os que têm fome, ele se entrega à fartura, aumentando a mortalidade pela obesidade por comer demais. Contando com pílulas para controlar a concepção, ele descontrola a licenciosidade sexual e aumenta o número de adolescentes grávidas. Conhecendo as drogas que sanearam a loucura, esvaziando os hospícios, aumentam os que consomem drogas na rua, exigindo, pela violência, que os que são sadios se tranquem em casa para não morrerem.

    Decodificando o DNA para identificar com precisão a paternidade, desconhecemos qualquer código moral que nos oriente no que fazer com milhares de embriões de proveta, que permanecerão sem pais. Mesmo conhecendo os primores da técnica cirúrgica que embeleza, optamos, muitas vezes, por matar um feto malformado.

    O mesmo “laser” que “opera” na sala de cirurgia, para salvar vidas, é usado para matar nas “operações de guerra”.

    A televisão, que difunde cultura e divertimento, ensina as técnicas para matar, os golpes para roubar, as mentiras para enganar, estimula o sexo sem compromisso e exalta a família dissoluta, desunida, sem raízes e que debocha das tradições.

    O computador hoje está no endereço de todas as casas, a Internet destina a correspondência a todos os cantos da Terra, mas o homem parece que perdeu o endereço da sua consciência, do seu Deus e possivelmente do seu futuro.

    Permanecemos com a mesma fragilidade de antes porque sabemos escrever apenas a estória do nosso ontem. Já desvendamos milhões de anos sobre o nosso comportamento social, na mais remota Antiguidade e nos dias contemporâneos, mas somos incapazes de determinar com certeza como será nosso próximo minuto, e menos ainda o nosso amanhã.

    Resta-nos a esperança de uma nova era de transformações sociais mais profundas, que está para ocorrer com base nos valores transcendentes do ser humano, e com direito a todos de usufruí-la.

    Herculano Pires, em “O Espírito e o Tempo”, diz: “O Espiritismo não é nem pretende ser uma religião social, pelo que não disputa um lugar entre as igrejas e as seitas, mas quer ajudar as religiões a completarem a sua obra de espiritualização do mundo”.

    As mudanças radicais que colaboram para o acelerado avanço das tecnologias provocam e continuam gerando mudanças no perfil das pessoas, pelo estonteante desenvolvimento das mesmas e do acelerado volume de informações a que se tem presenciado.

    A antiga ordem das representações e dos saberes oscila para dar lugar ao imaginário, modos de conhecimento e estilos de regulação social, ainda pouco estabilizados, de uma nova relação com o cosmos, um novo estilo de humanidade inventado, segundo Pierre Lévy, em “As Tecnologias da Inteligência”.

    As tecnologias da informação, certamente, têm uma participação importante no processo de aumento do nível de informação que as pessoas atualmente têm apresentado a algumas décadas, o que pode facilitar o acesso e aumentar o esclarecimento de uma parcela da sociedade sobre certos princípios religiosos que pressupõem a abolição do raciocínio e do livre-arbítrio. O que poderá colaborar para um aprofundamento sobre o Espiritismo, por parte daquele que se dizem espíritas e também atrair outros que têm alguma informação sobre o caráter racional do Espiritismo.

    A sociedade da informação seria uma resposta à dinâmica da própria sociedade, dentro de um enfoque sistêmico, onde a interdisciplinaridade é fundamental.

    Sabe-se que os centros espíritas recebem muitos aflitos, domesticados e assustados com todo esse processo de desenvolvimento e esclarecimento, muitas vezes não coerentes com as formações específicas das religiões no mundo e, principalmente, no Brasil.

    Diante desse “público”, o Espiritismo deve estar preparado para apresentar, através do diálogo, seus princípios verdadeiros, ou melhor, a conduta do verdadeiro espírita: aquele que abraça uma religião em profundidade mas sem ter a garantida da salvação pela obediência, sendo ele responsável pela própria sorte.

    “O atendimento fraterno se caracteriza por aquela recepção que sabe ouvir, entender e encaminhar de forma positiva e sem promessas, ofertando a doutrina do Espiritismo que esclarece e conforta, mas sem obrigar ninguém a seguir esta ou aquela recomendação, decisão essa de foro íntimo de cada um”.

    Para esse atendimento são necessários: Boa vontade; ouvidos para ouvir; conhecimento doutrinário; conhecimento do centro espírita, noções de psicologia, falar apenas quando necessário, incentivando-o a conhecer a doutrina. Aqueles, em sua maioria, cidadãos conscientes que aceitam, em poucas palavras, reconhecer que toda a sua sorte presente é o resultado de suas obras passadas e que a condição de seu futuro, sob as regras do livre-arbítrio, dependem igualmente de suas ações.


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    Fonte: União das Sociedades Espíritas (USE) de Ribeirão Preto-SP. Material de apoio a palestras, coordenado pelo departamento de orientação doutrinária.
    URL: [http://www.userp.org.br/roteiros_2007.asp]

    Maria Solange Guarino Tavares, dirigente da USE de Ribeirão Preto-SP, possui graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado em enfermagem pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professora titular da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro e professora titular da USP.
    E-mail: marciacr@eerp.usp.br

    sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012