sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

CIENTISTAS CONDENAM BIOCOMBUSTÍVEIS, COM UMA EXCEÇÃO: ÁLCOOL DE CANA DO BRASIL

Luiz Carlos Azenha

WASHINGTON - "A destruição de sistemas ecológicos - sejam as florestas tropicais ou as pastagens na América do Sul - não apenas joga gases que causam o efeito estufa na atmosfera quando as terras são queimadas e cultivadas, mas também tira do planeta as esponjas naturais que absorvem as emissões de carbono. As terras plantadas também absorvem muito menos carbono do que as florestas tropicais e mesmo as pastagens que substituem".

Esse é trecho de reportagem de hoje do New York Times anunciando dois estudos que condenam a produção de biocombustíveis. Um deles, publicado na revista Science, tem como um dos principais autores Timothy Searchinger, pesquisador de meio ambiente e economia da universidade de Princeton. O outro estudo é da ong Nature Conservancy.

O que lhes parece? Será que vão pedir o congelamento do plantio de soja no Brasil? O Brasil deve assumir a responsabilidade de ser o pulmão do planeta sem levar nada em troca?

Joseph Fagione, autor de um dos estudos: "O uso de pastagens na agricultura produz 93 vezes a quantidade de gases que seriam eliminados pelo biocombustível resultante do cultivo anual na mesma área de terra."

"Quando você leva em conta o uso da terra, a maior parte dos biocombustíveis que as pessoas usam ou planejam usar levaria provavelmente a um aumento substancial da produção de gases que causam o efeito estufa", disse Searchinger.

Por conta disso, um grupo de ecologistas e biólogos mandou uma carta ao presidente George W. Bush e à presidente do Congresso, a democrata Nancy Pelosi, pedindo mudanças na política federal para uso de biocombustíveis.

Joseph Fargione diz que os agricultores do Meio Oeste americano estão deixando de alternar entre soja e milho. Plantam milho para atender à produção de etanol. Com isso, segundo ele, quem compensa a produção de soja é principalmente o Brasil. "Os fazendeiros brasileiros estão plantando mais soja - e estão derrubando a Amazônia para fazer isso", disse Fargione.

Será?

A União Européia pretende que 5,75% do combustível usado para transporte na Europa até o final deste ano seja biocombustível. A proposta dos Estados Unidos é para 15% até 2022. A Syngenta, aquela empresa suiça acusada no Paraná de bancar milícia envolvida num confronto com os sem-terra, anunciou nesta quinta-feira que seus lucros subiram 75% por causa da demanda por biocombustível, de acordo com o Times.

"O dr. Searchinger disse que a única possível exceção que ele vê agora é a cana-de-açúcar do Brasil, que usa relativamente pouca energia para crescer e já é refinada em combustível. Ele disse que os governos deveriam voltar rapidamente sua atenção para o desenvolvimento de biocombustíveis que não requeiram produção agrícola, como o produzido a partir de restos da agricultura", disse o jornal.

Um hectare de terra gera 8 mil litros de álcool de cana ou 4 mil litros de álcool de milho, segundo a EMBRAPA. Além disso, o álcool de milho só produz 20% a mais que a energia consumida para fabricá-lo. No caso da cana, esse índice é de 700%.

O problema é que o governo dos Estados Unidos subsidia fortemente os produtores de álcool do chamado cinturão do milho, com mais ou menos 20 bilhões de dólares por ano. A importação de álcool de cana é fortemente taxada, em 14 centavos de dólar por litro. Só a Miriam Leitão ainda acredita que os Estados Unidos aplicam a tal "mão invisível do mercado".

A produção de álcool de milho está causando inflação nos Estados Unidos. O preço do milho subiu e, com isso, o da ração, o dos ovos... Não é o comunista Fidel Castro que diz, embora ele tenha sido o primeiro a dar o alerta. São as pesquisas de preços. Alguma chance da tarifa sobre o álcool brasileiro cair? Em ano eleitoral, nenhuma. Só a revolta dos agricultores de Ohio já custaria a derrota de um candidato, republicano ou democrata.

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