segunda-feira, 4 de abril de 2011

Quando a gente se defende, negocia melhor



Brizola Neto no TIJOLACO

]Muito interessante a matéria de capa da Folha, hoje, dando conta de que os chineses querem fazer grandes investimentos em plantações de soja no Brasil. Embora a monocultura da soja tenha lá seus problemas, não há dúvida de que a estratégia usada agora pelo chineses é muito melhor do que a vinha ensaiando meses atrás.
A intenção era, como já fizeram em outros países, comprar terra e produzir diretamente. Agora, mudou: querem investir em estruturas de armazenamento, beneficiamento e exportação, mas através de acordos com produtores brasileiros.
A demanda por alimentos e insumos para rações animais cresce vertiginosamente na China, junto com a elevação do poder de compra de sua imensa população. De exportadores agrícolas, os chineses passam rapidamente à condição de importadores: mais de 70% da soja que consomem vem de fora, o milho que produzem já não é suficiente e a carne suína – da qual são o maior mercado mundial – vai seguindo o mesmo caminho, apesar de sua gigantesca produção própria de 50 milhões de toneladas. Mesmo importando apenas 1% do seu consumo, eles já são o quinto maior importador mundial.
Como sabem que essa dependência será inevitável, a China avanç, com suas empresas estatais e semi-estatais,  para criar plataformas de importação sólidas, menos sujeitas às flutuações dos preços das commodities e à ação dos intermediários.  Eles, claro, querem se defender.
O Brasil, ao contrário, durante muito tempo achou – e boa parte de seu empresariado segue achando – que bom negócio é abrir o país e vender tudo que for possível, inclusive a terra.
Entre 2002 e 2008, nada menos que 30% do investimento estrangeiro no Brasil foi destinado à compra de terras e à agroindústria, segundo publicou o jornal Valor Econômico.
Aprovamos, na legislatura passada, restrições à compra de terras, sobretudo na Amazônia. O projeto ainda carece de votação no Senado, mas já levou,como se vê, a uma mudança de postura dos chineses, que passaram a querer acordos em lugar de propriedade.
Quando não se pratica a submissão, o bom negócio é bom para ambos e os acordos podem ter fórmulas para garantir o agricultor brasileiro contra o monopólio de compra e proteger o país com a realização aqui do beneficiamento de parte da produção. E, também, para que o gigante asiático assuma compromissos de compras de outros produtos, de maior valor agregado, em relação aos quais impõem enormes restrições. O que não se pode fazer é deixar que só o “mercado” regule estes acordos, para que não se repita o desastre que ocorre, por exemplo, com a produção de laranja, cartelizada por quatro ou cinco empresas que beneficiam e exportam o suco.
A China está na dela, querendo fazer os melhores negócios para si própria. E o Brasil tem sido, para ela, um verdadeiro “negócio da China”, pela falta de proteção que temos em relação aos nossos interesses. Os chineses não são bestas, que o digam as empresas brasileiras que vão se intalar lá e que têm de moldar seus negócios às condições que eles impõem para que atendam aos interesses chineses.
Nós, aqui, passamos anos e anos glorificando e nos oferecendo para a entrada indiscriminada de capitais do exterior e ainda financiamos a aquisição de nosso patrimônio.
Agora, precisamos aprender anos defender. Não se trata, de forma alguma, de rechaçar investimentos estrangeiros no Brasil. Trata-se de deixarmos de ser os “otários”, que vendem produtos primários e ainda vão – como foi a Vale de Agnelli – gastar o dinheiro da exportação de nossas riquezas naturais encomendando os caros navios de aço feitos com o nosso ferro barato.

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