terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O exemplo de Rosário do Sul...

A garota é da RBS. As contas, da Prefeitura

Bibiano Girard*, especial para o Jornalismo B

Na edição de quinta-feira passada do Jornal Gazeta de Rosário, que circula pela cidade da região da Campanha do Rio Grande do Sul, uma manchete chamou mais atenção: “Sem Garota Verão por questões financeiras”. Nela, a secretária de Turismo, Andrea Ribeiro, apresentava à comunidade os motivos pela “quebra de contrato” da prefeitura com o Grupo RBS para a realização da fase regional do concurso de beleza promovido pelo canal, o Garota Verão.
Não bastasse a RBS abocanhar gigantescos faturamentos em publicidade do governo, ou seja, com impostos nossos, o grupo ainda se utiliza de uma prática de barganha com pequenos municípios, como é o caso de Rosário do Sul. Apontado pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), entre 5.226 cidades brasileiras pesquisadas, como o município com pior desempenho fiscal no Rio Grande do Sul, a cidade, até dois anos atrás, mantinha um gasto exorbitante nos meses de verão com a confecção do concurso difundido pela RBS.
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A incoerência de um canal de televisão, abalizado pelo Grupo, ultrapassa o senso do jogo limpo de mercado. Em 2009, convocada pelo procurador do Ministério Público Pedro Antônio Roso, uma audiência escancarou o óbvio: no papel, o grupo diz ter dois canais de TV por CNPJ. Na prática, são 12 os CNPJ que transmitem o mesmo conteúdo. E esse poder todo é utilizado como propaganda de autorreferência, o que traz receita. É uma vulgar propaganda e é convidativa a políticos e a prefeituras alucinadas por espetacularizar.
Há de se comentar o bom exercício da secretaria de turismo de Rosário do Sul, Andrea Ribeiro: a secretária deixou muito claro, na entrevista ao jornal local, os motivos pela escolha sensata e socialmente inteligente pela quebra com a RBS. Os motivos são gritantes e parecem ser os mais claros para receber apoio popular. “O valor pago pelo município na Fase Regional seria de R$ 60 mil”. A prefeitura decidiu gastar o valor em esporte.
É só passar na Praia das Areias Brancas, bairro do município à beira do Rio Santa Maria, para compensar a dúvida: entre sexta e domingo, jogos movimentaram o bairro, trouxeram real interesse popular na utilização do espaço e não discriminam ninguém colocando poucos sobre palcos, entre câmeras e apresentadores de TV. É só passar na praia e conferir os jogos, com público de todas as idades, esportistas de cidades da região e de Rosário, adultos, jovens e crianças. Na plateia, turistas de fora e comércio popular aquecido.
“A prefeitura sugeriu que gastar isso em um evento de apenas um dia seria desnecessário”. Segundo a reportagem, Andrea afirmou o que, para mim, chegou a assustar: “R$ 60 mil era apenas o valor prefixado e os gastos excediam esse preço”. Agora vem a parte bruta: “esperávamos a RBS com toda a estrutura de palco, som, luz e coquetel (privativo), que possuía um valor elevado. Em caso da candidata ser selecionada, a Secretaria a acompanhava em todas as fases do concurso, chegando a gastos de mais de R$ 100 mil. Resolvemos levar esse valor para outros fins, como o esporte.” A questão que fica é a seguinte: no final das contas, quem ganhava com a audiência? Prefeituras pagam o custo. É banal e vergonhoso.
Podemos dizer que a RBS não obriga ninguém a promover o concurso, muito menos seria uma política da empresa forçar prefeituras a apostarem em seu concurso. Ledo engano, é aí que mora a ironia dos monopólios: se a RBS monta um aparato gigantesco de autopublicidade e autorreferencialidade nos meses de verão para vender seu concurso, o espaço de publicidade às cidades é chamativo. Resta o bom senso, como da secretária de Rosário, que prezou por elevar o número de atividades esportiva e culturais na praia – para todos.
Se a cidade investe mais de R$ 100 mil para aparecer na TV através do concurso, logo, nossos impostos, somados os 100 mil, viram nada mais nada menos do que patrocínio à empresa. Se é valor economizado pelo Grupo, e mesmo assim sua audiência se mantém sobre o espetáculo criado, não deixa de ser patrocínio. Pago por nós. E dos gordos. Se não cabe (?) questionarmos a empresa pela prática, que se utiliza de leis sujas do mercado percebidas como naturais, a crítica e o questionamento de nós, cidadãos, deve se encaminhar às prefeituras, que devem priorizar o interesse público: é num concurso de beleza que queremos utilizar R$ 100 mil reais de nossos impostos? É para patrocinar um programa de televisão de um dia na rede de televisão mais rica do sul do país que pagamos estes impostos? Precisamos discutir nossa carga tributária, sim. Mas junto, deve estar nossa discussão mais banal: para onde queremos direcionar nosso caixa? É cargo da população dizer que suas prioridades não são uma faixa, uma mulher de biquíni e um buquê de flores.

*Jornalista, redator da revista o Viés.

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