sexta-feira, 3 de julho de 2009

Sobre o Irã...

Irã: será que o gato vai cair do precipício?




Escrito por Slavoj Zizek

Quando um regime autoritário se aproxima da sua crise final, sua dissolução normalmente segue dois passos. Antes do seu colapso real, acontece uma misteriosa ruptura: subitamente as pessoas sabem que o jogo acabou, deixam simplesmente de ter medo. Não é só que o regime perde a sua legitimidade; o seu próprio exercício de poder é entendido como uma impotente reação de pânico. Todos nós conhecemos a clássica cena dos desenhos animados: o gato chega à beira do precipício, porém, continua a andar, ignorando o fato de que deixou de existir chão debaixo das suas patas, mas só começa a cair quando olha para baixo e toma consciência do abismo: para cair, ele só tem de se lembrar de olhar para baixo...

Em Xá dos xás, um relato clássico da revolução de Khomeini, Ryszard Kapuscinski localizou o preciso momento da sua ruptura: num cruzamento de Teerã, um único manifestante recusou-se a mexer-se quando um policial lhe ordenou que andasse; embaraçado, o oficial simplesmente foi-se embora. Em poucas horas, toda Teerã soube deste incidente e, apesar de continuarem os combates de rua durante semanas, todos sabiam de alguma forma que o jogo acabara. Está acontecendo algo de semelhante agora?

Há muitas versões para os eventos em Teerã. Alguns vêem nos protestos a culminação de um "movimento de reformas" pró-ocidental, seguindo as características das revoluções ‘laranja’ na Ucrânia, Geórgia etc., uma reação laica à revolução de Khomeini. Apóiam os protestos como o primeiro passo para um Irã secular, liberal-democrático, livre do fundamentalismo muçulmano. São contraditados por céticos que pensam que Ahmadinejad venceu mesmo, que é a voz da maioria, enquanto o apoio a Moussavi vem das classes médias e da sua juventude dourada. Em resumo: deixemos cair as ilusões e enfrentemos o fato de que Ahmadinejad é o presidente que o Irã merece. Depois há os que desvalorizam Moussavi, como membro do regime clerical com diferenças meramente cosméticas em relação a Ahmadinejad: Moussavi também quer continuar o programa de energia atômica, está contra o reconhecimento de Israel e além disso contou com o pleno apoio de Khomeini como primeiro-ministro nos anos da guerra com o Iraque.

Finalmente, os mais tristes de todos são os apoiadores de esquerda de Ahmadinejad: para eles, o que está realmente em causa é a independência iraniana. Ahmadinejad venceu porque ergueu a bandeira da independência do país, expôs a corrupção da elite e usou a riqueza do petróleo para aumentar os rendimentos da maioria pobre - este é, dizem-nos, o verdadeiro Ahmadinejad atrás da imagem dos meios ocidentais de um fanático que nega o Holocausto. De acordo com esta visão, o que realmente está acontecendo hoje no Irã é uma repetição da derrubada de Mossadegh - um golpe financiado pelo Ocidente contra o presidente legítimo. Esta visão ignora fatos: a alta participação eleitoral - de 85%, muito mais que os habituais 55% - só pode ser explicada como voto de protesto. Mas também demonstra a cegueira diante de uma genuína manifestação da vontade popular, assumindo complacentemente que, para os atrasados iranianos, Ahmadinejad é suficientemente bom - eles ainda não estão suficientemente maduros para serem governados por uma esquerda laica.

Opostas como são, todas estas versões lêem os protestos segundo o eixo da linha-dura islâmica versus os reformistas liberais pró-Ocidente, e é por isso que têm tanta dificuldade para localizar Moussavi: ele é um reformador apoiado pelo Ocidente que quer mais liberdade pessoal e economia de mercado ou um membro do establishment clerical cuja eventual vitória não afetaria de qualquer forma séria a natureza do regime? Essas oscilações extremas demonstram que tais visões não conseguem ver a verdadeira natureza destes protestos.

A cor verde adotada pelos apoiadores de Moussavi, os gritos de "Alá akbar!" que ressoam dos telhados de Teerã na escuridão da noite, indicam claramente que os seus protagonistas vêem a sua atividade como uma repetição da revolução de Khomeini de 1979, como um regresso às origens, a reversão da recente corrupção da revolução. Este regresso às origens não é só programático; diz mais respeito ainda ao modo de atividade das multidões: a enfática unidade do povo, a sua abrangente solidariedade, auto-organização criativa, a improvisação das formas de organizar os protestos, a mistura única de espontaneidade e de disciplina, como na impressionante marcha de milhares em completo silêncio. Trata-se de um genuíno levante popular dos ludibriados partidários da revolução de Khomeini.

Há algumas consequências cruciais a retirar desta percepção. Em primeiro lugar, Ahmadinejad não é o herói dos pobres islamistas, mas um genuíno populista corrupto islamo-fascista, uma espécie de Berlusconi, cuja mistura de postura ridícula e rude poder político causa desconforto mesmo entre a maioria dos aiatolás. A sua demagógica distribuição de migalhas aos pobres não nos deveria iludir: atrás dele não estão só os órgãos da repressão policial e um aparelho de Relações Públicas bastante ocidentalizado, mas também uma forte e nova classe rica, resultado da corrupção do regime (a Guarda Revolucionária do Irã não é uma milícia da classe operária, mas uma megacorporação, o mais forte centro de riqueza no país).

Em segundo lugar, deveríamos traçar uma clara diferença entre os dois principais candidatos opostos a Ahmadinejad, Mehdi Karroubi e Moussavi. Karroubi é efetivamente um reformista, propondo basicamente a versão iraniana das políticas de identidade, prometendo favores a todos os grupos particulares. Moussavi é algo inteiramente diferente: o seu nome representa a ressurreição genuína do sonho popular que sustentou a revolução de Khomeini. Mesmo se este sonho era uma utopia, deveríamos reconhecer na genuína utopia a própria revolução. O que isto quer dizer é que a revolução de Khomeini de 1979 não pode ser reduzida a uma tomada de poder da linha-dura islamista, foi muito mais que isso.

Agora é o momento de recordar a incrível efervescência do primeiro ano depois da revolução, com a esfuziante explosão de criatividade social e política, experiências de organização e debates entre os estudantes e o povo comum. O próprio fato de esta explosão ter sido sufocada demonstra que a revolução de Khomeini foi um evento político autêntico, uma abertura momentânea que desencadeou forças desconhecidas de transformação social, um momento em que "tudo parecia possível". O que se seguiu foi um fechamento gradual através da tomada do controle político pelo establishment islâmico. Para usar termos freudianos, o movimento de protestos de hoje é o "regresso dos reprimidos" da revolução de Khomeini.

E, por último, mas não menos importante, o que isto significa é que há um genuíno potencial libertador no Islã - para encontrar um "bom" Islã não é preciso ir ao século X, temo-lo aqui mesmo, na frente dos nossos olhos.

O futuro é incerto - com todas as probabilidades, os que estão no poder vão conter a explosão popular, e o gato não vai cair no precipício, mas voltar a ter chão. Contudo, já não será o mesmo regime, mas apenas um poder autoritário e corrupto no meio de tantos outros. Qualquer que seja o desenlace, é decisivo ter em conta que estamos testemunhando um grande evento emancipatório que não cabe no enquadramento da luta entre liberais pró-ocidentais e fundamentalistas anti-ocidentais. Se o nosso pragmatismo cínico nos fizer perder a capacidade de reconhecer esta dimensão emancipatória, então nós, no Ocidente, estaremos efetivamente entrando numa era pós-democrática, preparando-nos para os nossos próprios Ahmadinejads. Os italianos já têm o seu nome: Berlusconi. Outros esperam na fila.

Slavoj Zizek é sociólogo, filósofo e crítico cultural. Pesquisador da Universidade de Ljubljana (Eslovênia).

Publicado originalmente em Support for the Iranian People 2009.

Tradução de Luis Leiria, editor do site Esquerda.net, de onde o texto foi retirado.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A terra paralela de Yeda Crusius e seus pais omissos (e omitidos)


Quem olha para os últimos movimentos e declarações de Yeda Crusius (PSDB) pode constatar o crescimento exponencial da terra paralela construída pela governadora. Ela reúne todo seu secretariado, com pompa e circunstância, para “comemorar os 30 meses de seu governo”. Fala de um Estado que só existe nas fronteiras fechadas de alguns gabinetes do Palácio Piratini. Logo em seguida, pega seu instrumento voador e viaja a Brasília, onde, segundo ela declara, as flores ajudam a restituir o equilíbrio. Defende a assessora Walna Villarins Meneses das denúncias de envolvimento com desvio de recursos públicos e destaca a transparência que marca seu governo. Ela até criou uma secretaria para mostrar que seu governo preza a transparência e a probidade administrativa.

A primeira secretária, Mercedes Rodrigues, pediu demissão e saiu dizendo que o governo não estava seriamente interessado em uma gestão transparente. O segundo secretário, Carlos Otaviano Brenner de Moraes, está demissionário. Recomendou à governadora a abertura de uma sindicância interna e o afastamento de Walna. Entre outras coisas, a assessora foi flagrada em uma escuta telefônica da Operação Solidária, falando sobre compra de flores (estas que ajudam a restituir o equilíbrio) e operações bancárias. Yeda e Walna gostam muito de flores. Estão plantando várias no Palácio Piratini.

Enquanto isso, no mundo real, o governo se arrasta no dia-a-dia bombardeado por denúncias de corrupção, fraudes em licitações, caixa-dois, três…Enquanto isso, no mundo real, a população é informada que o Rio Grande é o Estado que menos investe em saúde e educação no país. A atividade produtiva do RS registra queda recorde.

Também no mundo real, os pais políticos de Yeda Crusius (PSDB) combinam uma operação dupla, tentam desesperadamente segurar um governo que se esvai a cada dia, barrando a instalação de uma CPI da Corrupção na Assembléia Legislativa. Tentam salvar os próprios dedos, também seriamente chamuscados por denúncias de corrupção. E, ao mesmo tempo, procuram esconder sua responsabilidade pelo atual estado de coisas no Rio Grande do Sul. Esses pais têm nome e sobrenome: Pedro Simon, Eliseu Padilha, Germano Rigotto e José Fogaça são alguns deles. Todos seguem sustentando o arremedo de governo instalado no Piratini, mas cuidam para não serem associados ao mesmo.

Nos últimos anos, construiu-se no Estado algo chamado de “anti-petismo”. Curiosamente, nunca se ouviu falar de um “anti-peemedebismo”. Mas qual é mesmo o legado do PMDB para o Estado do RS? Do governo Britto até hoje, com exceção dos quatros anos do governo Olívio Dutra (PT), o PMDB sempre esteve no poder. Ao contrário do que acontece cotidianamente com o PT, nunca foi cobrado publicamente por suas ações e pelo que deixou para o Estado. Qual é o balanço das privatizações, por exemplo? O Estado avançou ou retrocedeu do ponto de vista de uma agenda de desenvolvimento social? O governo Yeda Crusius representa o ápice de um processo de degeneração política e cultural de um Estado que, segundo alguns, seria o mais politizado do país. Quem é afinal, responsável, pelos constrangedores e vergonhosos dias que estamos vivendo hoje?

Ilustração: Hupper

Golpe em Honduras...

Rádio Globo de Honduras denuncia mordaça golpista



O gerente- proprietário da Rádio Globo de Honduras, Alejandro Villatoro, colocou no site da emissora na internet duas impressionantes denúncias sobre a censura à imprensa a partir do golpe deste domingo (28). Dirigidos "à comunidade internacional, aos organismos internacionais de direitos humanos e à Corte Interamericana de Direitos Humanos", eles falam por si.
A Rádio Globo só conseguiu voltar ao ar "com uma série de condições, entre elas a de manter um perfil baixo". A programação pode ser acompanhada ao vivo – em http://www.radioglobohonduras.com –, para verificar o que significa o "perfil baixo".
Na tarde desta quarta-feira (1º), num programa com participação ao vivo dos ouvintes por telefone, o radialista cortou rapidamente a ligação de um hondurenho que começou a falar nos "golpistas".
O interlocutor seguinte, talvez advertido pelo insucesso do antecessor, preferiu falar em tese: "A burguesia não tem partido, não tem religião, a religião dela é o dinheiro".
O programa, um debate ao vivo, comentou, com as devidas cautelas, as manifestações a favor e contra o presidente Manuel Zelaya – que os hondurenhos costumam chamar simplesmente de Mel. Um dos debatedores observou, seobre o comício dos golpistas, que "essa gente tem muito dinheiro, normalmente manda os seus empregados".
O noticiário dá conta de que, "neste momento, há emissoras de rádio e televisão estão sendo resguardadas por efetivos policiais e militares". Informa também, com voz neutra, que o Parlamento acaba de "instalar o estado de sítio" e "suspender as garantias individuais". "Nós hondurenos estamos limitados no que se refere a comunicações", observa um comentarista.
As mensagens da Rádio Globo, "a emissora que se ouve porque diz a verdade", formam um interessante complemento com Imprensa hondurenha dá aulas de colaboracionismo tacanho, que o Vermelho publicou ontem: mostram o que acontece com quem não se dispõe a aplaudir o golpe. Veja a íntegra:
"À comunidade internacional e aos organismos internacionais de direitos humanos: denunciamos o seguinte:
Que, após os acontecimentos do último domingo, 28 de junho, nossa empresa, Rádio Globo, continua a ser objeto de represálias, inclusive a interrupção temporária de suas transmissões durante várias horas, desligando nossos transmissores. Depois, a rádio foi autorizada a voltar ao ar, mas com uma série de condições, entre elas a de manter um perfil baixo, o que consideramos humilhante e violador da liberdade de expressão. Também tiraram do ar por várias vezes o nosso site, www.radioglobohonduras.com, restaurado por nossos próprios meios.
A mesma situação acontece com redes noticiosas internacionais internacionais como a CNN em espanhol, cujas transmissões foram interrompidas em várias empresas de TV a cabo.
O gerente-proprietário da Rádio Globo, Alejandro Villatoro, deixa aqui o registro público de que as suas instruções aos jornalistas foi de se manterem neutros em todo este conflito, informando objetivamente, apesar ter sido capturado e sequestrado por militares durante várias horas do domingo, apesar de sua condição de deputado, sem ter cometido qualquer delito e em aberta violação de seus direitos constitucionais."
O segundo comunicado é ainda mais rico em informações:
"Senhores da Corte Interamericana de Direitos Humanos, esta mensagem leva afora minhas saudações a seguinte denúncia:
Como gerente da Rádio Globo, denuncio aos senhores que, após as ações de fato que depuseram o presidente Manuel Zelaya Rosales, iniciou-se uma campanha de intimidação contra os meios de comunicação independentes, entre eles esta emissora, que foi submetida a um atentado.
A partir das seis horas da manhã, quando iniciamos nosso trabalho, a sede da rádiol, situada na Avenida Morazan, foi militarizada. Depois de algumas negociações autorizaram nossa entrada.
Começamos nosso labor informativo, dentro dos parâmetros estabelecidos pelas normas legais ecomprometidos com a liberdade de expressão que nossa consciência nos dita.
Várias tentativas foram feitas pelos militares para entrar no edifício onde transmitíamos a Hondurase ao mundo o que realmente acontecia no país. Às seis da tarde, um comando militar, composto por cerca de sessenta elementos do exército, tomou as instalações físicas da rádio e tirou-a do ar. Os companheiros que se encontravam no estabelecimento (Alejandro Villatoro, proprietário, jornalistas Lidieth Diaz, Rony Martinez, operadores Franklin Mejia Villatoro e Orlando) foram objeto de ameaças de morte, espancamentos e intimidações. No caso de Alejandro Villatoro, que é deputado, sua condição não foi respeitada.
No caso de David Romero Ellner existia uma ordem de prisão contra ele, que conseguiu escapar lançando-se do terceiro andar do prédio que abriga a rádio (cerca de 25 metros de altura), quando fraturou uma clavícula e algumas costelas.
Franklin Mejia, operador, que é menor de idade, foi espancado em meio a gritos discriminatórios ('Preto filho de uma... vamos matá-lo, a menos que nos diga de onde estão transmitindo' e outras ofensas à sua condição humana).
Senhores: o objetivo de fundo de todo este ataque foi, e é, calar a única emissora de Honduras que transmitia os eventos tal como ocorreram. Atualmente, após negociações com os militares, a rádio reabriu suas operações porém sob uma série de condições que limitam a liberdade de expressão no país.
No âmbito deste quadro é que usamos para levar aos senhores esta denúncia formal, para que, com a autoridade que têm, procedam imediatamente a uma investigação do caso."
Fonte: http://www.radioglobohonduras.com

Ainda sobre Honduras

Jornalista hondurenho: "A rebelião é generalizada"


O site 5septiembre, do jornal de mesmo nome, de Cienfuegos, sul de Cuba, publicou esta entrevista por internet com o veterano jornalista hondurenho Eduardo Coto. Coto transmite a situação em San Pedro Sula, segunda maior cidade de Honduras (1 milhão de habitantes, no noroeste). Diz que os atores sociais responderam ao golpe "de forma admirável" e "é algo incrível o modo como se criou consciência aqui em Honduras". Veja a íntegra.


Passeata em Tegucigalpa nesta quarta-feira (1º)

O rastro de sua intensa atividade não me deixa mentir: Eduardo Coto, velho jornalista independente hondurenho (um filho de mesmo nome também exerce a profissão), está nas filas da rejeição do golpe desde o domingo, 28 junho, data da quartelada contra o presidente constitucional, Manuel Zelaya.


Desde antes até: na tarde de sábado, Coto e várias centenas de pessoas realizaram uma manifestação em frente à catedral da Igreja São Pedro Apóstolo, em favor da "quarta urna" [consulta ao povo sobre uma Assembléia Constituinte].


Sabe-se o que aconteceu a seguir. Na madrugada de 28, militares mascarados tomaram de assalto a residência do presidente. Este foi sequestrado, de pijama, para Costa Rica, em uma manobra espúria que tentam apresentar ao mundo como um ato legal.


Pouco depois o povo saiu às ruas para protestar contra a usurpação. Desde então, Eduardo Coto permanece em vigília diante da igreja dedicada ao padroeiro da bela cidade hondurenha.


O 5 Setiembre digital contatou-o via internet, apresentando estas perguntas:

Eduardo Coto: A mesma que no resto do país: um estado permanente de rebelião desde o próprio domingo, quando nos demos conta deste golpe, este murro na democracia hondurenha. Estamos em estado de rebelião, como autoriza a nossa Constituição caso exista um governo espúrio como esse encabeçado por Roberto Michelleti, a quem desconhecemos como governante dos hondurenhos.

5septiembre: Como os atores sociais responderam à greve geral convocada pelo movimento pró-volta do presidente Zelaya?

Coto: Admiravelmente. É algo incrível o modo como se criou consciência aqui em Honduras, e graças a esse apelo feito pelo presidente da República, a convocar uma consulta ao povo. Eu pertenço ao partido da oposição, mas creio que em nenhum lugar do mundo se deve proibir, considerar ilegal, uma consulta ao povo.

5septiembre: O que está previsto para a cidade? Existe algum apoio aos movimentos que protestam na capital, Tegucigalpa?


Coto: Como os principais meios de comunicação estão a serviço da oligarquia, da plutocracia hondurenho, só informam o que diz o golpista a partir do Palácio Presidencial afirmou o golpe Michelleti. Aqui nós estávamos desconectados, mas pouco a pouco vamos nos dando conta de que não é só Tegucigalpa, não é só San Pedro Sula. Agora se somam Puerto Cortés, El Paraíso, comunidades no oeste, centro e sul do país. A rebelião é generalizada.

5septiembre: Zelaya anunciou que vai voltar a Tegucigalpa para retomar suas funções. Você conhece algum preparativo para viabilizar o regresso do presidente? Como é que o povo de Honduras recebeu a notícia?


Coto: Bem, o único projeto que existe é recebe-lo com aplausos e os vivas do povo hondurenho, principalmente a classe média, a classe pobre hondurenha, exceluídas pelos setores plutocráticos que hoje têm espaços abertos.


5septiembre: Eduardo, sabemos do seu protesto pacífico e da sua decisão de fazer uma greve de fome. Conte com a solidariedade com o povo de Cuba, especialmente o povo de Cienfuegos, que permanece mobilizado, denunciando o golpe e exigindo o retorno do presidente.


Coto: Veja, dou um admirador dos bravo, heróico povo cubano, desde [José] Martí [poeta e herói da independência de Cuba] e seus contemporâneos até os líderes atuais, que mantiveram acesa a tocha da liberdade. Saudações, compatriotas de Honduras! Saudações, queridos irmãos em Cuba!


Por último, colega uma mensagem para os cerca de 400 estudantes hondurenhos que cursam medicina em Cuba, em Cienfuegos. Para meus queridos compatriotas, um chamamento a que se esforcem. Desvelem-se, sacrifiquem-se, estudem, vocês são o futuro deste país. Sintam-se confortados, pois seus pais, seus amigos, estão aqui com o povo dizendo não ao golpe Roberto Michelleti, o Caim [Coto faz um trocadilho entre o apelido do chefe do golpe, Bain, e o personagem da Bília que teria sido o primeiro assassino da humanidade].


5septiembre: Muito obrigado Eduardo. Cuide-se.


Fonte: http://www.5septiembre.cu



quarta-feira, 1 de julho de 2009

Israel continua expulsando palestinos de Jerusalém



Ramalah (Prensa Latina) O ministro palestino de Obras Públicas e Moradia, Mohammad Ishteiyah, denunciou a "sistemática política" repressiva de Israel na ocupada Jerusalém, apesar da imagem de tolerância que tentou dar na sexta (26) ao mundo na Cisjordânia.

Ishteiyah disse que junto com as muitas detenções de cidadãos palestinos, as autoridades de Tel Aviv os expulsam de seus lares na zona árabe da cidade santa e, também, a maioria das vezes destroem essas construções.
O exemplo mais recente, destacou, é a ordem de demolição de casas na comunidade de Silwan, em El-Bustan.
"Como palestinos estamos enfrentando as perigosas políticas que Israel faz dentro de Jerusalém e denunciamos sua escalada contra a cidade a partir de desfazer dos bairros árabes", apontou.
Assegurou que tais práticas ocorrem como "uma política contínua contra a cidade desde sua ocupação em 1967, em contravenção com a Quarta Convenção de Genebra, de 1949".
Para o governo da Autoridade Nacional Palestina (ANP), que preside Mahmoud Abbas, se trata de um assunto mais político que legal, e não como pretende fazer ver a municipalidade israelense de Jerusalém com as escavações efetuadas em diferentes partes da Cidade Velha.
Entre esses trabalhos mencionou a escavação embaixo da mesquita Al-Aqsa, a ampliação dos assentamentos judeus, a discriminação racial e a limpeza étnica contra os residentes palestinos.
Em sua opinião, trata-se de uma tentativa por "roubar a história da cidade com a substituição de residentes palestinos por colonos israelenses, de nomes árabes de ruas com palavras hebreias, e de substituir tudo, incluída (a mesquita) Al-Aqsa".
Por outra parte, Israel tentou aplacar as pressões internacionais e anunciou na quinta-feira a redução de suas forças de ocupação em quatro cidades cisjordanas com o aparente propósito de dar-lhes maior autonomia, da mesma forma que fizeram antes em outras três.
A segurança das localidades de Qalqilya, Belém, Jericó e Ramalah passou a ser decidida agora pelas forças policiais da ANP, que disporão a forma dos patrulhagens e onde terá homens armados e uniformizados.
No entanto, os militares israelenses manterão o poder de fazer seus habituais batidas para prender palestinos, e continuarão entrando em quatro cidades quando considerem necessário, além de controlar suas vias de acesso, explicaram fontes de Tel Aviv.

Texto: Prensa Latina

Golpe em Honduras

OEA dá prazo de 72 horas para restituição de Zelaya



A OEA (Organização dos Estados Americanos) deu um prazo de três dias para que o governo interino de Honduras devolva o poder ao presidente deposto, Manuel Zelaya, caso contrário, o país poderá ser suspenso do órgão. Após o ultimato da OEA, Zelaya confirmou que regressará ao país no final de semana - provavelmente no sábado - e não amanhã (2), como havia anunciado anteriormente.


Em tom desafiador, Micheletti disse em Tegucigalpa que a única forma do presdente deposto retornar ao cargo será por meio de uma invasão estrangeira. "Ninguém me fará renunciar", declarou Micheletti em entrevista concedida à Associated Press. Ele já havia dito que se Zelaya retornar a Honduras, será preso.

A resolução da OEA, formalmente acertada nas primeiras horas da quarta-feira em uma sessão de emergência na sede da entidade em Washington, condena o golpe e exige "o retorno imediato, em segurança e incondicional do presidente às suas funções constitucionais."

O texto acrescenta que "nenhum governo que surja dessa interrupção inconstitucional será reconhecido." E também pede que o secretário-geral da OEA inicie as gestões diplomáticas para "restaurar a democracia e o estado de direito, e a restituição" do presidente.

Zelaya, que estava na sessão, denunciou o golpe como uma "medida cruel, sangrenta e retrógrada" e ofereceu seus "agradecimentos de coração" aos 34 membros da OEA.
"É a primeira vez que essa organização falou de maneira tão veemente, com tanta convicção, condenando um ato agressivo, onde a força prevaleceu sobre a razão e onde a paz de uma sociedade foi violada", disse.

Ele afirmou que, "como cristão", poderia desculpar os golpistas, mas assegurou que a justiça e a história não os perdoarão.

Após a reunião da OEA, Zelaya afirmou que esperará as 72 horas para "continuar com este processo" e para não entorpecer os esforços diplomáticos para resolver a crise, mas não precisou o dia exato que viajará a Honduras. Horas antes, ele tinha indicado que retornaria a Honduras em companhia do secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, e dos presidentes do Equador, Rafael Correa, e da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner.

Zelaya deve viajar para a posse hoje do presidente eleito do Panamá, Ricardo Martinelli, e continuar apoiando as gestões da OEA.

Miguel Insulza explicou que se o governo interino descumprir o prazo imposto, "não será Honduras que estaremos suspendendo, mas os usurpadores".

O golpe militar que derrubou Zelaya foi amplamente criticado por vários países e organismos internacionais.

Vermelho com agências


terça-feira, 30 de junho de 2009

O verdadeiro ladrão






Milton Temer

Milton Temer
Milton Temer
"Ajuda a bancos em 1 ano supera a para países pobres em 50". Essa é a manchete do artigo do Estadão. O detalhe trágico vinha no trecho de abertura, logo a seguir:

"Relatório divulgado pela ONU aponta que instituições receberam US$ 18 trilhões em ajuda pública no último ano (...)

"Segundo a organização, que promove o cumprimento das metas das Nações Unidas para o combate à pobreza no mundo, os países em desenvolvimento receberam em 49 anos o equivalente a US$ 2 trilhões em doações de países ricos".

Está aí a mais importante notícia econômica da semana que passou, merecedora de apenas colunas discretas de cadernos de economia na grande mídia conservadora, quando deveria produzir a manchete do dia. E não por acaso.Está aí retratada, como fratura exposta, a essência do regime capitalista, da qual essa mídia conservadora é porta-voz subalterna.

Está ai retratada, também, a forma como as crises são espaços importantes para que o grande capital tenha acesso desavergonhado aos recursos estatais em seu interesse privado. Em apenas um ano, os banqueiros predadores, os que se locupletaram nos lucros pantagruélicos obtidos no período de vacas gordas da especulação desenfreada do neoliberalismo, abocanharam, por conta da crise que geraram, quase dez vezes mais recursos dos que o destinado aos paises pobres, em meio século. US$ 18 trilhões, em um ano, contra US$ 2 trilhões em 50 anos, é bom repetir, roubados de políticas públicas indispensáveis, e deficientemente tratadas como é praxe no regime do capital, fixado na transformação de saúde, transporte e educação em mercadoria.

Junte-se a isso a coluna de Paulo Nogueira Batista (globo 27/06/09), nosso representante no FMI e, portanto, insuspeito dos dados que fornece:

"(...) O sistema financeiro se sofisticou de maneira extraordinária. Em parte por preconceitos ideológicos, a regulação e a supervisão não acompanharam.

"O sistema privado passou a funcionar livre e solto, em larga medida isento de controles governamentais.

"Em consequência, criou-se um monstro. O poder econômico e político dos bancos agigantou-se. Governos, parlamentos, imprensa, economistas - todos sofreram a influência avassaladora da turma da bufunfa. Ser banqueiro era o ápice do prestígio e da glória.(...)

"(...)Os governos e bancos centrais vêm socorrendo o setor financeiro de várias maneiras: injetando capital, comprando ativos, realizando operações de empréstimo e garantindo depósitos e outras obrigações. (...) Montante total do apoio ao setor financeiro: 81% do PIB! Para a Alemanha e o Japão, a conta total chegou a 22,2% do PIB, segundo as estimativas do FMI. No Reino Unido, a 81,6% do PIB. Na Suécia, a 69,7% do PIB."

Quanto ao Brasil, nosso representante no FMI registra, o quadro foi realmente bem menos drástico em relação aos bancos. 1,5% do PIB. Registra, mas não explica, porque sua condição de representante do Governo lhe cria óbices. Mas estivesse escrevendo na condição anterior de articulista independente, totalmente discordante do modelo macroeconômico implementado pelo governo que passou a representar no abominável e dispensável FMI, e sua reação teria sido outra. Certamente lembraria dados do Banco Central referentes ao ano anterior à crise, 2007, para mostrar o porquê de o sistema financeiro privado brasileiro, para não ter tido necessidade de entrar na montanha russa da especulação do primeiro mundo.

Ao longo de todo aquele ano, R$ 8 bilhões de reais foram despendidos no atendimento de 11 milhões de famílias (algo em torno de 44 milhões de brasileiros) através do Bolsa-Família. Pois bem; Foi essa mesma quantia que o segundo maior banco privado, em termos de lucro, o Bradesco, publicou em seu balanço de apenas nove primeiros meses. Porque o mais lucrativo, o Itaú, conhecido pela sua atuação predatória na especulação com a dívida pública, e seu comportamento de agiota na concessão de créditos ao capital produtivo, bateu R$ 500 milhões a mais. R$ 8,5 bilhões de lucro em apenas nove meses.

Como conseguem? Simples se lembramos apenas um dado. Com o governo Lula despendendo algo em torno de R$ 160 bilhões anuais no pagamento de indevidos juros de uma sempre crescente dívida pública, não tinham porque pescar em águas turvas. Ficaram se locupletando aqui no rasinho da praia.

Ou seja; se alguém ainda tem pretensões de afirmar que a esquerda deve agir pacientemente com os banqueiros, e com a política macroeconômica do governo Lula, que atente para os fatos. Que não recorra ao "pessimismo da razão" para argumentar contra uma campanha educativa de massas, quanto à necessidade de estatização do sistema financeiro privado. Sem que isto seja considerado um despropositado "otimismo da vontade" mas, sim, necessidade premente e imediata de qualquer processo de radicalização da democracia social em nosso Pais.

Bertold Brect tinha toda razão na dúvida sobre o verdadeiro ladrão; se o que assalta ou se o que funda um banco.


Milton Temer é jornalista e presidente da Fundação Lauro Campos