segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Reeleger Uribe é sacramentar corrupção e impunidade







A Unasul (União das Nações Sul-Americanas) enfrenta um impasse diante da teimosia do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, de ampliar a instalação de bases usamericanas no território de seu país. Os demais presidentes estão contra. Preferem preservar a soberania e a independência da América do Sul.

Por Frei Betto*

Na reunião de Bariloche, em agosto, o presidente Lula bem argumentou: se desde 1952 as tropas estadunidenses não conseguiram erradicar o narcotráfico na Colômbia, por que agora estariam aptas a fazê-lo?

Funcionam na Colômbia três Estados paralelos: a guerrilha das FARC; o narcotráfico; e os grupos paramilitares, criados supostamente para combater os dois primeiros. Desde 1991, cerca de 2.500 sindicalistas foram assassinados naquele país, 500 sob o governo de Uribe. Os paramilitares puxam o gatilho, mas quem os financia são empresas nacionais e transnacionais.

A Coca-Cola sofre processo judicial por ter apelado aos paramilitares para reprimir atividades sindicais, entre 1992 e 2001, que resultaram na morte de sete sindicalistas. A Chiquita Brands, exportadora de banana, admitiu ter financiado o grupo terrorista Autodefesa da Colômbia. A Dyncorp foi acusada de contaminar com substâncias tóxicas lavouras de pequenos agricultores na fronteira entre Colômbia e Equador, visando a erradicação do plantio de coca. Tais fatos têm impedido que o governo dos EUA, empenhado na investigação dessas empresas, realize o grande sonho de Uribe: assinar o tratado de livre comércio entre os dois países.

A empresa Drummond, com sede no Alabama, explora minas de carvão e é acusada de ordenar o assassinato, por mãos de paramilitares, de três dirigentes sindicais. Ela extrai da Colômbia mais de 16 milhões de toneladas de carvão/ano. Seu faturamento anual está calculado em US$ 500 milhões, graças ao trabalho de 3.000 mineiros remunerados a US$ 2,5/hora.

A Justiça de Atlanta acusou a empresa de acobertar os assassinos dos sindicalistas colombianos e condenou a empresa, baseada numa lei de 1789, promulgada para punir ações de pirataria e crimes cometidos fora do território dos EUA. O processo correu sob segredo de Justiça, mas a mídia de Alabama pressionou e, agora, sabe-se que Rafael García, ex-chefe do departamento de informática do DAS (Departamento Administrativo de Segurança), órgão máximo da segurança do Estado colombiano, preso por haver destruído informações sobre os narcotraficantes de seu país, revelou as conexões entre parlamentares e funcionários comprometidos com os paramilitares.

García confessou que pouco antes do assassinato dos sindicalistas presenciou uma reunião entre o presidente da filial colombiana da Drummond e o chefe paramilitar que controlava a região. Viu quando o empresário entregou ao paramilitar US$ 200 mil para assassinar os sindicalistas. Contou ainda que os paramilitares usavam barcos da Drummond para transportar cocaína à Europa e Israel.

Favorecer na Colômbia um terceiro mandato de Uribe é sacramentar a corrupção e a impunidade.

* Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros.

Fonte: Brasil de Fato

domingo, 15 de novembro de 2009

Palestina: Israel faz guerra pela água nos territórios ocupados

Laurent Zecchini - Correio Internacional

A intensidade das reações ao relatório crítico da Anistia Internacional sobre a questão do acesso à água potável nos territórios palestinos ocupados por Israel relembra o quanto a questão da água é estratégica no Oriente Médio.
O estudo, realizado pela organização de defesa dos direitos humanos, e divulgado ao público na terça-feira, 27 de outubro, é um relato preocupante das práticas “discriminatórias” contra a população palestina, impostas pelas autoridades israelenses.
A partilha da água é um assunto político: faz parte das questões ligadas ao “estatuto final” de um futuro acordo de paz israelo-palestino, do mesmo modo que as questões dos refugiados, das fronteiras de um Estado palestino, e de Jerusalém. A Autoridade da Água israelense, que desmente as acusações da Anistia, conclui que há poucas chances de evolução para um acordo com relação ao tema.
O acesso à água, que é submetido ao controle total que Israel exerce sobre os recursos da região, é agravado pela seca aguda que ameaça hoje os lençóis freáticos. A Anistia destaca que o Estado judeu usa mais de 80% de água proveniente das montanhas, limitando o acesso dos palestinos a 20% desta reserva. No entanto, esta é a única fonte de água dos palestinos na Cisjordânia, insiste a Anistia, “enquanto Israel dispõe de várias fontes de provisão de água (Lago de Tiberíades e aqüífero costeiro) e usa toda a água disponível do [Rio] Jordão.” O Estado judeu ocupa o vale do Rio Jordão desde a guerra de 1967, e não concede nenhum acesso às suas margens aos palestinos.
As águas do Jordão são cobiçadas ao mesmo tempo por Israel, Síria, Líbano e Jordânia, resultando em alguns lugares na redução de sua vazão à de um arroio salinizado e contaminado pelos resíduos não tratados, o que agrava a seca preocupante do Mar Morto.
A Anistia destaca que o consumo de água dos palestinos é de apenas 70 litros por pessoa por dia, um nível consideravelmente menor que os 100 litros recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), contrastando com os mais de 300 litros consumidos pelos israelenses.
Em algumas áreas rurais, acrescenta a organização, os palestinos sobrevivem com somente 20 litros por dia. Mais de quarenta anos após a ocupação da Cisjordânia, explica Donatella Rovera, autora do relatório, entre 180 e 200 mil palestinos que vivem em comunidades rurais ainda não têm acesso à água corrente. Esta situação fica ainda mais chocante, insiste ela, com o fato de que os colonos israelenses assentados na Cisjordânia, “violando o direito internacional, recorrem à irrigação intensiva de suas lavouras, e possuem luxuosos jardins e piscinas.”
Esta última afirmação não é muito convincente: os “jardins luxuosos” e as “piscinas” estão longe de ser comuns, e os colonos judeus na Cisjordânia formam um conjunto de indivíduos com grande disparidade nas rendas. “Cerca de 450 mil colonos usam tanto quanto, senão mais água, que o total da população palestina, estimada em 2,3 milhões”, acrescenta a Anistia, que consagra uma parte importante deste relatório à situação na faixa de Gaza, onde a falta d’água é crítica. Nesta porção de território controlado pelo Hamas, o único recurso de água é o aqüífero costeiro, uma vez que Israel não autoriza o envio de água da Cisjordânia para Gaza.
Poderosa ferramenta política
Sobreexplorado e contaminado em mais de 90% por dejetos não tratados, o aqüífero costeiro é fonte de doenças e epidemias. Esta situação é agravada pelo bloqueio imposto por Israel, que proíbe a entrada em Gaza de equipamentos necessários para o conserto e modernização da rede de abastecimento.
O relatório da Anistia relembra que os palestinos não podem cavar novos poços sem obter a autorização expedida pelo exército israelense. Ele também explica como as restrições de acesso à água potável são uma ferramenta política a favor das expulsões. E mostra, enfim, como o “Muro” ou “barreira de segurança”, as cabines de controle [os chamados check-points] e outras barreiras rodoviárias impedem ou retardam o acesso à água na Cisjordânia.
A Autoridade de Águas israelense contestou os dados fornecidos pela Anistia, denunciando não ter sido consultada, mas não refutou a realidade do processo discriminatório pelo qual passam os palestinos.
Se os israelenses consomem “408 litros de água por dia” (a Anistia fala em 300 litros), os palestinos usam 200, afirma a Autoridade, garantindo que o consumo dos israelenses baixou em 70% desde 1967, enquanto o consumo total anual dos palestinos aumentou de 85 para 105 milhões de m3 no mesmo período. A Autoridade de Águas reforça enfim que Israel sempre ofereceu mais água aos Palestinos do que os Acordos de Oslo (1993) lhes garantiam.
Acima dos números, a postura das autoridades israelenses mostra que o acesso à água continua sendo um poderoso instrumento político nas relações israelo-palestinas. É também uma aposta estratégica regional: para amenizar uma falta crescente d’água, Israel pretende voltar a importar este recurso da Turquia. Mas a recente deterioração de suas relações diplomáticas com Ancara não favorece tal objetivo.



Tradução: Carlos Gorito.
Para acessar o texto original, clique aqui.

Velhas táticas de dominação....

A estratégia de Obama na Ásia Central
Instaurar a barbárie e agravar o terrorismo

“O presidente Barack Obama, cuja eleição suscitou a nível planetário uma grande esperança, foi distinguido com o Premio Nobel da Paz, mas a sua intervenção na Historia, contrariando um discurso humanista, não tem contribuído para combater e superar a crise de civilização existente.
Ocorre o contrário. A sua estratégia no Médio Oriente e na Ásia Central instaura a barbárie e agrava o terrorismo”.

Miguel Urbano Rodrigues -Odiario.info


Transcorridos oito anos dos atentados que destruíram o World Trade Center e atingiram o Pentágono, o terrorismo assume proporções cada vez maiores nas áreas do planeta onde George W Bush pretendia enfrentá-lo e erradicá-lo.

O presidente Barack Obama, cuja eleição suscitou a nível planetário uma grande esperança, foi distinguido com o Premio Nobel da Paz, mas a sua intervenção na Historia, contrariando um discurso humanista, não tem contribuído para combater e superar a crise de civilização existente.

Ocorre o contrário. A sua estratégia no Médio Oriente e na Ásia Central instaura a barbárie e agrava o terrorismo.

O esforço desenvolvido por uma gigantesca e perversa engrenagem mediática que desinforma os povos não tem o poder de inverter o rumo dos acontecimentos.

Os Estados Unidos estão presentemente envolvidos na Ásia em duas guerras perdidas e atolados na pantanosa situação criada na Palestina pelo sionismo neonazi.
O primeiro grande erro de Obama foi, ao entrar na Casa Branca, definir o Afeganistao como a primeira prioridade da sua politica internacional.

Na sua opinião o Iraque estava quase “pacificado” e tomou a decisão de transferir alguns milhares de soldados para o Afeganistão onde a insurreição alastrava numa guerra que, assim o afirmou então, se comprometia a vencer porque dela dependia “a segurança dos EUA”.

O optimismo sobre a situação no Iraque foi sem tardança desmentido pelo aumento da violência no país. No centro de Bagdad e nas principais cidades explodem todas as semanas carros armadilhados e bombas que matam centenas de pessoas. A resistência contra a ocupação militar norte-americana cresce e o governo fantoche tutelado por Washington está totalmente desprestigiado. O Pentágono já reconheceu que será quase impossível respeitar o compromisso de retirar do pais as tropas estadunidenses na data prevista, ou seja dentro de dois anos.

A nomeação do general Stanley McChrystal para comandante supremo na área Afeganistão-Paquistão foi muito bem recebida pelo Congresso e suscitou inicialmente grandes esperanças no establishment.

Mas a atmosfera de euforia durou pouco. A estratégia inovadora concebida pelo general, apresentado como um intelectual brilhante, com diplomas de história e ciências políticas, não parece entusiasmar os analistas militares dos grandes media.

McChrystal pediu a Obama o envio de 30 a 40.000 homens, advertindo num dos seus dois relatórios que sem esse reforço a guerra será perdida. Entretanto, em pleno Verão, desencadeou na Província do Helmand uma ofensiva em que participaram aproximadamente 15.000 soldados americanos e britânicos. Não obstante a escolha ter recaído sobre tropas de elite, o resultado foi decepcionante. A força empenhada sofreu grandes baixas e nos combates travados os guerrilheiros afegãos evitaram o choque em campo aberto, permanecendo quase sempre invisíveis.

No começo do Outono a guerra entrou pelo Paquistão, na chamada Fronteira do Noroeste, um território que durante séculos pertenceu ao Afeganistão, habitado por tribos pachtun que ignoram a fronteira artificial que os ingleses impuseram em 1880 após a segunda guerra anglo-afegã. Sob pressão de Washington, o Paquistão mobilizou milhares de soldados para os lançar contra os “terroristas” do Waziristao. Simultaneamente, aviões não tripulados da Força Aérea dos EUA começaram a bombardear indiscriminadamente aldeias da região, alegando que eram redutos dos talibans paquistaneses.

Essas operações conjugadas não atingiram os objectivos fixados. As baixas no exercito são elevadas. Os combates desenrolam-se num terreno montanhoso onde os moradores, waziris, shinwars, momands e de outras tribos da região, opõem uma forte resistência. O balanço do apoio aéreo americano é também negativo. Os aviões não tripulados voando a grande altitude lançam as bombas sem um mínimo de precisão. As principais vitimas são camponeses das aldeias, o que contribui para aumentar o ódio das populações locais aos EUA.

A primeira consequência da intensificação das acções militares americano-paquistanesas foi a multiplicação de atentados terroristas nas grandes cidades do país.

No próprio dia em que Hillary Clinton pronunciava em Islamabad um discurso palavroso e ridículo em que apresentou a solidariedade dos EUA com o Paquistão como contribuição decisiva para “a paz, o progresso e a democracia” no país, um atentado em Peshawar matava quase duas centenas de pessoas.

A visita e as palavras da secretária de Estado suscitaram protestos. O alinhamento do actual governo de Islamabad com os EUA é mal recebido pela grande maioria da população. Tudo indica que a vaga de terrorismo vai prosseguir.

O desfecho das eleições presidenciais no Afeganistão criou mais um problema aos EUA porque não correspondeu ao objectivo de Washington ao promovê-las . As insistentes criticas dos generais Petraeus e Mc Chrystal a Hamid Karzai, responsabilizando-o pela corrupção generalizada e pela nomeação para altos cargos de destacados criminosos de guerra, persuadiram Obama de que o afastamento do presidente através de eleições era uma necessidade. Mas Karzai e a sua gente montaram uma gigantesca fraude com a cumplicidade da Comissão Eleitoral. O escândalo da proclamação de Karzai como vencedor por maioria absoluta foi tamanho a nível internacional que a ONU declarou a nulidade das eleições e exigiu a realização de uma segunda volta. O tiro saiu, entretanto, pela culatra. Perante a iminência de uma nova fraude, Abdullah Abdullah - o candidato de Washington - renunciou a disputar o segundo turno quando as exigências mínimas que apresentou foram recusadas pelo governo. Logo Karzai, sem adversário, se autoproclamou presidente reeleito.
A Casa Branca teve de engolir o sapo e Obama, numa mensagem confusa, concluiu que, apesar de tudo, o processo eleitoral fora positivo. Mentiu.

O SONHO DO GENERAL MCCHRYSTAL
RESSUSCITA O FANTASMA DO VIETNAM


Obama tinha adiado para depois das eleiçoes a decisao sobre a nova estrategia proposta pelo general Mc Chrystal .

Num contexto desfavorável, consciente de que o povo afegão atribui a Karzai pesadas responsabilidades pelo caos instalado no pais, o presidente norte-americano terá agora de aprovar ou recusar o pedido do general McChrystal , isto é o envio de cerca de 40.000 soldados para o Afeganistão, onde o total das forças de ocupação ronda já os 100.000 entre norte-americanos e tropas da NATO.

As cadeias de televisão e os grandes jornais especulam sobre o tema e a reacçao do Congresso, prevendo uma solução salomónica, isto é, o envio de metade dos efectivos solicitados.

Uma extensa entrevista concedida em Kabul pelo general McChrystal ao diário francês Le Figaro (29 .09.2009) veio criar novos problemas à Casa Branca porque as suas declarações tiveram repercussão internacional, ampliando a polémica nos EUA.

O general começa por afirmar que será o povo afegão “a decidir quem ganhará a guerra. O Estado afegão e o exercito afegão são - assim se expressa - quem no fim de contas tomará a decisão. Nós, os Ocidentais devemos ser os seus leais aliados”.

A esse começo pouco sensato seguem-se criticas à estratégia da União Soviética que, na sua opinião, criou nos anos 80 um exercito afegão visto como “ilegítimo”pela população.

Instado a pelo entrevistador, Renaud Girard, a comentar as reacções do Pentágono e do Presidente Obama aos dois relatórios que lhes enviou, o general considerou-as positivas.

Sublinhando que o seu primeiro dever é a “humildade”, McChrystal chamou a atenção para uma faceta mais do que polémica do seu ambicioso plano de pacificação do país. Lembrando que os militares estadunidenses têm ainda muito a aprender, o general declarou: “os nossos oficiais devem progredir no conhecimento das línguas e dos costumes deste país. Devemos aproximar-nos da população, desembaraçados de todas as blindagens e outros coletes anti-estilhaços. Os nossos homens devem conhecer melhor a história e a cultura afegãs, a fim de actuar em cooperçao com os seus camaradas afegãos”.

Não é surpreendente que essas sugestões tenham embaraçado historiadores e sociólogos convidados a pronunciar-se sobre elas.

Visitei varias vezes o Afeganistao e julgo útil esclarecer que o pais tem duas línguas oficiais – o dari (variedade do persa) e o pachto, e que alguns milhões usam como idioma materno o turco usbeque e o turcumano. Mesmo libertando a imaginação, admito que seria uma tarefa homérica para a soldadesco americana a aprendizagem dessas línguas para ela impenetráveis. Não concebo também que a oficialidade, cujo conhecimento da própria historia dos EUA é na generalidade muito deficiente, possa dedicar-se com proveito à historia dos povos que ao longo de 25 séculos desde os Aquemenidas persas e Alexandre da Macedónia criaram no espaço afegão civilizações brilhantes que deixaram marcas inapagáveis no rumo da humanidade.

Interrogado sobre a insurreição, o general lançou-se numa dissertação algo confusa. Na sua opinião o que existe é “uma confederação de insurreições, com fins políticos diferentes”. Mencionou especificamente três, “os talibans históricos, o grupo Haqqani, e a Hesbe Islami de Gulbudin Hekmatiar, além de outros gruposculos dispersos. O seu único cimento é o ódio ao governo instalado”.

Do intenso ódio aos invasores americanos não fala.

Independentemente do juízo que se faça dessa reflexão do estratega sobre a insurreição, a continuidade de Hamid Karzai como presidente não vai contribuir para a conquista das populações mediante o dialogo e o estudo das línguas afegãs.

O general, que é um estudioso das guerras coloniais do seu pais e da França, esclarece que as lições dos generais franceses Lyautey e Galieni no tocante à contra-insurreição não foram por ele esquecidas. Porque não se trata de matar “um máximo de talibans”, mas sim de “proteger as populações”. Omite, porem, um pormenor importante. Os nomes de Lyautey e Galieni, o primeiro em Marrocos, o segundo em Madagascar, ficaram ligados a acções repressivas maciças do exército francês. McCarthy vai mais longe. “Sou – confessa - um grande admirador do exército francês e estudei o seu trabalho contra-inssurrecional na Indochina e na Argélia”.

São conhecidos os resultados desse “trabalho”, mas o general norte-americano não os menciona. É também omisso no tocante à política de “protecção” às populações do Vietname aplicada no terreno pelo seu compatriota general Westmoreland. O seu discurso apresenta, contudo, muitas afinidades com o daquele derrotado cabo-de-guerra norte-americano.

Somente com o rodar do tempo saberemos se o desfecho será similar ao do Vietname. Cabe, porém, lembrar que o responsável pelo ambicioso plano de “pacificação” do Afeganistão e a estratégia global de McChrystal é um general paraquedista francês.

*
* *

O general Stanley McChrystal comandou durante cinco anos, de 2003 a 2008, as forças especiais dos EUA. Segundo os especialistas militares é um “duro”. Do seu currículo não consta políticas de diálogo com os povos, mas acções de genocídio que levaram alguns analistas a qualifica-lo de “criminoso de guerra”.

Foi a esse soldado, com pretensões académicas, que o Presidente dos EUA confiou a tarefa de ganhar a guerra do Afeganistão, primeira prioridade da politica externa da Casa Branca.

Enquanto medita sobre a nova estratégia para a Ásia Central, o presidente Obama, Premio Nobel da Paz, propõe ao Congresso o maior orçamento militar da História dos EUA. Se for aprovado, excederá os orçamentos militares somados de todos os demais países do planeta.

sábado, 14 de novembro de 2009

LEMON TREE - 2008



Créditos: Bukowski 

FICHA TÉCNICA
Título no Brasil: Lemon Tree
Título Original: Etz Limon
País de Origem: Israel / Alemanha / França
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 106 minutos
Ano de Lançamento: 2008
Estréia no Brasil: 08/08/2008
Site Oficial: http://www.lemontreemovie.com
Estúdio/Distrib.: Imovision
Direção: Eran Riklis

DADOS DO ARQUIVO
Título Original: Lemon Tree
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 106 min
Ano de Lançamento: 2008
Qualidade: DVDRip
Formato: Rmvb
Áudio: Arabico/Hebreu
Legenda: Português
Tamanho: 348 mb
Servidor: Rapidshare (4 partes)

Links:
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SINOPSE
Salma (Hiam Abbass), uma viúva Palestina, vê sua plantação de limão ser ameaçada quando seu novo vizinho, o Ministro de Defesa de Israel (Doron Tavory), se muda para a casa ao lado. A Força de Segurança Israelense logo declara que os limoeiros de Salma colocam em risco a segurança do ministro e por isso precisam ser derrubados. Salma leva o caso à Suprema Corte de Israel para tentar salvar a plantação.

ELENCO
Iam Abbass ... Salma Zidane
Doron Tavory ... Defense Minister Israel Navon
Ali Suliman ... Ziad Daud
Rona Lipaz-Michael ... Mira Navon
Tarik Kopty ... Abu Hussam
Amos Lavi ... Commander Jacob
Amnon Wolf ... Leibowitz
Smadar Jaaron ... Tamar Gera
Danny Leshman ... Private Itamar aka Quickie
Hili Yalon ... Sigi Navon
Linon Banares ... Gilad
Jamil Khoury ... Son-in-Law
Makram Khoury ... Abu Kamal
Loai Nofi ... Nasser Zidane
Ayelet Robinson ... Shelly
Michael Warshaviak ... Braverman - the attorney

SCREENSHOOTS




sexta-feira, 13 de novembro de 2009

São Bartolomeu, a longa noite tucana

Reacender o Clube da Lanterna, fundado por Carlos Lacerda, em 1953, para combater o governo Vargas só amplia o blecaute em que vive a direita após duas derrotas em eleições presidenciais. De antemão é uma aposta perdida. Uma comemoração tão grotesca quanto fugidia.

Ao querer transformar a queda de energia, causada por uma falha tripla nas linhas de transmissão de Furnas, no “apagão do governo Lula”, a oposição, com apoio da grande imprensa corporativa, mostra a estreita margem de ação que restou ao antigo bloco de poder do governo tucano. Reacender o Clube da Lanterna, fundado por Carlos Lacerda, em 1953, para combater o governo Vargas só amplia o blecaute em que vive a direita após duas derrotas em eleições presidenciais. De antemão é uma aposta perdida. Uma comemoração tão grotesca quanto fugidia.

Quando lideranças do PSDB, DEM e PPS se unem no Congresso para dizer que o episódio serviu para demonstrar o fracasso da política energética do governo petista, o discurso político cede lugar à farsa burlesca, ao lançamento inoportuno de afirmações que, por grotescas, surtem efeito contrário ao pretendido por seus autores. Rememoram um passado recente, estabelecendo padrões de comparação que lhes são extremamente desfavoráveis. Mais uma vez, a direita, ignorando a posição em que se encontra, mira no horizonte e atira no próprio pé. Um embuste que ignora a massa crítica acumulada por diversos debates sobre crise energética no governo anterior. Em todos há um denominador comum: a responsabilidade pela ineficiência de energia elétrica se devia a erros de gestão da então administração federal.

Em 2001, o BNDES publicou “O Cenário Macroeconômico e a Oferta de Energia Elétrica no Brasil". O documento, um alentado estudo dos economistas Joana Gostkorzewicz e Fábio Giambiagi, alertava que as dificuldades para a oferta de energia elétrica eram conseqüência direta da política de transição de um modelo gerenciado até então pelo Estado para a iniciativa privada. O açodamento entreguista deixava explícitas as “insuficiências do novo marco regulatório, bem como a ausência de articulação entre os vários órgãos governamentais, responsáveis pelo setor de energia."

Concluindo a análise, o estudo reconhecia que "nos últimos anos, os recursos das empresas estatais, ainda amplamente dominantes na geração e transmissão, foram prioritariamente destinados para o saneamento financeiro das empresas e, portanto, para a preparação das privatizações. Tendo as empresas estatais deixado de investir pelas razões apontadas acima e o setor privado não encontrado ambiente seguro para substituir as estatais, devido às debilidades dos novos marcos, pavimentou-se o caminho para o desastre."

O estudo, feito por órgão do Governo Federal, era categórico no diagnóstico: “O setor elétrico brasileiro possui um desenho próprio que o torna inadequado à operação por empresas privadas". Se em 2001, os reservatórios estavam quase secos e a inexistência de linhas de transmissão impedia o manejo de geração, a causa determinante para o racionamento de energia foi a implementação de uma política privatista que aprofundou a queda da produção, reduziu a arrecadação tributária e alimentou o processo inflacionário, mantendo a fragilidade do Brasil em relação à economia internacional.

Quando Lula destaca os investimentos feitos pelo governo nos últimos sete anos, dizendo que “nesse período, foram construídas 30% das linhas de transmissão feitas em 123 anos no país", não fala apenas de números relativos a um setor. O passo é maior. O que é anunciado é a retomada de decisões fundamentais para o desenvolvimento, deixadas em segundo plano, nos oito anos de gestão neoliberal. O que norteia a ação governamental é a criação de mecanismos que possibilitem ao Estado retomar seu papel de indutor do desenvolvimento nacional.

Comparar o blecaute de 10 de novembro de 2009 ao longo tempo das trevas que vigorou no país entre junho de 2001 e fevereiro de 2002 é um apagão histórico bem típico de uma elite que não soube atualizar as linhas de transmissão do seu ideário. Uma autêntica confissão pública de fé no modelo monetarista-liberal que impossibilitou o crescimento econômico, aumentou as desigualdades e enfraqueceu as instituições políticas. A noite de São Bartolomeu deseja revisitar os huguenotes que ousaram sobreviver.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

Sobre Ernst Bloch...

O princípio esperança


Judeu alemão e marxista, vivendo nos tempos mais sombrios, Ernst Bloch construiu toda uma obra voltada para a felicidade e para a utopia. Humanista e socialista, foi desde a revolução húngara de 1956 perseguido pelo estalinismo. A sua obra magna O princípio esperança, em três volumes, foi editada recentemente no Brasil pela Editora Contraponto.

A seguir, (extraido do Portal Perseu Abramo)  um pequeno trecho da prosa expressiva e barroca de Bloch, povoada de símbolos e imagens de beleza, no qual toma partido pelo “Eros dialeticamente aberto” para o novo e o futuro:

“ Somente ao se abandonar o conceito imóvel e fechado do ser surge a real dimensão da esperança. O mundo está, antes,repleto de disposição para algo, latência de algo,e o algo assim intencionado significa plenificação do que é intencionado. Significa um mundo mais adequado a nós, sem dores indignas, angústia, auto-alienação, nada. Esta tendência, porém, está em curso para aquele que justamente tem o novum diante de si. É somente no novum que o para-onde do real mostra a determinação mais fundamental do seu objeto, e esta convoca o ser humano, em quem o novum tem os seus braços. O saber marxista significa que os difíceis processos de ascensão se desenvolvem tanto no conceito quanto na práxis. Na problemática do novum reside a abundância de campos do saber ainda inabitados. Nela, a sabedoria do mundo torna-se novamente jovem e originária. Se o ser se compreende a partir do seu de-onde, então ele se compreende, a partir daí, apenas como um para-onde igualmente tendencial, ainda inconcluso. O ser que condiciona a consciência, assim como a consciência que trabalha o ser, compreendem-se em última instância somente a partir de onde e para onde tendem. A essência não é o que foi, ao contrário: a essência mesma do mundo situa-se na linha de frente.”

somente para lembrar....


10 anos de Seattle
Emir Sader
 
Pareceu um raio em céu azul, aquele espetáculo sensacional em que se transformou o que deveria ter sido mais um show midiático do Consenso de Washington, numa nova reunião da OMC, em uma das cidades símbolo da pós-modernidade: Seattle.

A reunião não conseguiu ser realizada; se via ministros correndo pelas ruas, usando escadas rolantes para ver se conseguiam chegar de volta a seus hotéis – entre eles, Pedro Malan, figurinha carimba desse tipo de reunião. Enquanto a massa, convocada pela internet, não se sabia surgindo de onde, ocupava praças, ruas, hotéis, salas de reunião, estações de metrô, protagonizando a primeira grande manifestação global contra o pensamento único e o Consenso de Washington.

Não era um raio em céu azul, para quem havia constatado, por debaixo da aparente pax neoliberal, os problemas que a globalização ia produzindo. É certo que os governos que mais a personificaram se reelegiam – FHC, Fujijmori, Menem -, depois do sucesso de Reagan e da Thatcher, sucedidos por Blair e Clinton. Mas ao mesmo tempo se esgotavam. As crises financeiras – típicas do neoliberalismo – se estendiam pela América Latina, pelo sudeste asiático, pela Rússia.

Hugo Chavez tinha sido eleito um ano antes. A economia brasileira enfrentava uma nova crise, o que levou o governo FHC a elevar a taxa de juros a 48% e a jogar o país numa prolongada recessão. Sinais claros de que a economia argentina estava à beira de uma explosão da bomba de tempo instalada por Menem, com a paridade artificial entre o dólar e o peso. O México se recuperava com dificuldades da crise de 1994.

Desde que os zapatistas tinham lançado seu grito contra a globalização neoliberal, em 1994, as mobilizações populares foram se sucedendo, entre elas as extraordinárias marchas dos trabalhadores sem terra no Brasil, as lutas dos movimentos indígenas do Peru, da Bolívia, do Equador, iam se espalhando, anunciando um novo ciclo de mobilizações, como resistência popular ao neoliberalismo.

Seattle veio assim trazer à superfície os descontentamentos acumulados pelos efeitos deletérios das políticas neoliberais, com os imensos retrocessos sociais que representavam. Ignacio Ramonet havia publicado seu famoso editorial no Le Monde Diplomatique da França, conclamando à luta contra o pensamento único. ATTAC surgia como um novo tipo de movimento, de luta pela taxação do capital financeiro para promover políticas para a cidadania, com o lema “O essencial não tem preço”.

Iniciou-se, com Seattle, um novo ciclo de mobilizações populares que, enlaçando-se com o surgimento do Fórum Social Mundial, estendeu as mobilizações contra a OMC pela Europa, pela Ásia, pela América Latina, até desembocar nas maiores manifestações já conhecidas, contra a guerra do Iraque, em 2003.

Deste então, a luta pela superação do neoliberalismo ganhou novas formas, mais avançadas, passando do protesto e da resistência, à derrota do governos neoliberais e ao inicio do ciclo atual – latinoamericano – de construção de governos pós-neoliberais. Para sua vitória contribuíram decisivamente as lutas de Seattle e aquelas que no continente brecaram os processos de privatização, como as dos movimentos indígenas e cidadãos na Bolívia e no Equador. Podemos dizer que o novo cenário latinoamericano é herdeiro das lutas de resistência da década de 1990 e, em particular, das espetaculares manifestações de Seattle, que marcaram o fim da lua-de-mel neoliberal e o começo da construção do “outro mundo possível”, do pós neoliberalismo latinoamericano.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Luta armada - tirando ensinamentos


Wladimir Pomar - Correio da Cidadania

Aproveitando as declarações do ex-major Curió sobre a Guerrilha do Araguaia, assim como o clima morno da conjuntura, por algumas semanas me dediquei a fazer um sumário da minha participação nos acontecimentos que precederam e depois sucederam aquela guerrilha. Espero não haver cansado os leitores com memórias de um passado que teima voltar, talvez porque nem todos tenham acertado suas contas com ele.
 
Para finalizar essa série, embora não tenha tido a pretensão de esgotar o assunto, gostaria de sistematizar um pouco do que aprendi. Primeiro, a lição de que não se deve cair na armadilha de que se pode, de antemão, determinar o caminho, ou a forma principal de luta, a ser seguido para realizar as transformações econômicas, sociais e políticas que o país necessita para ingressar no socialismo.
 
Isso poderia não ter mais importância se, 40 anos depois daquelas experiências, a idéia não continuasse viva na cabeça de muita gente. Há os que nutrem a suposição de que só nos resta o caminho armado. Paradoxalmente, no momento em que consideram as grandes massas populares inebriadas por promessas de demagogos populistas. E há também os que juram, de braços abertos, que o único caminho viável é o pacífico, das eleições sucessivas. Para eles, basta manter-se firme no trabalho institucional que as urnas nos levarão ao paraíso.
 
Como deuses onipotentes, uns decretam que o inimigo será inflexível e incapaz de fazer qualquer concessão, enquanto os outros determinam que o inimigo não tem mais qualquer condição de tentar aventuras golpistas, nem ditaduras sanguinárias. E ambos já previram, cada um a seu modo, que o povão vai agir como supõem.
 
Nessa questão eu aprendi que é a prática de luta que vai determinar o caminho, e não o inverso. Assim, se do ponto de vista geral é melhor estar preparado para a pior situação, do ponto de vista prático é fundamental estar ligado, quase fundido, ao dia a dia dos trabalhadores e das demais camadas populares, de modo a acompanhar o seu aprendizado, conhecer sua disposição e ganhar influência sobre eles.
 
Esta é a única maneira de saber como o povão vai agir, caso a burguesia decida resolver suas contradições com os trabalhadores e o povo da mesma forma que sempre resolveu, num passado não muito longínquo. Diante disso, as massas populares tanto podem partir para a luta, quanto fazer uma retirada estratégica, como fizeram em 1964 e 1968. As duas possibilidades existem e é muito difícil supor que alguém seja capaz de determinar qual delas vai prevalecer.
 
O mesmo pode ser verdade para o caso de a burguesia continuar, por um longo período, constrangida a seguir a tendência atual, de solução passo a passo das contradições. É lógico que ela trabalhará sempre, sejam suas alas moderadas, sejam suas alas radicais, para praticar fraudes ou levar as forças de esquerda a cometerem erros sérios, de modo a lhes impor uma derrota eleitoral de caráter estratégico. Numa situação dessas, a derrota pode tanto empurrar as camadas populares para lutas mais radicais quanto para uma nova retirada estratégica, dependendo do contexto em que a derrota ocorrer.
 
Assim, sem medir muito claramente as questões políticas em jogo, estamos sempre correndo o perigo de ajudar o inimigo. Por isso, fico sempre impressionado de ver, ou ouvir, militantes ditando o que os trabalhadores e o povo devem fazer, sem que tenham qualquer laço orgânico com segmentos sociais concretos, no chão de fábrica ou nas comunidades de bairros e favelas. Nestas condições é realmente muito difícil saber o que as massas estão pensando e o que pretendem.
 
É isso que exige da esquerda a necessidade de combinar os processos eleitorais com as lutas sociais e políticas. E, mais do que antes, essas lutas precisam ser com razão e com limite, de modo a evitar que os movimentos sociais sejam fragmentados, como resultado de ações que permitam à burguesia se passar por vítima e reconquistar influência sobre a classe média e mesmo sobre parcelas menos politizadas da população trabalhadora pobre.
 
Em relação ao baixo nível atual de mobilização social, não adianta morder os calcanhares, nem xingar o povão de medíocre, como fazem alguns. Mesmo porque as massas populares nem sempre conseguem tirar todas as lições de suas experiências de luta. Seja porque, antes, não passaram por experiências idênticas, seja porque essas lutas sofrem de descontinuidade, ou ainda porque tais experiências não foram sistematizadas, nem devolvidas, de modo conveniente às massas.
 
Porém, também aprendi que não podemos tomar qualquer situação, por pior que seja, como algo estático e invariável. Sempre haverá fatores, às vezes silenciosos e imperceptíveis à primeira vista, que estarão processando mudanças e vão determinar uma cascata de outras modificações. No período da guerrilha do Araguaia fomos incapazes de acompanhar essas mudanças e nos ajustarmos a elas. Mas também não faz muito tempo que, sem reparar o que estava acontecendo na base da sociedade, em virtude dos programas sociais do governo Lula, muita gente acreditou que ele e o PT seriam liquidados pela crise de 2005. Enganaram-se redondamente.
 
Por fim, aprendi que é preciso, sempre, manter espírito crítico, a todo momento, avaliando a correção ou não de cada teoria, de cada ação, de cada luta, mesmo que isso seja doloroso. Isto é verdade tanto para processos de lutas massivas, quanto para processos de estagnação da mobilização social. Num e noutro caso, nem sempre as massas estão certas, do mesmo modo que nós. Em qualquer das situações, só participando e vivendo com elas as experiências de luta, ou da falta de luta, podemos tirar lições dos erros delas e dos nossos, se tomarmos a prática como o critério da verdade.
 
Wladimir Pomar é escritor e analista político.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Venezuela na mídia: dois pesos, duas medidas, um lado

 Rodrigo Mendes – Da Redação Colaboraram Valéria Nader e Gabriel Brito   

O editorial da Folha de S. Paulo do dia 30 de outubro é dessas peças de rara preciosidade, pois sintetiza tudo que a mídia grande conseguiu produzir como senso comum a respeito dos países que têm governos progressistas na América Latina, em especial da Venezuela. O texto, intitulado “Convite ao tumulto”, critica o fato de o Congresso brasileiro ter aprovado a entrada da Venezuela no Mercosul sem nenhum tipo de ressalva. Nota-se que o editorial não é, em si, contrário à entrada da Venezuela no Mercosul. Aliás, a posição do jornal sobre isso só ficará mais clara duas páginas depois, em mais um matéria, como é o costume da Folha, em que o assunto é sua própria opinião e não um fato em si. 111109_hugochaves.jpg 
 
O editorial da Folha de S. Paulo do dia 30 de outubro é dessas peças com rara preciosidade, pois sintetiza tudo que a mídia grande conseguiu produzir como senso comum a respeito dos países que têm governos progressistas na América Latina, em especial da Venezuela. O texto, intitulado "Convite ao tumulto", critica o fato de o Congresso brasileiro ter aprovado a entrada da Venezuela no Mercosul sem nenhum tipo de ressalva.
 
O editorial apresenta uma argumentação absolutamente frágil para essa aprovação: "pressões do Executivo e lobbies empresariais interessados em manter uma política de ‘boa vizinhança’". A conclusão que se tira ao se ler o texto é que o grande problema da Venezuela é Hugo Chávez. O editorial é claro ao afirmar "será Chávez, e não uma Venezuela abstrata, quem irá dispor de poder de veto sobra as decisões do Mercosul".
 
Nota-se que o editorial não é, em si, contrário à entrada da Venezuela no Mercosul. Aliás, a posição do jornal sobre isso só ficará mais clara duas páginas depois (ler mais adiante) – em mais uma matéria, como é o costume da Folha, em que o assunto é sua própria opinião e não um fato em si. Ou seja, o editorial apenas problematiza a questão da Venezuela e o que pode acontecer com o país sendo membro efetivo do bloco.
 
O destaque na manchete da Folha do mesmo dia, duas páginas depois do editorial, era a ausência de qualquer ressalva à entrada da Venezuela. Essa frase específica demonstra onde estava, para a Folha, a ênfase do debate. Segundo a lógica expressa ali, é claro que é preciso aprovar a entrada da Venezuela no Mercosul por conta do vultoso poderio econômico que seu petróleo traz ao bloco. Ainda mais em tempos de pré-sal.
 
Isso é o detalhe; o ponto central que a Folha quer focar são as ressalvas. Por conta de seu regime, por conta dos supostos atentados contra a democracia (aqui, ainda um ponto polêmico), enfim, por conta de Chávez ser um governo identificado como "de esquerda" – e afinal, nada pode ser mais ultrapassado que ser de esquerda.
 
A última edição da revista Veja também trouxe um texto sobre o assunto, novamente, como é seu costume, com críticas raivosas e babentas a Chávez. Isso chegou a ser tema de debate na redação do Correio da Cidadania, e decidimos não tratar da Veja nesse artigo, pois a idéia é debater jornalismo. Infelizmente, a Veja não se enquadra mais na categoria jornalismo.
 
Vizinha ao editorial de 30 de outubro, a coluna de Eliane Catanhêde – contumaz e conhecida crítica de Chávez - faz uma branda crítica à oposição demo-tucana ao governo federal por conta de sua polarização contrária à entrada da Venezuela no Mercosul. A articulista elenca uma série de argumentos favoráveis à entrada do país governado por Hugo Chávez que, segundo ela, são muito mais fortes do que o eventual ônus político que o presidente venezuelano traria ao bloco.
 
Chama atenção expressão usada por Catanhêde no final do primeiro parágrafo ao dizer que "nem mesmo discurso" tinha a oposição para querer barrar a entrada da Venezuela. Bom, se queria saber de onde se cria o discurso que baseia uma posição contrária à entrada da Venezuela, Eliane Catanhêde deve ter descoberto ao abrir a Folha daquela sexta-feira e ler, depois de olhar satisfeita para sua própria coluna, o texto à esquerda (geograficamente) do dela.
 
Pois esse editorial provê toda a munição que qualquer um precisa para criar um discurso contra a entrada da Venezuela no Mercosul. O texto afirma ainda que o regime venezuelano tem apenas "fiapos" de democracia, o que contribuiria para a situação supostamente já instável do bloco de integração.
 
Brilhantemente desmontada por uma de suas mais importantes articulistas, a Folha, ao lado da maioria dos grandes veículos de comunicação, é responsável por criar uma névoa com grande capacidade de ofuscar o que acontece na Venezuela. Não por acaso, esses mesmos veículos são muito importantes não só na construção desses argumentos utilizados pela oposição, mas pela aceitação desses argumentos.
 
Pois a criação de um senso comum de que a Venezuela tem uma "ditadura" (ainda que o termo seja empregado com extrema cautela e parcimônia, pois, por mais problemático que seja, o governo chavista, sob muito poucos critérios, pode ser considerado uma ditadura) e representa um retrocesso na democracia latino-americana, entre uma série de outros "problemas" de ordem interna e externa, é, em grande parte, oriunda muito mais da contra-propaganda jornalística do que de qualquer experiência real que o povo brasileiro tenha sofrido por causa do regime venezuelano.
 
Continua certa Eliane Catanhêde ao informar que a discussão em torno ao tema não é de ordem político-ideológica, mas muitos mais de ordem comercial. Ainda mais porque essa foi a motivação do governo brasileiro ao aprovar o tema, apontada no relatório final aprovado no Congresso. Em nenhum momento a base governista responsável por bancar a posição declarou qualquer simpatia ao governo venezuelano – nenhum crime aí. Apenas apontou a importância econômica que a Venezuela trará ao Mercosul.
 
Chávez sempre esteve em maus lençóis quando sob o foco da mídia brasileira – e costuma estar sob o foco, pois a cada passo seu é acusado de ser antidemocrático. Mas uma breve comparação feita na redação do Correio instala uma reflexão: quando esteve Álvaro Uribe, presidente colombiano que sempre fez tudo aquilo que Chávez é acusado de ameaçar fazer, sob os holofotes da mídia? Será Uribe, principal aliado declarado dos Estados Unidos na América do Sul, parceiro militar do exército estadunidense, alvo de julgamento tão criterioso dos senadores da República em uma eventual situação parecida?
 
A resposta virá quando, e se, a Colômbia pedir formalmente ingresso no Mercosul. Mas Uribe já tem larga vantagem. Ainda que, economicamente, seu país tenha uma significância muito menor que a Venezuela, seu presidente nunca foi acusado pela mídia brasileira de ser golpista nem antidemocrático. Na verdade, Uribe não é um fator de instabilidade sob o ponto de vista das elites e, consequentemente, da mídia grande.
 
Rodrigo Mendes é jornalista; Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

Equador e Bolívia são casos de sucesso em meio à crise global

The Guardian – Londres

De acordo com a sabedoria convencional transmitida diariamente na imprensa econômica, os países em desenvolvimento deveriam se desdobrar para agradar as corporações multinacionais, seguir a política macroeconômica neoliberal e fazer o máximo para atingir um grau de investimento elevado e, assim, atrair capital estrangeiro.
Adivinhem qual país das Américas deve atingir o crescimento econômico mais rápido nesse ano? A Bolívia. O primeiro presidente indígena do país, Evo Morales, foi eleito em 2005 e assumiu o cargo em janeiro de 2006. Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, seguiu os acordos com o FMI [Fundo Monetário Internacional] por 20 anos consecutivos e sua renda per-capita ao final desde período era mais baixa do que 27 anos antes.
Evo descartou o FMI apenas três meses depois de assumir a presidência e então nacionalizou a indústria de hidrocarbonetos (especialmente gás natural). Não é preciso dizer que isso não agradou a comunidade corporativa internacional. Também foi mal vista a decisão do país de se retirar do painel de arbitragem internacional do Banco Mundial em maio de 2007, cujas decisões tinham tendência a favorecer as corporações internacionais em detrimento dos governos.
A nacionalização e os crescentes lucros advindos dos royalties dos hidrocarbonetos, no entanto, têm rendido ao governo boliviano bilhões de dólares em receita adicional (o PIB total da Bolívia é de apenas 16,6 bilhões de dólares, para uma população de 10 milhões de habitantes). Essas rendas têm sido úteis para a promoção do desenvolvimento pelo governo, e especialmente para manter o crescimento durante a crise. O investimento público cresceu de 6,3% do PIB em 2005 para 10,5% em 2009.
O crescimento da Bolívia em meio à crise mundial é ainda mais notável, já que o país foi atingido em cheio pela queda de seus preços dos produtos de exportação mais importantes – gás natural e minerais – e também por uma perda de espaço no mercado estadunidense. A administração Bush cortou as preferências comerciais da Bolívia, que eram concedidas dentro do Pacto Andino de Promoção do Comércio e Erradicação das Drogas [ATPDA, na sigla em inglês], supostamente para punir a Bolívia por sua insuficiente cooperação na “guerra contra as drogas”.
Na realidade, foi muito mais complicado: a Bolívia expulsou o embaixador estadunidense por causa de evidências do apoio dado pelo governo estadunidense à oposição ao governo de Morales; a revogação do ATPDA aconteceu logo em seguida. De qualquer maneira, a administração Obama ainda não mudou com relação à política da administração Bush para a Bolívia. Mas a Bolívia já provou que pode se virar muito bem sem a cooperação de Washington.
O presidente de esquerda do Equador, Rafael Correa, é um economista que, muito antes de ser eleito em dezembro de 2006, entendeu e escreveu a respeito das limitações do dogma econômico neoliberal. Ele tomou posse em 2007 e estabeleceu um tribunal internacional para examinar a legitimidade da dívida do país. Em novembro de 2008 a comissão constatou que parte da dívida não foi legalmente contratada, e em dezembro Correa anunciou que o governo não pagaria cerca de 3,2 bilhões de dólares da sua dívida internacional.
Ele foi tiranizado na imprensa econômica, mas a operação foi bem sucedida. O Equador cancelou um terço da sua dívida externa declarando moratória e reembolsando os credores a uma taxa de 35 centavos por dólar. A avaliação para o crédito internacional do país continua baixa, mas não mais do que antes da eleição de Correa, e até subiu um pouco depois que a operação foi completada.
O governo de Correa também causou a fúria dos investidores estrangeiros ao renegociar seus acordos com empresas estrangeiras de petróleo para captar uma parte maior dos lucros com a alta dos preços do petróleo. E Correa resistiu à pressão feita pela petrolífera Chevron e seus poderosos aliados em Washington para retirar seu apoio a um processo contra a empresa por supostamente poluir águas subterrâneas, com danos que poderiam exceder 27 bilhões de dólares.
Como o Equador está se saindo? O crescimento tem atingido saudáveis 4,5% durante os dois primeiros anos da presidência de Correa. E o governo tem garantido a redistribuição da renda: gastos com saúde em relação ao PIB dobraram e gastos sociais em geral têm sido expandidos consideravelmente de 4,5% para 8,3% do PIB em dois anos. Isso inclui a duplicação do programa de transferência de renda às famílias pobres, um aumento de 474 milhões de dólares em despesas de habitação, e outros programas para famílias de baixa renda.
O Equador foi atingido fortemente por uma queda de 77% no preço das suas exportações de petróleo de junho de 2008 até fevereiro de 2009, assim como pelo declínio das remessas de capital provenientes do exterior. Apesar disso, o país superou as adversidades muito bem. Outras políticas heterodoxas, juntamente com a moratória da dívida externa, têm ajudado o Equador a estimular sua economia sem esgotar suas reservas.
A moeda do Equador é o dólar estadunidense, o que descarta a possibilidade de políticas cambiais e monetárias para esforços contra-cíclicos numa recessão – uma deficiência relevante. Em vez disso, o Equador foi capaz de fazer acordos com a China para um pagamento adiantado de 1 bilhão de dólares por petróleo e mais 1 bilhão de empréstimo.
O governo também começou a exigir dos bancos equatorianos que repatriassem algumas de suas reservas mantidas no exterior, esperando trazer de volta 1,2 bilhões e tem começado a repatriar 2,5 bilhões das reservas estrangeiras do banco central para financiar outro grande pacote de estímulo econômico.
O crescimento do Equador provavelmente será de 1% esse ano, o que é muito bom em relação à maior parte de seu hemisfério. O México, por exemplo, no outro lado do espectro, tem projetado um declínio de 7,5% no seu PIB em 2009.
A maior parte dos relatórios e até análises quase-acadêmicas da Bolívia e do Equador dizem que eles são vítimas de governos populistas, socialistas e “anti-americanos” – alinhados com a Venezuela de Hugo Chávez e Cuba, é claro – e estão no caminho da ruína. É claro que ambos os países ainda têm muitos desafios pela frente, dos quais o mais importante será a implementação de estratégias econômicas que diversifiquem e desenvolvam suas economias no longo prazo. Mas eles começaram bem, dedicando à ordem econômica e política externa convencionais – na Europa e nos Estados Unidos – o respeito que ela merece.

Mark Weisbrot
Tradução: Raquel Tebaldi
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