domingo, 6 de dezembro de 2009

Reflexões de Fidel....

Existe margem para a
hipocrisia e a mentira?



• OS Estados Unidos, em sua luta contra a Revolução Cubana, tiveram no governo da Venezuela o seu melhor aliado: o exímio dom Rómulo Betancourt Bello. Não o sabíamos nessa época. Tinha sido eleito presidente, em 7 de dezembro de 1958 e, sem ainda tomar posse, em 1º de janeiro de 1959, triunfou em Cuba a Revolução. Semanas depois, tive o privilégio de ser convidado pelo governo provisório de Wolfgang Larrazábal para visitar a pátria de Bolívar, que tão solidária tinha sido com Cuba.
Poucas vezes na vida vi mais calor popular. As imagens fílmicas se conservam. Avancei pela ampla estrada que substituiu o caminho asfaltado, por onde tinha sido conduzido, a primeira vez que viajei à Venezuela, em 1948, de Maiquetía a Caracas, pelos motoristas mais temerários que conheci nunca.
Dessa vez, escutei a vaia mais sonora, prolongada e embaraçosa em minha longa vida, quando ousei mencionar o nome do recém-eleito e ainda não empossado presidente. As massas mais radicalizadas da Caracas heróica e combativa tinham votado esmagadoramente contra ele.
O "ilustre" Rómulo Betancourt era mencionado com interesse nos círculos políticos do Caribe e da América Latina.
Como pode ser explicado? Tinha sido tão radical em sua mocidade, que aos 23 anos ingressou como membro do Bureau Político do Partido Comunista da Costa Rica, desde 1931 até 1935. Eram os tempos difíceis da Terceira Internacional. Do marxismo-leninismo aprendeu a estrutura de classes da sociedade, a exploração do homem pelo homem ao longo da história e o desenvolvimento da colonização, do capitalismo e do imperialismo, nos últimos séculos.
No ano 1941, junto doutros líderes de esquerda, fundou na Venezuela o Partido Ação Democrática.
Exerceu a Presidência provisória da Venezuela, desde outubro de 1945 até fevereiro de 1948, em virtude dum golpe de Estado cívico militar. Teve que sair de novo ao exílio, quando o ilustre escritor e intelectual venezuelano, Rômulo Gallegos, foi eleito presidente constitucional e derrocado quase imediatamente.
A maquinaria bem lubrificada do seu partido elegeu-o presidente, nas eleições de 7 de dezembro em 1958, depois que as forças revolucionárias venezuelanas, sob a direção da Junta  Patriótica que presidiu Fabricio Ojeda, derrubassem a ditadura do general Pérez Jiménez.
Quando, a finais de janeiro de 1959, falei na Praça do Silêncio, onde se reuniram milhares de pessoas e mencionei Betancourt por pura cortesia, produziu-se a colossal vaia que contei contra o presidente eleito. Para mim, foi uma verdadeira lição de realismo político. Tive logo que visitá-lo, por ser o presidente eleito dum país amigo. Encontrei um homem amargurado e ressentido. Era já o modelo de governo "democrático e representativo" de que precisava o império. Colaborou em tudo o que pôde com os ianques, antes da invasão mercenária da Baía dos Porcos.
Fabricio Ojeda, amigo sincero e inesquecível da Revolução Cubana, a quem tive o privilégio de conhecer e dialogar com ele amplamente, depois me explicou muita coisa sobre o processo político de sua pátria e da Venezuela com a qual sonhava. Foi uma das inúmeras pessoas que aquele regime, totalmente a serviço do imperialismo, assassinou.
Quase meio século decorreu desde essa época. Posso testemunhar o cinismo excepcional do império contra o qual nos enfrentamos infadigavelmente os revolucionários cubanos, como dignos herdeiros de Bolívar e de Martí.
Durante o tempo decorrido, desde os dias de Fabricio Ojeda, o mundo mudou consideravelmente. O poder militar e tecnológico do império cresceu; também sua experiência e sua carência total de ética. Seus recursos midiáticos são mais custosos e menos subordinados a normas morais.
Acusar o líder da Revolução Bolivariana, Hugo Chávez, de promover a guerra contra o povo da Colômbia, desatar uma corrida armamentista, apresentá-lo como produtor e promotor do tráfico de droga, de reprimir a liberdade de expressão, de violar os direitos humanos e outras acusações similares, são ações nojentas e cínicas, como tudo o que o império fez, faz e promove. A realidade não pode ser esquecida nunca, nem deixar de ser reiterada; a verdade objetiva e razoável é a arma mais importante com a qual devemos martelar, sem descanso, na consciência dos povos.
O governo dos Estados Unidos, é bom lembrar, promoveu e apoiou, na Venezuela, o golpe de Estado fascista de 11 de abril de 2002 e, após seu fracasso, pôs todas suas esperanças num golpe petroleiro, apoiado com programas e recursos técnicos capazes de liquidar qualquer governo, subestimando o povo e a direção revolucionária desse país. A partir daí, conspirou sem descanso contra o processo revolucionário venezuelano, como fez e continua fazendo contra a Revolução em nossa pátria, durante 50 anos. Para os Estados Unidos, controlar Venezuela, com os enormes recursos energéticos e outras matérias-primas que ela possui, obtidos a preços baixos, e a propriedade multinacional das grandes instalações e serviços, é muito mais importante que controlar Cuba.
Esmagada a ferro e fogo a Revolução na América Central, e mediante golpes de Estado sangrentos e repressivos, que tolhem os avanços democráticos e progressistas na América do Sul, o império não podia resignar-se à construção do socialismo na Venezuela. Trata-se dum fato real, innegable e inocultável para quem possua um mínimo de cultura política na América Latina e no mundo.
É conveniente lembrar que, nem sequer depois do golpe de Estado, promovido pelos Estados Unidos, em abril de 2002, o governo da Venezuela se armou. O barril de petróleo custava apenas US$20, já desvalorizados, desde que em 1971 Nixon suspendesse a conversão do dólar em ouro, quase 30 anos antes de que Chávez chegasse à Presidência. Quando tomou posse, o petróleo venezuelano não atingia os US$10. Posteriormente, quando os preços subiram, dedicou os recursos do país a programas sociais, planos de investimento e desenvolvimento e à cooperação com inúmeras nações do Caribe e da América Central e outras de economias mais pobres na América do Sul.  Nenhum outro país ofereceu tão generosa cooperação.
Não comprou um só fuzil durante os primeiros anos de seu governo. Fez, inclusive, algo que nenhum outro país teria feito em condições de perigo para sua integridade: suspender legalmente a obrigação de cada cidadão honesto e revolucionário de defender com as armas seu país.
Acho que a República Bolivariana tardou bastante em adquirir novas armas. Os fuzis de infantaria de que dispunha eram os mesmos de há mais de 50 anos, quando o governo provisório do almirante Larrazábal, presenteou-me um fuzil automático FAL, no penúltimo mês da guerra, em novembro de 1958. A Venezuela continuou dispondo desse tipo de armamento de infantaria, vários anos depois da posse de Chávez.
Foi o governo dos Estados Unidos que decretou o desarmamento da Venezuela, quando proibiu o fornecimento de peças para o equipamento militar ianque que, tradicionalmente, tinha vendido a esse país, desde aviões de combate e transporte militar, até comunicações e radares. É sumamente hipócrita acusar Venezuela agora de armamentismo.
Pelo contrário, os Estados Unidos forneceram bilhões de dólares em armas, meios de combate, transporte aéreo e treino às forças armadas da vizinha Colômbia. O pretexto foi a luta contra a guerrilha. Posso testemunhar os esforços do presidente Hugo Chávez na busca da paz interna nesse país irmão. Os ianques apenas não forneceram armas, mas também injectaram sentimentos de ódio contra a Venezuela às tropas que treinavam, como fizeram em Honduras através da força de tarefa, deslocada em Palmerola.
Os Estados Unidos fornecem às unidades de combate, nos lugares onde têm bases militares, o mesmo uniforme e equipamento que às tropas de intervenção de seu país, em qualquer lugar do mundo. Não necessitam soldados próprios, como no Iraque, Afeganistão ou o norte do Paquistão, para planejar atos de genocídio contra nossos povos.
A extrema-direita imperialista, que controla as molas fundamentais do poder, usa mentiras descaradas para disfarçar seus planos.
A advogada e analista venezuelana-estadunidense Eva Golinger, demonstra como os argumentos estratégicos utilizados na mensagem enviada, em maio de 2009, ao Congresso dos Estados Unidos, para justificar um investimento na base de Palanquero, são alterados totalmente no acordo pelo qual os Estados Unidos recebe essa mesma base, junto a outras inúmeras instalações civis e militares. O documento enviado ao Congresso, em 16 de novembro, intitulado: "Addendum para refletir os termos do Acordo de Cooperação na área da Defesa entre os Estados Unidos e a Colômbia, assinado em 30 de outubro de 2009, foi completamente alterado", explica a analista. "Já não se fala da ‘missão de mobilidade’ que ‘garante o acesso a toda a América do Sul, à exceção do Cabo de Fornos’. Também mudaram toda referência a operaçãoes de ‘alcance global’, ‘teatros de segurança’ e aumento da capacidade das Forças Armadas estadunidenses para realizar uma ‘guerra de forma expedita’ na região", escreve a aguda e bem informada analista.
Torna-se óbvio, por outro lado, que o presidente da República Bolivariana está batalhando arduamente para superar os obstáculos que os Estados Unidos criaram aos países latino-americanos, entre eles, a violência social e o tráfico de drogas. A sociedade norte-americana não foi capaz de evitar o consumo e o tráfico das mesmas. Suas consequências afetam, hoje, muitos países da área.
A violência foi um dos produtos mais exportados pela sociedade capitalista dos Estados Unidos, ao longo do último meio século, através do uso crescente da mídia e da chamada indústria do lazer. São fenômenos novos que a sociedade humana não tinha conhecido antes. Tais meios poderiam ser utilizados para criar novos valores, numa sociedade mais humana e justa.
O capitalismo desenvolvido criou as chamadas sociedades de consumo e com isso gerou problemas que hoje não é capaz de controlar.
A Venezuela é o país que mais rapidamente está implementando os programas sociais que podem contestar essas tendências muito negativas. Os sucessos colossais atingidos nos últimos Jogos Esportivos Bolivarianos estão demonstrando-o.
Na reunião da Unasul, o chanceler da República Bolivariana, expôs com muita clareza o problema da paz na área. Qual é a posição de cada país perante a instalação de bases ianques no território da América do Sul? Não só constitui uma obrigação de cada Estado, mas também uma obrigação moral de cada homem ou mulher consciente e honesta de nosso hemisfério e do mundo. O império deve saber que em qualquer circunstância os latino-americanos lutarão sem descanso por seus direitos mais sagrados.
Existem problemas ainda mais graves e imediatos para todos os povos do mundo: a mudança climática;  talvez a pior e mais urgente neste instante.
Antes de 18 de dezembro, cada Estado deverá adotar uma decisão. De novo o ilustre Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, deverá definir a sua posição sobre o espinhoso assunto.
Já que aceitou a responsabilidade de receber o Prêmio, terá que cumprir a demanda ética de Michael Moore quando conheceu a notícia: "agora ganhe-o!". É que, por acaso, pode?, pergunto. Quando a exigência unânime dos círculos científicos é que as emissões de dióxido de carbono devem ser reduzidas em não menos de 30%, em relação ao nível de 1990, os Estados Unidos oferecem só reduzir 17% do que emitiam em 2005, o que apenas equivale a 5% do mínimo que exige a ciência a todos os habitantes do planeta para 2020. Os Estados Unidos consomem o dobro por habitante do que a Europa, e superam as emissões da China, apesar do 1.3 bilhão de cidadãos com que conta este país. Um habitante da sociedade mais consumista emite dezenas de vezes mais CO2 per cápita que o cidadão dum país pobre do Terceiro Mundo.
Em apenas 30 anos adicionais, não menos de nove bilhões de seres humanos que povoarão o planeta requerem que o nível de dióxido de carbono que se emita à atmosfera seja reduzido a não menos de 80% do que era emitido em 1990. Tais números são compreendidos com amargura por um número crescente de líderes de países ricos; mas a hierarquia que dirige o país mais poderoso e rico do planeta: os Estados Unidos, consola-se a si própria, afirmando que tais previsões são invenções da ciência. Sabe-se que, em Copenhague, no mínimo, o que será aprovado é continuar discutindo para que mais de 200 Estados e instituciones concordem em que devem dirimir os compromissos, entre eles, um muito importante: quem e com quantos recursos contribuirão os países ricos para o desenvolvimento e para a poupança energética dos mais pobres. Acaso existe margem para a hipocrisia e a mentira?

Fidel Castro Ruz

FESTIVAL INTERNACIONAL DO NOVO CINEMA LATINO-AMERICANO


O segredo de muitos olhos

Mireya Castañeda

O segredo dos seus olhos, o mais recente filme do argentino Juan José Campanella, protagonizado pelos muito reconhecidos Ricardo Darín, Guillermo, Francella, e Soledad Villamil, foi escolhido para inaugurar o 31º Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano. Chegou a Havana com muitos avais, entre eles, ter sido indicado pela Academia das Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina para o Oscar.
O filme fez sucesso na Argentina, o qual sempre é um aspecto importante: que os filmes da região tenham distribuição, presença nas telas e no espectador. O segredo dos seus olhos esteve a ponto de bater o recorde histórico de bilheteria de mais dois milhões de espectadores que o filme icônico de María Luisa Bemberg, Camila, em 1984, interpretado por Susú Pecoraro.
Campanella, além de diretor, foi o roteirista de quatro filmes muito conhecidos: O Mesmo Amor, a Mesma Chuva, O Filho da noiva (indicado para o Oscar em 2001 como o Melhor filme de fala não-inglesa), Clube da Lua e agora também O segredo dos seus olhos.
Este novo filme, no concurso pelo Prêmio Coral do Festival de Havana, conta a história de um homem recém-aposentado, Benjamín Chaparro, que depois de trabalhar a vida toda como empregado num Tribunal Penal, resolve escrever uma novela, um thriller que decorre em Buenos Aires, em 1974, baseada numa história real, da qual foi testemunha e protagonista. É, aparentemente, a história de um assassinato.
Com essa história, Juan José Campanella fala dos caminhos que transitou a sociedade argentina, da impunidade à repressão na década de 1970, o restabelecimento da justiça e da democracia nos últimos anos.
"ERNESTO GUEVARA"
Outro filme argentino, que é exibida fora de concurso, em estreia mundial, é o documentário Ernesto Guevara, do reconhecido cineasta Tristán Bauer, do qual Alfredo Guevara, fundador do Icaic e do festival, disse que tenta mostrar uma faceta mais humana do guerrilheiro.
Em entrevista coletiva, o presidente do encontro cinematográfico argumentou que o documentário mostra gravações inéditas da vida íntima e amorosa do Che que guardava a viúva, Aleida March, e —assinalou— "os que fomos amigos do Che, sabemos o que ele era: o guerrilheiro, o exigente — às vezes, azedo, isso nunca foi dito — mas ao mesmo tempo, com uma imensa humanidade".
Tristán Bauer trabalhou no projeto durante mais de uma década e teve acesso a arquivos secretos do exército da Bolívia — que executou o Che em outubro de 1967 — e aos do Centro de Estudos "Che Guevara", de Cuba.
Entre os sete filmes que fez sobressai o muito premiado Iluminados pelo Fogo (2005), que inaugurou o Festival de Havana em 2006 e o meia-metragem Evita, o Túmulo Sem Paz (1997).
DAWSON ILHA 10
Fora do concurso, exibe-se também o novo filme de Miguel Littín, Dawson Ilha 10, do Chile, que participa da concorrência aos prêmios das academias norte-americana e espanhola, ou seja, ao Oscar e ao Goya.
Protagonizada por Benjamín Vicuña, o filme narra fatos reais acontecidos após o golpe de Estado de Pinochet, quando os colaboradores diretos do presidente Salvador Allende foram presos e desterrados a uma ilha do Pacífico, situada a uma centena de quilômetros do continente.
Dawson Ilha 10 baseia-se no relato autobiográfico de Sergio Bitar, que fez parte do grupo de altos funcionários constitucionais enviados para esse campo de concentração cercado de mar, quando foi ministro de Minas de Allende (depois, ministro de Obras Públicas com a atual presidente Michelle Bachelet).
Miguel Littín é um cineasta muito conhecido, fundador do novo Cinema Latino-Americano, ganhador de numerosos prêmios por filmes como A Viúva de Montiel e O Recurso do Método. Atas de Marusia e Alsino e o Condor foram indicados para o Oscar em 1976 e 1983, respectivamente, como melhores filmes estrangeiros. A sua carreira cinematográfica começou em 1969, com O Chacal de Nahueltoro, filme que fez sucesso de bilheteria e que teve também impacto no âmbito social e político.
Após o golpe de Estado e o estabelecimento da ditadura de Augusto Pinochet, teve que se exilar em 1973, domiciliando-se no México e mais tarde, na Espanha. Em 1985, teve a chance de voltar de maneira clandestina ao Chile e executar um temerário projeto de filmagem sobre a realidade política do seu país, intitulado Ata Geral do Chile. Quando voltou à Espanha e terminou seu trabalho, o Prêmio Nobel de Literatura Gabriel Garcia Márquez propôs-lhe escrever a história do seu filme, publicada sob o título Aventura de Miguel Littín clandestino no Chile.
Retornou à temática latino-americana com Sandino, de 1991, dirigiu Náufragos em 1994 e retomou o estilo de epopeia popular com Terra do fogo em 2000.
Que trouxe Coppola?
Francis Ford Coppola, que noutras ocasiões esteve no Festival de Havana, agora enviou o seu filme Tetro, filmado na Argentina, e considera-se uma nova viagem do diretor de O Poderoso Chefão pelo tema habitual da família vista como uma versão reduzida da sociedade com todos seus conflitos e suas reconciliações.
O filme, em preto e branco, conta a história de dois irmãos afastados há anos, que se reencontram em Buenos Aires para encarar um segredo que mudará para sempre o modo da sua relação.
A lista do elenco é impressionante: Vincent Gallo, o estreante Alden Ehrenreich, as espanholas Maribel Verdú e Carmen Maura, o austríaco Klaus Maria Brandauer e os argentinos Rodrigo de la Serna, Letícia Brédice e Mike Amigorena.
Quando Tetro foi exibido em Cannes, o público que lotou a sala gostou muito dele, mas não convenceu a crítica, a qual assinalou que o roteiro dedicou muito tempo às peripécias, até chegar a duas horas e sete minutos de duração, uma atuação desigual, e algumas passagens coreográficas gratuitas.
Parece que o mais convincente de todos os atores é a espanhola Maribel Verdú, que sabe chegar ao espectador com sua figura sofrida de amante sacrificada do protagonista, Tetro, encarnado por Vincent Gallo.
Coppola, a quem devemos muitos títulos, como a trilogia de O Poderoso Chefão e Drácula, fez recentemente 70 anos e sua carreira conta tanto com sucessos quanto com fracassos. Tetro é o primeiro filme baseado numa história original sua, desde A Conversação, ganhador da primeira Palma de Ouro em 1974 no Festival de Cannes, a segunda foi há 30 anos com Apocalypse Now.
Quanto a Drácula, há mais. O Festival fará uma Exibição Especial da versão de Drácula de George Melford, a versão latinizada do filme feita em 1931 por Tod Browning, com Bela Lugosi como protagonista.
Alfredo Guevara salientou que essa versão foi encontrada nas abóbadas da Cinemateca de Cuba e a considerou melhor que a original.
Anunciou que agora será projetada, mas com o violonista e compositor Gary Lucas tocando ao vivo, em estreia mundial, sua partitura para o Drácula latino.
Muitas pessoas estão assistindo filmes em Havana: os filmes em concurso, fora de concurso, as mostras, os panoramas, Latino-Americano e Contemporâneo e as homenagens (neste ano, exclusivamente para o cinquentenário do Icaic). Qual será o segredo? •

Filosofando.....

Freud encontra a ética

Referindo-se à ética, os filósofos apontam para hábitos, comportamentos e valorações que se espera de um grupo social que, a partir desses elementos, é descrito e caracterizado.  Ao passar para o plano da metaética, os filósofos voltam os olhos para as justificações ou fundamentos de determinadas propostas ético-morais. Essa duplicidade de esforços reflexivos é típica da filosofia contemporânea.
Até o final do século XIX a divisão entre ética e metaética não se estabelecia. Pode-se dizer que, em parte, a divisão surgiu para permitir que a filosofia pudesse continuar a sua reflexão no âmbito ético-moral, criando uma fronteira entre o seu campo e o das várias disciplinas científicas ou novas áreas do saber emergentes, atentas ao comportamento humano.
Durkheim foi quem começou a sociologia científica, exatamente investigando o campo ético-moral não mais segundo uma visão vinculada à finalidade filosófica, mas como um objeto empírico que ele chamou de “fato social”. No início do século XX, os vários trabalhos no campo psico-social definiram um tipo de estudo que marcou época, o das relações entre indivíduo e sociedade. As ciências sociais caminharam, então, a partir de preceitos do positivismo francês e/ou do historicismo alemão. Diferentemente, o marxismo e a psicanálise emergiram nessa época não como saberes internos de determinadas disciplinas, mas como áreas autônomas. Tratava-se de uma espécie de discussão que se parecia, ainda, com a filosofia, mas que importava muito do estilo da ciência. Foi nesse clima, na terceira década do século XX, que Freud enveredou pela investigação em ética.
A conversa de Freud sobre ética apareceu, principalmente, no célebre ensaio O mal estar na civilização.[1] A história contada nesse belo ensaio é a de um conflito entre a força denominada de Eros e a força denominada de instinto de morte. Essas forças se mostram na narrativa do ensaio de modo bem determinado, cada uma com sua função. Todavia, Freud as apresenta como irmãos siameses. Quando uma surge, imediatamente deve surgir a outra – elas se apresentam enlaçadas, talvez de modo indissolúvel.
Eros é o amor. A palavra amor designa a fusão, a união. Assim, a ação de Eros é a de agregação. Graças a Eros os indivíduos isolados são postos no interior de grupos e estes, por sua vez, são empurrados para a formação de outros grupos maiores. O elo dessas agregações, isto é, aquilo que faz com que um indivíduo se integre em um grupo e ali permaneça e o que faz com que os grupos permaneçam unidos, com tendências a se agregar a outros, é batizado por Freud de libido. Nem a necessidade nem a vantagem do trabalho comum, por si sós, conseguiriam manter a união dos indivíduos se não fosse o elo libidinal. A libido é o princípio de vida, o que vem com Eros. Mas, esta é apenas uma das cabeças dos irmãos siameses. Contrariamente à força que agrega, há a força que tende a desfazer a união. Trata-se da agressão – o instinto agressivo ou a manifestação mais visível do instinto de morte.
O instinto de morte é assumido por Freud como existente à medida que ele nota que, contra as unidades que surgem pela agregação, pelo amor, sempre ocorre o aparecimento de forças contrárias que visam dissolver tais unidades, em busca de uma volta ao estado primitivo e inorgânico. Trata-se de uma devolução da vida à morte – pela agressão. Por isso mesmo o nome não poderia ser outro senão instinto de morte. A libido que une nunca se mostra sem sua contrapartida, que é a agressividade, que tenta retroceder e fazer desaparecer a união. Junto das manifestações sexuais, que são expressões da libido de modo mais visível, há sempre algum componente de sadismo e/ou masoquismo, mostrando assim a presença, em graus variados, da agressividade no momento mesmo do amor. O princípio de morte não deixa o princípio de vida atuar solitariamente. Irmãos siameses são irmãos siameses!
Esses dois princípios atuam no interior tanto do desenvolvimento do indivíduo, que deve se integrar em grupos, quanto no processo da civilização humana, que é a integração entre grupos que vão, então, gerando grupos maiores. No caso do primeiro, o telos é a felicidade. No segundo, não é que a felicidade seja posta de lado de uma vez, mas o telos é realmente a criação de uma coletividade maior. É exatamente na observação desses dois processos que Freud recoloca sua teoria das funções da consciência tripartida em ego, id e superego.
Como no caso ele não trata do indivíduo somente, e sim de sua relação com a sociedade, as noções de ego, id e superego são mostradas de um modo especial. A noção de superego, por analogia, extrapola a consciência individual. Freud se preocupa em mostrar – e é isso que ele diz que considera o novo na sua narrativa do comportamento humano – a idéia de um superego não psicológico, um superego cultural. O superego corresponde, como ele diz, à força dos primeiros grandes líderes da comunidade, que registraram as primeiras leis e que, enfim, se mostraram como que divinos ao agirem desse modo. São exatamente esses líderes que irão deixar para as suas comunidades, que continuam os seus desenvolvimentos, as exigências “que tratam das relações dos seres humanos uns com os outros” e que estão “abrangidas sob o título de ética”. Em outras palavras, o superego cultural é nada mais nada menos que a ética.
Qual é o papel da ética, do superego cultural?
O ensaio O mal estar na civilização lida com questão da busca da felicidade e, enfim com o que se mostra como o infortúnio humano, que é a agressão entre os homens. Quanto a esse problema, Freud diz que sempre esperamos muito da ética. Ela é importante, pois queremos que ela resolva um problema difícil o da agressividade mútua. É como se a ética fosse uma terapia, diz ele, uma vez que se espera alcançar com ela, por meio de “uma ordem do superego, algo até agora não conseguido por meio de quaisquer outras atividades culturais.” Ora, se é isso que se deve abordar a fim de compreender a ação ética, o objeto tem de ser exatamente a norma mais atual do superego. Em outras palavras, o objeto é o preceito ético mais universal de nossos tempos, o mandamento cultural vigente que, enfim, veio do superego. Freud aponta corretamente para o mandamento “amai ao próximo como a ti mesmo”.
Freud acha esse imperativo ético exigente demais, aliás, como toda ordem do superego que, enfim, pouco se preocupa com o homem. “Amai ao próximo como a ti mesmo” é uma afronta a qualquer tipo de egoísmo ou de narcisismo. Ao se tentar seguir um imperativo desse tipo, o que se pode esperar do ego individual? O ego individual teria de ser capaz de um controle total do id, mas é óbvio que esse controle não existe. A exigência do superego cultural, com o “Amai ao próximo como a ti mesmo” ultrapassa as possibilidades do homem e, quando algo desse tipo ocorre, há infelicidade – ou mesmo, no plano de análise de um superego individual com um ego individual, há a neurose. Além do mais, quem quisesse seguir o mandamento em questão, uma vez diante de outro que não desse muito valor para a tal regra, cairia em desvantagem e, então, passaria por um duplo sofrimento. A frustração levaria à culpa. Ser passado para trás produziria a mágoa.
Diante disso, Freud vê que lidar com a agressividade não é fácil. Ele diz: “que poderoso obstáculo a agressividade deve ser, se a defesa contra ela pode causar tanta infelicidade quanto a própria agressividade!”.
Como a ética nada é senão o superego cultural, e este, por sua vez, é uma analogia com o superego psíquico individual, a analogia pode continuar, diz Freud, e então podemos imaginar mais correlações. Assim como o superego individual, com suas exigências, pode produzir neuroses, a analogia permite dizer que éticas difíceis de serem cumpridas poderiam criar civilizações neuróticas. Por conseguinte, a idéia tão tentadora quanto perigosa seria a de começar imaginar terapias para toda uma civilização.
Freud, aqui, se abstém de dar caminhos. Todavia, ao final do ensaio em questão, traça uma observação interessante sobre tendências. Durante todo o percurso em que fala de ética, o que aborda não é outra senão a ética moderna, a chamada “ética do dever”. Neste tipo de ética, a virtude moral vai para um lado e a felicidade, não raro, vai para outro. Mas, ao final, Freud assume que os juízos de valor dos homens acompanham “diretamente os seus desejos de felicidade”. Neste caso, Freud parece assumir uma visão próxima da ética antiga, a ética da eudaimonia. Na ética antiga, o objetivo é a realização da felicidade ou o alcance da felicidade. Ainda que eudaimonia não possa ser traduzida, exclusivamente, por felicidade em um sentido moderno, o que Freud diz o coloca em proximidade com a ética das virtudes, a ética clássica. No entanto, mais uma vez, ele novamente altera o curso. Fala da correlação entre juízos de valor e desejos de felicidade não para endossar uma posição ética, mas para, em seguida, dizer que essa busca de felicidade faz os homens encontrarem argumentos de toda ordem para “sustentarem suas ilusões”.
Ao fim e ao cabo, Freud não assume uma posição ética filosófica. No que parece que vai endossar a eudaimonia, em um final que seria espetacular, recua para a posição de um teórico que busca certa neutralidade filosófica no campo doutrinário moral. Não se trata de neutralidade científica, e sim de neutralidade no campo da filosofia prática. Pesa forte, nesse caso, o espírito de época. Desse modo, o que faz é um estudo que poderíamos dizer que se trata de um tipo de metaética, uma especial narrativa teórica que poderia, talvez, fundamentar ou justificar uma doutrina – exatamente essa doutrina que ele, Freud, não ousa explicitar.
© Paulo Ghiraldellli Jr, filósofo

[1] Freud, D. Mal estar na civilização. Freud. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978. Todas as citações são desse volume. Elas aparecem aspadas, mas sem a referência ou numeração de página.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Veja aqui as imagens censuradas pela Folha / UOL



Baixe para seu computador e suba para seu blog ou rede social.

 
 
 
 
O Grupo Folha não vê problema em expor uma ficha falsa da ministra da Casa Civil e candidata do presidente Lula a sua sucessão, Dilma Roussef, na primeira página de um domingo, acusando-a de participar de ações terroristas. Não vê problema também em abrir uma página inteira para Cesar Benjamim expor seus fantasmas político-sexuais (à espera de um Wilhelm Reich) e acusar o presidente Lula de estuprador. Acha também perfeitamente natural chamar de ditabranda a ditadura que sequestrou, torturou e matou inúmeros brasileiros. Mas a Folha e o UOL não gostam de virar vidraça.

O blogueiro Arles publicou uns banners em seu blog convidando os navegantes para que cancelassem suas assinaturas do ex-jornalão e do portal. Recebeu uma notificação para que os retirasse do ar. Eu já os havia reproduzido aqui no blog, com link para as imagens do Arles. Mas sou macaco velho e, embora não acreditasse que o Grupo Folha descesse a tanto, havia providenciado backup das imagens. As publico aqui, convocando-os para que façam o download delas para seus computadores e depois subam-nas para seus blogs ou redes sociais. Eles vão ter que notificar a blogosfera toda. Assim vão aprender que os tempos mudaram e não existe mais informação de mão única. Agora eles mandam de lá e nós respondemos de cá.
http://blogdomello.blogspot.com/

Estupro da Folha é outro tiro no pé

do blog do miro

Neste sábado, dia 5, às 10 horas, o Movimento dos Sem Mídia (MSM) fará uma manifestação em frente ao prédio da Folha de S.Paulo (Rua Barão de Limeira, 425, centro da capital paulista), para protestar contra a publicação de um artigo leviano e irresponsável que acusou o presidente Lula de tentar “subjugar sexualmente” um jovem nos anos 1980. O artigo de uma página inteira, de autoria do ex-petista Cesar Benjamin, atual colunista da Folha, “foi forjado no ódio, na inveja e na covardia e é um estupro ao jornalismo”, afirma Eduardo Guimarães, presidente do MSM.

Sobre o artigo de Cesar Benjamin, que “estuprou” sua própria biografia de profundo conhecedor do Brasil e de intelectual brilhante, muitos já se pronunciaram criticamente – prefiro silenciar na tristeza por mais este ato instintivo e rancoroso. Sugiro apenas a leitura da resposta ponderada e firme do jornalista Gilberto Maringoni, publicada na Carta Maior. Membro do PSOL e crítico de esquerda do governo Lula, ele não poupou críticas ao texto do “Cesinha”, que estaria fazendo o jogo da direita brasileira às vésperas da sucessão presidencial. “Fico envergonhado com o papel que ele está desempenhando. Seu passado não merece isso. Mas a História irá julgá-lo”.

“Um horror” dos herdeiros de Frias

Já com relação ao jornal da famíglia Frias, a publicação do artigo sem qualquer apuração prévia ou rigor jornalístico liquida qualquer ilusão sobre o ecletismo da Folha. Após usar um ex-petista para desferir ataques pessoais ao presidente da República, ela mesma confessou sua leviandade, mas sem fazer autocrítica pública – talvez temendo processos jurídicos. Militantes que estiveram presos com Lula nos cárceres da ditadura, entre abril e maio de 1980, negaram taxativamente a história bizarra. Vale registrar a resposta íntegra de José Maria de Almeida, presidente do PSTU e outro crítico do governo Lula, que qualificou a insinuação de “baixaria”.

O reconhecimento cabal do “estupro” perpetrado pela Folha, porém, ocorreu com a entrevista de João Batista dos Santos, o ex-militante do Movimento pela Emancipação do Proletariado (MEP) que teria sido o alvo da “investida” de Lula na cela. Ele considerou “um horror” o artigo, disse que isso nunca ocorreu e lamentou a publicação do texto sem ouvir os envolvidos no caso. Por ironia da história, Santos trabalhou numa granja da famíglia Frias em São José dos Campos, no interior paulista, na década de 1990. Para ele, se Octavio Frias de Oliveira, o barão da Folha, estivesse vivo (ele faleceu em 2007), “esteve artigo não teria sido publicado”.

Credibilidade e tiragem em queda

Depois de cunhar a expressão “ditabranda” para se referir aos trágicos anos da ditadura militar e de publicar uma “ficha policial” falsa contra a ministra Dilma Rousseff, a Folha dá outro tiro no pé. A publicação do asqueroso artigo fere a pouca credibilidade que ainda resta a este veículo e poderá resultar em novas quedas da sua tiragem. Quando da “ditabranda”, o jornal perdeu mais de 3 mil assinantes, segundo fontes da própria empresa. Já no caso da falsa ficha policial, o jornal foi forçado a reconhecer timidamente o erro, temendo a abertura de um processo criminal.

Entre outros fatores, a perda de credibilidade do jornal da famíglia Frias ajuda a explicar a brutal queda da sua tiragem nos últimos anos. Segundo levantamento do IVC (Instituto Verificador de Circulação), a Folha é hoje o vigésimo quarto jornal em vendas avulsas no país, ficando atrás do Estadão (19º lugar) e de O Globo (15º lugar). Entre janeiro e setembro de 2009, ela vendeu em média 21.849 exemplares nas bancas. Uma tiragem pífia se comparada aos 489 mil exemplares vendidos em suas edições dominicais em outubro de 1996. Atualmente, o jornal só se sustenta graças à publicidade e à venda de assinaturas, que atinge basicamente a chamada classe média.

Com os “estupros” que a Folha insiste em praticar, a tendência é que a sua tiragem despenque ainda mais. O ato organizado pelo MSM poderá servir como mais uma pá de cal neste jornal leviano e golpista, que agride constantemente a democracia e a ética jornalística.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Calamidade em Bhopal-India...


vítimas de Bhopal seguem nascendo

Carlos Gorito - Correio Internacional

BHOPAL, Índia: Bhopal é uma calamidade sem fim. Em 3 de dezembro de 1984, nuvens de veneno vazaram da fábrica de pesticidas Union Carbide matando milhares nessa cidade do centro da Índia. Hoje, um quarto de século depois, as vítimas, desse que é o pior desastre industrial do mundo, continuam nascendo.
Aqui, em bairros onde as pessoas dependem de água contaminada por produtos químicos que vazam da fábrica abandonada e onde muitas mães foram expostas a gases tóxicos quando eram jovens, danos cerebrais e bebês com má formação são 10 vezes mais comuns que a média nacional. Médicos da Clínica Sambhavna de Bhopal [clínica mantida por doações para dar assistência médica gratuita às vítimas do desastre] dizem que nada menos que 1 em 25 bebês ainda está nascendo com defeitos e problemas de desenvolvimento tais como cabeças menores, pés palmados e baixo peso ao nascer.
Aqueles que eram apenas crianças quando a fumaça dominou a cidade de um milhão de habitantes também estão sofrendo. Dolorosas lesões de pele, problemas e feridas estomacais, coceira nos olhos são queixas comuns entre as milhares de famílias, das quais algumas se mudaram para Bhopal apenas em anos recentes. E a clínica da cidade diz que Bhopal agora tem algumas das mais altas taxas de câncer de vesícula e esôfago, tuberculose, anemia e anomalias na tireóide. As meninas começam a menstruar muito mais tarde que o normal e passam por dolorosos problemas ginecológicos, que muitas vezes levam a retirada do útero.
Esses problemas, dizem ativistas tais como os da Bhopal Medical Appeal [BMA, campanha mundial para angariar fundos destinados a ajudar as vítimas do acidente industrial em Bhopal], estão ligados à contínua poluição de partes do suprimento local de água por produtos químicos tais como clorofórmio e tetracloreto de carbono. As famílias não têm escolha a não ser usar água de poços para lavar, cozinhar e beber quando fontes seguras secam, de acordo com uma nova pesquisa que será publicada pela BMA na terça-feira [1/12]. O estudo encontrou níveis mais altos de vários produtos químicos carcinogênicos [que podem causar câncer] nas fontes de água esse ano do que ano passado – sugerindo fortemente que as gerações futuras serão envenenadas a menos que a área seja descontaminada. Isso contraria as afirmações do estado e dos ministros nacionais de que o lugar está limpo.
Enquanto isso, a batalha legal para que o diretor executivo da Union Carbide seja julgado pela alegada negligência de sua companhia não está mais perto do sucesso do que estava há 25 anos. A Anistia Internacional intimará nesta semana o governo da Índia e a Dow Chemicals [corporação estadunidense fabricante de produtos químicos, plásticos e agropecuários], que comprou a Union Carbide em 2001, para que tomem “ações urgentes e decisivas” para garantir que os acusados compareçam no tribunal – mais de 20 anos depois que os mandados de prisão foram emitidos pela primeira vez. A Dow Chemicals continua a negar qualquer responsabilidade pelo caso criminal.
Foi nas primeiras horas do dia 3 de dezembro de 1984 que 27 toneladas de metilisocianteto gasoso – 500 vezes mais tóxico que o cianeto de potássio e usado para fabricar o pesticida Sevin [usado como inseticida em jardins, agricultura e reflorestamento] – começou a vazar da fábrica da Union Carbide para as áreas vizinhas. Centenas de milhares de pessoas foram envenenadas pelo gás enquanto dormiam. Homens, mulheres e crianças que viviam em casebres situados bem ao lado do muro da fábrica acordaram respirando com dificuldade e cegas pelo gás que se dispersou rapidamente.
Acredita-se que cerca de 8 mil pessoas tenham morrido nas primeiras 72 horas. Centenas morreram em suas camas; outras milhares saíram cambaleantes de suas casas para morrer na rua. Estima-se que outras 15 mil pessoas tenham morrido em resultado da exposição ao gás desde então, muitas vezes com danos dolorosos e horrendos aos pulmões, coração, cérebro e outros órgãos, de acordo com a Anistia Internacional. Cerca de três quartos das mulheres grávidas dessa área abortaram espontaneamente seus bebês horas ou dias depois daquela noite. Centenas de bebês têm nascido desde então com deformidades, tais como membros ausentes, órgãos anormais, cabeças malformadas e tumores. Nenhum dos seis sistemas de segurança da fábrica estava operacional naquela noite.
Mesmo hoje, a Anistia Internacional estima que 120 mil pessoas expostas ao gás tenham problemas médicos crônicos. Depois que a fábrica foi fechada em 1985, outras 30 mil pessoas já ficaram doentes por causa da água contaminada por resíduos químicos enterrados ou descartados em lagoas próximas, de acordo com sanitaristas de Bhopal. Crianças e animais domésticos ainda são vistos brincando e pastando na grama que esconde os resíduos porque o governo local tem falhado em proteger a área apropriadamente.
Hazira Bee, de 53 anos, vive em J P Nagar, uma das áreas mais afetadas ao norte da cidade. Na noite do desastre, depois de despertar por causa do cheiro de pimenta queimada, ela e seu marido correram com suas crianças, seus olhos e pulmões ardendo por causa do gás. No pânico, seu filho do meio, Mansoor Ali, de 4 anos, foi deixado para trás. Ele tem passado a maior parte de sua vida dentro e fora de hospitais, enfraquecido severamente pelo dano crônico aos pulmões. A filha de Mansoor, hoje com 3 anos e meio, foi incapaz de manter sua cabeça ereta ou virar para o lado até os 18 meses de idade; ela recém começou a caminhar. Toda a família de Hazira tem sofrido de problemas respiratórios, neurológicos e de pele desde o vazamento.
Hazira disse: “a cena dentro da fábrica era horrível. Eu vi corpos e pessoas machucadas com espuma saindo de suas bocas. Desde o vazamento de gás nós todos estamos doentes. Por causa disso, meus filhos não puderam estudar e agora eles não conseguem bons empregos. Hoje eu sou a única fonte de renda da família. Se esse desastre tivesse acontecido nos Estados Unidos, o governo teria tomado conta de seus cidadãos. Nós queremos que a Union Carbide levem seu resíduo de volta para os Estados Unidos.”
Os relatórios de análise de água da BMA sustentam os estudos do Greenpeace que demonstram que as áreas ao norte da fábrica fechada são as mais afetadas porque a água subterrânea corre nessa direção. A Clínica Sambhavna – fundada há 13 anos com doações privadas – atende 150 pessoas como Hazira e sua família todos os dias. Existem 23 mil pessoas, ou que foram expostas ao gás ou que desde o desastre têm usado suprimentos contaminados de água, registradas com problemas crônicos tais como doenças do fígado, paralisia e anemia severa. Médicos relatam novos pacientes – adultos e crianças – todos os dias na clínica.
De acordo com Satinath Sarangi, um fundador da Clinica Sambhavna, a tuberculose é predominante entre pessoas cujo sistema imunológico tem sido desgastado pela exposição crônica à água envenenada. Câncer cluster [repetida ocorrência de um determinado tipo de câncer em uma determinada comunidade ou bairro] e crianças nascidas com deformidades são outras características distintivas da área, encontradas pelos pesquisadores da clínica que conduziram uma pesquisa de porta em porta nas dezenas de milhares de moradores do local.
No início desse ano, o Conselho Indiano de Pesquisa Médica [sigla em inglês ICMR, organização do governo indiano voltada para a formulação, coordenação e promoção de pesquisas biomédicas], finalmente cedeu à pressão pública e internacional ao reiniciar um programa estatal de pesquisa para entender as taxas alarmantes de natimortos, cânceres, problemas neurológicos e ginecológicos atendidos pelos médicos de Bhopal. Os estudos sobre os problemas de saúde de longo prazo de vítimas da Union Carbide foram deixados a cargo de instituições beneficentes e grupos de pressão depois que o ICRM abandonou seu programa de pesquisa em 1994 de forma polêmica.
O acordo de 470 milhões de dólares [cerca de R$812 milhões] feito pela Union Carbide em 1989 é lembrado como totalmente inadequado pelos profissionais de saúde da cidade e organizações de sobreviventes. Ele foi baseado na estimativa inicial de apenas 3.800 mortos e 102 mil feridos, e a quantia máxima que qualquer vítima recebeu foi de apenas mil dólares [cerca de R$1.700] – cerca de 11 centavos de dólar ao dia por 25 anos [menos de R$0,20]. Se a compensação tivesse sido a mesma daqueles expostos ao amianto sob os tribunais estadunidenses contra réus que também incluíam a Union Carbide, a dívida teria excedido os 10 bilhões de dólares [mais de R$17 bilhões]
A Dow Chemical Company insiste que não tem responsabilidade por esse legado tóxico. No entanto, a correspondência interna, vista pela IoS e a Anistia, entre diferentes ministros indianos (incluindo o Gabinete do Primeiro-ministro) mostra que a companhia continua tentando influenciar ministros numa tentativa de encerrar os processos civis. Esses processos poderiam determinar que a Dow descontaminasse milhares de toneladas de solo poluído.
Colin Toogood, da BMA, disse: “nós queremos ver uma limpeza completa da área do desastre e arredores, incluindo o aqüífero subterrâneo – uma tarefa enorme, mas razoável considerando-se que esse foi o pior desastre industrial no mundo. A compensação desembolsada de 470 milhões de dólares apenas diz respeito às pessoas afetadas pela exposição ao gás naquela noite. Isso não inclui, e nunca incluiu, as crianças nascidas com defeitos terríveis em resultado da exposição de seus pais; as pessoas afetadas pela contaminação do meio ambiente ou da água; e não inclui a própria contaminação do ambiente.”
Tom Sprick, da Union Carbide, declarou: “Nem a Union Carbide nem seus funcionários estão sujeitos à jurisdição da corte indiana já que eles não tiveram nenhum envolvimento na operação da fábrica… O governo da Índia precisa dedicar-se a quaisquer preocupações médicas e de saúde do povo de Bhopal.”
Porém, de acordo com Tim Edwards, um curador da BMA e autor do próximo relatório da Anistia, isso transmite uma idéia de desprezo pelos processos da lei. Ele disse: “em toda forma de sociedade civilizada é o sistema judicial que decide se um acusado tem algo a responder. As cortes da Índia decidiram que a Union Carbide e seu novo dono, a Dow Chemicals, têm de responder à justiça – mas a companhia não gostou nada disso.”
Scot Wheeler, da Dow Chemicals, respondeu: “Tentativas de vincular qualquer responsabilidade a Dow são inapropriadas… como todas as companhias globais, é comum para a Dow ter encontros com líderes e oficiais do governo se nós fazemos negócios e temos planos de crescimento. Também é comum para companhias discutir desafios e oportunidades relacionadas com investimentos.”

Nina Lakhani


Tradução: Aline Oliveira


Para acessar o texto original, clique aqui.

 
Fotografia de  Luca Frediani, retirada daqui

Eleição 2010...

Revolução? 

Wladimir Pomar - Correio da Cidadania

Pelo andar da carruagem, parece que a campanha de 2010 voltará a assistir baixarias da pior espécie. Talvez a utilização do caso Lurian-Mirian Cordeiro, em 1989, se torne brincadeira infantil diante do tipo de acusação assacada por Folha de São Paulo-César Benjamin contra Lula. Sem bandeira, a direita parece disposta a ultrapassar todos os limites, na mesma suposição de Goebbels de que uma mentira, repetida mil vezes, se transforme em verdade. Enquanto uma parte da esquerda flerta com essa aventura de viés fascista, outra amacia a crítica ao período FHC, caracterizando-o como revolução silenciosa. Para compreender o caráter do que chama de nova revolução silenciosa do governo Lula, essa parte da esquerda considera essencial entender os anos dourados do neoliberalismo, que tiveram por base as políticas de liberalização, privatização e desregulação, propugnadas pelo Consenso de Washington e aplicadas pelo FMI e Banco Mundial. Segundo ela, para combater a crise de recessão e desemprego, que se espraiara pelo mundo nos anos 1980. Ainda segundo essa análise, a revolução silenciosa de FHC, cujo maior mote foi "o Estado é mau gestor" e "o Mercado tudo resolve", teve como eixos as reformas estruturais nas contas públicas, impondo a disciplina fiscal, no comércio externo, abrindo o mercado doméstico aos produtos e investimentos estrangeiros no Estado, retirando-o das atividades econômicas através das privatizações, e também na desregulação trabalhista, através da flexibilização das leis do trabalho. Para início de conversa, cabe o reparo sobre as razões do Consenso de Washington. Ele não foi costurado para combater a crise de recessão e desemprego, mas para elevar a taxa média de lucro das corporações transnacionais, mesmo que isto aprofundasse a recessão e o desemprego nas economias nacionais. As políticas de liberalização, privatização e desregulação, aplicadas com denodo por FHC, tinham esse caráter preciso. É verdade que, como todo contra-revolucionário, FHC procurou chamar sua agenda neoliberal de revolução silenciosa. Se os golpistas de 1964 chamaram sua contra-revolução de revolução redentora, por que FHC não teria o direito de fazer o mesmo? No entanto, quando uma parte da esquerda aceita chamar uma contra-revolução de revolução, isso apenas pode significar que ela não leva a sério o conteúdo desses conceitos. Em relação à era FHC, José Luiz Fiori tinha razão em dizer que houve "uma imensa recomposição patrimonial da riqueza brasileira, (...) movida por uma transferência gigantesca de riqueza ou privatização de riqueza". Francisco de Oliveira também estava certo ao afirmar que se assistiu à criação de "uma nova burguesia no país" e que "o governo perdeu boa parte da capacidade que tinha de distribuir favores no Estado entre seus aliados". Portanto, o que a contra-revolução de FHC realizou foi uma brutal reorganização do capitalismo brasileiro, reduzindo a participação do capital estatal na economia. Para o tucanato, o tripé que sustentava o capitalismo desde a era Vargas (capital estatal, capital privado nacional e capital privado estrangeiro), deveria tornar-se um bipé com elefantíase, tendo o capital estrangeiro como principal. Ao Estado caberia apenas o papel de facilitador da relocalização empresarial, ao mesmo tempo em que fingia ser regulador e compensador dos desequilíbrios sociais. Nessas condições, supor que os tucanos apoiavam as políticas neoliberais por acreditarem que esta seria a condição necessária para o crescimento econômico e a inserção competitiva no mercado internacional é o mesmo que acreditar em fadas. Os tucanos e seus associados, do mesmo modo que todos os segmentos sociais e políticos que, em qualquer época, apoiaram a colonização de seu país por invasores estrangeiros, na verdade acreditavam que o neoliberalismo era a salvação de seu grupo particular. Muitos membros desse grupo se transformaram em parte daquela nova burguesia, resultante da recomposição patrimonial da riqueza. Confundir interesses particulares com interesses nacionais é erro primário. Na era FHC o problema não foi somente que o Estado tenha deixado de ser o principal indutor da economia e delegado este papel para o mercado. Ou que ele tenha desregulado, quebrado monopólios, vendido empresas estatais e tentado desmontar a CLT. Ou, ainda, que o país tenha se tornado "o paraíso para investimentos internacionais" e que os movimentos sociais tenham passado a ser criminalizados e desqualificados como forças reacionárias contrárias à modernização. Esse tipo de lista genérica esconde o conteúdo de cada um desses atos. Na verdade, ocorreu uma tentativa criminosa de quebrar o Estado e transformá-lo no principal freio ao desenvolvimento econômico. Ele quebrou somente monopólios estatais, enquanto estimulava a monopolização e a oligopolização privada. A pretensa venda de empresas estatais foi, em geral, uma transferência nebulosa de ativos públicos para o setor privado estrangeiro e nacional, quase no estilo mafioso russo. E os investimentos estrangeiros vieram apenas para lucrar nesses negócios escusos e no cassino das bolsas de valores, ou para fechar indústrias concorrentes. Nessas condições, os anos FHC não foram uma década perdida para seus autores, nem um fracasso para a inserção subordinada do país na economia internacional. Eles conseguiram legar às gerações futuras uma herança contra-revolucionária extremamente complexa, com um Estado quase desmontado, incapaz de planejar e projetar, e com visões econômicas ainda fortes, para as quais políticas industriais estão fora de moda, crescimento e consumo sempre geram inflação e elevar a renda dos pobres é populismo. Essa caminhada só foi momentaneamente paralisada porque os resultados de seu programa de governo introduziram uma cunha profunda na massa da burguesia, ao beneficiarem somente a um pequeno setor dessa classe, e porque os movimentos populares souberam aproveitar-se das contradições no meio da burguesia para derrotar eleitoralmente aquele setor. Assim, a rigor, ao invés de revolução silenciosa de FHC, o que ocorreu foi uma contra-revolução inacabada. E, no caso da vitória de Lula, ela foi, no máximo, uma revolução cultural, o que já é muito para um país em que a hegemonia ideológica e política das classes dominantes ainda é avassaladora.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Poesia de uma professora indignada....

Os Vinte.

Cinda Saldanha - 17º núcleo do cpers-sindicato




I


Eu vou citar vinte nomes,
são vinte monstros sagrados.
Adolfo, Adilson, Coffy Rodrigues,
na teta mamam deitados.
Brum, Francisco e Westphalen
também estão setenciados.


II


Nélson Júnior,Mauro, Jorge,
juntos nessa relação.
Silvana, Kalil,Giovani,
também levando um quinhão.
Farinha do mesmo saco,
em prol da corrupção.


III


Frederico, Marcos,Luciano,
João Fischer, Pedro Pereira,
outros que somaram força
pra continuar na carreira,
pois arquivando o Processo,
segue impune a roubalheira!


IV


Jerônimo e Carlos Gomes,
a minha lista não para.
Se “escapou por muito pouco
o meu amigo Augusto Lara”...
Mas, a Zilá bem que eu queria,
dar-lhe uns tabefes na cara!!


V


É o nosso Legislativo
da ética e da moral,
onde um cargo,um dinheirinho
não faz ninguem passar mal.
“As instituições tornaram...
o roubo coisa Legal.”


VI


A governadora paulista
só é perita em manobra
pois além de arbitrária
em maldade se desdobra.
Que nem carne de pescoço
e pior que carne de cobra!


VII


Ela encheu o peito de vento,
de morta, ressuscitou
preencheu pequenas rugas
com o dinheiro que roubou,
para mudar o visual...
Até o pescoço encurtou.


VIII


Seu partido contratou
um marqueteiro de coragem,
está fazendo de tudo
pra mudar a sua imagem.
Mas a “face oculta aparece”...
Na bruxa – como miragem!!!


IX


É a nossa marca com ferro
contra o autoritarismo,
das barbáries praticadas
espalhando o terrorismo.
Vamos ver se tu aprende:
“Respeito ao Funcionalismo”.


X


O funcionalismo do Rio Grande
não é de baixar a crista.
Teu problema é bem mais sério
tem prenhez capitalista.
Tu nunca foste farroupilha
és uma ladra paulista.

As mulheres árabes de Israel não precisam sequer de se candidatar a um emprego

É a discriminação e não as especificidades culturais que mantém as famílias árabes na pobreza


por JONATHAN COOK
Em Nazaré

tradução: equipa Todos Por Gaza

Na semana passada, o Ministro das Finanças israelita foi acusado de tentar desviar as atenções das politicas discriminatórias que mantém muitas das famílias árabes do país na pobreza, colocando a culpa para os seus problemas económicos naquilo que descreveu como a “oposição da sociedade árabe ao trabalho feminino”.

Um relatório recente produzido pelo Instituto Nacional de Segurança mostra que metade das famílias árabes em Israel são consideradas pobres comparadas com 14 % das famílias judias.

Yuval Steinitz, Ministro das Finanças israelita, disse durante uma conferência sobre a discriminação no emprego, realizada este mês [novembro] que a falha das mulheres árabes em se tornarem parte da força de trabalho tinha um impacto negativo na economia de Israel. Só dezoito por cento das mulheres árabes estão empregadas, e dessas, apenas metade a tempo inteiro, enquanto que pelo menos 55 % das mulheres judias trabalha.
O ministro atribuiu a baixa taxa de emprego entre esta minoria a “obstáculos culturais, estruturas tradicionais e à crença que as mulheres árabes devem permanecer nas suas cidades de origem”, dizendo ainda que estas restrições são características de todas as sociedades árabes.
Contudo, há investigadores e associações de mulheres que sublinham que o numero de mulheres árabes em Israel é mais baixo do que em quase todos os outros países do mundo árabe, incluído aqueles onde os números do emprego feminino são uma mancha, como sucede na Arábia Saudita e Omã.
“A maior parte das mulheres árabes quer trabalhar, incluindo um grande número de licenciadas, mas o governo tem recusado abordar os vários e grandes obstáculos que lhe têm aparecido no caminho” disse Sawsan Shukhra, da associação Mulheres contra a Violência, uma associação com base em Nazaré.
Esta afirmação é confirmada por um inquérito realizado este mês e que revela que 83 % dos homens de negócios israelitas nas principais profissões (incluindo publicidade, direito, banca, contabilidade e media) admitiram ser contrários à ideia de contratar licenciados árabes, independentemente do seu sexo.

Yousef Jabareen, um urbanista da Universidade Técnica de Technion em Haifa, que realizou um dos maiores inquéritos sobre o emprego das mulheres árabes em Israel, disse que os problemas que estas enfrentam são únicos.
“Em Israel enfrentam uma dupla discriminação, por serem mulheres e por serem árabes” disse.
A média de emprego feminino no mundo árabe é cerca de 40&. Só em Gaza, na Cisjordânia e no Iraque (onde se vive em circunstâncias excepcionais, é que encontramos taxas de emprego entre as mulheres árabes mais baixas do que em Israel.

Jabareen acrescentou que uma série de factores funcionam como obstáculos para as mulheres árabes, entre os quais políticas discriminatórias aplicadas por sucessivos governos para prevenir que a minoria árabe de 1.3 milhões, que constitui cerca de um quinto da população do pais, usufruísse de qualquer tipo de desenvolvimento económico. Estas medidas incluem discriminação generalizada nas políticas de contratação quer no sector privado quer no público, um fracasso em construir zonas industriais e fábricas perto das comunidades árabes, falta de serviço público de apoio à maternidade, quando comparado com aquele que é providenciado às comunidades judias, falta de transportes nas áreas árabes que impedem as mulheres de se deslocar a lugares onde há trabalho e falta de cursos direccionados para as mulheres árabes.

De acordo com um estudo efectuado pela associação Mulheres contra a Violência, 40 por cento das mulheres árabes detentoras de um grau académico não conseguem arranjar emprego. Aquando da entrevista, Mr Jabareen disse que 78% das mulheres desempregadas culpam a falta de oportunidade de emprego pela sua situação.
Maali Abu Roumi, de 24 anos, da cidade de Tamra no norte de Israel, tem procurado emprego como técnica de trabalho social desde que acabou o curso há dois anos. Um relatório elaborado por Sikkuy, uma organização que promove a igualdade cívica em Israel, revelou este mês que a população árabe de Israel recebe cerca de menos 70% de ajuda governamental para serviços sociais do que a população judia, e que os técnicos de serviço social árabes (numa profissão mal paga e que atrai maioritariamente mulheres) tinham uma carga de trabalho superior em 50%.
Maali Abu Roumi disse também que, para além disso, escolas Arabes, ao contrário das escolas judias não podem empregar um trabalhador social porque não têm dinheiro, e que a minoria árabe de Israel não usufruía das instituições de assistência social fundadas por judeus de outros países que ofereciam trabalho a muitos técnicos sociais judeus. “ A maior parte dos judeus com quem estudei já encontraram emprego, enquanto que muito poucos dos árabes do meu curso o conseguiram” disse. “quando um trabalho aparece, é geralmente em part-time e há sempre dúzias de concorrentes”.
O Centro de Planificação Alternativa, uma organização árabe que estuda o uso da terra em Israel, informou que em 2007, apenas 3.5 por centro das zonas industriais do país estavam localizadas em comunidades árabes. A maior parte atraia apenas pequenos negócios como oficinas de reparação de carros ou de carpintaria, que oferecem poucas oportunidade às mulheres.
“O sector privado israelita está quase totalmente fechado ás mulheres árabes devido a práticas discriminatórias dos empregadores que preferem dar emprego a judeus”, disse Mr. Jabareen. Disse ainda que o governo falhou em dar o exemplo: entre os trabalhadores governamentais, menos de 2% são mulheres árabes, apesar de vários ministros pedirem o aumento de emprego para os árabes.

A Sra Sukha sublinha: “ O serviço público é um grande empregador, mas muitos desses trabalhos ficam no centro da cidade, em Tel-Aviv e em Jerusalém, muito longe do norte, onde vive a maioria dos cidadãos árabes.
Para além disso, a maior parte não pode viajar longas distâncias para encontrar trabalho devido à escassez no fornecimento de serviços de apoio às crianças. De 1600 centros de pré-escolar públicos existentes em todo o país só 25 estão junto das comunidades árabes. Shawshan Shukha também critica o ministério do comercio e da industria dizendo que apesar de este investir muito na educação das mulheres judias só 6% das mulheres árabes frequentam cursos, sobretudo os de costura e secretariado.

Jabareen disse que de acordo com este inquérito, 56% das mulheres árabes desempregadas queria trabalhar imediatamente. “Desde 1948 que os governos israelitas culpam as barreiras culturais impedindo as mulheres árabes trabalhar da sua pobreza, mas todas as investigações mostram que o argumento é absurdo” comentou. Há centenas de mulheres árabes que competem pelos trabalhos que aparecem no mercado”.

Acrescentou que os homens árabes também enfrentam discriminação, mas encontram trabalho porque preenchem a necessidade de trabalho pesado e manual que a maior parte dos judeus recusa fazer, e viajando ainda longas distâncias para os locais das obras.
“As mulheres nem sequer têm essa opção” ajuntou. “ Não podem fazer esse tipo de trabalho e precisam de ficar perto das suas comunidades porque têm responsabilidades nas suas casas”.

O urbanista disse ainda que em média as mulheres árabes em Israel têm mais anos de escolarização do que as dos países árabes vizinhos e do que no terceiro mundo. Há até mais mulheres árabes do que homens a estudar na universidade.
“Toda a investigação levada a cabo mostra que quanto mais educada é a população, mais fácil deveria ser encontrar emprego. O caso das mulheres árabes em Israel contraria estes dados. Constituem um caso único”.
Um estudo realizado pelo Banco de Israel e publicado no mês passado sugere razões adicionais para o nível de pobreza das famílias árabes. Mostra que os homens árabes são forçados a reformar-se por volta dos 40 anos, uma década antes dos trabalhadores judeus e dos trabalhadores europeus e americanos.
Os investigadores atribuem o desemprego dos homens árabes ao facto de que a maior parte executa apenas trabalhos físicos muito exigentes e também ao facto destes trabalhadores estarem a ser substituídos por trabalhadores oriundos do terceiro mundo, que recebem menos do que o salário mínimo.


Jonathan Cook é um escritor e jornalista que vive em Nazaré. O seu site é: www.jkcook.net.

(uma versão deste artigo foi originalmente publicada em The National)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Medicina social cubana...

Médicos do povo para o povo

Emir Sader

Há 10 anos que se estão formando as primeiras gerações de médicos de origem pobre na América Latina. Não estão sendo formados pelas excelentes universidades publicas latinoamericanas, que têm os melhores cursos tradicionais de medicina do continente. Nem falar das universidades privadas.
Eles estão sendo formados pelas Escolas Latinoamericanas de Medicina, projeto iniciado há 10 anos em Cuba e que agora já conta com uma Escola similar na Venezuela e tem projeto de ampliar-se para países como Bolívia e Equador. São selecionados estudantes por cotas de movimentos sociais-originários do movimento camponês, do movimento negro, do movimento sindical, do movimento indígena e de outros movimentos sociais -, se tornam alunos do melhor curso de medicina social do mundo e retornam a seus países para praticar os conhecimentos adquiridos não na medicina privada, mas na medicina social, pública, nos lugares que os nossos países mais precisam, sem contar normalmente com os médicos formados nas universidades tradicionais.
Cuba transformou uma antiga instalação militar - a Academia Naval Granma - em uma universidade médica latinoamericana, para que milhares de jovens privados de estudar medicina nos seus países, possam ter acesso a esse curso em Cuba e retornem a seus países para atender necessidades que não são contempladas pela medicina tradicional.
Além da melhor medicina social que se pode dispor hoje no mundo, os alunos recebem formação histórica sobre o nosso continente, respeitando-se as convicções - políticas, religiosas - de cada aluno. "Médicos dispostos a trabalharem onde for preciso, nos mais remotos cantos do mundo, onde outros não estão dispostos a ir. Esse é o médico que vai ser formar nesta Escola" - dizia Fidel na inauguração da Escola.
A primeira turma se formou em 2005. Formar um médico nos EUA custa não menos de 300 mil dólares. Cuba está formando atualmente mais de 12 mil médicos para países do Terceiro Mundo, em uma contribuição inestimável para os povos desses países. Mesmo passando dificuldades econômicas nas duas ultimas décadas, Cuba não diminuiu nenhuma vaga na Escola
Latinoamericana de Medicina - como, aliás, nenhuma vaga nas escolas cubanas, nem nenhum leito em hospital.
Desde a formação da primeira turma, em 2005, graduaram-se médicos de 45 países e de cerca de 84 povos originários. Formaram-se 1496 médicos em 2005, 1419 em 2006, 1545 em 2007, 1500 em 2008, 1296 em 2009. Os três países que tiveram mais médicos formados na Escola são Honduras, com 569, Guatemala, com 556 e Haiti, com 543. Atualmente mais de 2 mil
alunos estudam na Escola. A procedência social deles é em sua maioria operários e camponeses. As religiões predominantes são a católica e a evangélica.
A Escola em Cuba - em uma cidade contigua a Havana - é integrada por 28 edificações numa área de mais de um milhão de metros quadrados, onde os estudantes recebem o curso pré-medico e os dois primeiros anos do curso de medicina, de ciências básicas. Depois os alunos recebem o "ciclo clínico" nas 13 universidades médicas existentes em Cuba. O corpo geral de professores é de mais de 12 mil.
O Brasil também já conta com cinco gerações de médicos, formados na melhor medicina social, sem que possam exercer a profissão, propiciada pela generosidade de Cuba. Os Colégios Médicos tem conseguido bloquear esse beneficio extraordinário para o povo brasileiro, alegando que o currículo em que se formara, não corresponde exatamente ao das universidades brasileiras - uma forma corporativa de defender seus privilégios.
As nossas universidades públicas costumam ter as vagas ocupadas por alunos que se preparam muito melhor que a grande maioria, por dispor de recursos econômicos que lhes possibilitam ter formação muito superior às dos outros. Assim, em geral tem origem na classe média alta e na burguesia, que desfrutam da melhor formação que as universidades públicas possuem, gratuitamente, sem que a isso corresponda a contrapartida de exercer medicina social, nas regiões em que o país mais necessita.
Essas instituições corporativas não devem se preocupar, as centenas de médicos formados na Escola Latinoamericana de Medicina não abrirão consultórios nos Jardins de São Paulo, na zona sul do Rio ou em outras regiões ricas das capitais brasileiras. Eles irão fazer a medicina social que o Brasil precisa, atendendo a demandas que não são atendidas pelos médicos formados nas melhores universidades públicas brasileiras, mas que derivam seus conhecimentos para atender a clientelas privadas, em condições de pagar consultas e tratamentos caros.
As negociações para o reconhecimento dos diplomas dos jovens médicos solidários formados em Cuba estão em desenvolvimento, com apoio do governo brasileiro, mas ainda não chegaram a uma solução que permita o aporte dessas primeiras gerações de médicos brasileiros de origem popular.