sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Império de Bases


O número de fato não é de todo importante. Se o total mais apurado é de 900, mil ou 1.100 bases em terras estrangeiras, isto não é o ponto central da questão, mas o que é inegável é que o exército dos EUA mantém, como diz a famosa frase de Chalmers Johnson, um império de bases tão enorme e obscuro que ninguém – nem mesmo o Pentágono – realmente faz idéia de seu tamanho e alcance totais.

Por Nick Turse
- Revista Fórum
Os Estados Unidos tem 460 bases no estrangeiro! Tem 507 bases permanentes! O que os EUA estão fazendo com mais de 560 bases no exterior? Por que é que eles tem 662 bases em outros países? Os Estados Unidos realmente tem mais de 1.000 bases militares espalhadas pelo globo?
Num mundo de estatísticas e precisão, num mundo onde a palavra “transparência” é a palavra do momento em Washington, num mundo onde toda a informação que existe está disponível a um clique de distância, existe um número que nenhum norte-americano conhece. Nem o presidente. Nem o Pentágono. Nem os experts. Ninguém.

O homem que escreveu o livro definitivo sobre o tema não sabia afirmar com certeza. O colunista do New York Times e ganhador do Prêmio Pulitzer não chegou nem perto. Numerosos artigos foram escritos sobre as bases militares norte-americanas, e, no entanto, falharam como todos os outros.

Existem mais de 1.000 bases militares norte-americanas por todo o planeta. Para ser mais específico, o número mais apurado é de 1.077 bases. A não ser que seja 1.088. Ou, se a contagem for diferente, 1.169. Ou mesmo 1.180. Talvez o número seja até maior. Ninguém sabe ao certo.

Fazendo as Contas

Num recente artigo de opinião, o colunista do New York Times Nicholas Kristof explicitou seu mordaz ponto de vista: “Os EUA mantém tropas em mais de 560 bases e outros locais no exterior, muitos dos quais são herança de uma guerra mundial que acabou há mais de 65 anos. Temos medo de que, se retirarmos nossas bases da Alemanha, a Rússia poderá invadir?”

Durante anos, o falecido Chalmers Johnson, o homem que de fato escreveu um livro sobre o império de bases militares norte-americanas, The Sorrows Of Empire (“As Tristezas do Império”, em português), compartilhou o ponto de vista de Nicholas Kristof, e o embasou com a mais detalhada pesquisa já feita sobre o “arquipélago mundial” de bases americanas. Há alguns anos, depois de desbancar os próprios documentos públicos do Pentágono, Johnson escreveu, “Os Estados Unidos mantém 761 ‘localizações’ militares em países estrangeiros. (Este é o termo utilizado pelo Departamento de Defesa, ‘localizações’ ao invés de ‘bases’, ainda que sejam, em verdade, bases.)”

Recentemente, o Pentágono atualizou seus números sobre as bases outras localizações, afirmando que os números haviam diminuído. Se os números caíram ou não ao nível defendido por Kristof, entretanto, é uma questão de interpretação. De acordo com Relatório da Estrutura de Bases de 2010, publicado pelo Departamento de Defesa americano, as forças armadas dos EUA agora mantém 662 localizações estrangeiras em 38 países ao redor do mundo. Uma leitura mais apurada do Relatório, no entanto, traz à tona gigantescos furos e lacunas.

Um Legado de Bases

Em 1955, 10 anos depois que 2ª Guerra Mundial terminou, o Chicago Daily Tribune publicou uma grande investigação sobre as bases, incluindo um mapa sinalizado com pequenas estrelas e triângulos, em sua maioria localizados na Europa e no Oceano Pacífico. “A bandeira americana tremula sobre mais de 300 postos estrangeiros”, escreveu o repórter Walter Trohan. “Acampamentos e bases estão em 12 territórios de posse Americana. As bases externas estão em 63 nações ou ilhas estrangeiras.”

Hoje, de acordo com os mapas publicados pelo Pentágono, a bandeira americana passou a tremular sobre 750 bases militares localizadas em outros países ou em território americano no exterior.  Esse mapa com certeza não considera territórios estrangeiros pequenos, de extensão inferior a 10 acres ou aquele que o exército dos EUA não estipula que valham mais de US$ 10mi. Em alguns casos, muitas bases desse tipo podem ser agrupadas e contadas como apenas uma instalação militar num só país determinado. Uma solicitação de esclarecimento do Departamento de Defesa sobre o assunto não obteve resposta. 

O que nós de fato sabemos é que, nas bases que o exército norte-americano conta, ele controla algo em torno de 52 mil edifícios e mais de 38 mil peças de infraestrutura pesada como cais, piers e gigantescos tanques de armazenamento, sem mencionar mais de nove mil “estruturas lineares” tais como rodovias, ferrovias e tubulações. Também podemos adicionar mais 6.300 edifícios, 3.500 peças de infraestrutura e 928 estruturas lineares que estão em territórios dos EUA no exterior e teremos um total impressionante. E ainda assim, isto não está nem perto da história completa.

Perdendo a Conta

Em janeiro último o coronel Wayne Shanks, um porta-voz da Força Internacional de Assistência a Segurança (ISAF, órgão controlado pelos EUA), me disse que havia cerca de 400 bases norte-americanas e de coalizão no Afeganistão, incluindo acampamentos, bases de operação avançada e postos de combate. Ele esperava que esse número aumentasse em pelo menos 12 durante o ano de 2010. 

Em setembro, entrei em contato com o Escritório de Comando de Relações Públicas da ISAF, para checar as previsões. Para a minha surpresa, me foi dito que “havia aproximadamente 350 bases de operação avançada, com duas grandes instalações militares completas, os campos aéreos de Bagram e Kandahar.” Perplexo com a perda de 50 bases ao invés de um ganho de 12, contatei Gary Younger, um encarregado das Relações Públicas da Força Internacional de Assistência a Segurança. “Há menos de 10 bases da OTAN no Afeganistão”, ele me escreveu num email de outubro de 2010. “Existem mais de 250 bases dos EUA no Afeganistão.”

Até ali me parecia que os EUA tinham perdido cerca de 150 bases e eu me encontrava verdadeiramente confuso. Quando contatei diretamente os militares para resolver as discrepâncias entre os números e listei para eles todos os dados que haviam me passado – desde as 400 bases afirmadas por Shanks até os 250 que Younger havia me dito --, fui então transferido e transferido e transferido até que me transferiram para o Sargento de Primeira Classe Eric Brown novamente no Escritório de Comando de Relações Públicas da ISAF. “O número de bases no Afeganistão é, quase certo, 411”, Brown me escreveu num email já em novembro, “e este é uma estatística composta desde Bases Completas até o nível de Posto de Combate”. Mesmo isso, ele alertou, não era uma lista completa, porque, segundo ele, “posições temporárias ainda não foram consolidadas” não constam.

Durante todo o caminho até este cálculo “final”, me foi oferecido certo número de explicações – desde os diferentes métodos de contagem das bases até a falha dos soldados em efetivo trabalho de campo em fornecer informações apuradas – para os dados conflitantes que me haviam passado. Depois de meses trocando emails e vendo os números variarem largamente, terminar em novembro com mais ou menos o mesmo número que eu tinha em janeiro sugeria que os comando militar dos Estados Unidos não está mantendo a conta correta de quantas bases eles tem instaladas no Afeganistão. Aparentemente, o exército simplesmente não sabe quantas bases existem no seu primeiro escalão de operações.

Os pontos obscuros no mundo das bases.

Procure no Relatório da Estrutura de Bases de 2010, do Departamento de Defesa dos EUA por bases no Afeganistão. Vá em frente, leia todas as 206 páginas. Você não encontrará uma menção sequer a estas bases, nem mesmo uma citação ou uma mínima referência de que os Estados Unidos da América tem pelo menos uma base no Afeganistão, muito menos 400. Esta é dificilmente uma omissão insignificante. Adicione essas 411 bases que não aparecem no Relatório às 560 bases apresentadas por Nicholas Kristof e você terá 971 bases. Adicione isto também à conta oficial do Pentágono e ficaremos com um total de 1073 bases e localizações norte-americanas no exterior, por volta de 770 a mais do que Walter Trohan descobriu em seu artigo de 1955. Este número supera, ainda, a contagem de 1967, de que os EUA possuíam 1014 bases em países estrangeiros, ano considerado por Chalmers Johnson “o auge da Guerra Fria.”

Existem, todavia, outros meios de apurar o total. Numa carta escrita na primavera passada, o Senador Ron Wyden e os Representativos Barney Frank, Ron Paul e Walter Jones afirmaram que havia somente 460 instalações norte-americanas no exterior, não contando aquelas do Iraque e do Afeganistão. Nicholas Kristof, que contou 100 bases a mais do que contaram eles, não respondeu a meu email que requisitava esclarecimento, mas aparentemente deve ter feito a mesma análise que fiz: procurar e selecionar no Relatório do Pentágono as localizações que obviamente, apesar de seu tamanho e valor, só poderiam duvidosamente ser contadas como bases, como complexos habitacionais e escolas, hotéis (sim, o Departamento de Defesa possui hotéis), áreas de ski (possui estas também) e os maiores de seus campos de golfe – em 2007, o exército norte-americano alegou possuir um total de 172 campos de golfe dos mais variados tamanho – e cheguei a um total de 570 localizações estrangeiras. Adicionando-as ao número de bases afegãs você chegará então a 981 bases militares no exterior.

Como é óbvio, o Afeganistão não é o único pais com um mundo de bases obscuro. Procure nas contas do Pentágono por bases no Iraque e você não encontrará um único registro. (Esta omissão aconteceu mesmo quando os EUA mantiveram desveladamente mais de 400 bases no Iraque). Hoje a marca dos exércitos americanos sobre o país diminuiu radicalmente. O Departamento de Defesa recusou-se a responder um email que requisitava o número atual de bases instaladas no Iraque, mas relatórios publicados indicam que pouco menos que 88 bases ainda estão lá, incluindo Camp Taji, Camp Ramadi, Base Speicher de Operação de Contingente e a Base da Junta de Balad. Esta última, por si só, comporta por volta de sete mil soldados norte-americanos. Estas bases omitidas elevariam os números totais de bases através do globo para 1069.

As Zonas de Guerra não são os únicos pontos obscuros. Basta observarmos algumas nações do Oriente Médio cujos governos, por medo da opinião pública interna, preferem que nada seja divulgado a respeito das bases militares dos EUA em seus territórios. Para exemplificar, o Relatório da Estrutura de Bases de 2010 lista uma base não nomeada no Kuwait. Ainda assim sabemos que no Golfo Pérsico residem algumas bases americanas, incluindo o Acampamento Arifjan, Acampamento Buering, Acampamento Virginia, Base Naval do Kuwait, Base Aérea Ali Al Salem e a Ordem Udari. Adicione mais estas bases omitidas ao total e ele chega a 1074 bases no exterior.

Mais uma vez, se checarmos o cálculo de bases do Pentágono para o Qatar não obteremos nada. Mas observando o número de empregados do Departamento de Defesa trabalhando no exterior, encontraremos mais de 550 homens e mulheres trabalhando no país. Ainda que esta nação do Golfo Pérsico possa ter oficialmente construído a Base Aérea Al Udeid por si só, dizer que esta base é outra coisa que não uma instalação americana seria, no mínimo, dissimulado, tendo em vista que ela serviu como uma das bases de logística e comando mais fundamentais para os EUA nas Guerras do Iraque e do Afeganistão. Somamos então mais uma base, tendo 1075 até agora.

A Arábia Saudita também foi omitida da conta do Pentágono, ainda que, mais uma vez, a lista de empregados do Pentágono trabalhando no exterior indique que há centenas de soldados americanos neste país. Desde a preparação para a Primeira Guerra do Golfo em 1990 à invasão do Iraque em 2003, as forças armadas dos EUA enviaram centenas de tropas ao reino da Arábia Saudita. Em 2003, em resposta à pressão dos fundamentalistas sobre o governo Saudita, Washington anunciou que retiraria quase todas as suas tropas do país, deixando apenas um pequeno número. Ainda hoje o exército americano continua a treinar e educar soldados em localizações como a Vila Eskan, um complexo que fica 20 km a sul de Riyadh onde, de acordo com números publicados em 2009, 800 empregados americanos estariam instalados.

Descontados, Não-Contados e Desconhecidos.

Em adição ao desconhecido número de micro-bases que o Pentágono nem sequer se preocupa em contar e às bases do Oriente Médio e do Afeganistão que permanecem invisíveis ao radar, existem áreas ainda mais obscuras do império das bases: instalações pertencentes a outros países e que são usadas, mas não reconhecidas pelos Estados Unidos ou não declaradas por seu país de posse, também entram na conta. Por exemplo, é bem sabido que as aeronaves americanas, operando sob os auspícios da CIA tanto quanto da Força Aérea Americana e conduzindo uma não tão secreta guerra no Paquistão, decolam de uma ou mais bases localizadas no próprio território paquistanês.

Soma-se a isso ainda outras bases como a “bases disfarçada avançada de operações, comandada pela Junta do Comando de Operações Especiais (JSOC) dos EUA na cidade portuária de Karachi, no Paquistão”, exposto por Jeremy Scahill na revista Nation, e um ou mais campos aéreos gerenciados por empregados da contratadora de segurança privada Blackwater (agora renomeada Xe Services). Mesmo com o cálculo oficial do Departamento de Defesa indicando que existem mais que cem tropas no Paquistão, ainda assim nenhuma base ali é contada.

Da mesma maneira não são contadas as frotas marítimas, frotas estas que consistem em numerosos Porta-Aviões, o maior navio de guerra já produzido, assim como Cruzadores dotados de mísseis guiados, dois Destruidores de Mísseis Guiados, um submarino que ataque e um navio de munição, combustível e suprimentos. Os EUA possuem onze frotas como esta, frotas que se configuram como bases flutuantes do tamanho de cidades que podem cruzar o planeta. Possuem também muitos mais outros navios, alguns comportando cerca de mil pessoas, entre soldados e tripulação. Navios estes que, diz a Marinha, “viajam para qualquer porto numa lista 100 cidades espalhadas pelo mundo”, de Hong Kong ao Rio de Janeiro.

“A habilidade de conduzir funções logísticas a bordo permite que as forças navais mantenham uma estação em qualquer lugar”, diz o Conceito de Operações Navais: 2010, da Marinha americana. Portanto, estas bases que flutuam por debaixo dos dados oficiais deveriam ser contadas também.

Uma Explosão, Uma Lamúria, e o Alam do Século XXI

A Subsecretária Ajuda de Defesa, Dorothy Robyn, quando falou no ano passado ao Subcomitê do Comitê de Gastos do Senado sobre Construções Militares, Veteranos e Agências Relacionadas, se referiu às “507 instalações permanentes”. O Relatório da Estrutura de Bases de 2010 do Pentágono, no entanto, lista 4999 localizações e bases nos EUA, nos seus territórios e em países estrangeiros.

No grande esquema das coisas, o número de fato não é de todo importante. Se o total mais apurado é de 900, mil ou 1.100 bases em terras estrangeiras, isto não é o ponto central da questão, mas o que é inegável é que o exército dos Estados Unidos da América mantém, como diz a famosa frase de Chalmers Johnson, um império de bases tão enorme e obscuro que ninguém – nem mesmo o Pentágono – realmente faz idéia de seu tamanho e alcance totais.

Tudo o que sabemos é que isso desperta a ira de adversários como a Al Qaeda, que isso tem uma tendência a importunar mesmo o mais próximo dos aliados, como o Japão, e que costa aos Americanos que pagam impostos uma pequena fortuna por ano. Em 2010, de acordo com Robyn, a construção e a moradia militar de todas as bases dos EUA gastaram $23,2 bilhões. Somando-se mais um adicional de $14,6 bilhões necessários para reparos, manutenção e recapitalização. Para levar energia às suas instalações, de acordo com as estatísticas de 2009, o Pentágono gastou $3,8 bilhões. E isso não chega nem a tocar a superfície do que as bases norte-americanas mundo a fora custam em termos econômicos.

Como todo império, o império de bases militares dos Estados Unidos, algum dia ruirá. Essas bases, porém, não cairão como uma seqüência filmográfica de dominós bem posicionados. Não cairão, isto é, com a explosão de Álamos futurísticos, mas com a lamúria da insolvência.

De  fato, ao final de 2010, a Comissão de Déficit da Casa Branca – oficialmente conhecida como Comissão Nacional sobre Responsabilidade Fiscal e Reforma – sugeriu cortar em 1/3 os gastos na Europa e na Ásia, o que, na estimativa da Comissão, economizaria por volta de $8,5 bilhões em 2015.

O império das bases, ainda que tenha o tamanho que tem, está destinado a naufragar. Os militares terão que diminuir suas bases de controle estrangeiras e diminuir sua pegada global nos anos que virão. As realidades econômicas necessitarão disso. As escolhas que o Pentágono fará hoje sem dúvida determinarão em que condições nossos recursos voltarão para a casa amanhã. No momento, eles ainda podem escolher se voltar para a casa significará um ato de infalível e magnânima estratégia de estado ou simplesmente um recuo inglório.

Qualquer que seja a decisão, o relógio está correndo, e antes que qualquer retirada se inicie, o exército americano precisa saber exatamente de onde ele retirará suas tropas (e os americanos devem ter uma clara noção de onde estão seus exércitos). Uma contagem honesta de quantas bases os EUA tem no exterior – uma lista verdade, completa e compreensiva – seria um ínfimo primeiro passo no processo necessário de diminuição desta intervenção global.

Nick Turse é jornalista investigativo, editor associado do TomDispatch.com e atualmente também professor o Instituto Radcliffe da Universidade de Harvard. Seu ultimo livro se chama “The Case For Withdrawal from Afghanistan” (Verso Books). Você pode seguí-lo no Twitter @NickTurse. O seu site na internet é NickTurse.com.

Tradução de Cainã Vidor. Publicado por http://www.rebelion.org/noticia.php?id=120157

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