Ignacio Ramonet - Carta Maior via Patria Latina
A
Venezuela e sua Revolução Bolivariana estão rodeadas hoje por nada
menos do que 13 bases estadunidenses na Colômbia, Panamá, Aruba e
Curazao, assim como pelos porta-aviões e navios de guerra da IV Frota.
Em outubro, o presidente conservador do Panamá, Ricardo Martinelli,
admite que cedeu aos EUA o uso de quatro novas bases militares. O
presidente Barack Obama parece ter deixado o Pentágono de mãos livres
neste tema. E o presidente venezuelano Hugo Chávez denuncia que está
sendo tramada uma agressão contra o país. O artigo é de Ignacio Ramonet.
Em
troca, o Pentágono escolheu quatro localidades para controlar a região:
Manta, no Equador; Comalapa, em El Salvador, e as ilhas de Aruba e
Curazao (de soberania holandesa). A suas – por assim dizer
–“tradicionais” missões de espionagem, acrescentou novas atribuições
oficiais a estas bases (vigiar o narcotráfico e combater a imigração
clandestina para os EUA) e outras tarefas encobertas: lutar contra os
insurgentes colombianos; controlar os fluxos de petróleo e minerais, os
recursos de água doce e a biodiversidade. Mas, desde o início, seus
principais objetivos foram vigiar a Venezuela e desestabilizar a
Revolução Bolivariana.
Após
os atentados de 11 de setembro de 2001, o Secretário de Defesa dos EUA,
Donald Rumsfeld, definiu uma nova doutrina militar para enfrentar o
“terrorismo internacional”. Modificou a estratégia de deslocamento no
exterior, fundada na existência de enormes bases dotados de numeroso
pessoal. E decidiu substituir essas mega-bases por um número mais
elevado de Foreing Operating Location (FOL) e de Cooperative Security
Locations (CSL), com pouco pessoal militar, mas equipado com
tecnologias ultramodernas de detecção.
Resultado:
em pouco tempo, a quantidade de instalações militares estadunidenses no
estrangeiro de multiplicou, alcançando a insólita soma de 865 bases de
tipo FOL ou CSL distribuídas em 46 países. Jamais na história uma
potência multiplicou de tal modo seus postos militares de controle para
espalhar-se pelo planeta.
Na
América Latina, a reorganização de bases permitiu que a de Manta
(Equador) colaborasse com o fracassado golpe de Estado de 11 de abril
de 2002 contra o presidente Chávez. A partir daí, uma campanha
midiática dirigida por Washington começou a difundir falsas informações
sobre a suposta presença neste país de céculas de organizações como
Hamás, Hezbolá e até Al Qaeda.
Com
o pretexto de vigiar tais movimentos e em represália contra o governo
de Caracas que, em maio de 2004, pôs fim a meio século de presença
militar estadunidense na Venezuela, o Pentágono ampliou o uso de suas
bases militares nas ilhas de Aruba e Curazao, situadas muito perto das
costas venezuelanas, onde ultimamente tem se incrementado a visita de
navios de guerra dos EUA. Esse fato foi recentemente denunciado pelo
presidente Chávez:
“É
bom que a Europa saiba que o império norte-americano está armando-se
até os dentes, enchendo de aviões e navios de guerra as ilhas de Aruba
e Curazao. (...) Estou acusando a Holanda de estar preparando, junto
com o império yanqui, uma agressão contra a Venezuela” (1).
Em
2006, começa-se a falar em Caracas do “socialismo do século XXI, nasce
a Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA) e Hugo Chávez é reeleito
presidente. Washington reage impondo um embargo sobre a venda de armas
para a Venezuela, sob o pretexto de que Caracas “não colabora
suficientemente na guerra contra o terrorismo”. Os aviões F-16 da Força
Aérea Venezuela ficaram sem peças de reposição. Diante desta situação,
as autoridades venezuelanas estabeleceram um acordo com a Rússia para
dotar a sua força aérea de aviões Sukhoi. Washington denunciou um
suposto “rearmamento massivo” da Venezuela, omitindo que os principais
orçamentos militares na América Latina, hoje, são os do Brasil, da
Colômbia e do Chile. E que, a cada ano, a Colômbia recebe uma ajuda
militar estadunidense de 630 milhões de dólares.
A
partir daí, os acontecimentos se aceleram. No dia 1° de março de 2008,
apoiadas pela base de Manta, as forças colombianas atacam um
acampamento das Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia (FARC),
situado no interior do território do Equador. Quito, em represália,
decide não renovar o acordo sobre a base de Manta, que vencia em
novembro de 2009. Washington respondeu, no mês seguinte, com a
reativação da IV Frota (desativada em 1948, há 60 anos...) cuja missão
é vigiar a costa atlântica da América do Sul. Um mês mais tarde, os
Estados sulamericanos, reunidos em Brasília, replicam criando a União
de Nações Sulamericanas (UNASUL) e, em março de 2009, o Conselho de
Defesa Sulamericano.
Algumas
semanas depois, o embaixador do EUA em Bogotá anuncia que a base de
Manta seria transferida para Palanquero, na Colômbia.
Em
junho, com o apoio da base estadunidense de Soto Cano, se produz o
golpe de Estado em Honduras contra o presidente Manuel Zelaya que havia
conseguido integrar seu país na ALBA. Em agosto, o pentágono anuncia
que terá sete novas bases militares na Colômbia. E, em outubro, o
presidente conservador do Panamá, Ricardo Martinelli, admite que cedeu
aos EUA o uso de quatro novas bases militares.
Deste
modo, a Venezuela e a Revolução Bolivariana se vêem hoje rodeadas por
nada menos do que 13 bases estadunidenses na Colômbia, Panamá, Aruba e
Curazao, assim como pelos porta-aviões e navios de guerra da IV Frota.
O presidente Obama parece ter deixado o Pentágono de mãos livres neste
tema. Tudo anuncia uma agressão iminente. Os povos da América Latina
consentirão que um novo crime contra a democracia seja cometido na
região?
(1) Discurso no Encontro da ALBA com movimentos sociais da Dinamarca, em Copenhague, dia 17 de dezembro de 2009
Ignacio Ramonet é jornalista, foi diretor do Le Monde Diplomatique entre 1990 e 2008.
Tradução: Katarina Peixoto
|
Um blog de informações culturais, políticas e sociais, fazendo o contra ponto à mídia de esgoto.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
EUA já têm 13 bases militares em torno da Venezuela
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Você acha que o Brasil deve dialogar com o grupo islâmico Hamas?
do Blog do Bourdoukan, por ele mesmo...
A propósito da manifestação do chanceler Celso Amorim em dialogar com o Hamas, o jornal O Estado de São Paulo de ontem, domingo, em seu caderno Aliàs pediu
dois textos a "dois especialistas", favoráveis e contrários ao diálogo,
para responderem a peregunta acima. O meu texto foi que sim. O não, ficou por conta de outra pessoa.
A seguir, o meu texto:
O Brasil deve sim, dialogar com o Hamas.
O Hamas é um movimento político e de libertação.
Seus dirigentes foram escolhidos em eleições transparentes, sobejamente reconhecidas pelos observadores internacionais.
O Hamas representa o povo palestino e como tal não deve ser marginalizado.
O Brasil, ao dialogar com o Hamas, envia um recado claro a todos aqueles que se opõem ao diálogo. Nada substitui o diálogo.
A Palestina é uma nação ocupada e tem direito a resistir. E isto está na Carta da ONU. A mesma ONU que deu legitimidade ao Estado de Israel e também ao Estado palestino.
O Brasil reconhece essa legitimidade e por isso não pode se omitir. Essa atitude reforça a grandeza do país no concerto das nações.
Hoje o Brasil é reconhecido internacionalmente como um interlocutor isento e de primeira linha.
Não é visto com desconfiança como, por exemplo, os Estados Unidos que não tem interesse real na paz.
Que o Brasil dialogue com o Hamas.
Palestinos, israelenses e todos os que privilegiam a paz, agradecem.
Casoy e Gandra: CCC e Opus Dei unidos
Não deixem de ler este artigo de Altamiro Borges, postado hoje em seu blog, onde ele desmascara a midia de esgoto, principalmente Borys Cazoy, membro do CCC(comando de caça aos comunistas, da época da ditadura) e suas ligações com a Opus Dei( de Gandra)...muito esclarecedor, e demonstra como o PIG está escancarando a campanha eleitoral de 2010 pró-serra....leia aqui...
Ipea: Brasil pode erradicar pobreza extrema em 2016
Se
o Brasil mantiver o mesmo ritmo de diminuição da pobreza extrema e da
desigualdade de renda observados nos últimos cinco anos (2003 a 2008)
poderá obter indicadores sociais próximos aos de países desenvolvidos
em 2016. Da mesma forma, poderá alcançar uma taxa de pobreza absoluta
de 4%.
Os dados,
divulgados nesta terça, constam de documento do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), vinculado a Secretaria de Assuntos
Estratégicos da Presidência da República. São considerados pobres
extremos aqueles que recebem até 25% de um salário mínimo por mês,
enquanto os pobres absolutos dispõem mensalmente de até 50% de um
salário mínimo.
"Se projetados os melhores desempenhos brasileiros alcançados recentemente em termos de diminuição da pobreza e da desigualdade (período 2003-2008) para o ano de 2016, o resultado seria um quadro social muito positivo. O Brasil pode praticamente superar o problema da pobreza extrema, assim como alcançar uma taxa nacional de pobreza absoluta de apenas 4%, o que significa quase a sua erradicação", diz o texto do documento.
O documento do Ipea revela a tendência de o país ter em 2016, seguido o ritmo dos últimos cinco anos, a desigualdade da renda do trabalho em 0,488 do índice Gini - coeficiente que varia de 0 a 1, segundo o qual quanto mais próximo do zero, menor é a desigualdade de renda num país e quanto mais próximo de 1, maior a concentração de renda. Em 1960, ano da primeira pesquisa sobre desigualdade no Brasil, verificou-se índice Gini de 0,499 no país. Em 2005, o índice Gini nos EUA era de 0,46; na Itália, 0,33; e na Dinamarca, 0,24.
Segundo o documento, a maior parte dos avanços atualmente alcançados pelo Brasil no enfrentamento da pobreza e da desigualdade está direta ou indiretamente associada à estruturação das políticas públicas de intervenção social do estado, motivadas pela Constituição de 1988.
O Ipea aponta ainda outros três fatores decisivos no combate a pobreza e desigualdade: a elevação do gasto social no país, que cresceu de 19% do Produto Interno Bruto (PIB) em 1990 para 21,9% do PIB em 2005; a descentralização da política social, com o aumento do papel do município na implementação das políticas sociais, instância que saltou 53,8% em participação nos gastos sociais no período de 1980 a 2008; e a participação social na formatação e gestão das políticas sociais.
De acordo com o instituto, a consolidação institucional do quadro geral das leis sociais no Brasil seria um passo importante para a manutenção, nos próximos anos, do enfrentamento da pobreza e da desigualdade no país.
"O estabelecimento de uma nova lei que regule a responsabilidade e o compromisso social, com metas, recursos, cronogramas e coordenação, se mostra importante para que o Brasil possa chegar a alcançar indicadores sociais observados atualmente nos países desenvolvidos. Tudo isso, é claro, sem retrocessos em termos de maior participação da sociedade na formatação, monitoramento e controle das políticas públicas", diz o documento.
O estudo, intitulado "Retratos dos Brasileiros em Quatro Décadas: a Pobreza e o Seu Perfil", foi apresentado pelo presidente do Ipea, Márcio Pochmann, na sede da Caixa Econômica Federal, em São Paulo.
A informação é da Agência Brasil, os créditos são do sitio vermelho
"Se projetados os melhores desempenhos brasileiros alcançados recentemente em termos de diminuição da pobreza e da desigualdade (período 2003-2008) para o ano de 2016, o resultado seria um quadro social muito positivo. O Brasil pode praticamente superar o problema da pobreza extrema, assim como alcançar uma taxa nacional de pobreza absoluta de apenas 4%, o que significa quase a sua erradicação", diz o texto do documento.
O documento do Ipea revela a tendência de o país ter em 2016, seguido o ritmo dos últimos cinco anos, a desigualdade da renda do trabalho em 0,488 do índice Gini - coeficiente que varia de 0 a 1, segundo o qual quanto mais próximo do zero, menor é a desigualdade de renda num país e quanto mais próximo de 1, maior a concentração de renda. Em 1960, ano da primeira pesquisa sobre desigualdade no Brasil, verificou-se índice Gini de 0,499 no país. Em 2005, o índice Gini nos EUA era de 0,46; na Itália, 0,33; e na Dinamarca, 0,24.
Segundo o documento, a maior parte dos avanços atualmente alcançados pelo Brasil no enfrentamento da pobreza e da desigualdade está direta ou indiretamente associada à estruturação das políticas públicas de intervenção social do estado, motivadas pela Constituição de 1988.
O Ipea aponta ainda outros três fatores decisivos no combate a pobreza e desigualdade: a elevação do gasto social no país, que cresceu de 19% do Produto Interno Bruto (PIB) em 1990 para 21,9% do PIB em 2005; a descentralização da política social, com o aumento do papel do município na implementação das políticas sociais, instância que saltou 53,8% em participação nos gastos sociais no período de 1980 a 2008; e a participação social na formatação e gestão das políticas sociais.
De acordo com o instituto, a consolidação institucional do quadro geral das leis sociais no Brasil seria um passo importante para a manutenção, nos próximos anos, do enfrentamento da pobreza e da desigualdade no país.
"O estabelecimento de uma nova lei que regule a responsabilidade e o compromisso social, com metas, recursos, cronogramas e coordenação, se mostra importante para que o Brasil possa chegar a alcançar indicadores sociais observados atualmente nos países desenvolvidos. Tudo isso, é claro, sem retrocessos em termos de maior participação da sociedade na formatação, monitoramento e controle das políticas públicas", diz o documento.
O estudo, intitulado "Retratos dos Brasileiros em Quatro Décadas: a Pobreza e o Seu Perfil", foi apresentado pelo presidente do Ipea, Márcio Pochmann, na sede da Caixa Econômica Federal, em São Paulo.
A informação é da Agência Brasil, os créditos são do sitio vermelho
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
O pântano argentino: o irresistível desenvolvimento da crise de governabilidade

A
queda ou degradação integral do governo kirchnerista seria uma ótima
notícia para os norte-americanos, pois enfraqueceria o Brasil e
reduziria o espaço político da Venezuela, Equador e Bolívia. A recente
crise envolvendo o Banco Central mostra mais uma vez a ação de uma nova
direita argentina, uma força heterogênea, quase caótica, sem grandes
projetos visíveis, impulsionada pelos grandes meios de comunicação que
operam como um “partido midiático” extremista. Sua base social é um
agrupamento muito belicoso de classes médias e altas que constituíram
uma lumpen-burguesia onde se interconectam redes de negócios legais e
ilegais. A análise é de Jorge Beinstein, no sitio CartaMaior
Jorge Beinstein (*)
O
ano novo começou mal na Argentina. O conflito causado pela substituição
do presidente do Banco Central, Martín Redrado, detonou uma grave crise
institucional onde se enfrentam dois grupos que vem endurecendo suas
posições. De um lado, uma oposição de direita cada vez mais
radicalizada, agora com maioria no poder Legislativo, encabeçada pelo
vice-presidente da República e que se estende até os núcleos mais
reacionários do Poder Judiciário e das forças de segurança (públicas e
privadas). Trata-se de uma força heterogênea, quase caótica, sem
grandes projetos visíveis, impulsionada pelos grandes meios de
comunicação que operam como uma espécie de “partido midiático”
extremista. Sua base social é um agrupamento muito belicoso de classes
médias e altas.
Do outro lado encontramos a presidente Cristina Kirchner resistindo desde o poder Executivo com seus aliados parlamentares, sindicais e “sociais”. Seu perfil político é o de um centrismo desenvolvimentista muito contraditório, oscilando entre as camadas populares mais pobres, às quais não se atreve a mobilizar com medidas econômicas e sociais radicais, e os grandes grupos empresariais e outras esferas de poder que busca em vão recuperar para recompor o sistema de governabilidade vigente durante a presidência de Nestor Kirchner.
A este leque de forças locais é necessário incorporar a intervenção dos Estados Unidos que, a partir da chegada de Barak Obama à Casa Branca, mostra-se cada vez mais ativa nos assuntos internos da Argentina. Isso deve ser integrado ao contexto mais amplo da estratégia imperial de reconquista da América Latina, marcada por fatos notórios como o recente golpe de Estado em Honduras, a recriação da IV Frota, as bases militares na Colômbia e outras atividades menos visíveis, mas não menos efetivas, como a reativação de seu aparato de inteligência na região (CIA, DEA, etc) e a conseqüente expansão de operações conspirativas com políticos, militares, empresários, grupos mafiosos, meios de comunicação, etc.
A onda reacionária
Como se sabe, a crise estourou quando o presidente do Banco Central decidiu não acatar um decreto de “necessidade e urgência”, com força de lei, que ordenava colocar uma parte das reservas à disposição de um fundo público destinado ao pagamento da dívida externa. Deste modo, Redrado (apoiando-se na “autonomia” do Banco, imposta nos anos 1990 pelo FMI) desafiava a legalidade e assumia como própria a reivindicação do conjunto da direita: não pagar dívida externa com reservas, mas sim com receitas fiscais, obrigando assim o governo a reduzir o gasto público, o que seguramente teria um impacto negativo sobre o Produto Interno Bruto, o nível de emprego e os salários.
Em uma primeira aproximação, a crise aparece como uma disputa sobre política econômica entre neoliberais partidários do ajuste fiscal e keynesianos partidários da expansão do consumo interno. No entanto, a magnitude da tormenta política em curso obriga a ir mais além do debate econômico. Não existe proporção entre o volume de interesses financeiros afetados e a extrema virulência do enfrentamento. Tampouco se trata de um problema causado pela necessidade de pagar a dívida externa diante de uma situação financeira difícil. Pelo contrário, o Estado tem um importante superávit fiscal e a dívida externa representa atualmente cerca de 40% do Produto Interno Bruto contra 80%, em 2003, quando Nestor Kirchner assumiu a presidência da República.
Para começar a entender o que está ocorrendo é necessário remontarmos ao primeiro semestre de 2008 quando estourou o conflito entre o governo e a burguesia rural. Neste caso também a confrontação apareceu sob o aspecto econômico: o governo tentou estabelecer impostos móveis às exportações agrárias cujos preços internacionais neste momento subiam vertiginosamente; os grandes grupos do agronegócio se opuseram – ainda que estivessem ganhando muito dinheiro, pretendiam ganhar muito mais embolsando a totalidade destes lucros extraordinários. Para surpresa tanto do governo como das próprias elites agrárias, o protesto foi imediatamente respaldado pela quase totalidade dos empresários rurais, inclusive por setores que por sua área de especialização ou inserção regional não tinham interesses materiais concretos no tema. Rapidamente os bloqueios de estradas, muito destacados pelos meios de comunicação, arrastaram a adesão das classes altas e médias urbanas, estruturando-se deste maneira uma maré social reacionária cuja magnitude não tinha precedentes na história argentina dos últimos 50 anos.
Para encontrarmos algo parecido seria necessário remontarmos a 1955, quando uma massiva convergência conservadora de classes médias apoiou o golpe militar oligárquico. A mobilização direitista de 2008 esteve infestada de brotos neofascistas, alusões racistas às classes baixas, insultos ao “governo montonero” (quer dizer, supostamente controlado por ex-guerrilheiros marxistas reciclados), etc.
Essa onda reacionária se prolongou nas eleições legislativas de 2009, onde a direita obteve a vitória (a maioria no Parlamento). Antes e depois deste evento, esteve permanentemente alimentadas pelos meios de comunicação concentrados. Atualmente é difícil diagnosticar se mantém ou não o seu nível de massividade. O conflito se desenrola agora sem a presença de multidões nas ruas. A grande maioria da população observa a situação como a uma briga entre grupos de poder no andar de cima.
Se avaliamos a trajetória, nos dois últimos anos, da confrontação entre uma direita cada vez mais audaciosa e agressiva e um governo crescentemente encurralado não é difícil imaginar um cenário próximo do “golpe de Estado”, não seguindo os velhos esquemas das intervenções militares diretas, nem sequer uma réplica do caso hondurenho (golpe militar com fachada civil), mas sim um leque de novas alternativas onde se combinariam fatores como a manipulação de mecanismos judiciais, o emprego arrasador da arma midiática, a utilização de instrumentos parlamentares, a mobilização de setores sociais reacionários (cuja amplitude é uma forte incógnita), incluindo ações violentas de grupos civis dirigidos por estruturas de segurança policiais ou militares.
Neste último caso deveríamos levar em conta as possíveis intervenções do aparato de inteligência norte-americano que dispõe atualmente de um importante know how em matéria de golpes civis, como as chamadas “revoluções coloridas”, algumas bem sucedidas como a “laranja” na Ucrânia (2204), a que derrotou Milosevic (Iugoslávia, 2000), a das “rosas” (Geórgia, 2003), a das “tulipas” (Kirguistão, 2005), a “do cedro” (Líbano, 2005) e outras fracassadas como a “revolução branca” (Bielorussia, 2006), a “verde” (Irã, 2009) ou a “revolução twitter” (Moldávia, 2009). Em todas essas “revoluções” orquestradas pelo aparato de inteligência dos EUA as convergências entre grupos civis e meios de comunicação golpearam governos considerados “indesejáveis” pelo Império. Tiveram êxito diante de Estados mergulhados em crises profundas; fracassaram quando as estruturas estatais puderam resistir e/ou quando as maiorias populares os enfrentaram.
As raízes
Quais são as raízes dessa avalanche direitista? Ela não pode ser atribuída ao descontentamento das elites empresariais e das classes superiores diante de drásticas redistribuições de renda em favor dos pobres ou a medidas econômicas esquerdizantes ou estatistas que afetem de maneira decisiva os negócios dos grupos dominantes. Pelo contrário, a bonança econômica que marcou os governos dos Kirchner significou grandes lucros para toda classe de grupos capitalistas: financeiros, industriais exportadores ou voltados ao mercado interno, empresas grandes ou pequenas, etc.
A Argentina experimentou altas taxas de crescimento do PIB e enormes superávits fiscais impulsionados por exportações em vertiginosa ascensão. E ainda que o desemprego tenha caído, a estrutura de distribuição da renda nacional, herdada da era neoliberal, não variou de maneira significativa. A governabilidade política permitiu a preservação do sistema que cambaleava entre 2001-2002. As estatizações decididas durante a presidência de Cristina Kirchner foram, na verdade, medidas destinadas mais a preservar o funcionamento do sistema do que a modificá-lo. A estatização da previdência privada, por exemplo, foi precipitada pela crise financeira global e pelo esgotamento de uma estrutura de saque de fundos previdenciários. A estatização da Aerolíneas Argentinas significou tomar posse de uma empresa totalmente liquidada e a ponto de desaparecer.
Se existe alguma pressão, entre as classes altas, é na direção de uma maior concentração de renda, em função de sua própria dinâmica governada pelo parasitismo financeiro global-local que opera como uma espécie de núcleo estratégico central de seus negócios. Neste sentido, a resistência do governo a esta tendência aparece para estas elites como um “intervencionismo insuportável”.
Outro fator decisivo é a crescente agressividade dos EUA acossado pela crise, sabendo que o tempo joga contra seus interesses, que a decadência da unipolaridade imperial pode fazer com que percam por completo suas tradicionais posições de poder na América Latina. Isso já está começando a ocorrer a partir do processo de integração regional, de um Brasil autonomizando-se cada vez mais dos EUA, da persistência da Venezuela chavista, da consolidação de Evo Morales na Bolívia, etc. A Casa Branca embarcou em longa corrida contra o tempo: amplia as operações militares na Ásia e África, herdadas da era Bush, apadrinha o golpe militar em Honduras e outras intervenções na América Latina. A queda ou degradação integral do governo kirchnerista seria uma ótima notícia para os norte-americanos, pois enfraqueceria o Brasil e reduziria o espaço político da Venezuela, Equador e Bolívia.
Mas existe um fenômeno de primeira importância que provavelmente os Kirchner ignoraram e que boa parte da esquerda e do progressismo subestimou: a mudança de natureza da burguesia local, cujos grupos dominantes passaram a constituir uma verdadeira lumpen-burguesia onde se interconectam redes que vinculam negócios financeiros, industriais, agrários e comerciais com negócios ilegais de todo tipo (prostituição, tráfico de drogas e armas, etc.), empresas de segurança privada, máfias policiais e judiciárias, elites políticas e grandes grupos midiáticos. Essa é a mais importante das heranças deixadas pela ditadura, consolidada e expandida durante a era Menem.
A política de direitos humanos do governo não afetou somente a grupos de velhos militares criminosos isolados e ideologicamente derrotados. Ao golpear esses grupos, essa política estava desatando uma dinâmica que feria uma das componentes essenciais da (lumpen) burguesia argentina realmente existente. Quando começamos a desenrolar a trama de grupos midiáticos como o “Clarín” ou não midiáticos, como o grupo Macri, aparecem as vinculações com negócios provenientes da última ditadura, personagens-chave das máfias policiais, etc. Nestes círculos dominantes, a maré crescente de processos judiciais contra ex-repressores pode ser vista talvez em seu começo como uma concessão necessária ao clima esquerdizante herdado dos acontecimentos de 2001-2002 e que, mantida dentro de limites modestos, não afetaria a boa marcha de seus negócios. Mas essa maré cresceu até transformar-se em uma pressão insuportável para essas elites.
Finalmente é necessário constatar que assim como se desenvolveu um processo de humanização cultural democratizante também se desenvolveu, protagonizado pelos grandes meios de comunicação, um contra-processo de caráter autoritário, de criminalização dos pobres, de condenação do progressismo que põe os direitos humanos acima de tudo. Em certo sentido, tratou-se de uma espécie de reivindicação indireta da última ditadura realizada pelos grandes meios de comunicação, centrada na necessidade de empregar métodos expeditivos ante à chamada “insegurança”, à delinqüência social, às desordens nas ruas.
A mesma encontrou um espaço favorável em uma porção importante da população pertencente às classes médias e altas. Muitos membros destes setores não se atrevem a defender a velha e desmoralizada ditadura militar, mas encontraram um novo discurso neofascista que lhes permitiu levantar a cabeça. Essa gente se mobilizou em 2008 em apoio à burguesia rural e contra o governo “esquerdista”, esteve na vanguarda da vitória eleitoral de Mauricio Macri na cidade de Buenos Aires e dos políticos de direita nas eleições parlamentares de 2009.
Brincando com fogo?
A crise atual pode vir a ter sérias repercussões econômicas. É o que esperam muitos dirigentes políticos da direita que sonham em se apoderar do governo em meio ao caos e/ou a passividade popular. A paralisia do Banco Central ou sua transformação em uma trincheira opositora poderia desordenar por completo o sistema monetário, degradar o conjunto da economia, o que, somado a um tsunami midiático, converteria o governo em uma presa fácil.
Em tese existe a possibilidade de que o governo, encurralado pela direita, busque desesperadamente ampliar sua base popular multiplicando medidas de redistribuição de renda junto às classes baixas, estatizações, etc. A direita acredita cada vez menos nesta possibilidade, o que a torna mais audaciosa, mais segura de sua impunidade. Ela considera que os Kirchner estão demasiado aferrados ao “país burguês”, por razões psicológica, ideológicas e pelos interesses que representam, para que essa alternativa de ruptura passe por suas cabeças. Uma sucessão de fatos concretos parece dar-lhe razão. Afinal, Martín Redrado foi designado como presidente do Banco Central por Nestor Kirchner e confirmado depois por Cristina Kirchner. Agora, eles “descobrem” que se trata de um neoliberal reacionário e buscam substituí-lo por algum outro neoliberal ou bom amigo dos interesses financeiros.
Também existe a possibilidade que o caos buscado pela direita ou as medidas econômicas que ela seguramente tomará caso conquiste o governo desatem uma gigantesca onda de protestos sociais, fazendo ruir a governabilidade e reinstalando em uma escala ampliada o fantasma popular de 2001-2002. Mas essa direita considera cada vez menos provável a concretização dessa ameaça. Ela está cada vez mais convencida de que os meios de comunicação combinados com um sistema de repressão pontual - não ostensivo, mas enérgico - podem controlar as classes baixas. É muito provável que essas elites degradadas, lançadas em uma cruzada irracional, estejam atravessando uma séria crise de percepção.
(*) Economista argentino, professor na Universidade de Buenos Aires. É autor, entre outros livros, de "Capitalismo senil, a grande crise da economia global".
Tradução: Katarina Peixoto
Do outro lado encontramos a presidente Cristina Kirchner resistindo desde o poder Executivo com seus aliados parlamentares, sindicais e “sociais”. Seu perfil político é o de um centrismo desenvolvimentista muito contraditório, oscilando entre as camadas populares mais pobres, às quais não se atreve a mobilizar com medidas econômicas e sociais radicais, e os grandes grupos empresariais e outras esferas de poder que busca em vão recuperar para recompor o sistema de governabilidade vigente durante a presidência de Nestor Kirchner.
A este leque de forças locais é necessário incorporar a intervenção dos Estados Unidos que, a partir da chegada de Barak Obama à Casa Branca, mostra-se cada vez mais ativa nos assuntos internos da Argentina. Isso deve ser integrado ao contexto mais amplo da estratégia imperial de reconquista da América Latina, marcada por fatos notórios como o recente golpe de Estado em Honduras, a recriação da IV Frota, as bases militares na Colômbia e outras atividades menos visíveis, mas não menos efetivas, como a reativação de seu aparato de inteligência na região (CIA, DEA, etc) e a conseqüente expansão de operações conspirativas com políticos, militares, empresários, grupos mafiosos, meios de comunicação, etc.
A onda reacionária
Como se sabe, a crise estourou quando o presidente do Banco Central decidiu não acatar um decreto de “necessidade e urgência”, com força de lei, que ordenava colocar uma parte das reservas à disposição de um fundo público destinado ao pagamento da dívida externa. Deste modo, Redrado (apoiando-se na “autonomia” do Banco, imposta nos anos 1990 pelo FMI) desafiava a legalidade e assumia como própria a reivindicação do conjunto da direita: não pagar dívida externa com reservas, mas sim com receitas fiscais, obrigando assim o governo a reduzir o gasto público, o que seguramente teria um impacto negativo sobre o Produto Interno Bruto, o nível de emprego e os salários.
Em uma primeira aproximação, a crise aparece como uma disputa sobre política econômica entre neoliberais partidários do ajuste fiscal e keynesianos partidários da expansão do consumo interno. No entanto, a magnitude da tormenta política em curso obriga a ir mais além do debate econômico. Não existe proporção entre o volume de interesses financeiros afetados e a extrema virulência do enfrentamento. Tampouco se trata de um problema causado pela necessidade de pagar a dívida externa diante de uma situação financeira difícil. Pelo contrário, o Estado tem um importante superávit fiscal e a dívida externa representa atualmente cerca de 40% do Produto Interno Bruto contra 80%, em 2003, quando Nestor Kirchner assumiu a presidência da República.
Para começar a entender o que está ocorrendo é necessário remontarmos ao primeiro semestre de 2008 quando estourou o conflito entre o governo e a burguesia rural. Neste caso também a confrontação apareceu sob o aspecto econômico: o governo tentou estabelecer impostos móveis às exportações agrárias cujos preços internacionais neste momento subiam vertiginosamente; os grandes grupos do agronegócio se opuseram – ainda que estivessem ganhando muito dinheiro, pretendiam ganhar muito mais embolsando a totalidade destes lucros extraordinários. Para surpresa tanto do governo como das próprias elites agrárias, o protesto foi imediatamente respaldado pela quase totalidade dos empresários rurais, inclusive por setores que por sua área de especialização ou inserção regional não tinham interesses materiais concretos no tema. Rapidamente os bloqueios de estradas, muito destacados pelos meios de comunicação, arrastaram a adesão das classes altas e médias urbanas, estruturando-se deste maneira uma maré social reacionária cuja magnitude não tinha precedentes na história argentina dos últimos 50 anos.
Para encontrarmos algo parecido seria necessário remontarmos a 1955, quando uma massiva convergência conservadora de classes médias apoiou o golpe militar oligárquico. A mobilização direitista de 2008 esteve infestada de brotos neofascistas, alusões racistas às classes baixas, insultos ao “governo montonero” (quer dizer, supostamente controlado por ex-guerrilheiros marxistas reciclados), etc.
Essa onda reacionária se prolongou nas eleições legislativas de 2009, onde a direita obteve a vitória (a maioria no Parlamento). Antes e depois deste evento, esteve permanentemente alimentadas pelos meios de comunicação concentrados. Atualmente é difícil diagnosticar se mantém ou não o seu nível de massividade. O conflito se desenrola agora sem a presença de multidões nas ruas. A grande maioria da população observa a situação como a uma briga entre grupos de poder no andar de cima.
Se avaliamos a trajetória, nos dois últimos anos, da confrontação entre uma direita cada vez mais audaciosa e agressiva e um governo crescentemente encurralado não é difícil imaginar um cenário próximo do “golpe de Estado”, não seguindo os velhos esquemas das intervenções militares diretas, nem sequer uma réplica do caso hondurenho (golpe militar com fachada civil), mas sim um leque de novas alternativas onde se combinariam fatores como a manipulação de mecanismos judiciais, o emprego arrasador da arma midiática, a utilização de instrumentos parlamentares, a mobilização de setores sociais reacionários (cuja amplitude é uma forte incógnita), incluindo ações violentas de grupos civis dirigidos por estruturas de segurança policiais ou militares.
Neste último caso deveríamos levar em conta as possíveis intervenções do aparato de inteligência norte-americano que dispõe atualmente de um importante know how em matéria de golpes civis, como as chamadas “revoluções coloridas”, algumas bem sucedidas como a “laranja” na Ucrânia (2204), a que derrotou Milosevic (Iugoslávia, 2000), a das “rosas” (Geórgia, 2003), a das “tulipas” (Kirguistão, 2005), a “do cedro” (Líbano, 2005) e outras fracassadas como a “revolução branca” (Bielorussia, 2006), a “verde” (Irã, 2009) ou a “revolução twitter” (Moldávia, 2009). Em todas essas “revoluções” orquestradas pelo aparato de inteligência dos EUA as convergências entre grupos civis e meios de comunicação golpearam governos considerados “indesejáveis” pelo Império. Tiveram êxito diante de Estados mergulhados em crises profundas; fracassaram quando as estruturas estatais puderam resistir e/ou quando as maiorias populares os enfrentaram.
As raízes
Quais são as raízes dessa avalanche direitista? Ela não pode ser atribuída ao descontentamento das elites empresariais e das classes superiores diante de drásticas redistribuições de renda em favor dos pobres ou a medidas econômicas esquerdizantes ou estatistas que afetem de maneira decisiva os negócios dos grupos dominantes. Pelo contrário, a bonança econômica que marcou os governos dos Kirchner significou grandes lucros para toda classe de grupos capitalistas: financeiros, industriais exportadores ou voltados ao mercado interno, empresas grandes ou pequenas, etc.
A Argentina experimentou altas taxas de crescimento do PIB e enormes superávits fiscais impulsionados por exportações em vertiginosa ascensão. E ainda que o desemprego tenha caído, a estrutura de distribuição da renda nacional, herdada da era neoliberal, não variou de maneira significativa. A governabilidade política permitiu a preservação do sistema que cambaleava entre 2001-2002. As estatizações decididas durante a presidência de Cristina Kirchner foram, na verdade, medidas destinadas mais a preservar o funcionamento do sistema do que a modificá-lo. A estatização da previdência privada, por exemplo, foi precipitada pela crise financeira global e pelo esgotamento de uma estrutura de saque de fundos previdenciários. A estatização da Aerolíneas Argentinas significou tomar posse de uma empresa totalmente liquidada e a ponto de desaparecer.
Se existe alguma pressão, entre as classes altas, é na direção de uma maior concentração de renda, em função de sua própria dinâmica governada pelo parasitismo financeiro global-local que opera como uma espécie de núcleo estratégico central de seus negócios. Neste sentido, a resistência do governo a esta tendência aparece para estas elites como um “intervencionismo insuportável”.
Outro fator decisivo é a crescente agressividade dos EUA acossado pela crise, sabendo que o tempo joga contra seus interesses, que a decadência da unipolaridade imperial pode fazer com que percam por completo suas tradicionais posições de poder na América Latina. Isso já está começando a ocorrer a partir do processo de integração regional, de um Brasil autonomizando-se cada vez mais dos EUA, da persistência da Venezuela chavista, da consolidação de Evo Morales na Bolívia, etc. A Casa Branca embarcou em longa corrida contra o tempo: amplia as operações militares na Ásia e África, herdadas da era Bush, apadrinha o golpe militar em Honduras e outras intervenções na América Latina. A queda ou degradação integral do governo kirchnerista seria uma ótima notícia para os norte-americanos, pois enfraqueceria o Brasil e reduziria o espaço político da Venezuela, Equador e Bolívia.
Mas existe um fenômeno de primeira importância que provavelmente os Kirchner ignoraram e que boa parte da esquerda e do progressismo subestimou: a mudança de natureza da burguesia local, cujos grupos dominantes passaram a constituir uma verdadeira lumpen-burguesia onde se interconectam redes que vinculam negócios financeiros, industriais, agrários e comerciais com negócios ilegais de todo tipo (prostituição, tráfico de drogas e armas, etc.), empresas de segurança privada, máfias policiais e judiciárias, elites políticas e grandes grupos midiáticos. Essa é a mais importante das heranças deixadas pela ditadura, consolidada e expandida durante a era Menem.
A política de direitos humanos do governo não afetou somente a grupos de velhos militares criminosos isolados e ideologicamente derrotados. Ao golpear esses grupos, essa política estava desatando uma dinâmica que feria uma das componentes essenciais da (lumpen) burguesia argentina realmente existente. Quando começamos a desenrolar a trama de grupos midiáticos como o “Clarín” ou não midiáticos, como o grupo Macri, aparecem as vinculações com negócios provenientes da última ditadura, personagens-chave das máfias policiais, etc. Nestes círculos dominantes, a maré crescente de processos judiciais contra ex-repressores pode ser vista talvez em seu começo como uma concessão necessária ao clima esquerdizante herdado dos acontecimentos de 2001-2002 e que, mantida dentro de limites modestos, não afetaria a boa marcha de seus negócios. Mas essa maré cresceu até transformar-se em uma pressão insuportável para essas elites.
Finalmente é necessário constatar que assim como se desenvolveu um processo de humanização cultural democratizante também se desenvolveu, protagonizado pelos grandes meios de comunicação, um contra-processo de caráter autoritário, de criminalização dos pobres, de condenação do progressismo que põe os direitos humanos acima de tudo. Em certo sentido, tratou-se de uma espécie de reivindicação indireta da última ditadura realizada pelos grandes meios de comunicação, centrada na necessidade de empregar métodos expeditivos ante à chamada “insegurança”, à delinqüência social, às desordens nas ruas.
A mesma encontrou um espaço favorável em uma porção importante da população pertencente às classes médias e altas. Muitos membros destes setores não se atrevem a defender a velha e desmoralizada ditadura militar, mas encontraram um novo discurso neofascista que lhes permitiu levantar a cabeça. Essa gente se mobilizou em 2008 em apoio à burguesia rural e contra o governo “esquerdista”, esteve na vanguarda da vitória eleitoral de Mauricio Macri na cidade de Buenos Aires e dos políticos de direita nas eleições parlamentares de 2009.
Brincando com fogo?
A crise atual pode vir a ter sérias repercussões econômicas. É o que esperam muitos dirigentes políticos da direita que sonham em se apoderar do governo em meio ao caos e/ou a passividade popular. A paralisia do Banco Central ou sua transformação em uma trincheira opositora poderia desordenar por completo o sistema monetário, degradar o conjunto da economia, o que, somado a um tsunami midiático, converteria o governo em uma presa fácil.
Em tese existe a possibilidade de que o governo, encurralado pela direita, busque desesperadamente ampliar sua base popular multiplicando medidas de redistribuição de renda junto às classes baixas, estatizações, etc. A direita acredita cada vez menos nesta possibilidade, o que a torna mais audaciosa, mais segura de sua impunidade. Ela considera que os Kirchner estão demasiado aferrados ao “país burguês”, por razões psicológica, ideológicas e pelos interesses que representam, para que essa alternativa de ruptura passe por suas cabeças. Uma sucessão de fatos concretos parece dar-lhe razão. Afinal, Martín Redrado foi designado como presidente do Banco Central por Nestor Kirchner e confirmado depois por Cristina Kirchner. Agora, eles “descobrem” que se trata de um neoliberal reacionário e buscam substituí-lo por algum outro neoliberal ou bom amigo dos interesses financeiros.
Também existe a possibilidade que o caos buscado pela direita ou as medidas econômicas que ela seguramente tomará caso conquiste o governo desatem uma gigantesca onda de protestos sociais, fazendo ruir a governabilidade e reinstalando em uma escala ampliada o fantasma popular de 2001-2002. Mas essa direita considera cada vez menos provável a concretização dessa ameaça. Ela está cada vez mais convencida de que os meios de comunicação combinados com um sistema de repressão pontual - não ostensivo, mas enérgico - podem controlar as classes baixas. É muito provável que essas elites degradadas, lançadas em uma cruzada irracional, estejam atravessando uma séria crise de percepção.
(*) Economista argentino, professor na Universidade de Buenos Aires. É autor, entre outros livros, de "Capitalismo senil, a grande crise da economia global".
Tradução: Katarina Peixoto
Capitalismo e outras coisas de crianças
Vídeo que nos convida a olhar de uma forma diferente para o mundo em que vivemos e a questionar algumas das mais básicas premissas da vida no Capitalismo. Escrito e apresentado por Paddy Joe Shannon, produzido pelo Partido Socialista da Grã-Bretanha, com tradução e legendas de Glauber Ataide.
Eduardo Guimarães: Onde e como organizar a mídia alternativa?
Eduardo Guimarães: www.patrialatina.com.br
Então onde e como organizar essa mídia “alternativa”?, perguntará o leitor.
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Notadamente
nos últimos dois anos, vêm ocorrendo tentativas esparsas de se
organizar minimamente a mídia “alternativa”, o que seja ela, a
Blogosfera , sites jornalísticos e algumas revistas, de menor tiragem e
de poucos recursos, ditos "de esquerda", o que inclui a Carta Capital,
a Caros Amigos, a Fórum e a Revista do Brasil, entre o que conta.
A
dificuldade para se lograr tal feito explica o fato de o Brasil ter
essa situação esdrúxula de só existirem grandes meios de comunicação de
direita. Por que não podemos ter grandes jornais de esquerda como na
França, na Itália ou nos Estados Unidos? Na França há o Libération ou
L’Humanité, na Itália, L’Unità, ligado ao ex-Partido Comunista, e o
independente Il Manifesto; nos Estados Unidos, há o socialista The
Nation e, na Grã-Bretanha, The Independent.
Mas
e no Brasil, o que temos? Folha, Globo, Estadão, Correio Brasiliense,
Jornal do Brasil, Zero Hora... E por aí vai. Televisões? Todas de
direita. Rádios e tevês? Entre as que têm grande alcance, todas de
direita. Sobram à esquerda as revistas supra-mencionadas e os sites e
blogs, e essa é a mídia alternativa que se pretende organizar.
Aí
vem a questão: organizar como? Já surgiu a idéia de um portal de
internet, mas ninguém vai querer abrir mão de seu vôo solo para
escrever de graça, com obrigação a cumprir. É diferente de fazer um
blog, onde você decide o que e quando vai publicar sem ter que
respeitar prazos e quaisquer outras imposições que um veículo como um
portal de internet exigiria.
Como
se não bastasse essa dificuldade, não há dinheiro. Ninguém constrói
hoje um portal de internet sem muito, muito dinheiro. Um jornalista da
Record me disse que o recém-criado portal de Internet R7, da Igreja
Universal, conta com uma redação de uma centena e meia de jornalistas e
recursos ilimitados para produzir conteúdo. Estamos falando, pois, de
milhões de reais.
Outro
dia li acho que foi o blogueiro Ricardo Kotscho dizendo que o Brasil
tem mais “colunas” do que a Grécia antiga, pois estamos confinados a
opinar e opinar, ou reproduzir conteúdo dos grandes veículos. Por falta
de dinheiro.
Quando
se fala em “organizar”, o sentido é ao pé da letra. Formar uma
organização nacional dos veículos que, por conta de sua linha
ideológica (e este é o fato crucial), sofrem boicote de um empresariado
que acredita que comunistas comem criancinhas, e que é aquele que
poderia investir em uma fatia do mercado para jornalismo totalmente
desatendida no Brasil.
Diante
disso tudo, nesta quinta-feira estive reunido com o “Publisher” de um
dos mais conhecidos e respeitados veículos da mídia “alternativa”,
alguém que não recebe nome aqui porque não gosta de aparecer. Essa
pessoa se propõe a encabeçar os esforços para se criar uma associação
nacional desses veículos, entre os quais estaria este blog. Trata-se de
uma tentativa de avançar até onde for possível.
Estamos
vivendo um momento complicado, os que nadam contra a corrente da falta
de recursos para fazer jornalismo cidadão, ou seja, sem lucrar nada. O
ano eleitoral e a possibilidade de continuar fora do poder enlouqueceu
a direita, que começa a adotar um nível de radicalização com ameaças de
todo tipo aos que já começam a incomodar mesmo trabalhando de forma
artesanal e sem recursos financeiros.
Fontes
de financiamento, apoio jurídico, venda de espaços para publicidade,
entre outros, seriam preocupação dessa associação. Ela teria força e
representatividade, pois esses milhares de leitores deste, daquele e
daquele outro blog, site ou pequena revista, juntos constituiriam um
grande público.
Tenho
dado minha contribuição para a integração da mídia “alternativa” na
medida do possível. Em breve, colocarei outro anúncio gratuito neste
blog para outra importante revista. Muitos dos sites e blogs “linkados”
aqui dizem que o Cidadania lhes remeteu milhares de leitores. E há a
militância política na ONG Movimento dos Sem Mídia e o comprometimento
com este espaço que já nem me pertence mais.
Se
puder contribuir também para essa associação, contribuirei. Acho que o
Brasil precisa ter pluralidade no espectro ideológico de sua imprensa.
Essa situação de só a direita poder falar para muitos de uma só vez
precisa mudar, e só mudará se cada blogueiro, se cada editor de site ou
revista de esquerda se dispuser a colaborar.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
O retorno às origens...
Os novos sacerdotes e Abya Yala
Tal
e qual os “selvagens” povos da mesoamérica, os povos contemporâneos
empreendem guerras de busca de prisioneiros a serem oferecidos aos
deuses. Não há como esconder. Até mesmo nas grandes catástrofes se vê a
boca sangrenta do capital

Créditos: Portal Ciranda.net
Desde os anos 70 que das entranhas da América baixa
assoma o que hoje conhecemos como “o novo movimento indígena”. Diz-se
novo apenas porque apresenta outra configuração, uma vez que desde a
invasão, em 1492, as comunidades originárias sempre resistiram à
violência, à morte e à destruição de suas vidas e culturas. E esse
“novo” momento começa quando em boa parte dos países latino-americanos
as ditaduras calavam a voz de estudantes, sindicalistas e lutadores
sociais. Naqueles dias, no final dos anos 60, os povos originários
começaram a se reunir e discutir suas demandas. Pequenos encontros,
outros um pouco mais expressivos e, a cada ano, ia crescendo a
articulação continental. No México, problemas relacionados à questão da
terra levaram povos de várias etnias a realizar um congresso em 1974,
que acabou sendo um marco nesta reorganização. Na Bolívia os aymaras e
quéchuas também se organizavam e realizavam encontros, no Equador,
Guatemala, Colômbia, enfim, em vários pontos do continente se debatiam
e se discutiam os problemas relacionados ao território, aos direitos, à
saúde, educação, etc...
Nos anos 80 esta organização se fortalece, sai do
âmbito da briga por melhorias dentro da ordem, e em alguns países os
indígenas decidem fazer a luta efetiva. Não mais palavras ou pedidos,
mas ações concretas. Foi assim no Equador em 1990, quando os
originários ocuparam igrejas e prédios públicos no centro histórico
exigindo seus direitos. Em 1994, quatro anos depois, a luta explodiu
com os zapatistas e sua voz armada, enfrentando 12 dias de combate
contra o exército mexicano, os aymara na Bolívia com a guerra da água
(2000) e a expulsão de Sanchez de Lozada (2003), os originários do
Equador derrubando presidentes (2005). Hoje, passada a primeira década
do século XXI, é inegável a organização e as conquistas dos povos
originários em toda América Latina. Já foram realizados quatro grandes
encontros intercontinentais, dois países já incorporaram nas suas
Constituições o Estado Plurinacional, que garante aos indígenas o
direito de organizar sua vida segundo seus costumes, e ninguém mais
concebe a vida sem a participação das gentes originárias. Mesmo no
Brasil, onde as lutas indígenas ainda se travam completamente à margem
da grande mídia, cresce a organização e a avançam as conquistas.
O preconceito
Mas, apesar de toda esta luta e das sucessivas conquistas dos povos originários em toda América Latina, o preconceito e o racismo ainda são os grandes entraves para que as gentes passem a respeitar as demandas dos indígenas como legítimas e necessárias. É que ao longo dos séculos os países do continente foram dominados por uma elite criolla (gente branca ou mestiça nascida na América), que sequer chegou a cogitar ter ao seu lado, no comando da vida latino-america, os legítimos donos da terra de Abya Yala. O próprio Bolívar, quando volta do Haiti e incorpora as reivindicações negras e indígenas, é rechaçado pelos seus generais, que acabam por vencê-lo. Enquanto Bolívar agoniza de tuberculose, derrotado na sua concepção de estado, a nova América Latina que emerge das lutas de independência fica entregue a esta elite predadora, que se apropria das terras comunais, que rouba o indígena e o submete ao que José Carlos Mariategui chamou de “gamonalismo”, sistema de domínio dos latifundiários no qual não pode haver a redenção dos povos originários.
O foi justamente Mariategui, nos anos 30 do século XX,
o primeiro a afirmar que as reivindicações dos originários precisavam
sair do cultural e converterem-se em econômicas e políticas. Segundo
ele, a questão indígena deveria ser encarada com uma solução social, ou
seja, o centro não deveria ser racial ou moral, mas sim a propriedade
da terra. Sem resolver isso, nada mudaria. De qualquer forma, a voz do
marxista peruano não foi suficiente para que as elites
latino-americanas mudassem sua maneira de encarar o clamor indígena e,
ao longo dos anos que se seguiram, foi reforçado o preconceito, com a
idéia de que o índio é preguiçoso, sujo, bêbado e com isso, seguiu
aumentando o racismo que se perpetua indelével em toda a sociedade.
É por isso que nas escolas da maioria dos países
latino-americanos as crianças sabem muito mais dos egípcios do que dos
maias, assim como conhecem em profundidade a vida dos povos europeus
enquanto sequer sabem onde vivem os caraíbas, os chibchas, os arauak,
os tupinambás, os guarani. Suas formas de organizar a vida, então, são
absolutamente desconhecidas e o que é falado não foge do folclore ou
das aberrações.
Os sacrifícios humanos
E, ainda assim, desconhecendo, o povo que pensa o mundo (os chamados intelectuais) insiste em dizer que é impossível transladar as formas de viver dos originários para o nosso tempo. E mais, ainda há aqueles que buscam nos costumes mais lúgubres dos antigos os exemplos para respaldar isso. “Veja os maias. Eram uns sanguinários. Faziam sacrifícios humanos, assim como também os mexicas, os olmecas, teotihuacanos, astecas etc... Vamos voltar a sacrificar pessoas a um deus que exige sangue? É isso que se quer com a volta das culturas índias?” Este argumento nos faz refletir sobre os costumes antigos e os de agora. Sim, é verdade. Os maias e os demais povos que habitavam a mesoamérica realizavam sacrifícios humanos. Seus deuses eram implacáveis e era por isso que faziam incursões guerreiras. Buscavam prisioneiros para alimentar os deuses. Isso pode ser visto com bastante crueza no filme de Mel Gibson, Apokalipto, o qual narra a saga de um jovem capturado pelos maias e mostra com riqueza de detalhes os rituais de sacrifício.
Para os maias, assim como para os demais povos da
região, a religião era um contrato entre deuses e homens. Os primeiros
ajudavam no trabalho, davam alimentos e segurança, mas exigiam
pagamento antecipado. Por isso havia o ritual de “abrir a boca”,
chamado assim porque o sangue dos sacrificados era usado para untar a
boca do grande deus. Enquanto entregavam o pagamento aos deuses, os
sacerdotes pediam saúde, filhos, prosperidade, água e temporais para
que a vida florescesse, força para enfrentar os inimigos, folga e
descanso.
Naquela complexa sociedade que inventou o zero no
século III a.C - bem antes dos hindus que só chegaram a ele no século
VIII depois de cristo ou da Europa que só o conheceu na Idade Média -
que cultivava o milho e construía gigantescas pirâmides com degraus,
muito mais espetaculares que as egípcias, quem detinha o poder sobre a
vida e a morte eram os sacerdotes. Os homens comuns não podiam
interpretar a vontade dos deuses, só os sacerdotes eram capazes e por
isso tinham o domínio dos rituais, do ensino e da vida. Eles decidiam
quem vivia ou morria, eles eram os que repassavam as ordens dos deuses
e mesmo os reis eram obrigados a seguir seus conselhos. Então reverbera
nos ouvidos a pergunta: “Vamos querer essa barbárie outra vez?”
Os sacerdotes atuais
Desde a pergunta do amigo intelectual passo em revista os tempos modernos. Nos livros que se escrevem aos borbotões e que vem, sobretudo, da Europa, fala-se de uma pós-modernidade, de um tempo de fins, de fragmentações, de vazios. Conta-se de um tempo anômico, sem normas. Diz-se que houve uma época em que no mundo ocidental a norma era revelada, emanava de deus. Depois, com o iluminismo, a norma passa a ser uma construção humana. É o homem quem é o centro da vida. E hoje, não há mais normas. Tudo é válido. Existe apenas o fluxo, fluido e líquido. Mas, uma olhada mais apurada revela que o fluxo, dito sem forma e sem lei, está sim submetido a uma razão bem específica: é a do mercado capitalista. Este é o grande deus sanguinário, cuja boca aberta está borbulhante do sangue das vítimas que, implacavelmente, seguem sendo oferecidas.
Tal e qual os “selvagens” povos da mesoamérica, os
povos contemporâneos empreendem guerras de busca de prisioneiros a
serem oferecidos aos deuses, no geral travadas com pastas pretas e bem
trajados homens e mulheres, representantes das agências financiadoras
internacionais. Ou mesmo com guerreiros tradicionais como é o caso das
invasões estadunidenses. Nações inteiras são capturadas e submetidas.
Milhões de pessoas são sacrificadas todos os dias nas “bocas abertas”
do capital. Uma zapeada nos programas dominicais da televisão
brasileira e isso salta aos olhos. Não há como esconder. Até mesmo nas
grandes catástrofes se vê a boca sangrenta do capital, quando as gentes
são soterradas por estarem vivendo em áreas de risco, ou por serem
expulsas do centro da cidade, ou por estarem entregues à especulação da
natureza.
Os maias e os demais povos realizavam estes sacrifícios
em momentos rituais, sempre acreditando que o resultado seria o bem de
toda a comunidade. Exatamente como pontificam os novos sacerdotes do
sistema capitalista. É preciso que alguns se sacrifiquem para que a
vida de todos melhore. Primeiro crescer o bolo para depois repartir. Se
a pessoa trabalhar muito, ela chega lá. Não são estes os mantras que a
televisão, sede da mais-valia ideológica, passa todos os dias? Pois,
então, onde está o barbarismo dos maias? Não é exatamente igual ao que
vemos hoje?
Por todo o planeta economistas e políticos vomitam suas
fórmulas sobre crescimento, desenvolvimento, modernidade. Há que
privatizar, há que enxugar, cortar gastos públicos, diminuir o estado.
Há que criminalizar os movimentos sociais, há que prender aqueles que
se opõem a marcha inexorável do capital, há que eliminar terroristas,
hereges, subversivos. Há que invadir países, há que roubar riquezas
naturais, há que destruir todas as resistências. Nas telas de TV estes
novos sacerdotes aparecem como aqueles que são os únicos capazes de
interpretar a vontade dos deuses. Ao povo comum isso está vetado, tal e
qual no tempo dos maias. E se alguém se arvora a querer dizer: “mas não
é assim, pode ser diferente”, lá vem o garrote e o punhal. Elimina-se e
entrega-se à boca aberta do grande Murdoch ( que pode ser o antigo deus
babilônico ou o magnata da mídia).
É por conta disso que talvez seja bom pensar bem e
refletir se os povos originários eram mesmo os bárbaros ou
sanguinários. Eles estavam seguindo sua vida, evoluindo no conhecimento
da natureza e certamente chegariam a avanços se não tivessem sido
invadidos e exterminados. Não sei se seriam melhores ou piores que as
gentes de hoje, não sei se seguiriam realizando sacrifícios humanos ou
sustentando uma casta sacerdotal poderosa. Mas uma coisa me bate a
certeza. Seria diferente. A considerar o respeito que tinham pela
natureza, a sabedoria que carregavam de que o que acontece a terra
acontece também aos filhos da terra, os propósitos comunitários que
sustentavam a vida das civilizações mais avançadas, como a dos incas,
dos aymaras, quéchuas, não tenho dúvidas de que encontrariam uma forma
mais respeitosa de organizar a vida.
Um exemplo disso pode-se observar no povo Shuar, do
Equador, que hoje luta para preservar suas águas, entendendo que elas
são sagradas, ou os Mapuche, que querem preservar as araucárias onde
vivem seus deuses. Também se pode ver nos originários que ocupam o
território brasileiro, de sociedades menos complexas, mas igualmente
respeitosas com a vida que vive. Estas comunidades todas que
conseguiram ao longo dos séculos manterem vivas as memórias coletivas
de sua cultura são as que estão na ponta da luta pela preservação dos
recursos naturais. Elas sabem que o deus desse tempo é um deus de
destruição. Ele não protege o milho, não dá força, não manda águas e
temporais para que a vida floresça. Ao contrário, este ídolo de boca
aberta cria o transgênico, destrói a semente, faz assomar o tsunami,
joga bombas, arrasa tudo onde pisa, desfaz as comunidades.
Abya Yala é o novo
Hoje, a humanidade está colocada diante de um grande desafio. O modelo de desenvolvimento apresentado como revelação divina por políticos e economistas está esgotando os recursos e destruindo a vida. Mudar a maneira de viver no mundo é uma necessidade bioética. Não há escolhas. As pessoas “comuns”, a quem se lhes diz vedada a capacidade de interpretar as falas dos deuses precisam saber que isso não é verdade. Cada ser humano neste mundo sabe onde lhe aperta o calo. Os que vivem na pobreza, na miséria, na dor, devem saber que isso não é por conta de um “castigo de deus”. Não. A miséria de milhões só existe porque ela garante a riqueza de uns muito poucos. Esse é o dogma da teologia capitalista. Para que um viva, outro tem de morrer.
Mas, por todo o planeta existem culturas, comunidades,
seres, que sabem que há formas outras de organizar a vida, nas quais as
pessoas dividem o que tem e todos podem viver com dignidade. Não há os
muito ricos, nem os muito pobres. Todos cuidam da terra, das riquezas e
distribuem os bens. Isso é possível e real. E, agora, diante das
catástrofes, mudanças climáticas, degelos, furacões, tsunamis, ou é
isso ou é o fim.
Os maias, estes mesmos chamados de sanguinários, eram
extraordinários astrônomos e criaram no seu tempo um intricado
calendário no qual previram uma mudança radical da vida que viriam no
ano de 2012. Claro que não é a bobagem hollywoodiana que andou pelos
cinemas nestes dias de verão. A profecia é clara: a humanidade deve
escolher entre perecer por conta da estúpida exploração dos recursos
naturais, ou viver em harmonia com o universo. Parece uma coisa boba,
conversa de “velhos hippies”, utopias descabeçadas. Mas, os maias
sabiam que o sol era uma entidade viva, conheciam seus segredos, e
amavam a terra. Hoje, observando como o sistema-mundo capitalista
organiza a vida e todas as conseqüências que daí decorrem, talvez
“descabeçado” seja não entender que as coisas precisem mudar. Já basta
de entregar nossa gente à boca aberta do sanguinário deus.
Abya Yala desperta e se agiganta. Os movimentos
originários caminham na direção da preservação da sua cultura e mais,
apresentam novas liras para novas canções. Não querem a volta a um
passado perdido. Querem um futuro de paz, de respeito à natureza, de
cuidado com a mãe-terra, de solidariedade, de cooperação. Avançam na
construção de um outro tipo de estado que garanta o nacional/popular,
mas também o pluricultural. Não querem separação, mas direito de
governar junto. Propõe um passo além, dialeticamente, ao projeto
generoso de Bolívar. Uma pátria grande, na qual as etnias, as culturas,
as comunidades, sejam ouvidas, respeitadas e participem da esfera do
poder. Uma coisa nova, abyayálica, típica do nosso espaço geográfico,
mesclado de tantas culturas.
A "revolta da elite branca"...
As ideias demoníacas dos direitos humanos
Por Marcelo Salles
Poucas
vezes uma iniciativa foi tão atacada pela direita e suas corporações de
mídia quanto o Programa Nacional de Direitos Humanos. Mas não sem
razão. Uma proposta como, por exemplo, a cobrança de impostos sobre
grandes fortunas é realmente de arrepiar os cabelos de quem sempre os
deitou sobre a riqueza nacional – ainda que esta medida esteja prevista
na Constituição Federal e seja adotada pelos países que mais
progrediram no mundo.
Propor
um maior controle sobre a esculhambação e as mutretas que envolvem as
concessões de rádio e tv só pode ser um escândalo para aqueles que
fazem fortuna ao se arvorarem proprietários do espectro eletromagnético
que pertence a todo o povo brasileiro.
Fiscalizar
os latifúndios num país em que 1% de senhores feudais controla quase
metade das terras só pode ser comparado à criação de um “demônio”, no
dizer da senadora Kátia Abreu, do DEM, partido que tem suas raízes na
golpista UDN.
Deve
mesmo ser demoníaca a ideia de garantir direitos aos gays, lésbicas,
travestis e toda essa gente que ofende pelo único pecado de ser
diferente. Assim como só pode ser obra do capeta a proposta de ampliar
a participação direta do povo via plebiscitos, referendos, leis e vetos
populares. Por que as massas deveriam decidir diretamente os seus
destinos, se sempre, desde o genocídio inaugural, são vistas como
mão-de-obra barata e mal qualificada?
Poucas
vezes na história desse país uma iniciativa de um governo foi tão
bombardeada pela mídia, tanto em intensidade quanto na sua duração. Há
pelo menos 15 dias rádios, jornais e tvs de todo o país partem para o
ataque escancarado daqueles que defendem uma proposta democrática para
o Brasil.
Para
isso, omitem informações, descontextualizam fatos e até mesmo mentem.
Um bom exemplo é a surrada versão de que o que se pretende com a
Comissão da Verdade é rever a Lei de Anistia. Mentira. O que existe é
uma solicitação da OAB ao Supremo Tribunal Federal sobre dispositivos
de interpretação contraditória. A Constituição Federal, por exemplo,
considera que a prática da tortura não pode ser objeto de graça ou
anistia. Tratados internacionais estabelecem que crimes de
lesa-humanidade, como a tortura, são imprescritíveis. Comissões de
Verdade funcionaram ou funcionam muito bem em outros países, e isto é
sistematicamente escondido por meios de comunicação.
Mas
não é só isso. O fato de a Secretaria de Direitos Humanos só aparecer
nas corporações de mídia nesse contexto é, por si só, bastante
revelador dos propósitos das corporações de mídia. É como se não
houvesse políticas públicas de defesa dos direitos das crianças e
adolescentes, de pessoas com deficiência, idosos, LGBT, além dos
programas de proteção a pessoas ameaçadas, combate ao trabalho escravo
e até uma Ouvidoria-geral da cidadania. Iniciativas que poderiam ser
potencializadas pela visibilidade que lhe negam.
E
assim funciona a velha lógica do sistema: os ataques da direita
identificam os demônios para que sejam esconjurados por sua mídia. Mas
até que isso tem sua serventia. Revela a urgência da democratização dos
meios de comunicação de massa e deixa os inimigos da democracia
completamente expostos – todos com cara de santo, naturalmente.
Marcelo Salles, jornalista, é coordenador da Caros Amigos no Rio de Janeiro e editor do Fazendo Media(www.fazendomedia.com)
Esta no portal vermelho....
O flagelo da recessão nos EUA: 85 mil desempregados em dezembro
Umberto Martins *Os capitalistas norte-americanos destruíram 85 mil postos de trabalho em dezembro, segundo dados do governo divulgados nesta sexta-feira (8). A informação oficial, que coincide com estatísticas divulgadas na quinta (7) pela empresa que processa a folha de pagamentos do setor privado no país (ADP), caiu como uma ducha de água fria no ânimo do governo e de investidores e analistas que apostavam na recuperação do mercado de trabalho e esperavam um corte bem menor (de 8 mil vagas).
É
um claro sinal de que o fundo do poço da crise que perturba a maior
economia capitalista do mundo ainda não foi alcançado. A recessão teve
início há mais de dois anos, em dezembro de 2007, na sequencia da bolha
imobiliária, que começou a murchar em 2006. Desde então, 7,7 milhões de
trabalhadores e trabalhadoras foram acrescentadas ao exército de
desempregados, que já conta cerca de 17 milhões. Somente no ano
passado, as demissões líquidas (ou seja, descontadas as admissões)
somaram 4,2 milhões.
Efeitos desiguais
A taxa de desemprego aberto, calculada pelo governo, subiu de 4,6% para
10% no período. A realidade do mercado de trabalho é mais trágica do
que o índice oficial de desocupados sugere. Este considera apenas os
assalariados que procuraram emprego ao longo dos 30 dias anteriores à
pesquisa. Já os que vivem à base de “bico” e os desempregados no
desalento (aqueles que desistiram de procurar um novo posto de trabalho
durante a crise) são ignorados. Se fossem levados em conta, a taxa
subiria a 17,3%, segundo os especialistas.
Os números não deixam margem a dúvidas: esta é a mais grave crise do
capitalismo americano desde a Grande Depressão que atravessou os anos
1930 e contribuiu fortemente para ascender o pavio da Segunda Guerra
Mundial. Todo mundo padeceu e padece as conseqüências das tormentas
provenientes do poderoso império, embora de forma desigual.
Os países que compõem o chamado BRIC – China, Índia, Brasil e Rússia,
com exceção desta última -, sofreram menos. Tendo o desempenho do PIB
por critério, o Brasil praticamente perdeu o ano de 2009, que terminou
com taxa de crescimento próxima de zero. Mas a economia nacional já
está em franca recuperação, com um mercado de trabalho bem aquecido. O
comportamento da China, que tem a segunda maior economia do planeta,
foi muito melhor. O país mais uma vez surpreendeu o mundo ao exibir uma
taxa de crescimento de cerca de 8% (ano passado), tendo um papel
essencial no amortecimento da crise mundial, especialmente no Brasil,
de quem se tornou o maior parceiro comercial, desbancando o decadente
império do norte.
Alimento para a crise
As demissões nos EUA em dezembro atingiram a construção civil, a
indústria manufatureira e o comércio atacadista, segundo as informações
divulgadas pelo Departamento do Trabalho. É um cenário desesperador
para a classe trabalhadora, que embora não seja a responsável pela
crise do capitalismo é quem acaba pagando sua salgada conta. Isto
ocorre em função da condição subalterna que trabalhadores e
trabalhadoras ocupam no processo de produção e reprodução do capital e
das relações sociais (e de poder) estabelecidas no interior do sistema,
fundadas no monopólio privado dos meios de produção e na apropriação
(pelos capitalistas) da riqueza produzida, em detrimento dos produtores.
O desemprego não é apenas um flagelo para trabalhadores despojados dos
meios de produção, que necessitam vender sua força de trabalho para
sobreviver. É uma espécie de câncer para as economias, uma doença que
impede a recuperação da produção e realimenta a recessão ao deprimir o
consumo do povo e, por consequência, o comércio e a indústria. Por esta
e outras razões, apesar da euforia irracional das bolsas, enquanto o
mercado de trabalho não reagir positivamente é bobagem falar em
recuperação.
Ilusões reformistas
Imaginava-se que a eleição de Obama aliviaria o sofrimento da classe
operária. Foi uma vã esperança reformista. O novo presidente não teve
peito para enfrentar Wall Street. O governo que dirige destinou
trilhões de dólares aos banqueiros, a pretexto de salvar o corrompido
sistema financeiro da completa bancarrota. Pouco ou nada fez pelos
trabalhadores, que continuam sofrendo com as demissões em massa e as
execuções hipotecárias.
A verdade, que transparece nos fatos, é que os interesses da oligarquia
financeira continuam soberanos na definição da política (interna e
externa) dos EUA, uma política imperialista que, por definição, é
antissocial, antagônica aos interesses dos povos (inclusive o
norte-americano) e da própria humanidade.
O caminho para superar os impasses revelados pela crise mundial do
capitalismo é o da luta enérgica e sem fronteiras contra o sistema
capitalista e imperialista. O socialismo é uma necessidade histórica
candente.

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