sábado, 17 de abril de 2010

Camponeses realizam seminário no Nordeste - A produção nas terras da Revolução Agrária
 Mário Lúcio de Paula   

 

Nos dias 06 e 07 de março de 2010 foi realizado o "I Seminário de Produção da Área Revolucionária José Ricardo", Lagoa dos Gatos/PE.


Após o Corte Popular (divisão da fazenda em lotes, entregues a cada família) na Área Revolucionária1 José Ricardo, concluído em abril do ano passado, se verificou um aumento imediato da produção na área. (ver quadro)
Estimulados pelo progresso obtido — fruto de sua luta e trabalho — os camponeses perceberam que podem avançar ainda mais.

O Programa agrário

Os debates acerca do I Plano de Produção se deram como parte da discussão sobre como fazer avançar mais a Revolução Agrária na Área José Ricardo, através da aplicação dos pilares fundamentais do Programa Agrário e de Defesa dos Direitos do Povo que são:
1 Tomar e cortar todas as terras do latifúndio;

2 Desenvolver as forças produtivas e impulsionar novas relações de produção;

3 Construir nas áreas tomadas os embriões do Novo Poder.

Já tendo cumprido o primeiro ponto com o Corte Popular em 2009, os camponeses concentram agora esforços para desenvolver os passos seguintes.

Quadro de Produção 2009/2010 na área José Ricardo 

Principais Produtos Produção 2009 Meta para Inverno/2010
Macaxeira 63 Toneladas 100 Ton.
Mandioca (brava) 75 Ton. 89 Ton.
Batata 71 Ton. 109 Ton.
Milho 15,2 Ton. + 600 sacos em espiga 36,4 Ton. + 38 sacos em espiga
Feijão 9 Ton. 21,8 Ton.
Alface 28.650 pés 114.600 pés
Coentro 9,6 T + 380 kg de sementes 41 Ton.
Quiabo 78 Ton. 126 Ton.

Os preparativos do Seminário

O Comitê de Defesa da Revolução Agrária — CDRA e a Escola Popular elaboraram um documento preparatório do Seminário, que foi debatido com todos da área e cada família respondeu um "Questionário da Produção 2009/2010", cujos resultados globais seriam apresentados no Seminário. Assim o CDRA pôde debater amplamente as idéias do Plano de Produção. Os debates preparatórios remexeram com a área e várias propostas surgiram, como a possibilidade de organizar a compra de insumos e herbicidas para todos da área de forma centralizada, já que assim os custos reduziriam em até 45%.

A luta pela produção

Participaram do Seminário lideranças das Áreas de Peri-peri e Santa Luzia, além de dezenas de camponeses da área José Ricardo. Professores e estudantes da Universidade Federal de Alagoas, acompanhados de duas estudantes de Serviço Social da Universidade de Valência (Espanha), bem como de Pernambuco, prestigiaram o evento e deram contribuições importantes aos debates.
Na abertura do Seminário, um dirigente da Liga dos Camponeses Pobres do Nordeste destacou os avanços da Revolução Agrária na região, como a recente tomada de um latifúndio no Ceará. O dirigente ainda frisou a luta política travada no seio do movimento camponês após a declarada capitulação da direção do MST, expressa na entrevista de João Pedro Stédile ao jornal Zero Hora/RS quando afirmou que "a ocupação não interessa mais".
— A LCP, erguendo alto a bandeira da revolução agrária conclama todos os camponeses pobres sem terra ou com pouca terra, incluindo as bases combativas que ainda se encontram sob a direção do MST a se lançarem à luta pela completa destruição do latifúndio — convocou.

Romper os grilhões da "reforma agrária"

O agrônomo e professor da UFAL, Cícero Avião, em sua exposição, apresentou uma pesquisa sobre os assentamentos rurais que mostrava dados alarmantes: a maioria deles, após alguns anos da conquista da terra, se encontram abandonados, sem produção próspera, e em vários casos, as famílias que inicialmente lutaram por aquele pedaço de terra já não se encontravam mais nas áreas.
Na pesquisa foram elencados uma série de fatores como causa do fracasso destes assentamentos, entre os quais:
1 - o endividamento das famílias com os créditos oferecidos pelo governo;

2 -  os assentados não recebem apoio técnico adequado;

3
- a falta de organização cooperada das famílias camponesas. Este último foi o fator apontado pelo Prof. Cícero como o principal, já que sem organização coletiva os camponeses se isolam na pequena produção individual e não conseguem superar dificuldades como o baixo desenvolvimento técnico da produção e sua consequente baixa produtividade, a exploração do atravessador, entre outros.
Os argumentos expostos explicam em parte a causa do fracasso da "reforma agrária" de Luiz Inácio e seus antecessores na gerência do Estado burguês-latifundiário, quando os pouquíssimos projetos que saem do papel terminam na ruína para grande parte das famílias camponesas.
O professor Cícero ainda ressaltou a importância do planejamento de cada parcela, da criação de animais, tanto para o consumo e venda, como para a utilização do esterco para fertilização do solo.
A área revolucionária deve preservar a área de mata, importante para não deixar o solo descoberto, protegendo-o das chuvas torrenciais do inverno que causam a erosão do solo e também do forte sol do verão, que pode matar os microorganismos do solo, responsáveis pela decomposição da matéria orgânica. Além disso, essas áreas constituem sempre reserva de alimentos (caça) e madeira, além de ser vital para a preservação da água — destacou o professor.

Desenvolver o trabalho cooperado

No segundo dia o Seminário debateu a importância do trabalho cooperado e a organização dos Grupos de Ajuda Mútua. Fernando Barbosa — integrante do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos — abordou os aspectos ideológicos e políticos do trabalho cooperado.
Se só pensarmos em nós mesmos e em nossos filhos, se quisermos crescer individualmente sem nos importar com os demais companheiros, ou seja, se nos basearmos pelo individualismo, só construiremos novos 'Cordeirinhos' [referência ao coronel Cordeirinho, antigo proprietário da fazenda] . Ao contrário, se queremos uma nova sociedade, devemos cultivar a solidariedade, a ajuda mútua não só na produção, mas em todos os aspectos da vida na área, como a educação das crianças e dos jovens, a construção de obras que beneficiarão a todos, o apoio à outras áreas em luta e conflito com o latifúndio — explicou Fernando .

O camponês encontra novas soluções

— Tenho bichos para dar de comer todos os dias e não tenho filhos para me ajudar, então não posso participar do grupo de ajuda mútua todos os dias, mas sempre que tem algum trabalho coletivo na área gosto de participar — disse sr. Jairo, abrindo o debate.
— Trabalho com horta e neste sol não posso ficar nem um dia sem irrigar porque senão a alface amarela, o coentro murcha... mas no inverno não preciso aguar por causa da chuva, então dá pra entrar num grupo de produção — animou-se sr. João Alves.
O sr. "Ciço", que faz parte do primeiro grupo de ajuda mútua da área José Ricardo, contou sobre o trabalho da semana:
— Foi muito animado e todos trabalharam igual, deu uma animação maior e rendeu bem mais.
Éder, jovem que também está neste grupo, problematizou:
— Foi muito bom e vai dar certo, mas vimos que alternar as áreas cultivadas todos os dias da semana fica difícil, porque demora a voltarmos na primeira parcela de terra trabalhada; estamos vendo como vamos fazer — disse pensativo.
Maria falou:
— Eu estava trabalhando com costura e pensei mesmo só em mim, em ganhar mais, mas aí vi que não ia dar conta de tanto trabalho sozinha. Chamei outras companheiras e formamos um grupo, o trabalho avançou bem mais e foi outra coisa! — relatou animada.

A experiência aprimora o plano

As falas se sucederam e revelaram pontos importantes que ainda não estavam tão claros no documento inicial do CDRA sobre o Plano de Produção. O exemplo de sr. João serviu para demonstrar que nem todos poderão se incorporar em grupos de troca de trabalho no verão, tendo que esperar mesmo pelo inverno. Já o sr. Jairo, que cuida de sua criação, fez ver que a ajuda mútua não é só troca de trabalho, mas também aqueles realizados voluntariamente para melhorias na parcela de algum companheiro (como drenar brejos, ou construir cercas), trabalho que somente uma família não consegue fazer, ou mesmo mutirões para cuidado e melhorias gerais da área. Surgiram a partir deste debate e relatos outras idéias, como a ajuda mútua para a colheita e lavação de batatas, transporte das mercadorias e comercialização.
A presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa dos Gatos, conhecida por todos como "Zefinha", reforçou a defesa da implementação do trabalho cooperado e alertando de que "não será fácil, pois nunca houve em Lagoa dos Gatos um trabalho organizado desta forma, mas, era importante persistir em realizá-lo."

Surgem os primeiros Grupos de Ajuda Mútua

Após o Seminário, três Grupos de Ajuda Mútua (GAM) foram organizados, estes discutiram e definiram a organização do trabalho.
O primeiro grupo definiu que o trabalho coletivo será, de modo geral, de dois dias na semana (um em cada parcela), nos outros dias cada membro poderá avançar o trabalho na sua própria parcela ou trabalhar ‘alugado' para garantir sua alimentação semanal.
Outro grupo definiu os dias (toda 2ª e 6ª feiras) para os trabalhos no Grupo de Ajuda Mútua; o terceiro grupo definiu que antes do inverno só poderão trocar um dia de trabalho na semana, já que a irrigação diária os prende à sua parcela, mas no inverno será possível dedicar mais dias de trabalho mútuo.
Assim, os camponeses assimilaram o conceito geral da ajuda mútua, mais desenvolvido por elas no próprio Seminário, e estão criando à sua maneira, de forma rica e flexível, seus primeiros GAMs. Tais grupos não se configuram como "coletivos" artificiais e impostos aos camponeses, como existe de costume em movimentos oportunistas, mas são formas adequadas à sua condição e necessidade.

Um plano de produção para o inverno2

Terminado o Seminário, o Plano de Produção para o Inverno da AR José Ricardo foi aprovado pela Assembléia do Poder Popular, lançando metas que desafiam todos da área a cumpri-lo, aumentando a produção e impulsionando a Revolução Agrária. Na conclusão do plano será realizado um 2º Seminário, para avaliar os resultados e definir os planos para o verão.

Tom Zé – Jogos de Armar (2000)


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Créditos: UmQueTenha




Para compreender melhor o que significa CD auxiliar leia aqui nesse sitio(http://migre.me/wA7q) e desfrute dessa proposta fantástica e socializadora de Tom Zé...

Duke Ellington - The Great Paris Concert [2CD, 1963]



Live at the Olympia Theatre, Paris


1. Kinda Dukish 1:51
2. Rockin' In Rhythmn 3:47
3. On The Sunny Side Of The Street 3:01
4. The Star-Crossed Lovers 4:13
5. All Of Me 2:35
6. Theme From "The Asphalt Jungle" 4:06
7. Concerto For Cootie 2:35
8. Tutti For Cootie 4:46
9. Suite Thursday: Misfit Blues 3:37
10. Suite Thursday: Schwiphti 2:51
11. Suite Thursday: Zweet Zurzday 3:54
12. Suite Thursday: Lay-By 6:27
13. Perdido 5:21
14. The Eighth Veil 2:36
15. Rose Of Rio Grande 2:41
16. Cop Out 6:56
17. Bula 4:38
18. Jam With Sam 3:57
19. Happy-Go-Lucky Local 3:21
20. Tone Parallel To Harlem 13:59 Album Only
21. Don't Get Around Much Anymore (LP/Studio Version) 2:43
22. Do Nothing Till You Hear From Me (Live) 4:52
23. Black And Tan Fantasy 2:42
24. Creole Love Call 2:07
25. The Mooche 5:38
26. Things Ain't What They Used To Be (Live) 3:10
27. Pyramid 3:40
28. The Blues (From "Black, Brown & Beige") (Live) 3:48
29. Echoes Of Harlem 3:36
30. Satin Doll (Live) 2:39

Movimento dos Sem Mídia(MSM) reage às manipulações do PiG...

Eduardo Guimarães: MSM denunciará crime eleitoral


por Eduardo Guimarães, no Cidadania.com

Faço saber, a quem possa interessar, que o Movimento dos Sem Mídia, organização não-governamental da sociedade civil constituída em 13 de outubro de 2007 em assembléia-geral integrada por 52 sócios fundadores e que conta com 137 filiados, ingressará na Justiça Eleitoral com pedido de investigação dos seguintes fatos:
Em 27 de março deste ano, foi divulgada pesquisa eleitoral do instituto Datafolha que versou sobre a intenção de voto do eleitorado para o cargo de presidente da República. A sondagem apontou diferenças de 9  e de 10 pontos percentuais entre os pré-candidatos José Serra e Dilma Rousseff, em favor do primeiro, nos dois cenários principais apresentados aos pesquisados.
Sete dias depois (em 3 de abril), houve divulgação de pesquisa Vox Populi que revelou  quadro bem  diferente, com diferença de 3 e de 5 pontos, de acordo com o cenário de postulantes ao cargo de presidente, em favor do candidato do PSDB. No mesmo dia, o jornal Folha de São Paulo, proprietário do instituto Datafolha, publica denúncia de que o “tipo de questionário” apresentado pelo instituto concorrente aos pesquisados “é conhecido por distorcer resultados”.
Nos dias seguintes, a diferença dos levantamentos estatísticos e a denúncia da Folha provocaram uma vastidão de matérias na imprensa, com acusações tanto ao Datafolha quanto ao Vox Populi, sendo que as acusações do maior jornal do país tiveram espaço quase exclusivo nos grandes meios de comunicação.
Em 13 de abril, o instituto Sensus divulgou nova pesquisa sobre a sucessão presidencial mostrando quadro diametralmente diferente do apurado pelo instituto Datafolha. Nessa pesquisa, a diferença entre os pré-candidatos Dilma e Serra reduziu-se dos 9 e 10 pontos percentuais detectados pelo Datafolha 10 dias antes, para 0,4 e 2,8 pontos  nos dois respectivos cenários pesquisados.
A Folha de São Paulo, então, produziu acusações ainda mais sérias em sucessivas matérias largamente reproduzidas por toda a grande imprensa e que levaram o PSDB a entrar na Justiça Eleitoral contra o Sensus, requisitando as fichas das entrevistas da pesquisa para análise de especialistas contratados pelo partido. E, no último dia 16, a mesma imprensa e o mesmo partido político denunciaram supostas manobras protelatórias do instituto para fornecer os dados requeridos pela Justiça Eleitoral.
Finalmente, na última sexta-feira (16 de abril de 2010), o site da revista Veja divulgou, antes do jornal dono do instituto Datafolha, pesquisa deste instituto sobre a sucessão presidencial. A pesquisa mostrou resultado gravemente diferente do que foi apurado pelo Sensus e divulgado 3 dias antes. O Datafolha afirma que a diferença em favor de Serra seria, agora, de 10 e 12 pontos percentuais.
Não existe a menor dúvida de que um ou mais de um desses institutos de pesquisa (Datafolha, Sensus ou Vox Populi) cometeu um legítimo crime eleitoral. Existe até denúncia, amplamente comentada na imprensa, nesse mesmo sentido. Esse fato gera intranqüilidade social e tem um poder enorme de influir nos rumos da eleição.
A LEI Nº 9.504, de 30 DE SETEMBRO DE 1997, Art.33, § 4º, reza que “A divulgação de pesquisa fraudulenta constitui crime, punível com detenção de seis meses a um ano e multa no valor de cinqüenta mil a cem mil UFIR”.
Diante destes fatos, informo que o Movimento dos Sem Mídia pedirá à Justiça Eleitoral investigação rigorosa dos fatos supra mencionados em benefício da ordem pública e da segurança da sociedade de que a eleição deste ano transcorrerá sob a égide da democracia e da justiça.

Uma outra alternativa para 2010??

O que está em jogo em 2010
Editorial do Correio da Cidadania 

Lulistas sinceros acreditam que o presidente está realizando um avanço social maior do que o próprio Getulio Vargas. Os que divergem desse ponto de vista não sabem "o que realmente está em jogo em 2010". Portanto, o ponto a discutir com eles diz respeito a esta questão.
 
O fenômeno Lula tem um efeito social real, independentemente do êxito ou do fracasso do seu governo.
 
O caso dele é semelhante ao de Obama. É o fato de um negro ocupar a Casa Branca que tem um efeito não identificável diretamente, mas certamente muito forte, na sociedade norte-americana. Os Estados Unidos não serão os mesmos depois de Obama, independentemente do que vier a acontecer com a sua administração: o povo negro percebeu que "pode".
 
A ascensão de um "pau de arara" à Presidência da República tem o mesmo significado: o povo percebeu que pode chegar lá. Portanto, o Brasil pós-Lula não será o mesmo. Mas o Brasil será esse?
 
Para quem se considera socialista esta não é a pergunta chave para definir o que está realmente em jogo em 2010, e sim esta outra: ao término do governo Lula, o Brasil estará mais próximo ou mais distante da ruptura socialista?
 
Cientes de que a resposta só pode ser negativa, os lulistas levantam a questão do futuro do Brasil mais em termos de ameaça aos que divergem da sua posição do que de esperança de grandes avanços, porque estão cansados de saber que, no pós-Lula, as políticas econômicas não serão muito distintas das atuais, seja eleito qualquer dos candidatos do campo da ordem estabelecida.
 
Fica valendo, portanto, apenas a ameaça: se a esquerda assumir uma postura divisionista, os tucanos vencerão e anularão todas as conquistas proletárias.
 
Ora, todos sabemos que, na medida em que o campo da ordem – hoje preponderante – for se tornando hegemônico, as conquistas da classe operária em épocas passadas irão sendo anuladas uma a uma. Não por outra razão, aliás, a campanha de 2010 está sendo diligentemente montada para atingir dois objetivos: incutir na mente do eleitorado que as coisas estão melhorando e que não há qualquer alternativa ao sistema capitalista.
 
Se a direita lograr atingir esses dois objetivos, a hegemonia neoliberal estará totalmente consolidada. O próprio povo passará a entender que, para poder melhorar de vida, os capitalistas têm que ser atendidos em todas as suas reivindicações. Claro que isto não significará o fim do socialismo porque o socialismo existirá enquanto um homem explorar outro. Mas adiará seu retorno à agenda política do país e isto representará milhões de pessoas esmagadas pela truculência do sistema.
 
Portanto, o que está em jogo em 2010 é a possibilidade (longínqua, mas real) de desarmar essa armadilha por meio de uma denúncia e de uma proposta alternativa que consigam sensibilizar uma parcela significativa do eleitorado.
 
Não façamos ilusões quanto ao tamanho dessa parcela. Não será grande. Porém, se criar uma base para expansão da proposta socialista, já representará um avanço político.
 
Na verdade, trata-se de uma tarefa quase impossível, dada a brutal desproporção entre os recursos dos candidatos do campo da ordem e os candidatos socialistas. Contudo, é a única saída autêntica para quem, perfeitamente a par da extrema debilidade da esquerda, vê na campanha eleitoral uma oportunidade mínima, porém valiosa, de lançar sementes para combater a consolidação da hegemonia burguesa.
 
Não venham, pois, os lulistas com cobranças históricas antecipadas. O que a história responsabilizará, isto sim, serão aqueles que não souberam ler corretamente a conjuntura.
 

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Uma nova ordem mundial...

O BRIC e o desafio de construir uma nova ordem mundial

Reunidos em Brasília nesta quinta-feira (15), os dirigentes dos países que compõem o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) se defrontam com o desafio de debater, propor e começar a construir uma nova ordem econômica e política mundial num cenário ainda marcado pela mais grave crise do capitalismo desde o pós-guerra, o declínio dos EUA e a mudança da correlação de forças da geopolítica internacional, com a emergência de novos protagonistas de peso.


Por Umberto Martins - no sitio vermelho

BRIC é um acrônimo criado em novembro de 2001 pelo economista Jim O´Neill, do banco Goldman Sachs, que reuniu os quatro países por características comuns como a dimensão territorial, a demografia e o potencial de crescimento. O´Neill estimou, na época, que até o final de 2050 o grupo vai se transformar na principal força da economia mundial.

Interesses convergentes

Inicialmente, o conceito não teve grande repercussão, mas o caminho percorrido pela história desde então parece justificar as previsões de O´Neill, enquanto a necessidade de fortalecer os laços econômicos e políticos entre os países do BRIC levou à formação de um bloco político informal, que realiza agora no Brasil a sua segunda reunião.

Brasil, Rússia, Índia e China detêm 26% do território, 42% da população e 14,5% do PIB mundial. Nos últimos cinco anos, contribuíram com mais de 50% da expansão do PIB mundial, de acordo com estatísticas exibidas por acadêmicos no seminário realizado em Brasília 4ª feira (14) pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA).

Os laços econômicos e políticos no interior do BRIC também foram fortalecidos. Um sinal disto, entre outros, é o fato da China ter se transformado, em 2009, na principal parceira comercial do Brasil, desbancando os EUA. As dessemelhanças e assimetrias, assim como a proeminência chinesa, também são notáveis, embora aparentemente não constituam um obstáculo intransponível à unidade política.

Proeminência chinesa

De acordo com informações do pesquisador Zhang Yuyan, da Academia de Ciências chinesa, apresentados no seminário do IPEA, a China, sozinha, responde por 7,1% do PIB mundial e se os países do BRIC realizam 14,5% das exportações mundiais, nada menos que 9,1% são responsabilidade daquela nação asiática, que lidera o ranking das vendas internacionais e vem também ocupando fatia crescente do comércio com Brasil, Rússia e Índia.

Todavia, os interesses comuns são consideráveis e cresceram no rastro da crise mundial. O BRIC sofreu menos os impactos da recessão americana e se recuperou mais rapidamente, puxando a economia internacional para o leito do desenvolvimento. Isto fortaleceu politicamente o “bloco”.

Conforme afirmou o diretor do Instituto de Estudos da Ásia e Pacífico, Li Xiangyang, durante o seminário, enquanto as potências europeias, o Japão e os EUA continuam atolados na crise, com pálidos sinais de recuperação e lidando com assombrosos déficits fiscais, os problemas dos países do BRIC decorrem do crescimento, que alguns consideram excessivo, pressões inflacionárias e fluxo de capitais estrangeiros especulativos.

Ordem mundial caducou

A crise evidenciou o esgotamento da ordem capitalista mundial, herdada do pós-guerra e ancorada na supremacia do dólar, e acentuou a necessidade de uma nova ordem, em harmonia com o desenvolvimento desigual, especialmente da China, e a mudança consequente da correlação de forças no plano econômico.

O que está em foco, de acordo com o ministro de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, é “saber se algumas nações continuarão a se achar superiores e, portanto, com mais direito ou não”. Na mesma linha, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, ponderou que a intenção não é formar uma “aristocracia dos emergentes”, mas dar voz e poder aos mais pobres.

“Essa perspectiva”, observa o presidente do IPEA, Marcio Polchmann, “nos coloca numa posição estratégica para fazer proposições que estejam em sintonia com os desafios mundiais. São problemas comuns, como é o caso do meio ambiente, a mudança do perfil de consumo nos países, a questão monetária e a governança global".

Questão nuclear

“Estamos num processo de rearticulação do sistema político e econômico internacional e, nesse processo ou as regras continuarão a privilegiar alguns países ou teremos uma situação de acordo com a dimensão das nossas sociedades”, salientou Pinheiro Guimarães. Entre os problemas candentes destaca-se os da chamada questão nuclear.

“Precisamos saber quem controlará o processo nuclear”, disse o ministro de Assuntos Estratégicos. “No fundo há uma disputa tecnológica e científica entre países”. A tentativa das potências ocidentais de impedir o desenvolvimento da tecnologia nuclear no Irã, Coreia do Norte e outros países reflete isto.

O Brasil adotou uma posição firme a este respeito, apesar da pressão dos EUA, rejeitando sanções contra o país persa e pregando o diálogo e, a julgar pelo ministro Celso Amorim, a posição do Brasil se aproxima da que é defendida hoje pela China, apesar da mídia americana ter divulgado a falsa versão de que os dirigentes chineses estão afinados com a tática do imperialismo americano, de impor novas sanções aos iranianos.

Substituição do dólar

Outro dilema avaliado pelo BRIC é de um novo Sistema Monetário Internacional (SMI), que passa pela substituição do padrão dólar como moeda internacional. Isto não vai ser resolvido a curto prazo, mas iniciativas embrionárias neste sentido como a diversificação das reservas (ainda atreladas ao dólar) e experiências de trocas comerciais com moedas locais na América Latina e na Ásia.

“O atual sistema monetário internacional é desfavorável aos países em desenvolvimento”, comentou Li Yang, que também defendeu mudanças no FMI e, segundo o jornal Valor (15-4), foi apoiado por Marcio Polchmann, que preconizou uma aliança entre os países do BRIC para “um novo padrão de consumo e produção”. O Brasil e a Rússia também estão defendendo transações comerciais entre os países do grupo com base nas moedas próprias, descartando o dólar.

Ao lado da reunião do BRIC, Brasília também foi palco de uma outra importante reunião, a 4ª Cúpula dos Chefes de Estado e de Governo do IBAS (grupo composto por Índia, Brasil e África do Sul), cujo documento final (Declaração de Brasília) defende uma reforma urgente da ONU e a conclusão da Rodada Doha no âmbito da Organização Mundial do Comércio.

As duas reuniões (do BRIC e do IBAS) apontam a mesma necessidade de uma reformulação urgente e ampla da ordem econômica e política internacional, que ficou ainda mais caduca após o estouro da crise mundial do capitalismo nos EUA.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A luta esta começando.....

Debate em SP: a internet pode enfrentar o PIG?


 De Nelson Canesin, do Sindicato dos Bancários de São Paulo:
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Em 2010 o PIG (Partido da Imprensa Golpista) vai jogar mais sujo ainda para tentar fazer valer seus interesses e eleger o presidente do interesse deles.
No fórum “Democracia e Liberdade de Expressão”, os perdigueiros do PIG mostraram seus dentes e afirmaram com todas as letras que farão campanha para José Serra e que “ouvir o outro lado da notícia é besteira”.
Maria Judith Brito, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) confirmou que a entidade faz papel de oposição ao governo e com isso PIG ganhou um novo apelido na blogosfera: “Partido da Dona Judith”. 
O  Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região vem manifestando seu compromisso com a necessidade de se articular meios alternativos de comunicação para se contrapor ao poder de uma dezena de famílias que controlam a quase totalidade da mídia brasileira, transformando a informação em negócio e de defesa de seus interesses. 
A internet é ainda um grande espaço democrático de disputa de idéias e os blogueiros vem construindo uma alternativa ao poder do PIG.
Para debater esse tema, o Sindicato realiza nesta quinta-feira (15/04), em comemoração aos 87 anos de sua fundação, um debate entre os blogueiros Rodrigo Vianna (site Escrivinhador), Eduardo Guimarães (blog Cidadania.com) e Luiz Cláudio Marcolino, presidente do Sindicato.
O debate será transmitido on-line via webtv pelo site do Sindicato dos bancários www.spbancarios.com.br pelo site do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC www.smabc.org.br pelo site da Confederação Nacional dos Metalúrgicos www.cnmcut.org.br e pela Rede Brasil Atual www.redebrasilatual.com.br

Tema:  O Papel da Internet na Democratização da Informação
Local:  Sindicato dos Bancários - Rua São Bento, 413 - auditório azul - Centro - São Paulo/SP
Dia: 15 de abril (quinta-feira)
horário:  pontualmente às 19 horas

A Igreja Católica e a Pedofilia...até quando a impunidade?


Vítimas de pedofilia contam rotina de medo sob o rigor da Igreja na Irlanda

Ernani Lemos e Juliana Yonezawa | Dublin

Ex-internos de instituições dirigidas por padres e freiras católicos nos anos 1940 e 1950 na Irlanda dizem ainda ter pesadelos com os abusos sofridos e prometem lutar pela punição dos culpados, mesmo décadas depois
“A Irlanda deveria se envergonhar para sempre por permitir que tal barbaridade acontecesse a qualquer ser humano. Eu amo meu país e nunca vou deixar de amar. Eu sou católico e continuarei sendo. Independentemente de ir ou não à igreja. Mas eu jamais vou perdoar as pessoas que fizeram aquelas atrocidades comigo e com meus irmãos”, diz Michael O’Brien.

“A única forma que eu tenho de descrever aquelas instituições é dizer que são piores do que prisões e similares aos campos de concentração da Alemanha. A rotina era rigorosa e muito dura. Nós passamos fome e sofremos de malnutrição. Eles deveriam nos preparar para a vida, nos educar e ensinar uma profissão. Em vez disso, só nos infligiram punições e o dogma religioso”, conta Christopher Heaphy.

As palavras ásperas e carregadas de rancor são de dois auto-intitulados “sobreviventes” dos abusos sexuais e da violência praticados contra crianças por membros da Igreja Católica na Irlanda. Sentados na poltrona de um hotel em Dublin, O’Brien e Heaphy contam ao Opera Mundi, em detalhes, o horror que passaram em instituições infantis dirigidas por religiosos nas décadas de 1940 e 1950.


Christopher Heaphy (à esquerda) e Michael O’Brien (à direita), foram vítimas de abusos em escolas católicas

“Eles não nos tratavam como crianças, nem mesmo como seres humanos. Nós éramos tratados como animais”, desabafa O’Brien. Aos 77 anos de idade, o irlandês de Tipperary dedica a vida à luta pelos direitos das vítimas dos abusos. Em 1999, ele criou a associação Right for Peace – uma organização de pessoas que viveram situações semelhantes nos abrigos infantis, orfanatos e reformatórios católicos da Irlanda. O’Brien foi parar em uma dessas instituições em 1941, quando tinha 8 anos, logo após a morte da mãe. Ele e os sete irmãos foram tirados do pai e colocados em diferentes internatos. “Eu fui abusado desde o instante em que entrei naquele lugar. Sexualmente, fisicamente, mentalmente e verbalmente. Todos os dias, sem nenhuma razão. E não foram apenas os castigos e os abusos. Eles tiraram de nós as nossas famílias. Isso é imperdoável. O crime contra uma criança inocente é o pior crime que alguém pode cometer”, relata.

Michael O’Brien era semi-analfabeto quando deixou a Escola Industrial São José (St Joseph’s Industrial School), aos 16 anos. “Após oito anos de internato, minha mentalidade era a de uma criança. Eu não sabia nada sobre o mundo. Não sabia o que era mulher ou dinheiro. Não imaginava que poderia comprar coisas. Não estava pronto para a vida, porque eles não faziam o que deveriam fazer, que era nos educar”. Mesmo com tantas lembranças ruins, o ex-interno se considera um dos sortudos. Ele serviu ao exército e aprendeu a ler sozinho, usando livros que encontrava nos quartéis e alojamentos. Mais tarde, trabalhou como funcionário público, virou político e conseguiu ser eleito prefeito da cidade de Clonmel, onde nasceu. O’Brien casou-se há 55 anos, tem quatro filhos, 11 netos e seis bisnetos. Mesmo com uma vida aparentemente bem estruturada, ele diz que não se sente uma pessoa normal e que não consegue passar um único dia sequer sem se lembrar dos maus tratos da infância. “Vou fazê-los pagar enquanto eu viver, não perdoando. Vou lutar para que haja reparação até o dia em que eu morrer. Lutar para que não aconteça de novo. Nunca serei feliz enquanto não houver justiça”, promete.

Christopher Heaphy, de 65 anos, líder da associação Right of Place, também se dedica em tempo integral a buscar punição para os culpados e reparação às vítimas dos abusos. Ele perdeu a mãe quando tinha 5 anos de idade e foi enviado para a Escola Industrial Greenmount em Cork, sul da Irlanda. “O governo poderia ter ajudado meu pai a cuidar de mim e dos meus dois irmãos. Em vez disso, eles nos arrancaram de casa e nos trancaram em instituições”, desabafa.


Christopher Heaphy tinha pesadelos com as lembranças de infância marcada por abusos de padres

Enquanto conta sobre o passado, com a voz calma e delicada, Cristopher se emociona com os momentos que marcaram a vida dele: “Vivíamos sob terror e medo todos os dias. Eu me reprimi. Saí de lá e não falava. Mal lia ou escrevia. Estava sempre amedrontado. Precisei superar muitas dificuldades na vida. Nunca contei à minha esposa sobre os abusos. Ela não entendia por que eu dava pulos e chutes na cama durante a noite. A verdade é que eu ainda tinha a impressão de que aqueles homens vinham colocar a mão debaixo das minhas cobertas para me molestar enquanto eu dormia”.

Hoje, o irlandês tem três filhos e foi abandonado pela primeira esposa por causa do comportamento estranho que tinha em casa. “Agradeço por ela ter ido embora e levado as crianças. Eu era um estranho para eles. Na época, eu não podia dar o amor que eles precisavam. O triste é saber que hoje, depois de quase 30 anos, eu mal conheço meus filhos. Não pude vivenciar a alegria de vê-los crescendo”.

Heaphy se formou em engenharia aos 58 anos de idade, mas se acha muito velho para trabalhar na área. Para ele, são três os principais culpados pelos abusos cometidos contra as crianças: o governo, por fracassar em proteger os cidadãos; a Igreja, por ter protegido os sacerdotes; e os próprios religiosos que dirigiam as instituições infantis. “Eles cometeram os crimes contra nós. Os crimes foram denunciados na época, mas a Igreja só protegeu a si mesma. Não protegeu as crianças. E, agora, todos deveriam enfrentar as implicações legais dos direitos civis que quebraram”, defende o ex-interno. O governo irlandês indenizou os “sobreviventes” com uma reparação média de 63 mil euros. A Igreja não pagou nada.

Instituições

As escolas industriais na Irlanda foram instituições para onde eram levadas crianças sem pais ou das quais os parentes não tinham condições de cuidar. As entidades eram dirigidas por ordens religiosas da Igreja Católica e recebiam ajuda financeira do governo para dar educação e ensinar uma profissão aos menores. Mas, na prática, segundo relatos dos ex-internos, pouco se ensinava nas salas de aula. O Estado era responsável pelas escolas, mas, de acordo com as associações de sobreviventes, os Ministérios da Educação, da Saúde e da Justiça jamais fiscalizaram as condições de ensino, de higiene ou de comportamento nos locais. O governo irlandês admitiu as falhas recentemente, ao indenizar as vítimas dos maus tratos.

Desde 1930, milhares de crianças passaram pelas cerca de 250 escolas industriais da Irlanda. O contato com a família era perdido, já que a visita dos parentes era desencorajada. Os internos só eram liberados ao completar 16 anos. Cristopher Heaphy foi uma exceção. Aos 12 anos, o garoto foi espancado por um religioso e, durante uma rara visita, conseguiu mostrar ao pai as cicatrizes e machucados. O pai o levou à Justiça e o então ministro Jack Lynch assinou uma ordem liberando o garoto da instituição. A escola foi fechada três anos depois. Mais tarde, Lynch se tornou primeiro-ministro da Irlanda, mas pouco fez para mudar o que acontecia dentro dos muros de várias outras entidades para crianças.

Ao falar sobre as escolas industriais, tanto Heaphy quanto O’Brien se referem ao “tempo em que servimos naqueles lugares”. Para ambos, foi uma época de puro sofrimento, sem nenhuma boa lembrança.

“Eu nunca tive um julgamento, nunca fui legalmente representado. E acabei tirado do conforto da minha casa e jogado naquele lugar, como se fosse um assassino. Já as pessoas que me violentaram nunca foram punidas nem levadas ao tribunal”, lamenta O’Brien. “O crime era tão horrível que ninguém acreditava. Era desumano. Animalesco. E nós não podíamos fazer nada, a não ser esperar pela próxima pessoa a nos chamar para cometer a mesma violência de novo. Eu espero que você nunca testemunhe algo semelhante ao que eu passei”, completa.

As escolas industriais foram fechadas nos anos 1990 e substituídas por escolas para menores delinquentes. Atualmente, há apenas cinco em funcionamento em todo o pais. Os crimes dos quais membros da Igreja Católica são acusados de cometer contra crianças durante mais de 60 anos teriam acontecido também em orfanatos, reformatórios e em sacristias de igrejas. Ordens religiosas como os Christian Brothers (Irmãos Cristãos) chefiavam muitos desses locais.

Segundo investigações, meninas irlandesas teriam sofrido menos abusos sexuais. Mas eram frequentemente molestadas moralmente, humilhadas e espancadas em instituições dirigidas por freiras, como as da ordem Sisters of Mercy (Irmãs da Piedade). Há também relatos de trabalhos forçados em instituições femininas, como os Magdalene Asylums (Orfanatos de Madalena). As entidades que abrigavam mulheres consideradas socialmente degradadas ficaram famosas em outros países quando foram retratadas no cinema em 2002 no filme Em Nome de Deus (The Magdalene Sisters), de Peter Mullan. O último abrigo da irmandade em Dublin foi fechado em 1996.

Religião

Antigamente, na Irlanda, havia uma tradição forte quanto à profissão dos homens: qualquer um que decidisse ser médico ou padre teria o futuro garantido. Quando um filho decidia ser sacerdote, a família não precisava mais se preocupar. Ele teria a melhor educação, as melhores roupas, uma boa moradia e tudo mais de que precisasse. Cristopher Heaphy aponta isso como um dos fatores que podem ter levado a tantos abusos por membros da Igreja. “Esses homens foram supervalorizados. Nós os colocamos em pedestais onde eles jamais deveriam estar. Por isso, eles se sentiam superiores e com direito de fazer tudo o que achassem certo”, comenta.

Entretanto, o engenheiro não perdeu a religiosidade. “Eu acredito em Deus. A Igreja é uma instituição gerenciada por homens. Quem cometeu os crimes são pessoas e elas devem responder por isso. Mas eu ainda vou à missa. Minha relação com Deus é direta, cara a cara. Não há um padre entre nós”.

A postura de Michael O’Brien é semelhante. “Eu não vou à igreja. Mas sempre serei católico por um único motivo: minha mãe me batizou na igreja católica. E isso eu devo a ela”, explica. “Mas não tenho motivos para ir à igreja. Muitos padres iam à minha casa conversar e beber uísque quando eu era prefeito. Depois que eu deixei o cargo e resolvi contar sobre os abusos, eles fingem que não me conhecem”, lamenta.

Sofrimento como rotina

De acordo com os relatos, nas escolas industriais as crianças eram acordadas às 6h. Mesmo no inverno, elas usavam roupas curtas e, por vezes, não tinham sapatos. Antes da missa das 7h, todos tinham de tomar café da manhã: um pedaço de pão mergulhado num galão que misturava água e geleia. Em seguida, todos deveriam estudar até a hora do almoço. Na prática, crianças amedrontadas eram obrigadas a ficar sentadas em suas mesas por horas, sem falar e sem aprender nada. Se alguém era questionado e desse a resposta errada, tinha que ir à frente da sala, tirar a roupa e apanhar do ‘professor’ diante de todos os colegas. No meio da ‘aula’, alguns padres apareciam para tirar vários alunos das classes. Os menores eram levados para o campo, onde trabalhavam recolhendo pedras, batatas e outros vegetais.

“Não bastava trabalhar e obedecer. Os castigos eram severos e sem motivo. Nós éramos atirados em uma banheira de água fria. Depois tínhamos que tirar a roupa e subir uma escada, enquanto um adulto nos batia com uma vara. Não havia razão para aquilo. Eles eram sádicos”, diz Heaphy. O’Brien completa: “Nós éramos tirados da cama no meio da noite para apanhar com a vara. Eles batiam em qualquer parte do corpo. Por quê? Eu acho que aquilo dava a eles satisfação sexual”.

Ao chegar às escolas industriais, os garotos tinham o cabelo raspado e ganhavam um número. Os nomes eram esquecidos e aquela era a nova identidade deles. “O espancamento não era suficiente, eles queriam nos humilhar. Os padres nos chutavam enquanto andávamos pelos corredores e diziam que não éramos ninguém, que nunca seríamos nada. Aquilo era um abuso mental. Nós tínhamos medo o tempo todo”, lembra o engenheiro.

“Havia o abuso mental, o abuso psicológico, o abuso físico... mas nada se compara ao abuso sexual. Sujo, nojento, asqueroso. Um homem me violentou brutalmente no meu primeiro dia naquele lugar e depois me bateu, dizendo que eu era culpado pelo que tinha acontecido, que eu era o diabo trazendo tentação. O pior foi ver o mesmo homem me dar a comunhão na missa da próxima manhã. Depois de me estuprar, ele colocou a hóstia em minha boca”, desabafa o ex-prefeito.

Heaphy conta que viveu situações semelhantes: “Em um instante eu tinha o padre me ensinando religião. No próximo minuto, ele estava arrancando as minhas roupas e estuprando meu pequeno corpo inocente. Isso causou problemas psicológicos que me perseguem durante toda a vida”.

Quando confrontadas com evidencias de abuso sexual, as autoridades transferiam as crianças para outras instituições, onde elas poderiam ser abusadas novamente.

Suicídio

As lembranças e os pesadelos que perseguem as vítimas dos abusos muitas vezes conseguem acabar com a vida dessas pessoas. O’Brien confessa ter tentado se matar uma vez. “Eu voltava dirigindo de Dublin para Clonmel e quis destruir o carro para acabar de vez com o sofrimento. Estava completamente desesperado, me sentindo como um pedaço de sujeira. Só não terminei com a dor naquele momento porque minha mulher estava ao meu lado e me convenceu a não fazer aquela besteira”, relata.

Heaphy foi mais longe. Aos 29 anos, passou por um momento de desespero e cortou as veias sanguíneas do braço. A hemorragia não foi suficiente para matá-lo. “Eu fiz isso por causa dos crimes psicológicos. Eu continuo indo ao analista a cada duas semanas até hoje, mas nunca vou me livrar disso. Às vezes eu paro e penso que esse não é um corpo para estar dentro. Em um momento eu estou alegre e, no instante seguinte, algo me lembra o que aconteceu e a vida perde o sentido”.

Outros ex-internos não tiveram a mesma sorte. Por questões de privacidade, as associações de vítimas trabalham para manter em sigilo as identidades, mas sabe-se que muitos chegaram a cometer suicídio após anos de tormento.

Escândalo

Os casos de violência contra internos das escolas industriais ficaram amplamente conhecidos em maio de 2009, quando o juiz Sean Ryan divulgou um relatório de 2600 páginas contendo o resultado de nove anos de trabalho da Comissão de Investigação de Abuso Infantil na Irlanda. A Comissão ouviu o testemunho de mais de 250 ex-internos e oficiais dessas instituições. O documento afirma que durante 60 anos, da década de 30 até o fechamento das escolas nos anos 90, mais de 2 mil meninos e meninas foram espancados, violentados e humilhados por padres e freiras. Irlandeses que atualmente vivem em países como Austrália e Estados Unidos voltaram para casa para contar sobre a infância de terror e intimidação. O relatório classifica como ‘endemia’ a rotina de estupro e molestação nas entidades gerenciadas pela igreja católica. Representantes da igreja conseguiram adiar a divulgação do texto por várias vezes e garantiram o direito de anonimato das pessoas citadas no documento como culpadas pelos abusos, mesmo em casos de indivíduos julgados e condenados por ataques físicos e sexuais contra crianças. A manobra revoltou as vítimas. “Eu lutei 10 anos da minha vida para tudo isso vir à tona. Eu fiquei exposto e expus minha família. E agora ninguém será punido. É muito triste”, lamenta Michael O’Brien.

Igreja

A proporção do caso preocupou as lideranças da igreja católica. No começo desse ano, bispos irlandeses foram chamados ao Vaticano para explicar como estavam lidando com a questão da violência infantil. Em 19 de março, o Papa divulgou uma carta dirigida aos católicos da Irlanda. No texto, Bento XVI se diz profundamente perturbado com as informações sobre o abuso sofrido pelas crianças. O chefe da Igreja pede desculpas pelo que ele chama de “traição, pecado e atos criminosos”. O conteúdo da carta, no entanto, não foi tão bem recebido pelos irlandeses. “Nós aceitamos as desculpas do Papa. Isso não é um problema. Acontece que a maior parte da carta foi nada mais do que uma demonstração de solidariedade aos bispos, cardeais e padres que falharam com o país. O texto foi dirigido a eles, para mantê-los dentro da igreja”, comenta Heaphy. O’Brien tem opinião parecida: “A carta trouxe uma desculpa que me deixou feliz. Mas o principal ponto do documento é a própria Igreja. É pedir aos bispos para unir a igreja, para salvar a instituição. Não há nenhuma preocupação em salvar as pessoas abusadas pelos membros da Igreja”.

Ainda no mês de março, o cardeal primaz da Irlanda pediu perdão por ocultar os casos de abuso sexual no clero. Sean Brady se disse envergonhado por não ter defendido valores que prega para os fiéis. Ele admitiu que, em 1975, pediu a vítimas da violência que mantivessem silêncio. As associações de ex-internos ficaram revoltadas e começaram um movimento pela renúncia do Arcebispo. Em 31 de março, Brady se reuniu com líderes das vítimas e prometeu uma investigação nacional sobre todas as denúncias. O representante máximo da igreja católica na Irlanda afirmou, no entanto, que só renuncia se o Papa pedir. A decisão do cardeal é aguardada para o fim de maio.

*Texto e fotos.

A UDR ataca...todo cuidado é pouco...

A imagem do MST segundo a CNA

Jeansley Lima

Logo depois da aprovação do requerimento de abertura de uma nova CPMI no Congresso Nacional contra o MST, a Confederação Nacional de Agricultura (CNA) encomendou uma pesquisa ao Ibope, que ouviu 2002 pessoas de todas as regiões do país, entre os dias 12 a 16 de novembro de 2009. Para criar um novo fato político para tentar desmoralizar o MST, a pesquisa CNA/Ibope contou com a habitual complacência das principais emissoras de TV e dos grandes jornais impressos para sua divulgação. O destaque foi que 60% dos brasileiros desaprovam o MST.
 
A pesquisa aponta dados que sequer foram divulgados. Somente 20% dos entrevistados afirmaram conhecer bem o MST, enquanto 73% declararam conhecer pouco. Não se sabe ao certo a definição do que é “conhecer bem o MST”, contudo, podemos fazer algumas suposições. A primeira é que os entrevistados de algum modo já tiveram em algum assentamento/acampamento do MST, conhecem o seu funcionamento e as experiências de produção agrícola, ou os processos educativos e culturais desenvolvidos. Com isso, teriam elementos para opinar a respeito. Outra hipótese – e a mais provável - é que os entrevistados acompanham a cobertura da mídia, especialmente da televisão, sobre o MST e, portanto, estão seguros do que afirmam sobre o assunto.
 
Dessa maneira, levando em conta o modo como a mídia cobre os conflitos agrários, a luta do MST e sua relação com o governo e a sociedade é plausível entender o motivo por que 53% dos entrevistados associam o MST à violência. Afinal, não seria por só verem o movimento representado dessa maneira na TV?
 
A velhinha de Taubaté já seria capaz de prever os resultados de uma pesquisa encomendada pela senadora Kátia Abreu (DEM/TO), postulante a líder dos ruralistas no Congresso Nacional, a respeito do MST. E esta não é apenas uma dedução simplista. O caráter panfletário e manipulador da pesquisa são expostos em algumas questões, que revelam as suas verdadeiras intenções.
 
Vejamos, por exemplo, a pergunta se o entrevistado concorda ou discorda que “quem já possui propriedade hoje tem o direito de escolher se quer ou não produzir nela”, ou se o mesmo está de acordo com a seguinte frase: “o que lhe pertence ninguém pode tomar”. Como a grande maioria dos entrevistados concordou com tais assertivas, 77% e 87% respectivamente, a CNA pretende reiterar que a ocupação de terra é um crime - por entender que a propriedade, para todos os efeitos, é inviolável - e que a população recrimina essa ação, por isso o MST deve ser investigado e para isso conta com o suposto suporte popular.
 
 Além de tratar questões políticas e sociais com uma perspectiva dissimulada, a pesquisa pretende tentar legitimar a violência dos proprietários rurais para defenderem suas terras. Nesse ponto, a pretensão ruralista deu com os burros n’água. Cerca de 60% dos entrevistados não concordam que os proprietários rurais utilizem dos seus meios para evitar as ocupações (ou seja, repudiam jagunços e grupos armados). Somente 4% concordam que os ruralistas devem usar dos seus próprios recursos para garantir a reintegração da terra.
 
 
 
A maioria acredita que a solução da questão está a cargo do governo e da justiça. Para quem historicamente se dispõe da arbitrariedade e da violência para tratar as questões sociais, os contratantes da pesquisa devem ter ficado desapontados com o resultado.
 
Na pesquisa, há mais uma tentativa desesperada dos ruralistas de relacionar o governo Lula ao MST, insinuando que as ocupações de terra são financiadas com recursos públicos. Porém, 35% dos entrevistados acreditam que o governo federal é desfavorável ao MST, dado superado apenas pela mídia, 40%, e o Congresso Nacional, 41%.
 
 Assim, os dados indicam que a população não acredita na tese defendida pelos ruralistas, que deseja que o governo federal e a sociedade sejam contrários ao MST tanto quanto a eles. No que se refere à ocupação das terras, mesmo que sejam latifúndios improdutivos, terras griladas, ou propriedades que desenvolvem atividades ilegais, como o trabalho escravo, 68% dos entrevistados discordam desse tipo de ação do MST.
 
 Embora 29% afirmam que a finalidade desta ação seja para assentar as famílias que estão acampadas, enquanto 66% acreditam que serve para pressionar o governo para fazer a reforma agrária. Os ruralistas tentam convencer a população que a ocupação é um crime. Por isso, devem ser combatidas com rigor, a ponto de utilizar deste argumento para a todo custo aprovar um projeto de lei que torna a ocupação de terra um crime hediondo, como o seqüestro, latrocínio e o tráfico de drogas.
 
E para deleite da Kátia Abreu, Ronaldo Caiado e quejandos, a pesquisa alcançou a auge esperado no seguinte item: 82% dos entrevistados afirmaram ser a favor da CPMI e 11% contra. Nesse sentido, os ruralistas entendem que a população reprova o MST e concorda que todas as tentativas de investigação, pois se trata de um movimento criminoso.
 
A pesquisa também pondera ao seu público sobre os objetivos do MST, que segundo o Ibope são três: a luta pela terra; a distribuição de renda e a busca por uma sociedade mais justa e igualitária. Em termos gerais, a CNA gostaria de saber se o seu discurso conservador e contra os pobres tinha ressonância na sociedade, ou se a causa do MST era vista popularmente como justa. E 88% dos entrevistados concordam com os objetivos descritos, apesar de 57% desconfiarem que o MST esteja lutando para tais fins. Enquanto 58% acham que o MST é legítimo porque são trabalhadores querendo terra para trabalhar e morar, mas que não têm condições de pagar por ela.
 
Assim, os ruralistas se defrontam com a legitimidade da reforma agrária na sociedade e que a maioria da população considera justa a sua causa. Daí se justifica a incessante tentativa de usarem o artifício de criminalizar os movimentos sociais e suas lideranças, julgando-os incapazes para atingir tal fim. Apesar de utilizar variados instrumentos para tentar impedir o avanço da reforma agrária, a bancada ruralista não conseguiu o argumento necessário para inviabilizar um projeto social que conceba uma sociedade mais justa e igual e não conta com o apoio da população brasileira.
 
- Jeansley Lima, 32 anos, é mestre em História Social pela Universidade de Brasília.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Incra critica ação ilegal de ruralistas em Bagé



A Superintendência Regional do Incra no RS divulgou nota oficial criticando a situação de conflito criada em Bagé por proprietários rurais que impediram, ontem, que funcionários do instituto ingressassem na área da comunidade quilombola das Palmas, em processo de regularização. A nota relata o ocorrido e lamenta a ação dos ruralistas:
A Superintendência Regional do Incra RS vem a público lamentar a situação de conflito criada em Bagé por proprietários rurais. Hoje (13) pela manhã, técnicos do Incra estiveram a campo iniciando o levantamento fundiário necessário ao Relatório Técnico de Identificação e Delimitação do território da comunidade quilombola das Palmas. Um grupo de ruralistas cercou a equipe e não permitiu a realização do trabalho, dentro da área do próprio quilombo, em atitude totalmente ilegal e incompreensível.
Os servidores registraram queixa, e o Incra/RS está tomando providências para a realização do levantamento em segurança.
Cabe ressaltar que a atitude desmedida deste grupo depõe contra os avanços que o estado têm registrado nas políticas de reconhecimento dos direitos das comunidades remanescentes de quilombo. São do RS as duas primeiras comunidades quilombolas urbanas tituladas no país, no resgate de uma dívida histórica que o Estado brasileiro tem com o povo negro. Um avanço na cidadania, nos direitos humanos.
Em Bagé, a comunidade das Palmas habita a região há 200 anos. Em 2005, abriu processo no Incra para a regularização do seu território. Já possui laudo sócio-histórico-antropológico feito por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e o Incra/RS precisa iniciar os demais estudos necessários para definir o território a ser titulado em nome da comunidade.
Todo o processo é realizado de maneira pública, com muita tranqüilidade, seguindo a legislação competente, com acompanhamento do Ministério Público Federal. Uma vez publicado o RTID, há garantia de prazo de contestação por quem quer que se sinta prejudicado. Proprietários de áreas que devam ser desapropriadas são indenizados, a preço de mercado, conforme os termos legais.
Por tudo isto, é lamentável a atitude de um grupo como este em Bagé, que não buscou o diálogo, e sim o confronto. Só podemos entender que esta seja, terrivelmente para os gaúchos, a manifestação explícita de um racismo que tanto castiga o povo negro em nosso país, e que nos envergonha. Os quilombolas vizinhos, na visão destes proprietários, não têm o direito de registrar a sua própria terra.
Lamentamos esta atitude. Mas seguiremos o curso da história e da lei, e o município de Bagé poderá se orgulhar de ter resgatado a cidadania de seus quilombolas, quando a comunidade das Palmas estiver de posse de seu título, depois de séculos de espera.