terça-feira, 22 de novembro de 2011

'Governo poderia ser um pouco mais ousado na crise', diz Pochmann

Em entrevista à Carta Maior, presidente do Ipea, Marcio Pochmann, defende que país use fundo soberano para comprar ações de multinacionais e que, para salvar PIB, Banco Central acelere corte do juro. Para ele, economias ricas tornaram-se 'ocas' e, com piora da situação global, arrocho fiscal ficou exagerado e deveria diminuir. Juro real no Brasil deveria ser de 2%, afirma.


BRASÍLIA – Marcio Pochmann tem a voz mansa, baixa e o costume de abotoar a camisa social no pescoço sem usar gravata que fazem pensar que se está diante de um padre. Há quatro de seus 49 anos à frente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o gaúcho é uma hipótese na cabeça do autor de sua nomeação, o ex-presidente Lula, para disputar a prefeitura de Campinas, onde se doutorou em Ciência Econômica em 1993.

Em 18 anos de doutor, Pochmann viu o apogeu do neoliberalismo liderado pelo sistema financeiro e, hoje, assiste à (palavra dele) decadência do mundo rico. Pela primeira vez desde a crise de 1929, quem puxa a economia global são os países em desenvolvimento. O Brasil está na nova locomotiva. Mas, diz Pochmann, deveria ser mais ousado, para encurtar mais a mais depressa a diferença que separa o país do velho “primeiro mundo”.

Por que não aproveita que algumas ações em bolsas mundo afora custam pouco e vira acionista de multinacionais? Participar da tomada de decisões que repercurtem no país é sempre benéfico. Por que não acelera o corte da taxa de juro do Banco Central e reduz o pagamento de juros da dívida pública? Se protegeria melhor dos efeitos de um cenário externo para lá de desalentador.

Nesta entrevista à Carta Maior, além de defender ousadia, Pochmann diz que há uma disputa no governo sobre o tipo de crescimento do país (primário exportador versus tecnológico-industrial), analisa a mudança geográfica no dinamismo econômico global, defende juro real de 2%, faz um balanço do primeiro ano de Dilma Rousseff e aponta os principais desafios do país para 2012. A seguir, a íntegra da entrevista.

Um estudo recente do Ipea diz que desde a crise de 2008 os países em desenvolvimento contribuem mais para o crescimento mundial do que os ricos. Essa é uma situação que veio para ficar ou tem prazo de validade?

Marcio Pochmann: A economia europeia, os Estados Unidos e mesmo o Japão estão se transformando cada vez mais em economias ocas, devido ao deslocamento do seu setor produtivo para outras áreas geográficas do mundo, especialmente a Ásia. É a primeira vez, desde a crise de 1929, que o dinamismo econômico vem sendo protagonizado por países não desenvolvidos. As medidas tomadas pelos países ricos em 2008 foram muito importantes para evitar uma depressão e resolveram, de certa forma, a solvabilidade do setor financeiro. Mas não foram suficientes para dinamizar a economia porque o setor produtivo estava muito comprometido. O que não se verificou nos BRICS [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul]. Brasil, China e a Índia tomaram medidas que fortaleceram o mercado interno e saíram muito mais fortes. E não tenho dúvida de que continuarão se fortalecendo. A não ser que tenhamos um conflito. Historicamente, o deslocamento do centro dinâmico sempre foi acompanhado ou sucedido de conflitos armados. Até quando Estados Unidos e Europa aceitarão tranquilamente seu esvaziamento econômico, o crescimento do desemprego, a desigualdade de renda?

O senhor acredita em hipótese real de o mundo passar por uma guerra?


Pochmann: Espero que não. Os países desenvolvidos estão diante da seguinte escolha: a decadência ou o declínio. Decadência é a desorganização, a ruptura política. Um dos sinais de decadência é o que ocorreu recentemente nos Estados Unidos na disputa política dos pela ampliação do limite de endividamento. O governo Obama tinha sido autorizado três vezes e de repente não foi. Isso é um constrangimento inimaginável. Decadência é a incapacidade de construir maiorias políticas. É o que estamos vendo na Europa. Crise política aberta, quase uma volta ao colonialismo, a impossibilidade de ter decisões nacionais. A Grécia foi fortemente afetada pelos países da União Europeia porque quis se submeter ao vaticínio popular. Declínio seria aceitar que o padrão de vida do país não vai mais crescer como vinha crescendo. E essa acomodação pode ser feita em termos civilizados. Claro que a decadência dos países ricos contamina os BRICS também, mas o cenário que está aberto para nós não é de decadência nem de declínio, é de crescimento. Não sabemos, no caso brasileiro, para aonde vai esse crescimento. Eu costumo lembrar que o crescimento é possível no vaco ou na fama [dois acrônimos que o entrevistado explicará]. Fama é muita fazenda, muita mineração, muita maquiladora, quer dizer, o Brasil vai crescer como cresceu nos quatro séculos passados, como produtor e exportador de produtos primários.

O senhor acha que o Brasil hoje sofre esse problema? Há uma qualidade insuficiente do crescimento? Cresce errado?

Pochmann: Já te respondo. A outra alternativa é o Brasil do vaco, do valor agregado e do conhecimento. Acredito que a novidade do Brasil nessa primeira década do século XXI é a construção de maioria política que tem clareza que o país não pode mais continuar com voo de galinha. O voo de galinha nos fez mal nos anos 80 e 90 e levou a uma regressão econômica e social. Em 1980, o Brasil era a oitava economia do mundo, no ano 2000 era a 13ª, até o México nos superou. No meu modo de ver, há uma maioria em torno de que o Brasil não pode mais repetir os anos 80 e 90. Isso nos deu a possibilidade de construir políticas de compromisso com o crescimento. O que não está claro, é objeto de disputa dentro do governo, é um governo muito amplo, é: qual crescimento? Quando olhamos a taxa de juros e a taxa de câmbio, isso aí é aplauso para o país da fama. Agora, quando você olha o Brasil Maior, uma tentativa de organizar uma política industrial, o Brasil Sem Miséria, a ênfase na educação, a elevação dos gastos na educação, a expansão das bolsas para o exterior, a constituição da Embrapi [Empresa Brasileira de Pesquisa Industrial], essas ações são para o Brasil do vaco.

E quem está ganhado essa disputa dentro do governo, na sua avaliação?

Pochmann: Não temos um balanço, porque o que aconteceu nesse período de expansão não se deu apenas por determinações endógenas, nacionais. Claro que são elas as mais importantes, no entanto, o Brasil se reposiciona no mundo frente a uma perda de influência dos Estados Unidos e um crescimento da China. Em 2000, as exportações brasileiras para a China representavam 2% das nossas. Hoje, se aproximam dos 20%. Os Estados Unidos eram 25%, agora são menos de 15%. Essa inversão, da forma com que foi feita, trouxe impactos do ponto de vista produtivo. Com os Estados Unidos, nossa pauta de exportação era mais rica do que é com a China. Hoje, 50% das exportações são produtos primários para a China. Não é porque a China impõe, foi a maneira que o Brasil encontrou, dentro dos seus constrangimentos, de exportar mais. Nós podemos alterar isso, não dependemos da China.

Aproveitando que senhor falou em balanço. Estamos terminando o primeiro ano do governo Dilma. Do ponto de vista macroeconômico, o que se destaca na sua opinião? Qual é o balanço?


Pochmann: Em primeiro lugar, a busca de uma convergência na condução da política macroeconômica. É uma avaliação da presidenta em relação ao conflito entre a política monetária e fiscal que ocorreu nos dois governos do presidente Lula. Eu percebo uma convergência. Não houve um vencedor, as duas partes reconsideraram, digamos assim. Vejo um ano vitorioso nessa condução, que não contou com o apoio do mercado financeiro, especialmente no período mais recente, em que se alterou a trajetória da taxa de juros. Um segundo aspecto é uma busca de maior racionalidade na gestão do governo. Isso se iniciou com um corte orçamentário, buscando ampliar a eficiência a partir de um orçamento menor e maior interlocução entre os ministérios. Isso não é ainda perceptível e generalizado, mas é possível observar em algumas ações. A principal delas é a integração do governo para reduzir a miséria.

Não houve nenhum ponto negativo?

Pochmann: Numa avaliação ex-post, isso é mais fácil fazer, as medidas tomadas no início do ano se mostraram muito fortes, diante do aprofundamento da crise internacional. No início do ano, era quase um consenso que o Brasil não poderia continuar crescendo ao ritmo de 7,5%, tendo em vista deficiências de investimento. Precisava desacelerar. No entanto, essa medida tomada internamente se associou a um quadro internacional de agravamento e por isso levou a uma mudança nas expecativas de investimentos internos. E isso acelerou a queda da atividade. As medidas do início do ano eram para fazer com que saíssemos de 7,5% para 4,5%, 5% de crescimento. Só que, com a combinação de resultados negativos da crise, a desaceleração foi mais rápida. Se não houvesse alteração no comportamento do juro, se o governo não toma medidas necessárias, acho inclusive que poderia avança algumas mais, nós poderíamos correr o risco de ter um PIB crescendo 2%, 3% este ano e talvez uma estagnação no ano que vem.

O que seria avançar mais?


Pochmann: Do ponto de vista da política fiscal.

Como?


Pochmann: Uma revisão do superávit fiscal para baixo. E na política monetária, poderíamos ter uma desaceleração mais acentuada da taxa de juros.

Até quando o Brasil terá de conviver com superávit primário? Qual seria um patamar razoável de estabilização da dívida a partir do qual o Brasil não precisaria mais fazer superávit primário?


Pochmann: O tamanho da nossa dívida relativamente ao PIB não é um problema, especialmente quando olhamos países ricos muito mais fragilizados. Uma das nossas dificuldades é o perfil da dívida. Um esforço de alongamento dos títulos certamente nos ajudaria muito mais do que o tamanho da dívida. Eu acredito que o superávit fiscal passa a perder importância na medida em que o país tenha um crescimento acima de 5%.

O senhor defendeu reduzir o superávit mas no plano do governo para trazer a taxa de juros para baixo, o superávit tem de ser robusto. Seria então um cálculo exagerado?


Pochmann: Isso é do ponto de vista do discurso, da retórica. Nós fizemos um corte de R$ 50 bilhões no orçamento no inicio do ano, enquanto que a elevação da taxa de juros nos levou a um aumento do gasto financeiro de R$ 35 bi. Cortou-se o gasto operacional de um lado, e de outro se elevou o gasto financeiro com a taxa de juros.

Esses R$ 35 bi são um gasto adicional considerando que recorte de tempo?

Pochmann: Era para o ano todo, se continuasse a trajetória de alta da taxa de juros. Mas vai ser menor, porque o juro está em queda.

Qual seria o nível adequado do juro real no Brasil? Essa é uma discussão que já se impõe, não?


Pochmann: É difícil justificar num país de estabilidade monetária, de contas fiscais relativamente equilibradas, uma taxa de juros real acima de 2% ao ano.

Por que 2% e não 1% ou 3%?

Pochmann: É algo arbitrário, evidentemente. Mas se olharmos um pouco o comportamento da taxa de lucro do setor produtivo brasileiro, as empresas que conseguem ter acima de 2% de lucro real... Na verdade, é um parâmetro. Para que todo setor produtivo possa ter uma rentabilidade superior ao que seria oferecido pela taxa de juros, 2% é um parâmetro razoável. Taxa de lucro acima disso já é muito bem satisfatório.

É um patamar que não desestimula a produção...

Pochmann: É claro que as grandes empresas têm taxas de lucros maiores, mas se você olhar os pequenos...

Esse é um debate que não existe hoje. No último relatório de inflação divulgado pelo Banco Central, o diretor discretamente colocou a questão. Acredita que não há debate porque o 'mercado' não quer? Ou falta o próprio governo colocá-lo?

Pochmann: Evidente que um segmento que convive um longo período com taxas de juros muito altas não tem interesse em uma rentabilidade menor, embora o setor financeiro tenha feito esforços de ampliação de suas taxas de lucros com atividades operacionais, está investindo em tecnologia, já tem clareza também que essse cenário de voo de galinha não pode ser reproduzido. Eu acredito que eles trabalham do ponto de vista interno, mas publicamente não é interessante dizer: “nós aceitamos taxas de juros de tanto”. Porque a taxa de juros não é o resultado de uma decisão técnica-econômica. Evidentemente que os setores que ganham com a taxa de juros pressionam de várias modalidades, assim como o setor produtivo também pressiona.

É uma decisão política...

Pochmann: Existe também uma correlação de forças, de interesse. Alguns criticam que o governo do presidente Lula e mesmo a Dilma poderiam ter reduzido a taxa de juros mais rapidamente... Se você tivesse uma redução dramática, quando o Brasil não podia crescer suficientemente depois de duas décadas de semiestagnação, o que poderia ocorrer? Aquele montão de dinheiro do sistema financeiro vai para onde? Comprar ativos? Aumentariam os preços, teria inflação. Outra alternativa seria esses recursos saírem do Brasil. A escolha do presidente Lula, continuada pela Dilma, foi fazer um movimento coordenado. Você reduz a taxa de juros para limitar os ganhos financeiros e, simultaneamente, cria condições para a transição da liquidez financeira para o setor produtivo. No segundo governo Lula, o governo assumiu o compromisso político com o setor produtivo de fazer o país crescer 5% ao ano. E, com o PAC, disse ao empresário que ele ia ter os elementos necessários para a produção ocorrer, energia, estradas. Esse foi um movimento coordenado.

O que o Brasil terá como grande desafio em 2012?

Pochmann: Antes de falar de desafios. O governo poderia ser um pouco mais ousado. Utilizar a crise como uma grande oportunidade para aquisição de empresas cujos preços estão muito baratos, dada a queda nas bolsas de valores. A Noruega, a China e a Índia já se aproveitaram em 2008, da própria crise, da queda nas bolsas, para adquirir empresas. O Brasil tem um fundo soberano que poderia ser utilizado ao menos uma parte para aquisição de empresas.

Qual por exemplo? Dar o nome acho complicado, mas vamos falar de setor.


Pochmann: Em primeiro lugar, ao contrário da China, da Índia, o setor produtivo brasileiro é muito internacionalizado, você tem quase todas as grandes empresas em operação no Brasil. Alguns dos setores em que somos deficitários poderiam perfeitamente ter uma política mais agressiva de compra de ações. Empresas de transporte, por exemplo. O Brasil é o quinto maior mercado de consumo automobilístico e não tem uma empresa nacional. Nem sei se é o caso de ter. A General Motors estava de joelhos... Os chineses compram empresas, por que você não pode comprar?

Acho que diriam que a China não é um sistema político como é o brasileiro..
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Pochmann: Mas a Noruega não tem problema? A Índia não tem problema? Utilizaram os fundos soberanos...

Se tornaram controladores ou acionistas minoritários?

Pochmann: Você tem várias modalidades, acionistas, controladores. Veja uma dificuldade nossa. Quando o governo adota uma política de aumentar as exportações, com subsídios, não necessariamente as empresas transnacionais vão aumentar. A decisão de exportar não é tomada internamente, é na matriz. Você precisa ter empresa nacional.

Sim, e os desafios?

Pochmann: O que nós temos de desafio pela frente é preparar o governo para a transição demográfica que estamos vivendo. Transição de redução muito rápida do número de crianças por mulher, a taxa de fecundidade vem caindo muito drasticamente no Brasil, estamos num processo de envelhecimento, isso tem um impacto muito grande na condução da política pública na área social.

O senhor vai chegar até à reforma da Previdência?


Pochmann: O envelhecimento tem a ver, por exemplo, com a postura da saúde. Uma coisa é o gasto quando um país tem muitas crianças e adolescentes, outra coisa são os gastos com pessoas com mais idade, são mais caros, são mais pesquisas que você tem que ter. Daqui a 10 anos, 15 anos, começarão a sobrar escolas. Mas, ao mesmo tempo, temos uma exigência, tendo em vista a transição para a sociedade do conhecimento, de montarmos escolas para a vida toda. As grandes empresas já gastam 1% do PIB com universidades corporativas, para formação e capacitação dos seus trabalhadores ao longo do tempo. Um desafio aqui é montar uma universidade corporativa no setor público. Nós temos que qualificar melhor os servidores públicos, precisamos de um Estado mais eficiente, isso passa pela qualificação do quadro. A Previdência é um dos aspectos da demografia. Um outro desafio é montar uma indústria de defesa.

Por causa da inserção internacional cada vez maior e do pré-sal?


Pochmann: E das nossas fronteiras. O Brasil é segundo país do mundo com maior quantidade de fronteiras. São 15 mil km de fronteiras secas e 5,5 mil km de fronteira marítima. Não temos um sistema de defesa para isso. A nossa dificuldade está mesmo em setores em que nós somos relativamente avançados, como a indústria da aviação. Somos dependentes de tecnologia. Compramos equipamentos dos Estados Unidos que nos impedem de vender para países que eles não têm interesse que a gente venda.

O governo acabou de lançar um plano sobre isso.

Pochmann: Sim, mas isso é um desafio.

Botar de pé e ampliar.

Pochmann: Sim. Nós já fomos melhor nos anos 70 na indústria de defesa. Outro aspecto, e isso não depende só do Brasil, é construir uma moeda regional. O Brasil é muito pequeno para resistir às forças do dinamismo chinês. Se nós quisermos resistir em melhores condições, precisamos fazer aqui um grande arco com os países do sul do continente. Mais um desafio é elaborar um complexo de difusão tecnológica. O Brasil tem só 14% dos jovens entre 18 e 24 anos no ensino superior. Houve um esforço enorme, dobrou o número de alunos matriculados nos últimos dez anos, parabéns, mas isso é muito pouco. O Brasil tinha que chegar a 70% dos seus jovens matriculados no ensino superior. Isso é um esforço gigantesco.

Como se faz isso?

Pochmann: É um projeto, é alocação de recursos. O pré-sal vai colocar recursos, estamos discutindo se é mais para um estado ou para outro, e não estamos discutindo o que fazer com esses recursos. Nós fizemos um estudo que mostrou que municípios e estados que recebem royalties de petróleo não são os que mais avançam socialmente. Essa discussão que está sendo feita agora tem seu interesse evidentemente, é uma disputa de receitas, mas ela é pobre porque não está possibilitando que nós tenhamos, com o uso desse recurso, um país superior. A China quer ter as 50 maiores universidades do mundo, nós queremos ter quantas? O futuro está no conhecimento, é o principal ativo de um país.

Quando o senhor assumiu, houve uma leitura de que o Ipea estava sendo aparelhado e deixaria de ser uma instituição pública para ser estatal. Acha que essa situação foi superada ou ainda há desconfianças?

Pochmann: O Ipea deixou de ser órgão de assessoria do Poder Executivo. Fez acordos de cooperação com a Câmara e o Senado, com o Poder Judiciário, ampliou seu raio de ação. Uma instituição manipulada não teria essa capacidade. O Ipea se transformou também numa instituição de assessoria da sociedade civil. Temos uma quantidade imensa de acordos de cooperação com universidades, instituições de pesquisa, entidades patronais, entidades de trabalhadores, organismos não governamentais, instituições internacionais. O Ipea se transformou no principal think tank brasileiro. E nunca foi tão produtivo. Tenho viajado muito o Brasil, e é impressionante como a produção do Ipea se tornou recorrente nas universidades, nos sindicatos, nas empresas.

O senhor vai ser candidato a prefeito de Campinas no ano que vem?

Pochmann: Acho que esse é um assunto para se resolver para o próximo ano. Fui surpreendido pela sugestão do presidente Lula, tem muita água para rolar ainda, estou bem aqui no Ipea, mas não deixa de ser uma oportunidade.

Ignacio Ramonet: 'Cenário para taxação de transações financeiras nunca foi tão favorável quanto agora'


No fim da década de 1990, enquanto os governos e a opinião pública mundial defendiam em uníssono os princípios mais extremos do liberalismo, um jornalista espanhol radicado na França ousou desafiar esses conceitos.

Diretor da tradicional revista Le Monde Diplomatique desde 1991 (cargo que ocupou até 2008), esteve na linha de frente do ativismo altermundialista. Um editorial seu de 1997, influiu na criação do grupo anticapitalista ATTAC (Associação pela Taxação de Transações Financeiras por Ajuda aos Cidadãos), cujo objetivo de cobrar um imposto no mundo das finanças foi duramente atacado na época.

Mario Agra/Opera Mundi


Ignacio Ramonet conversa com estudantes e professores na Universidade de Brasília sobre os novos rumos da mídia 


O mundo dá voltas. Nessa sexta-feira (04/11), o encontro de cúpula do G20, grupo das maiores economias do planetas, passou a considerar seriamente a hipótese, como mais uma alternativa à crise financeira que atingiu o primeiro mundo desde 2008. Outras ideias que Ramonet criticava, como a opção da centro-esquerda europeia em seguir pela terceira via, uma coabitação entre a social-democracia com o neoliberalismo, também estão cada vez mais em pauta, e uma nova alternativa política começa a ser encontrada na América Latina.

Em passagem pelo Brasil, onde participou do 1º Encontro Mundial dos Blogueiros, em Foz do Iguaçu, e de um debate promovido pela Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América) na Universidade de Brasília, Ramonet concedeu uma entrevista exclusiva ao Opera Mundi, no qual abordou apalavra mais em moda no mundo contemporâneo: crise.

Longe de se restringir à economia, Ramonet mostra que o mundo também passa por um vazio de ideias e uma transformação sem precedentes na maneira de se comunicar, deixando o jornalismo tradicional sem rumo – o que não é necessariamente uma mudança positiva.

O sr. acredita que a social-democracia, após optar pela Terceira Via e o neoliberalismo no fim do século XX se encontra em crise de identidade? Como fazer para que seus partidos voltem a ser uma real alternativa política na Europa?
Não há dúvida que isso ocorre. A grave crise econômica e social a qual vive a Europa deve-se, em parte, ao fato de que não haver uma verdadeira alternativa à política econômica que rege o continente nos últimos 30 anos.

Isso ocorre porque a social-democracia se converteu à tese neoliberal, que consiste em dizer que, em matéria de Economia, não há outra alternativa possível: o mercado e os investidores privados antes de tudo. O Estado não tem nada a dizer e a deixa completamente nas mãos do setor privado. Pode haver alguma diferença em questão de moral, liberdades, expansão (da União Europeia), certos aspectos do Estado de bem-estar social, etc. Mas na Economia não se mexe.

Com essa atitude, chegamos à crise atual sem qualquer solução. E note que foram os países governados pelos social-democratas que se encontram em situação mais grave na Europa: Giorgos Papandreou, na Grécia, do Pasok (Partido Socialista Pan-helênico) e atual presidente da Internacional Socialista, José Luis Zapatero, na Espanha (Partido Socialista Operário Espanhol) e até recentemente perder a eleição, José Sócrates, em Portugal (Partido Socialista).

No meu ponto de vista, a social-democracia precisa ser refundada e se questionar. Assim como fizeram no passado Tony Blair (ex-premiê britânico pelo Partido Trabalhista) e Gerhard Schröder (ex-chanceler alemão pelo Partido Social-Democrata), que foram os teóricos dessa tese da Terceira Via, ou seja, imitar a direita na Economia e ser diferente no resto. Hoje temos que sair dessa alternativa. E muitos socialistas concordam que é preciso sair dessa prisão intelectual.

E esses socialistas já começaram a se organizar em torno de um movimento ou ainda estão perdidos?
Não vejo um movimento organizado nesse sentido. Nem houve qualquer menção na última reunião da Internacional Socialista realizada em Madri, onde o próprio (ex-presidente brasileiro) Lula participou.

Efe (04/11)

Na Grécia (foto), como em toda a Europa, partidos da social-democracia são cobrados nas ruas porseus próprios eleitores 

Mas é importante lembrar que a social-democracia latino-americana foi também partidária do neoliberalismo. E isso começou a mudar a partir da Venezuela. E por que? Porque o dirigente social-democrata mais importante da região no início dos anos 1990, Carlos Andrés Pérez, adotou uma terapia do choque, que provocou uma explosão social no país a partir de 1989. Como conseqüência, surgiu uma forte oposição pela qual Hugo Chávez foi eleito democraticamente, defendendo que as propostas da social-democracia não eram mais válidas.

Podemos dizer que a integração da América Latina deveria seguir os mesmos passos percorridos pela UE (União Europeia) ou deve escolher seu próprio caminho?
Acho há lições que podem ser tiradas. Quando Lula esteve em Paris para receber o título de Doutor Honoris Causa no Instituto de Ciências Políticas, ele disse que a União Europeia é um “patrimônio democrático da humanidade”. E tem razão.

A União Europeia é uma construção muito interessante porque, nos dois últimos séculos, o continente era sinônimo de um campo de batalha. Era onde as guerras ocorriam, as duas guerras mundiais, a Revolução Russa, o Holocausto, todos os grandes horrores da humanidade se passavam lá. Mas depois da construção da UE, tornou-se talvez a mais pacífica. E isso foi uma conquista muito importante.

Mas, sob o ponto de vista econômico, decisões como o abandono da soberania dos Estados-membros nos colocaram à véspera de uma catástrofe.

Os latino-americanos devem, certamente, avançar nos aspectos da integração. A região ficará mais forte e influente se conseguir se articular. Mas não acho que devam adotar uma moeda única. Talvez partir para a solução de uma moeda comum, como a Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América) com o Sucre. É um sistema de compensação: você paga com uma moeda que na prática não existe, mas que permite saber o valor do produto, sem precisar recorrer ao dólar, euro ou outra moeda estrangeira. Era assim na Europa antes do Euro, com o sistema monetário europeu. E é viável.

De outra parte, a integração política deve ser feita com prudência. Avançar reduzindo ao máximo as diferenças entre os países, mas ter em conta as realidades dos povos e das nações, que na região possuem uma história mais recente (do que a Europa). Deve-se tentar conservar os benefícios da integração e rejeitar o que não deu certo. E a experiência europeia pode ser um exemplo muito útil para os latino-americanos nesse sentido.

Acredita que a adoção de taxas para transações econômicas, como a Taxa Tobin, há tantos anos defendida pelo Sr., se encontram atualmente em um cenário mais propício do que o passado?
Nunca foi tão favorável. Quando eu defendi publicamente a ideia pela primeira vez, em 1997, diziam que era uma loucura, uma utopia. Todos os países recusaram.

Mas, a partir do momento em que a crise iniciada em 2008 se agravou, de pouco a pouco vemos muitos economistas e chefes de Estado que defendem essa cobrança. O próprio Parlamento Europeu pediu sua criação. Sarkozy a defende em toda reunião. Merkel também. Só o Reino Unido é contra.

Mas eles preferem que seja uma medida temporária, com prazo de validade.
Sarkozy a quer agora, como a quis em 2008, mas os mercados não deixaram.Agora ele voltou com a ideia, porque todos estão sem dinheiro para pagar as dívidas soberanas. Com um imposto dessa natureza, a Europa teria a cada ano cerca de 150 bilhões de dólares. Teríamos resolvido o problema da dívida grega. Permitiria criar um fundo de ajuda financeira para eles. Eu defendia um fundo de ajuda aos países em desenvolvimento, mas só para os europeus deve servir.

Quando compramos um produto qualquer, todos pagamos um imposto por ele. Até uma garrafa d’água tem seu valor agregado. Ao mesmo tempo, quando se compra dez bilhões de euros, não se paga nada. Isso não é normal. Por isso a Taxa Tobin é um assunto mais do que atual. Ela também criaria um freio no mercado de câmbio.

Nunca precisamos tanto criar essa taxa, nem nunca estivemos tão prontos.

Mas há quem queira impedi-la. Afinal, do que vive o Reino Unido? Nem de matéria-prima nem de indústria, mas do mercado financeiro. Seu grande produto é a Bolsa. Os britânicos são contra ela, mas isso é problema deles. Eles não estão na zona Euro, portanto esse imposto pode ser aplicado somente à região.

Os Estados Unidos também não gostam da ideia, pois tem uma tradição liberal. Na Europa, quem obtém algum lucro com o dinheiro aplicado em ações paga uma pequena taxa,de valor insuficiente. Já um operário que trabalha em uma linha de montagem paga muito mais impostos do que alguém que vive de ações. Mas pelo menos esse capital é taxado na Europa. Só que nos EUA, não se paga nada. Tudo o que você ganhar na Bolsa é taxa zero! É outra cultura.

Em sua participação no 1º Encontro Mundial dos Blogueiros, em Foz de Iguaçu no último fim de semana, o sr. disse que as mudanças provocadas pelo surgimento das novas mídias sociais criava um cenário “entre a luz e a sombra”. Por que essa disparidade?
Por um lado, as mídias sociais são um fenômeno altamente positivo. É uma possibilidade de os cidadãos intervirem em debates que antes só eram restritos a quem a grande mídia quisesse. Quem quiser se expressar pode contar com essa possibilidade. Antes, era muito mais difícil. Era necessário encontrar um veículo ou uma rádio que te convidasse, etc. Hoje isso mudou.

Não havia nem o mesmo espaço para tanto.
Sim, hoje é diferente. Globalmente, a internet é uma ferramenta de fácil utilização e barata. Mesmo que se necessite comprar um mínimo de equipamento, é possível gerir um veículo com recursos cada vez mais reduzidos. Trata-se de uma reviravolta considerável e que pode ser considerado altamente positiva. Essa é o lado da “luz”.

Há, no entanto, o lado “sombrio”. Também não podemos simplesmente acreditar que essa transformação na maneira de se comunicar ocorra sem que novas corporações sejam as grandes beneficiadas. Entre as principais temos o Facebook, o Twitter, o Google.

Às vezes não nos damos conta que, toda vez que utilizamos essas novas mídias, estamos tornando essas corporações cada vez mais lucrativas. Você pode ligar para um amigo para planejar a “grande revolução anti-capitalista”. Para a empresa de telefonia poço importa, está ótimo, ela lucra com a sua chamada.

Também não devemos acreditar que, ao conseguirmos oferecer a possibilidade de qualquer pessoa expressar sua opinião, que chegamos à era da democratização da comunicação. Sim, ela está mais acessível, mas os cidadãos produzem nem são fonte dessas informações. Eles participam, na realidade, nos comentários.

Em terceiro lugar, deve-se considerar que todo esse sistema é vigiado. Quando você se exprime através das novas mídias sociais ou por novas tecnologias de informação, está entregando informações que poderão ser rastreadas.

Há tanto aspectos positivos quanto negativos. Em Foz do Iguaçu, embora estivéssemos em um encontro de blogueiros progressistas, lembrei a todos que há colegas de todas as características políticas: progressistas e conservadores; revolucionários e reacionários. O fato de ser um blogueiro não faz de você necessariamente num rebelde.

Claro, o que ocorreu na Tunísia e no Egito foi muito positivo. Porém, pelo mundo, nem sempre é assim. É um sistema de dupla face.

O senhor acredita que o jornalismo tradicional se encontra em crise em razão dessa nova dinâmica e da ação de internautas independentes que o sr. chama de "webatores"?
Acredito que o jornalismo vive atualmente sua crise mais grave. Sempre foi difícil fazer o bom jornalismo, nunca foi moleza. Também nunca tivemos uma “era de ouro” na profissão, um tempo em que fosse maravilhoso ser jornalista, que se trabalhasse sem arranjar problemas com empresas e políticos. Jamais.

Mas essa crise é sem precedentes, especialmente para a imprensa escrita. Por uma simples razão: estamos numa faze de transformação do ecossistema midiático, e causa um problema de identidade.

Se todo mundo faz jornalismo, se todos os "webatores" fazem jornalismo, em que o jornalista faz diferença, no que ele é especial? Por exemplo, o que diferencia um repórter de um grande jornal brasileiro de um blogueiro? Não há tanta diferença. E é muito possível que determinado blogueiro alcance um público muito maior e genérico do que um jornalista ligado a um veículo tradicional.

Wikimedia Commons

'Webactors', ou ciberativistas, tiveram grande influência na derrubada dos regimes da Tunísia e do Egito, como no caso da Praça Tahrir

E essa crise de identidade não é só do jornalista, mas também de sua profissão. Porque veículos como o Wikileaks mostraram que o jornalismo tradicional não funciona. Que o jornalista tradicional não esteve à altura de descobrir uma informação de conteúdo sigiloso que, por sua vez, o Wikileaks foi capaz de revelar.

É uma crise sob muitos aspectos, também como os grandes grupos de comunicação. Nunca na história em tão pouco tempo, tivemos tantos jornais fechando, ou pelo menos decidindo encerrar suas atividades na versão em papel. Aqui tivemos o Jornal do Brasil, mas nos Estados Unidos são dezenas e dezenas: 120 jornais já fecharam, entre eles muitos tradicionais, fundados no século XIX, de histórias centenárias.

A mudança desse ecossistema provoca a extinção de uma forma de jornalismo. Assim como o fim do Período Jurássico provocou pó fim dos dinossauros.

Essa nova era da informação e da mídia contribuiu para mudanças sociais em alguns países? O sr. já citou a influência deles na queda dos regimes da Tunísia e Egito. Mas e na América Latina, em especial nos casos da Venezuela e do Equador?
Na América Latina, nem tanto.

Em relação a esses dois países, ocorre um outro fenômeno muito importante: uma guerra entre a mídia local e o governo. E isso também ocorre na Bolívia e na Argentina. Mas não se trata de uma guerra entre as novas mídias contra as antigas, onde cada uma ficaria de um lado.

O que realmente importa é a vontade desses Estados em constituir um sistema midiático mais equilibrado. Antes, esses sistemas eram quase exclusivamente privados. Agora tentam criar uma coabitação entre o privado e o público. Essa é a razão do conflito. Na América Latina,os atores dessa nova comunicação se encontram na mídia comunitária. E são muito fortes nas rádios.

Os "webatores" latino-americanos, até o momento, não fizeram tanta diferença, não se uniram como uma força coletiva. Estão espalhados nos dois cantos, uns defendem os meios públicos, outros os privados.

E os serviços de informação pública nesses países, como as novas agências públicas de informação, são satisfatórios? Como assegurar a independência deles?
Não acho que as novas mídias criadas nos setores públicos desses países, como as rádios e redes de televisão, sejam perfeitas. Assim como as do setor privado nunca foram. Mas eles participam de uma vontade de equilibrar as mídias, de colocar à disposição do cidadão mídias que não sejam empresariais, garantidas pelo Estado. Com frequência, é o governo quem as comandas, mas elas normalmente têm a uma vocação independente.

Mario Agra/Opera Mundi

Em Brasília, Ramonet fez duras críticas à mídia tradicional: 'O objetivo dos grande veículos de comunicação é domesticar seus usuários'

Funciona da mesma maneira que a escola pública: ela é subvencionada pelo Estado, mas seus programas são destinados a todos. Os professores não estão a favor ou contra o governo. Eles estão a serviço da Educação e dos alunos. E é assim que as mídias públicas precisam ser encaradas.

E o caso específico de Cuba?
Bom, aí é totalmente diferente! Porque em Cuba lá não há pluralidade na mídia. Não existem jornais, rádios e televisões que exprimam um ponto de vista contrário ou hostil ao governo.

Isso não significa que lá não exista liberdade de expressão. Há muito espaço para debates e discussões.

Mas por quê não na mídia? Porque Cuba vive uma situação peculiar, por isso devemos considerá-la um caso à parte. Enquanto os Estados Unidos continuarem com uma posição de agressão, inclusive midiática, como por exemplo faz com a Rádio Martí, na Flórida [opositora radical do regime cubano financiada pelo governo norte-americano], política e econômica, Cuba será um país que tomará precauções para se defender.

Eu já publiquei um livro com uma entrevista de Fidel Castro, onde ele mesmo admite que não existe liberdade de imprensa em Cuba. Por quê? Porque, segundo ele, “nas circunstâncias em que nos encontramos, não podemos permitir que os inimigos venham a nos atacar e criticar”. Se as condições mudarem, ou seja, os EUA renunciarem ao embargo como já foi determinado pela ONU (Organização das Nações Unidas), então Cuba será um país completamente diferente.

“Espero que haja uma grande ruptura no PT”, defende Tariq Ali


"Lula transformou o partido numa máquina de vencer eleições”, critica Tariq Ali, que vê o PT indo contra as "enormes esperanças" depositadas nele | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Samir Oliveira no SUL21

O ativista de esquerda Tariq Ali esteve em Porto Alegre pela terceira vez entre os dias 15 e 17 deste mês. Antes, já havia visitado a Capital gaúcha durante duas edições do Fórum Social Mundial. O escritor paquistanês, que cursou ciência política e filosofia em Oxford, na Inglaterra, participou de atividades da feira do livro e deu uma palestra na Câmara Municipal, organizada pela vereadora Fernanda Melchionna (PSOL). Em meio aos compromissos, encontrou tempo para conversar durante mais de meia hora com o Sul21.

Tariq foi um dos entusiastas da chegada do PT ao poder no Brasil. Mas avalia que o partido não foi capaz de implementar reformas estruturais no país e não poupa nem o ex-presidente Lula. “O PT brasileiro foi o último partido de trabalhadores criado no mundo. Havia enormes esperanças depositadas. Lula transformou o partido numa máquina de vencer eleições”, observa o escritor.
Nesta entrevista, Tariq Ali comenta também o contexto político na América Latina, a crise econômica na Europa e os protestos contra o capitalismo nos Estados Unidos.
"Venezuela e Bolívia são dois países que utilizam o Estado para realizar reformas sociais e estruturais. Mas podem ir só até certo ponto, porque o sistema capitalista permanece enraizado" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – É comum ouvir hoje em dia que, ideologicamente falando, não existe mais esquerda ou direita na política.
 
Tariq Ali – Se olharmos a política no mundo capitalista hoje, na América do Norte, na Europa e em países como Brasil e Índia, veremos uma situação onde a política convencional é dominada pela centro-esquerda e pela centro-direita. Esses dois lados formam o que chamo de centro-extremo. São extremistas na defesa do neoliberalismo. Dentro desse grande centro é possível dizer que não há diferenças entre esquerda e direita. Mas fora dele, as diferenças são enormes. Mesmo que os grupos de esquerda sejam pequenos, representam uma tradição de justiça social. E, na atualidade, buscam uma tradição de unir socialismo e democracia, rejeitando o modelo stalinista do partido único e do jornal estatal, que vigorou durante muito tempo.

Sul21 – Há algum país que esteja adotando o socialismo com democracia?
 
Tariq Ali – Não de uma maneira perfeita. Mas alguns países da América do Sul estão tentando. Venezuela e Bolívia são dois países que utilizam o poder do Estado para realizar importantes reformas sociais e estruturais. Mas podem ir só até certo ponto, porque o sistema capitalista permanece enraizado nesses países e é impossível simplesmente passar por cima. É preciso lidar com o sistema em alguma medida.
“Os cubanos seguiram o modelo político insensato do partido único. Estão percebendo esse equívoco”
Sul21 – E o modelo cubano?
 
Tariq Ali – Temos que ser francos, Cuba não tem democracia. Sou um admirador dos cubanos pelo que fizeram na educação, na saúde e na reforma agrária. São cidadãos muito politizados, comparados com outros países do continente e até do mundo. Mas não há contribuição democrática em Cuba. Isso vai, inclusive, contra a tradição da revolução cubana. A falta de democracia no país é resultado de dois fatores: por um lado, o bloqueio norte-americano e a tentativa de derrubar Fidel Castro e derrotar a revolução; por outro, a dependência de Castro da antiga União Soviética. A combinação desses dois fatores burocratizou a revolução cubana. Hoje, muitos cubanos aceitam a situação como ela está. Cuba precisa promover algumas aberturas em sua economia. É loucura o Estado nacionalizar tudo. É loucura nacionalizar restaurantes familiares e mini-mercados. Mas a nacionalização de setores-chave da economia ainda é necessária.
Tariq Ali: "Não podem criticar Hugo Chávez por falta de democracia. Podem criticá-lo por excesso de democracia. Chávez venceu muitas eleições, inclusive contra a maioria da mídia privada" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Qual o futuro que o senhor projeta para a ilha?
 
Tariq Ali – Os cubanos seguiram o modelo político insensato do partido único. Estão percebendo esse equívoco. Não sei para qual lado irão após a morte de Fidel. Sinto que iriam com os Estados Unidos. Muitos cubanos gostariam desse caminho. Mas estariam dispostos a abrir mão de poder para Miami?

Sul21 – E na Venezuela? Há um socialismo mais democrático?
 
Tariq Ali – Não podem criticar Hugo Chávez por falta de democracia. Podem criticá-lo por excesso de democracia. Chávez venceu muitas eleições, inclusive contra a maioria da mídia privada, porque fez uma série de coisas boas para a parcela mais pobre da população – muito mais do que foi feito no Brasil. O presidente venezuelano tornou a palavra “socialismo” popular novamente. Com suas ações, conseguiu impactar as pessoas em toda a América do Sul de uma forma que só a revolução cubana havia feito até então. Ele chegou ao poder de uma maneira diferente, sem ações armadas. Construiu movimentos sociais de massa e assumiu através de eleições democráticas para tentar implementar reformas. Então, os bolivianos e os venezuelanos estão fazendo muito mais que o Brasil. E espero que continuem assim, porque mais cedo ou mais tarde terão que confrontar o capitalismo de uma maneira muito mais intensa.
“Por trás de cada família que possui uma grande propriedade rural há um grande crime que eles cometeram para se apossar daquela terra”
Sul21 – De que maneira se dará esse confronto?
 
Tariq Ali – Intensificando a reforma agrária, por exemplo. Na Venezuela há muita crítica ao Chávez por ter distribuído as terras. Dizem que é um ataque à propriedade privada. Sim, de fato, é um ataque. Mas como essa propriedade privada se constituiu? Quem dá às pessoas o direito de dominar um pedaço de terra? Como as pessoas se tornam donas das terras? Por trás de cada família que possui uma grande propriedade rural há um grande crime que eles cometeram para se apossar daquela terra. Não compraram as terras, tomaram à força.
"No Brasil, há um subproletariado, pessoas que temem que o pouco que têm possa se esvair. Então, quando ganham um pouquinho do Lula, passam a amá-lo" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Além da Venezuela e da Bolívia, outros países da América Latina são governados atualmente pela esquerda ou pela centro-esquerda. Há um contexto político positivo na região?
 
Tariq Ali – Em geral, o contexto é positivo. Numa escala internacional, isso significa que é muito mais difícil os Estados Unidos controlarem a América Latina como estavam acostumados. Não é tão fácil agora e os norte-americanos sabem disso. Mas ainda não desistiram. A influência norte-americana é muito forte na Colômbia e no México. Há sucessivas tentativas de desestabilizarem o governo Chávez. E quem sabe o que poderão fazer no Brasil depois que o PT sair do poder? Os Estados Unidos estão mais fracos do que jamais estiveram na região, mas não desistiram da América Latina.

Sul21 – O senhor disse uma vez que o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff não são tão diferentes de outro ex-presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso.
 
Tariq Ali – Não são diferentes no sentido de que não promoveram mudanças fundamentais nas estruturas da sociedade brasileira. Lula teve muita sorte com o crescimento da economia chinesa, que demandou exportações brasileiras, e com a baixa da taxa de juros nos Estados Unidos, que afetou as importações. Mas se a crise econômica piorar e atingir a China, o Brasil será extremamente afetado.
“Em 2006 Lula foi eleito por uma maioria de 61% dos votos. Com esse apoio, poderia ter feito qualquer coisa”
Sul21 – Lula também tinha bastante apoio popular.
 
Tariq Ali – No Brasil, há um subproletariado. Pessoas pobres que não possuem um emprego em turno integral, nem um trabalho formal, e são psicológica e politicamente apavoradas, porque temem que o pouco que têm possa se esvair. Então, quando ganham um pouquinho do Lula, passam a amá-lo. Mas com o apoio popular que tinha, Lula poderia ter feito muito mais, especialmente durante seu segundo mandato. No primeiro mandato, Lula estava muito preocupado que o capital internacional pudesse desestabilizar o Brasil. Mas em 2006 ele foi eleito por uma maioria de 61% dos votos. Com esse apoio, poderia ter feito qualquer coisa.

Sul21 – Na sua avaliação, o PT e Lula tiveram medo de promover mais reformas?
 
Tariq Ali – O PT brasileiro foi o último partido de trabalhadores criado no mundo. Havia enormes esperanças depositadas no partido. O PT não foi criado por uma pessoa, foi o apoio da classe trabalhadora organizada que criou o PT. E Lula transformou o partido numa máquina de vencer eleições. Isso não é o bastante para um partido político. Qual a diferença em relação a direita, se fazem exatamente o mesmo? Gastam grandes quantidades de dinheiro para ganhar uma eleição. E há casos emblemáticos, como o assassinato do prefeito de Campinas, Celso Daniel, ou as denúncias envolvendo Palocci, que, mesmo assim, foi reconduzido duas vezes ao governo. A quem o PT inspira com essas atitudes? E mais, o que acontecerá com o PT quando perderem uma eleição? Espero que haja uma grande ruptura no PT, porque o Brasil precisa de um partido socialista de massas. Precisamos refletir: essa esquerda que a direita gosta não é tão esquerda assim.
"A mudança só será possível se houver enormes pressões de base, que realmente afete os regimes capitalistas. Caso contrário, por que os governos se incomodariam em mudar alguma coisa, se ninguém os desafia?" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Com a onda de protestos contra o capitalismo nos Estados Unidos – como o Occupy Wall Street –, além dos indignados na Espanha, o senhor acredita que alguma grande mudança está por vir?
 
Tariq Ali – A mudança só será possível se houver enormes pressões de base, que realmente afete os regimes capitalistas. Caso contrário, por que os governos se incomodariam em mudar alguma coisa, se ninguém os desafia? Mesmo com a crise econômica e esses protestos, o capitalismo ainda não enfrentou uma onda de protestos de massa.
“Às vezes, superestimamos o poder da mídia. E isso acaba se tornando uma desculpa”

Sul21 – Como o senhor vê a atuação da mídia tradicional no processo de legitimação do capitalismo?
 
Tariq Ali – A função das corporações midiáticas é preservar o sistema como ele está e atacar qualquer mudança. Apoiam todas as guerras que o ocidente promove em diferentes partes do mundo e tentam convencer as pessoas de que essas guerras existem para trazer justiça. Mas, às vezes, superestimamos o poder da mídia. E isso acaba se tornando uma desculpa. “Não podemos fazer nada porque a mídia é muito poderosa”. Isso é uma grande besteira.

Sul21 – A mídia não tem tanto poder assim?
 
Tariq Ali – Quando as pessoas estão realmente enfurecidas, ignoram o que a mídia diz. Geralmente, se assiste televisão por causa das novelas, dos atores e do erotismo. Cada vez menos as pessoas assistem televisão para se informar. Quando há um verdadeiro movimento de massa vindo das bases, a mídia se torna irrelevante. Basta ver o caso do Egito. Quando os egípcios começaram a ocupar a praça Tahir, a maioria da mídia foi contra.

Sul21 – Muitos analistas dizem que as redes sociais tiveram um papel fundamental nesse processo.
 
Tariq Ali – Claro que o Facebook e, principalmente, as mensagens de texto por celular tiveram alguma relevância. Mas não é pra tanto. O fator decisivo foi que as pessoas estavam dispostas a dar suas vidas para se livrarem do déspota. Isso que foi fundamental. As pessoas usam qualquer meio que tiverem para se comunicar. Quando houve a rebelião dos escravos no Haiti, no século XVIII, a comunicação era feita através de sons, de batidas nas paredes, de vilarejo a vilarejo. Foi um método de resistência.

Urgências na educação das comunidades quilombolas

Por Maria Auxiliadora Lopes

O preconceito racial existente na sociedade brasileira tem dificultado a realização de estudos sobre as condições socioeconômicas e culturais dos diferentes grupos étnicos que compõem a população do país. Em decorrência desse fato, alguns grupos enfrentam problemas que determinam sua marginalização e o difícil acesso aos benefícios sociais. Podemos citar, no enfrentamento deste quadro, as comunidades remanescentes de quilombos.

Para um melhor entendimento do que são os remanescentes de quilombos, o Decreto 4887/03 estabelece que: “Consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos os grupos étnico-raciais, segundo critérios de autoatribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a opressão histórica sofrida”.

Segundo dados da Fundação Cultural Palmares (2010), existem, no Brasil, em todas as Unidades da Federação, exceto no Acre, em Roraima e em Brasília, 1.436 comunidades remanescentes de quilombos certificadas. Os estados com maior número de comunidades remanescentes de quilombos são Maranhão (318), Bahia (308), Minas Gerais (115) Pernambuco (93) e Para (85).

Partindo do princípio de que as comunidades remanescentes de quilombos possuem dimensões sociais, políticas e culturais significativas, com particularidades no contexto geográfico brasileiro, tanto no que diz respeito à localização, quanto à origem, considera-se a necessidade de ressaltar e valorizar as especificidades de cada comunidade, quando do planejamento de ações voltadas para o seu desenvolvimento sustentável.

Conforme o Relatório da Situação da Infância e Adolescência Brasileira, Unicef 2003, 31,5% das crianças quilombolas de sete anos nunca frequentaram bancos escolares; as unidades educacionais estão longe das residências e as condições de estrutura são precárias, geralmente as construções são de palha ou de pau a pique; poucas possuem água potável e as instalações sanitárias são inadequadas. O acesso à escola para estas crianças é difícil, os meios de transporte são insuficientes e inadequados e o currículo escolar está longe da realidade destes meninos e meninas. Raramente os alunos quilombolas vêem sua história, sua cultura e as particularidades de sua vida nos programas de aula e nos materiais pedagógicos. Os professores não são capacitados adequadamente, o seu número é insuficiente para atender a demanda e, em muitos casos, em um único espaço há apenas uma professora ministrando aulas para diferentes turmas.

A questão da terra tem sido o principal obstáculo à implementação de políticas públicas destinadas às comunidades remanescentes de quilombos e motivo de perpetuação dos históricos conflitos pela posse e uso da terra.

De acordo com o censo escolar realizado em 2009, nas Comunidades Remanescente de Quilombos existem 200.510 alunos que são atendidos por 10.001 professores, atuando em 1.693 escolas. Chama a atenção que 61,59% das matrículas estão concentradas na Região Nordeste.

Pesquisas realizadas pelo Ministério da Educação, no exercício de 2008, em escolas localizadas nas comunidades remanescentes de quilombos, em municípios dos estados da Bahia, do Maranhão e de Minas Gerais apontam a necessidade da implementação de políticas públicas para estas comunidades. Apresentamos algumas recomendações que devem balizar o trabalho de educação nas comunidades:

1. Revisar a perspectiva ideológica da formulação de currículos, respeitando os valores culturais dos alunos da comunidade;

2. Atualizar regularmente o Censo Escolar com dados sobre alunos, professores e prédios das comunidades remanescentes de quilombo;

3. Criar Unidade Executora nos estabelecimentos escolares para que professores, alunos e pais possam participar da decisão da execução do Programa Dinheiro Direto na Escola, onde isso for possível;

4. Criar e manter mecanismos de aquisição de gêneros alimentícios, oriundos da própria comunidade quilombola, respeitando os hábitos alimentares, além da viabilização do transporte destes gêneros alimentícios até as escolas;

5. Fomentar a participação de representantes das comunidades quilombolas nas instituições que realizam o controle social, como o Conselho do FUNDEF, o Conselho da Alimentação Escolar e outros;
6. Orientar gestores, diretores, professores, servidores em geral na elaboração do PPP das escolas;

7. Oferecer aos professores cursos de formação inicial e continuada relacionados à Educação das Relações Étnico-raciais, de forma regular, face ao desconhecimento, comprovado nesta pesquisa, da Resolução nº1/2004 e do Parecer 03/2004;

8. Rever a estratégia de produção (tiragem) e de distribuição do material didático produzido pelo SECAD/MEC sobre a temática, para que realmente alcance o objetivo de chegar a todas as escolas das comunidades remanescentes de quilombos do Brasil.

As políticas de promoção da igualdade racial são meios eficazes de eliminar as taxas de desigualdade, pois uma educação de qualidade nas escolas quilombolas pode ser o passo principal para o respeito e valorização das identidades culturais do Brasil, de acordo com o Parecer CNE/CP nº 03, de 10 de março de 2004, e a Resolução (CNE/CP) nº 01, de 17 de junho de 2004.

Maria Auxiliadora Lopes é graduada em Pedagogia e História e Mestre em Educação. Desde 2003, trabalha na SECAD/MEC na área de políticas públicas, exercendo atividades de planejamento, elaboração, avaliação e acompanhamento de projetos, em especial voltados para a educação das relações étnico-raciais

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Chávez: "Socialismo, socialismo e mais socialismo"

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse nesta segunda-feira (21) que ficará no poder até 2031, mas não verá o país como espera que ele se torne. No mesmo pronunciamento pediu aos jovens que terminem a tarefa de tornar a nação livre e grande.



"Por mais tempo que eu viva, já tenho certeza de que não verei a Venezuela como a sonho, mas o que me importa. Ela será vista por meus filhos, minhas filhas, meus netos, minhas netas, será vista por vocês, rapazes, e vocês, moças", afirmou Chávez em discurso para centenas de jovens que hoje marcharam em Caracas.

O líder da Revolução Bolivariana recebeu no dia do estudante universitário vários jovens que após terem feito uma passeata pela capital se concentraram no Palácio de Miraflores (sede do governo), onde cantaram e fizeram coro com o líder no hino nacional.

Chávez, que em junho deste ano passou por uma cirurgia para a retirada de um tumor cancerígeno, reiterou que deixará o poder em 2031, para desvirtuar as especulações sobre seu suposto precário estado de saúde.

"Tinha previsto sair em 2021, mas agora como os esquálidos (opositores) estão dizendo que estou morrendo, que já estou pronto para ir para a grelha, que já não aguento mais (...) agora tenho o plano e o proponho, com a ajuda de Deus e a vontade de vocês, de governar aqui de agora até 2031", declarou.

Chávez disse ainda que em seu próximo mandato, de 2013 a 2019, fará um "aprofundamento da revolução socialista".

"Socialismo, socialismo e mais socialismo. Temos que aprofundar a luta e a derrota contra os vícios do passado que ainda persistem entre nós. Os vícios do capitalismo: a violência, a insegurança, a desigualdade, a corrupção, o egoísmo, o individualismo, ainda há muito disso", declarou. 


Fonte: PORTAL VERMELHO

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

As escolhas do CPERS e seus riscos políticos



A assembleia geral do CPERS realizada na tarde desta sexta-feira (18), no Gigantinho, deliberou pela greve já por tempo indeterminado em defesa do pagamento imediato do piso nacional da categoria pelo governo Tarso Genro (PT). A decisão não foi unânime. Uma parte da categoria defendeu que a greve fosse deflagrada no início do próximo ano letivo (março de 2012), alegando que não há mobilização suficiente neste momento para garantir uma greve vitoriosa. Saiu vitoriosa, porém, a tese da direção, defendida na assembleia pela presidente do CPERS, Rejane de Oliveira. Filiada ao PT, a presidente do sindicato manifestou enfaticamente na assembleia sua autonomia em relação ao governo. De fato, essa autonomia acabou prevalecendo, coincidindo com posições de setores ligados ao PSOL e ao PSTU dentro do sindicato, que fazem oposição ao governo Tarso Genro.
O sucesso ou fracasso da greve dependerá, entre outras coisas, do grau de adesão que o movimento terá no início da próxima semana. O CPERS sabe que não há nenhuma possibilidade de o governo estadual pagar o piso este ano (não há sequer previsão orçamentária para tanto), o que foi reafirmado, aliás, logo após o final da assembleia, pelo Secretário Estadual da Educação, José Clóvis de Azevedo. A opção da greve é, portanto, uma opção pelo confronto, apostando no desgaste político do governo a 30 dias do encerramento do ano letivo. Mas esse desgaste pode respingar na própria direção do CPERS. Os professores que falaram em defesa do início da greve em março advertiram para o risco de uma greve fraca agora prejudicar toda a mobilização da categoria no próximo período.
Em entrevista à rádio Gaúcha, logo após a decisão da assembleia, o secretário José Clóvis de Azevedo disse que respeita a decisão da categoria, mas questionou a validade do movimento que, segundo ele, “trará grandes prejuízos para estudantes, pais e os próprios professores”, na medida em que “o CPERS rompeu unilateralmente o diálogo com o governo”.

Opinião do blog: A mobilização do CPERS é legítima e deve ser respeitada. No entanto, a atual direção do sindicato corre o risco de sofrer uma pesada derrota política. A falta de consenso na assembleia desta sexta já é um indicador desse risco. O CPERS apoiou Tarso Genro na campanha eleitoral e parte para o confronto agora, após apenas 11 meses de governo, baseado na cobrança da temporalidade de uma promessa. Tarso diz que prometeu pagar o piso até o final de seu governo e reafirmou esse compromisso. O CPERS, por sua vez, cobra o cumprimento imediato da promessa e espalhou cartazes pelo Estado chamando o governador de mentiroso. Repete, assim, movimento realizado no governo Olívio Dutra, que também recebeu as acusações de “traidor” e “mentiroso”. Os discursos contra Olívio foram tão enfáticos quanto os usados agora contra Tarso. E o que é mesmo que foi conquistado? Quatro anos de governo Rigotto e quatro de Yeda, com os resultados bem conhecidos.
O CPERS apoiou a candidatura Tarso sabendo que os problemas salariais da categoria não seriam resolvidos em onze meses. Mente quem diz que o governo Tarso é igual ao governo Yeda. Quem quiser tirar a dúvida, converse, por exemplo, com o reitor da UERGS ou com a direção da FAPERGS. O governo Tarso não é um governo revolucionário de esquerda que vai romper com o capitalismo (afirmação um pouco surreal de ser feita a essa altura do campeonato, mas necessária, diante da reincidência de certos discursos e cobranças). Disso se segue, entre outras coisas, que os problemas salariais dos servidores não serão resolvidos no curto prazo. Mas, até aqui, as negociações com os servidores não vem sendo conduzidas pelo coronel Mendes. E, ao contrário do que ocorreu no governo Yeda, várias categorias de servidores começaram a ter alguma recuperação salarial.
Diante do que aconteceu no Rio Grande do Sul nos últimos quatro anos, um sindicato importante como o CPERS tem o dever de olhar um pouco além de sua pauta corporativa, pois mais legítima e justa que ela seja. Desconsiderar isso não é exercer autonomia sindical, mas sim optar pela aventura política. Na política como na vida, nem sempre a opção mais radical é a correta.
Mas a greve é do jogo e não adianta chorar. Na oposição, o PT apoiou movimentos similares. Agora, cada um com as suas tarefas: cabe ao governo manter a tranquilidade, tentar manter as escolas funcionando e buscar o diálogo com os setores que estiverem dispostos a fazê-los; cabe ao CPERS mostrar que tem a adesão que diz ter para a greve; e cabe aos dirigentes do sindicato assumir por inteiro suas responsabilidades políticas e suas respectivas consequências.

Perfil do corrupto

Frei Betto, no SUL21

Manifestações públicas em várias cidades exigem o fim do voto secreto no Congresso; o direito de o CNJ investigar e punir juízes; a vigência da Ficha Limpa nas eleições de 2012; e o combate à corrupção na política.
Por que há tanta corrupção no Brasil? Temos leis, sistema judiciário, polícias e mídia atenta. Prevalece, entretanto, a impunidade – a mãe dos corruptos. Você conhece um notório corrupto brasileiro? Foi processado e está na cadeia?
O corrupto não se admite como tal. Esperto, age movido pela ambição de dinheiro. Não é propriamente um ladrão. Antes, trata-se de um requintado chantagista, desses de conversa frouxa, sorriso amável, salamaleques gentis. Anzol sem isca peixe não belisca.
O corrupto não se expõe; extorque. Considera a comissão um direito; a porcentagem, pagamento por serviços; o desvio, forma de apropriar-se do que lhe pertence; o caixa dois, investimento eleitoral. Bobos aqueles que fazem tráfico de influência sem tirar proveito.
Há vários tipos de corruptos. O corrupto oficial se vale da função pública para extrair vantagens a si, à família e aos amigos. Troca a placa do carro, embarca a mulher com passagem custeada pelo erário, usa cartão de crédito debitável no orçamento do Estado, faz gastos e obriga o contribuinte a pagar. Considera natural o superfaturamento, a ausência de licitação, a concorrência com cartas marcadas.
Sua lógica é corrupta: “Se não aproveito, outro sai no lucro em meu lugar”. Seu único temor é ser apanhado em flagrante. Não se envergonha de se olhar no espelho, apenas teme ver o nome estampado nos jornais e a cara na TV.
O corrupto não tem escrúpulo em dar ou receber caixas de uísque no Natal, presentes caros de fornecedores ou patrocinar férias de juízes. Afrouxam-no com agrados e, assim, ele relaxa a burocracia que retém as verbas públicas.
Há o corrupto privado. Jamais menciona quantias, tão somente insinua. É o rei da metáfora. Nunca é direto. Fala em circunlóquios, seguro de que o interlocutor sabe ler nas entrelinhas.
O corrupto “franciscano” pratica o toma lá, dá cá. Seu lema: “quem não chora, não mama”. Não ostenta riquezas, não viaja ao exterior, faz-se de pobretão para melhor encobrir a maracutaia. É o primeiro a indignar-se quando o assunto é a corrupção.
O corrupto exibido gasta o que não ganha, constrói mansões, enche o pasto de bois, convencido de que puxa-saquismo é amizade e sorriso cúmplice, cegueira.
O corrupto cúmplice assiste ao vídeo da deputada embolsando propina escusa e ainda finge não acreditar no que vê. E a absolve para, mais tarde, ser também absolvido.
O corrupto previdente fica de olho na Copa do Mundo, em 2014, e nas Olimpíadas do Rio, em 2016. Sabe que os jogos Pan-americanos no Rio, em 2007, orçados em R$ 800 milhões, consumiram R$ 4 bilhões.
O corrupto não sorri, agrada; não cumprimenta, estende a mão; não elogia, incensa; não possui valores, apenas saldo bancário. De tal modo se corrompe que nem mais percebe que é um corrupto. Julga-se um negocista bem-sucedido.
Melífluo, o corrupto é cheio de dedos, encosta-se nos honestos para se lhe aproveitar a sombra, trata os subalternos com uma dureza que o faz parecer o mais íntegro dos seres humanos.
Enquanto os corruptos brasileiros não vão para a cadeia, ao menos nós, eleitores, ano que vem podemos impedi-los de serem eleitos para funções públicas.

Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor do romance “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros. twitter: @freibetto.

A IDENTIDADE DOS QUADRINHOS NACIONAIS

Por Tiago Bacelar - ZINE BRASIL

Apesar de a produção nacional de quadrinhos ter tido início no século XIX, os gibis brasileiros sempre lutaram para ter uma identidade nacional, quando ao mesmo tempo lutavam para enfrentar os comics americanos e os mangás japoneses e as várias mudanças políticas da nossa história. Poderia se afirmar com isso, que nessa vertente, foi à tira, a única a desenvolver características profundamente nacionais. Apesar de não ter nascido por aqui, a tira ganhou um formato de abordagem bem diferenciado de outros países ocidentais. Somada a rebeldia durante a Ditadura Militar e o underground dos anos 80, a tira ganhou uma roupagem ácida e nada comportada.
Os primeiros vestígios do quadrinho nacional surgem pelas mãos do italiano Angelo Agostini, que firmou carreira no Brasil. Em 1859, veio para São Paulo com sua mãe, a cantora lírica Raquel Agostini. Cinco anos mais tarde, dá inicio à sua carreira de cartunista, com a revista "Diabo Coxo", que contava com textos do poeta Luiz Gama e foi o primeiro jornal ilustrado publicado em São Paulo.
Com o fechamento do Diabo Coxo, Agostini lançou o Cabrião, que circulou até 1867. No mesmo ano, o desenhista parte para a luta abolicionista no Rio de Janeiro, onde inicia a sua fase satírica, principalmente em tudo no que dizia respeito ao governo do Imperador Dom Pedro II. Foi nesse período que colaborou com as publicações "O Mosquito", "Revista Ilustrada" e "Vida Fluminense”.
Em 30 de janeiro de 1869, Agostini publica na revista "Vida Fluminense", Nhô-Quim, considerado o primeiro gibi brasileiro e um dos mais antigos do mundo. Sete anos mais tarde, lança As Aventuras de Zé Caipora, na Revista Ilustrada, sendo o primeiro quadrinho lançado por aqui a ter um personagem fixo. Por desentendimentos com a elite local, Agostini volta a Paris, onde vive por vários anos. Na sua volta ao Brasil, entra para a revista "Dom Quixote" e "Tico-Tico", com a publicação de novas histórias do Zé Caipora, o qual foi publicado até dezembro de 1906. Quatro anos, Angelo Agostini morre e deixa aberto um longo caminho de lutas para o gibi nacional.
A revista Tico-Tico, primeira revista em quadrinhos publicada no Brasil com histórias fechadas e completas, foi lançada, em 1905, pelo jornalista Luís Bartolomeu de Souza e Silva. Em seus primeiros anos, limitou-se a reproduzir os comics americanos de Richard Outcault, “Buster Brown e Tige”, que foram chamados por aqui de Chiquinho e Jagunço. Com o sucesso da publicação, a Tico-Tico decide abrir espaço para desenhistas brasileiros como J. Carlos, autor dos personagens Melindrosa e Lamparina, Max Yantok, criador das histórias de Joca Bemol, Barão de Rapapé e Chico Muque, e Alfredo Storni com as Aventuras de Zé Macaco e Faustina.
Mais tarde se juntariam a estes artistas, o desenhista Luiz Sá com as populares histórias de Reco-Reco, Bolão e Azeitona. A grande maioria dos quadrinhos listados acima eram cópias de obras estrangeiras. A revista Tico-Tico foi publicada até 1956 e ganhou em sua existência leitores como o político Rui Barbosa e o poeta Carlos Drummond de Andrade. Em 1929 foi lançada a Gazeta Infantil, como encarte do jornal A Gazeta, onde foi publicado o nacional Juca Pato. Em 1950 a revista foi extinta.
Conhecido ainda como histórias em quadrinhos, o termo só viria a mudar para Gibi em 1939 com o lançamento de uma revista de mesmo nome, pela Editora Globo. Inicialmente, ela foi lançada como suplemento do jornal O Globo, e foi chamada originalmente de O Globo Juvenil, como uma reação de Roberto Marinho ao sucesso do Suplemento Juvenil do jornal A Nação, que mais tarde viraria a Editora Ebal. Na época, Gibi era uma gíria carioca para menino negro. Por isso que, quando foi lançada pela Editora Globo, a logomarca da revista era a cabeça de uma criança negra.
A revista O Guri, de propriedade de Assis Chateaubriand, surgiu na mesma época, e publicava a charge mais madura do Amigo da Onça, desenhada pelo cartunista Péricles de Andrade Maranhão. O Amigo da Onça foi publicado pela primeira vez na revista O Cruzeiro em 23 de outubro de 1943. Recheado de ironias e críticas, a história do Amigo da Onça mostra um personagem que gosta de quebrar as máscaras e falsidades dos outros, colocando-os em situação para lá de embaraçosas. Foi dessa criação de Péricles que nasceu o jargão popular Amigo da Onça.
A Editora Ebal foi fundada em 1945 por Adolfo Aizen, considerado o Pai dos Gibis no Brasil por sua ousadia em querer difundi-lo no país. O primeiro título lançado pela Ebal foi a Seleções Coloridas, que traziam histórias da Disney e de Carl Barks. Já firmada como a principal editora do gênero no Brasil nos anos 50 e 60, a Ebal era líder nas bancas, chegando a ter mais de 30 títulos mensais com tiragens acima de 150 mil exemplares. Além de comics americanos, a Ebal publicou vários gibis feitos por brasileiros, como Álbum Gigante, Edição Maravilhosa, com adaptações de obras de Euclides da Cunha e José de Alencar, Série Sagrada, com biografias de santos católicos e Episódios e História do Brasil e Figuras do Brasil, com adaptações de fatos históricos.
Durante a década de 50 com a popularização das rádios novelas, seus personagens mais heróicos ganharam versões em quadrinhos. Foi o caso de Jerônimo e O Vingador. Os anos 50 também marcam a ascensão do gênero Terror. Muitos autores brasileiros aproveitaram para preencher o vazio deixado pelos quadrinistas americanos como Eugênio Colonnese, Jayme Cortez, Nico Rosso e Helena Fonseca. Em 1960 começou a ser publicada a revista A Turma do Pererê de Ziraldo, que contava as aventuras do saci pererê, uma das muitas lendas do folclore brasileiro.
Também na década de 60 o cartunista Henfil deu início à tradição do formato "tira" com seus personagens Graúna e Os Fradinhos. Foi nesse formato de tira que surgiu Maurício de Souza, criador da Turma da Mônica. De 1970 a 1986, as revistas de Mauricio foram publicadas na editora Abril, e a partir de 1987 começaram a ser lançadas pela editora Globo, em conjunto com os estúdios Mauricio de Sousa. Suas tiras são publicadas em diversos jornais desde 1959.
Nascido em 27 de Outubro de 1935, Mauricio de Sousa acabou se tornando e se consolidando como o desenhista brasileiro de maior prestígio mundial da atualidade, sendo um dos poucos no Brasil a viverem só de quadrinhos e produtos relacionados a seus personagens. Filho de Antônio Maurício de Sousa, poeta e barbeiro, e de Petronilha Araújo de Sousa, poetisa, Mauricio de Sousa começou sua carreira, desenhando cartazes e ilustrações para rádios e jornais de Mogi das Cruzes, onde viveu. Começou a desenhar histórias em quadrinhos em 1959, com as aventuras do cachorrinho Bidu, que mais tarde viraria a logomarca da Maurício de Sousa Produções.
Mauricio montou uma grande equipe de desenhistas e roteiristas e depois de algum tempo passou a desenhar somente as histórias de Horácio, o dinossauro. Pai de dez filhos, além de criar personagens baseados em seus amigos de infância, Mauricio sempre criou personagens baseados em seus filhos, tais como: Mônica, Magali, Marina, Maria Cebolinha, Nimbus e Do Contra.
Certo dia, o desenhista das histórias da Turma da Mônica, Maurício de Sousa, foi a Tóquio, objetivando estudar a realidade das crianças japonesas. Ele pretendia averiguar quais eram os seus hábitos, desejos, como eram tratados e o que o governo fazia por elas. A viagem foi patrocinada pela Fundação Japão. “Eu queria de todas formas conhecer quem era Osamu Tezuka, um ídolo de mais de três gerações de japoneses”, revelou Maurício. Na chegada ao Japão, o desenhista brasileiro foi surpreendido pela recepção inesperada de Tezuka.

O resultado desse primeiro encontro foi o surgimento de um elo de amizade entre Maurício e o criador do mangá moderno, fortificada com a vinda dele ao Brasil. “Tezuka foi um amigo de fato, confidente e aberto para confidências. Discutíamos em profundidade os caminhos passados e eventualmente os futuros dos quadrinhos e da animação. E foi dele a sugestão de que, mesmo que a Turma da Mônica se espalhe por todo o mundo, ela deve continuar com a poesia, carinho e cuidados na sua produção como até hoje tivemos”, explicou. A amizade do desenhista brasileiro com Tezuka acabou influenciando os seus próprios desenhos.
“Tanto eu, quanto muitos dos artistas da nossa equipe se motivaram a desenhar após conhecerem a obra de Tezuka. A maioria, niseis. E isso quando ainda não havia a febre dos mangás, que hoje influenciam orientais e ocidentais. Tezuka iniciou o processo que, sem dúvida, também ajudou a influenciar nossos traços limpos e firmes”, ressaltou. No início de 1989, Maurício tentou entrar em contato com Tezuka, mas não conseguia. “Recebi várias desculpas pelo telefone, e, nada. Logo em seguida, viajei para Tóquio para realizar algumas transações comerciais. Já tinha desistido de encontrá-lo”, relembrou. Na chegada ao Japão, Maurício recebeu uma ligação de um assistente de Osamu Tezuka. Ele queria que Maurício fosse imediatamente para o Hotel New-Otani, pois Tezuka o estaria esperando para uma conversa.
“Fiquei feliz de rever um amigo, e, fui para lá com uma intérprete. Ao entrar no local marcado, entendi o porquê das desculpas dos seus assessores. Fiquei chocado ao vê-lo abatido e magro, em virtude do estágio avançado do câncer. Mas, no decorrer da conversa, esqueci da sua aparência ao verificar que sua energia e lucidez estavam todas ali, intocadas pela doença”, recordou. Tezuka falou com Maurício sobre muitos assuntos como: a crise da Mushi Produções, as suas últimas produções e uma co-produção, onde os seus personagens se misturariam com os da Turma da Mônica.
Terminado o encontro, um diretor da Tezuka Productions o levou de volta para o hospital. Tezuka tinha fugido para ver o desenhista brasileiro. Maurício recebeu a notícia de sua morte, assim que chegou ao Brasil. Finalizando a nossa entrevista, Maurício explicou o quanto Tezuka foi importante para os quadrinhos e desenhos animados de modo geral, não somente os japoneses. “Um mega criativo como foi o mestre Tezuka deixa círculos que se expandem, na sua forma de influenciar. É como se fossem os círculos que se abrem na água tranqüila após receber uma pedra. Com Tezuka, a água recebeu um pedaço de diamante. Até hoje quando me lembro dele, agradeço por ter tido o privilégio de conhecê-lo e aprendido muitas coisas que me ajudaram na minha carreira”, finalizou.
A década de 60 foi à era de ouro para os gibis de super-heróis no Brasil. Influenciados pelas histórias da Marvel, que chegaram ao País em 1967, tais histórias sustentaram as pequenas editoras paulistas durante um bom tempo. Os super-heróis brasileiros só atuavam quando a editora andava bem das pernas. O primeiro super-herói brasileiro surgiu em 1959, quando a editora Outubro lançou um gibi, inspirado no seriado de televisão, o Capitão Sete, uma cópia do Super-Homem.
O gibi narrava às aventuras de Carlinhos, um garoto levado ao Sétimo Planeta onde desenvolve super-poderes iguais aos do herói da DC. O personagem foi adaptado para o gibi por Jaime Cortez, diretor de arte da Outubro. O gibi do Capitão Sete foi publicado até 1965, passando por vários desenhistas, como Juarez Odilon, Shimamato, Sérgio Lima e encerrando-se nas mãos do argentino Osvaldo Talo. Esta atitude de plagiar descaradamente, comum para a época, só viria a mudar nos anos 70, quando foi criada uma nova lei de direito autoral.
Em 1965 surgiu o Raio Negro de Gedeone Malagola, que acabou agradando os leitores brasileiros, que tinha até então certo nojo das produções brasileiras. Raio Negro abusou do uso em seu formato da concepção de Andy Warhol sobre a cultura de massa, contando as bravuras dos super-heróis Homem-Lua e Hydroman. No mesmo ano, Minami Keizi funda a editora Edrel, em meio ao Golpe Militar de 64.
Sua primeira ação foi contratar os niseis Cláudio Seto, Fernando Ikoma e Paulo Fukue, no intuito de trazer novidades para os leitores brasileiros. No ano seguinte, a Edrel lançou a revista Humor Negro, desenhada por Seto. Entretanto, a baixa qualidade do material não agradou o público-leitor, resultando no seu cancelamento após três edições publicadas. Mesmo com esse fracasso inicial, Minami Keizi não se abateu.
Era uma questão de tempo para os “mangás” nacionais se tornarem o símbolo desse curto período de vida da Edrel. A editora lançou várias revistas com histórias de samurais e outras com personagens inspirados em várias obras de Osamu Tezuka, como Astro Boy, a Princesa e o Cavaleiro e Kimba. Em 1967, a Edrel publica o especial Álbum Encantado, inspirado no estilo shonen, um gênero japonês voltados para adolescentes do sexo masculino. No mesmo ano, Minami Keizi lança Tupãzinho, uma revista de ação e aventura. Na época, a editora Abril chegou a propor para Keizi uma publicação especial para Tupãzinho. Por não querer prejudicar sua empresa, ele não aceitou a oferta da Abril e contra-atacou com uma nova publicação.
No início de 1968, a Edrel publicou Flavo, de Cláudio Seto, na recém lançada, revista Ídolo Juvenil. Flavo era um misto de ficção e contos de fadas. Como forma de enfrentar a Disney e os super-heróis da DC e da Marvel, a Edrel decidiu explorar a questão do erotismo, das doenças sexualmente transmissíveis e dos assassinatos complexos. Na prática, esse projeto acabou sendo voltado para o público adulto, com destaque para os desenhos de Fernando Ikoma e Paulo Fukue.
Numa linha inspirada no shoujo, voltado para meninas, Cláudio Seto, lançou, em março do mesmo ano, a revista Lágrimas do Céu. Suas tramas eram apimentadas de seqüências melodramáticas, cheias de romance. Em agosto, a Edrel publicou o gibi Ninja, desenhado pelo irmão de Seto. Seu público, que era formado só por niseis, não se agradou com as histórias. Essa revista foi cancelada depois de duas edições.
No final de 1968, os censores do Governo Militar se instauraram na sede da Edrel, assim como foi feito nos jornais, nas emissoras de televisão, enfim, em qualquer lugar que fosse conveniente para a ditadura controlar. Dessa forma, todas as publicações passaram a ter o seu conteúdo fiscalizado. Em 1969, Seto emplacou o grande sucesso O Samurai, em clássicos épicos com muito erotismo e violência. Até então, nunca, no Brasil, havia se visto tanto sangue, fúria e paixão numa publicação de quadrinhos.
O governo do general Emílio Garrastazu Médici foi marcado pela violência e repressão a qualquer tipo de manifestação contrária ao regime. O presidente estabeleceu o aumento da censura prévia em todos os meios de comunicação, no intuito de controlar o fluxo de informações, vendendo a todos a idéia do país em grande desenvolvimento econômico, buscando legitimar o golpe através deste crescimento. Em 1973, Médici, irritado com as publicações ousadas da Edrel, ordena o seu fechamento imediato. Com isso, Keizi, Fukue, Seto, Ikoma e a própria Edrel acabaram caindo no esquecimento perante o público. Nesse período, muitas editoras tiveram o mesmo destino da Edrel. O Judoka, da editora Ebal, foi criado às pressas para substituir o personagem Judô-Master, de Charlton Comics, que deixara de ser produzido nos EUA. Sobreviveu até 1973.
Nos anos 90, os artistas brasileiros começam a apelar para o gênero “mangá” brasileiro. Muitas revistas lançadas na época delas eram inspiradas nos animes, desenhos animados japoneses que estavam passando na televisão como a Hyper Comics, de João Vicente. Lançada pela editora Magnum, ela fazia sátiras de séries como Sailor Moon e Cavaleiros do Zodíaco.
“O seu cancelamento reflete o mau sistema de distribuição das publicações, que torna as vendagens quase como uma loteria, onde o editor conta infelizmente com poucos pontos de venda. Na maioria das vezes, isso prejudica publicações de grande tiragem. As de baixa tiragem acabam ficando com um preço elevado por exemplar”, justificou o desenhista Daniel HDR. Por sua vez, em 1999, surge o fenômeno do mangá nacional, Holy Avenger, de Marcelo Cassaro e Érika Awano. A série foi encerrada com 40 edições. Atualmente, um desenho animado estaria sendo produzido pelo cineasta Sérgio Martinelli, diretor de animação e professor de cinema na Universidade Mackenzie, de São Paulo. Holy Avenger foi inspirado nas histórias medievais dos RPGs e no estilo presente nos mangás desse gênero no Japão.
“O fenômeno Holy Avenger pode ser explicado pela forte ligação das histórias com as publicações de RPG que a sua editora já publicava. Por ser uma atividade sociabilizante, o RPG tem a capacidade de manter vínculos por muito tempo com seu publico, podendo com o tempo ganhar novos adeptos. Isso se repetiu com Holy Avenger. Muitos quadrinhos, por não acompanharem seu público, acabam não conseguindo essa proeza. No aspecto de distribuição, Holy Avenger teve os mesmos problemas que a maioria das revistas no país. Mas, a editora soube lidar com os exemplares a mais, relançando-os, mantendo, assim, uma constância no material”, analisou o desenhista Daniel HDR, que nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
Eu já gostava de quadrinhos desde pequeno. Meu pai colecionava quadrinhos, mas tinha como profissão o trabalho de desenhista técnico e projetista. Inicialmente, tive o ímpeto do fã que gosta de se dedicar exclusivamente com isso, mas com as dificuldades do mercado brasileiro, levo essa atividade prazerosa, em paralelo com a de publicitário e professor universitário”, revelou.
Em seguida, Daniel HDR foi trabalhar nas editoras norte-americanas Dark Horse e Marvel Comics, onde passou a desenhar quadrinhos de super-heróis. “Atuar nesse mercado, para mim, tem a mesma importância de publicar em editoras daqui. O essencial, para um desenhista, é está lançando suas produções, o que é algo muito difícil hoje em dia, em meios convencionais. A internet tem se mostrado como uma boa alternativa para os autores iniciantes e experientes”, explicou.
Nesse período que esteve nos Estados Unidos, o artista fez a adaptação americana oficial do mangá de Digimon, que acabou sendo publicada no Japão. “Esse trabalho foi gratificante, pois me aproximou do traço oriental. Ele abriu para mim portas no mercado asiático, onde não havia atuado ainda”, relembrou.
Juntamente com Daniel HDR veio mais um representante do “mangá” nacional, Combo Rangers, criado pelo desenhista Fábio Yabu, nascido em 1979 na cidade de Santos, estado de São Paulo. Suas principais influências foram Osamu Tezuka, Jack Kirby, Walt Disney, Mauricio de Sousa e Stan Lee. Yabu não se considera um desenhista. “Eu sou um contador de histórias, um produtor de conteúdo. Não desenho todas as minhas obras, mas escrevo todas elas com muito prazer”, revelou Fábio Yabu.
Durante a entrevista, o artista contou como surgiu à idéia de criar um quadrinho on-line, os Combo Rangers. “Eles surgiram da minha vontade de trabalhar com meus próprios personagens, o meio on-line foi à forma que encontrei de distribuir meu conteúdo a um baixo custo. Minha inspiração para fazê-los partiu das histórias de seriados japoneses, animes e desenhos antigos como Superamigos”. Para transportar os Combo Rangers da Internet para a publicação pela JBC, Fábio Yabu teve que adaptá-la.
“Nesse projeto, eu tive que fazer uma criação totalmente nova, pois as histórias seguiam rumos diferentes. Então não houve muito problema, além de ter que recomeçar tudo do zero”. Em 2003, Combo Rangers passou a ser publicado pela Panini, onde foi encerrado no ano seguinte. Encerrando o nosso papo, Fábio Yabu fez uma análise do período em que sua obra foi lançada por aqui no Brasil.
“Foi um processo de evolução, como tudo na vida. Foram períodos distintos, dos quais me orgulho muito”. Recentemente, Fábio Yabu lançou o seu primeiro livro, Princesas do Mar - O Mundo de Salácia. Hoje em dia, o gibi nacional ainda tenta sobreviver às duras penas num mercado, que antes era dominado pelos quadrinhos americanos e hoje vive uma enxurrada de mangás nas bancas. Artistas como Mauricio de Sousa e Ziraldo, que vivem unicamente de quadrinhos, infelizmente, ainda é uma exceção. Se isso vai mudar, só vai depender do incentivo das editoras brasileiras a publicação de histórias em quadrinhos feitas por artistas nacionais.