sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Internet, o novo front da resistência palestina contra o sionismo


As páginas da bolsa de valores e do governo de Israel foram os alvos


Baby Siqueira Abrão, para o BRASILdeFATO
Correspondente no Oriente Médio

Eram 10 horas da manhã de segunda-feira, 16 de janeiro, quando dois portais importantes de Israel saíram do ar: o da bolsa de valores de Tel Aviv (Tel Aviv Stock Exchange, TASE) funcionava apenas parcialmente, antes de fechar de vez, e o da companhia aérea El Al, israelense, estava inacessível. Não foi por falta de aviso. No domingo, um grupo de hackers autodenominado “Pesadelo” ameaçou atacar ambos os portais. Dito e feito.
Um porta-voz da bolsa de valores israelense declarou que as operações financeiras não foram afetadas, uma vez que não estão conectadas ao portal. Já a El Al disse que esse tipo de ataque “já era esperado” e anunciou a tomada de medidas de segurança nas operações do site, segundo informou o jornalista Oded Yaron, do diário israelense Haaretz.
O ataque ocorre um dia depois de o Hamas, partido palestino que governa Gaza, parabenizar os piratas que andam invadindo sites israelenses e incentivar a prática. Em comunicado oficial, o porta-voz Sami Abu Zuhri declarou, numa coletiva de imprensa na faixa costeira palestina, que as invasões são “a abertura de um novo campo de resistência, a eletrônica, e o início de uma guerra virtual contra a ocupação que Israel impõe à Palestina".
Zuhri fez um apelo "aos povos palestino e árabe para que continuem com a guerra eletrônica, buscando maneiras de estimulá-la e desenvolvê-la".
O comunicado foi feito três dias depois de um grupo de ativistas de Gaza ter conseguido entrar no sistema eletrônico do serviço de resgate e combate ao fogo de Israel. Eles substituíram a página oficial por uma foto de Danny Ayalon, vice-ministro israelense das Relações Exteriores, cobriram seu rosto com pegadas e acrescentaram a frase “Morte a Israel”.
Depois que o grupo Anonymous invadiu o site do exército israelense, no final de 2011 – notícia pouco divulgada e não confirmada por fontes oficiais, que alegaram “problemas técnicos” para justificar o fato de o portal ter saído do ar –, outros hackers parecem ter se animado com a ideia. Desde o início de 2012, sites de bancos e instituições financeiras de Israel vêm sendo visitados por piratas eletrônicos que se identificam como moradores de países árabes.
No início do ano, hackers autodenominados Group XP invadiram um portal israelense de venda de produtos esportivos, www.one.co.il, capturando e divulgando os dados dos cartões de crédito de milhares de clientes. Nome, endereço, telefone e número da carteira de identidade dos titulares dos cartões foram publicados na internet, em dias intercalados, por dois hackers, que usam o codinome “Ox-Omar” e “X”, declaram-se sauditas e garantem ter informações pessoais de 1 milhão de usuários de cartões de crédito em Israel.
Enquanto bancos e operadoras procuravam minimizar o problema e suspender as operações com os cartões pirateados, o vice-ministro Danny Ayalon vinha a público dizer que os ataques constituíam “uma violação à soberania israelense”, que eram comparáveis a “atos terroristas” e que seriam tratados como tais.
A resposta veio de imediato: o Group XP tirou do ar a página eletrônica do vice-ministro e prometeu intensificar a ciberguerra contra Israel, “pelos crimes cometidos contra o povo palestino”. Os hackers X e Ox-Omar desafiaram Ayalon em público: “Vocês nunca vão nos encontrar”.
Danny Ayalon é o segundo homem do ministério comandado por Avigdor Lieberman, um dos líderes da extrema-direita israelense e fundador do partido ultranacionalista Yisrael Beitenu. Lieberman, cuja posição contra a constituição do Estado da Palestina é bem conhecida, mora numa colônia ilegal construída por Israel em terras confiscadas ao povo palestino.

E a força-tarefa?

Os ataques tornam patente uma verdade que o governo israelense não quer assumir: a força-tarefa contra ciberataques, anunciada em maio de 2011 pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e que devia ter começado a operar na primeira semana de 2012, não existe. Oficialmente, o governo declara que cuidar de cartões de crédito e de interesses privados não é o objetivo do grupo, e que Eviatar Matanya, o diretor de operações, já iniciou o trabalho de “criar e estruturar” a força-tarefa. Mas recusa-se, “por razões de segurança”, a revelar a verba destinada a estruturá-la.
Na verdade, de acordo com uma fonte não oficial ligada às forças de segurança israelenses, essa verba também não existe. A força-tarefa não conta com “verba, pessoal, jurisdição nem com seu diretor de operações predileto [o general da reserva Yair Cohen, ex-chefe da central militar de inteligência], que se recusou a aceitar o posto ao saber que não teria recursos para o trabalho”, escreveu Anshel Pfeffer, jornalista do Haaretz, em 4 de janeiro, dia em que o grupo deveria ter iniciado suas atividades.
No lançamento do programa, há oito meses, Netanyhau declarou, numa entrevista coletiva à mídia, que aceitara as recomendações de uma equipe de oito especialistas, capitaneados pelo general da reserva Isaac Ben-Israel, para formar um grupo de defesa contra ciberataques “que podem paralisar os sistemas que mantêm o país em funcionamento. Eletricidade, cartões de crédito, água, transportes, semáforos, tudo é computadorizado e portanto suscetível a ataques”. Repare o leitor que o primeiro-ministro incluiu os cartões de crédito na relação de sistemas a receber atenção da força-tarefa.
A mesma fonte não oficial afirma que, embora a necessidade da criação do cibergrupo exista, “há órgãos que não desejam ajudá-lo, e ninguém realmente apoiou o projeto ou se esforçou para viabilizá-lo”.
O pessoal do exército treinado para lidar com o cibermundo dedica-se somente à inteligência militar. “A segurança das redes de infraestrutura vital, como eletricidade e água, está nas mãos da Autoridade Nacional de Informação em Segurança [NISA], uma unidade do Shin Bet”, informa Pfeffer. “O Conselho Nacional de Segurança decide quais sistemas de companhias civis devem ser protegidos pela NISA, mas, como algumas delas, incluindo bancos, operadoras de telefone celular e de internet se opõem a isso, a legislação concernente à segurança dessas empresas foi posta de lado.”

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Raul Pont fala sobre a história do jornal Em Tempo

Entrevista: Raul Pont fala sobre a história do jornal Em Tempo

Deputado Estadual e Presidente do PT/RS
1 - Em uma época de censura (imposta ou voluntária) nos grandes veículos de comunicação do país, o papel de denúncia das atrocidades do regime militar e da divulgação de ideologias contrárias à do regime coube aos jornais alternativos. Como você vê a importância desses veículos para a esquerda brasileira naquele momento? 
 A partir de 68, com o AI nº 5, o regime, que já era autoritário, tornou-se mais arbitrário e ditatorial em relação à sociedade, ao Congresso, que já era uma farsa consentida, e aos meios de comunicação. A autocensura já existia pela cumplicidade dos meios com o regime. Com o fim das garantias individuais e do hábeas corpus, a situação piorou. Jornais eram suspensos, circulavam com grandes tarjas pretas, matérias inteiras eram substituídas por receitas de bolo, etc. Sobreviviam boletins e panfletos de pequenos grupos de resistência, dos partidos clandestinos. Todos de pequena tiragem, de curto alcance e circulação dirigida.
No final de 1972, buscando romper a censura da ditadura e a cumplicidade dos grandes, surgiu o Jornal Opinião, primeiro alternativo a ir para as bancas em escala nacional.  Havia jornais de bairro de pequeno alcance, não clandestinos, tratando de reivindicações e de temas das comunidades que não sofriam um controle diretamente e eram permitidos por seu pequeno alcance.
O Opinião expressava uma parcela do MDB mais autêntica e com vínculos empresariais, como um de seus mentores, Fernando Gasparian. Contava com jornalistas combativos(as) como Raimundo Pereira e intelectuais e professores(as) universitários(as) cassados como Fernando Henrique Cardoso e outros que atuavam no CEBRAP em São Paulo. O jornal tinha uma ligação editorial com o Le Monde para a cobertura internacional e estimulou a organização de grupos de apoio nos principais Estados. Espécie de sucursais para difusão, organização de apoiadores. 
Ao sair da prisão, em dezembro de 72, encontrar o Opinião nas bancas foi um grande alento. Enfim, algo para ler. Com toda a censura de tarjas e recortes.O Opinião tinha, também, limites editoriais por sua composição e sustentadores. Mantinha viva a luta democrática, trazia fatos extremos que, por analogia, criticavam o regime e informavam um pouco mais que os jornalões das grandes capitais. Mais tarde, surgiu o Movimento, com Raimundo Pereira de editor. Mais ousado, mais popular. Menos tijolos de análise e mais notícias do povo, de estudantes e alguns sindicatos se mexendo e apontando novidades.
A derrota eleitoral da Arena em 1974 foi uma virada. O voto era contra a Arena, contra o governo. Na ausência de outra alternativa, o protesto desembocou no MDB e começaram a surgir novas lideranças mais combativas nas Assembléias, nas Câmaras Municipais e no Congresso. As entrevistas e as opiniões de vereadores(as) e deputados(as) esquentavam matérias e repercutiam acontecimentos.
A linha do Movimento mais ousada e popular procurava assentar-se em setores do MDB que defendiam posições democráticas e nacionalistas, buscava alargar divergências que começavam a aparecer no meio militar, entre “duros” e “legalistas” e setores submissos ao imperialismo e outros mais “nacionalistas”.
O jornal expressava a visão clássica da esquerda de apoio aos “setores progressistas” da burguesia e aos “nacionalistas” das forças armadas e de um discurso anti-imperialista vago e não classista. 
O jornal teve um destaque e um papel importantíssimo nesse período. Estimulou sucursais e buscava apoiadores de forma mais orgânica e popular que o Opinião. As sucursais não eram monolíticas e coesas em torno de um único projeto editorial e esse debate foi crescendo e revelando fissuras até que uma cisão no Movimento criou as condições para o nascimento do EM TEMPO.
2 – Durante os anos 70 foram fundados dezenas de jornais alternativos no país. Quando surgiu a ideia da criação do “Em Tempo” e qual a diferença desse jornal em relação aos outros?
 Como já falei, em todas as capitais e regiões do país ocorreram iniciativas locais e/ou regionais de impressos alternativos de associações de bairro ou de pequenos grupos que usavam entidades ou associações como fachada para jornais de reivindicação ou de denúncias e que, aos poucos, adquiriram uma feição mais opinativa, mais política. As grandes experiências, no entanto, de caráter nacional, foram o Opinião,  o Movimento e  o EM TEMPO que, deliberadamente, buscavam ser nacionais. O Versus também cumpriu esse papel. Nasceu como um jornal de Cultura e difusão da América Latina com literatura, música, teatro, numa perspectiva de esquerda, crítica. Mais tarde, transformou-se num jornal mais de organização política com o controle editorial do jornal pela Corrente Convergência Socialista. Na primeira fase, seu principal editor era o jornalista Marcos Faerman. O Versus teve também caráter nacional.
Outro grande projeto regional foi o Coojornal, de uma Cooperativa de Jornalistas de Porto Alegre que constitui-se como editora, jornal e prestação de serviços jornalísticos e de publicidade. Manteve o jornal com grande qualidade jornalística, grandes reportagens e foi uma das mais ricas experiências de imprensa alternativa. Apesar de regional era reproduzida como fonte na grande imprensa e teve repercussão nacional.
O EM TEMPO nasceu como uma Cooperativa Jornalística. Nasceu de uma ruptura de pessoas que colaboravam com o Movimento, mas tinham divergências de linha editorial e da forma de funcionamento desse projeto. Defendiam um jornal que lutasse pela democracia, mas que já o fizesse numa perspectiva socialista, privilegiando a cobertura das lutas sindicais, da denúncia do caráter capitalista da ditadura, da propaganda ideológica do socialismo, da incorporação de temas novos e polêmicos como o feminismo, o combate ao racismo, a disputa ideológica via a cultura etc... As principais sucursais que deram origem ao EM TEMPO foram as de Minas Gerais e São Paulo, logo reforçadas pelas sucursais do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. A ideia era de uma Cooperativa de Jornalistas, com sócios que entravam com recursos (cotas) e que, além disso, comprometiam-se de viabilizar o jornal com trabalho voluntário, militante. Havia também a categoria de sócios apoiadores(as), que comprava cotas, mas não tinha o mesmo direito de decisão daqueles(as) que militavam na sustentação do projeto.
O projeto era inovador, democrático, mas tinha pouca coesão programática e muito amadorismo administrativo. Como o jornal era uma grande frente jornalística, em cada sucursal já havia grupos pré organizados ou com pretensão de se organizar e todos(as) tinham uma visão programática de ter no projeto um instrumento de crescimento nacional.
Como o jornal nasceu quase junto com o Movimento pró PT e em seu interior essa proposta não era unânime, rapidamente as divergências sobre esse tema afloraram. O debate se era oportuno ou não o Movimento pró PT; se o jornal não deveria manter equidistância dos projetos partidários; a defesa de outros projetos na reorganização partidária que iniciava etc. Essa disputa quase inviabilizou o projeto que só sobreviveu quando unificou uma linha editorial pró PT e com a saída de vários(as) fundadores(as) e o fechamento de sucursais. 
Na defesa do Movimento pró PT, o EM TEMPO ainda manteve um caráter de frente em torno desse projeto. Mas, aos poucos, a sobrevivência e a manutenção do jornal foi recaindo em torno de algumas sucursais com mais coesão política, com maior identidade. Daí é que nasceu o ORM-DS (Organização Revolucionária Marxista – Democracia Socialista). Na defesa do projeto jornalístico e na identificação da construção partidária em torno do Movimento pró PT.
A identidade entre os grupos que sustentavam as sucursais do RS, MG e São Paulo é que determinou a sobrevivência do jornal e a organização da DS, movimento que não se reconhecia como UM PARTIDO mas que queria ser parte da construção de um partido classista, um PARTIDO DOS TRABALHADORES. A identidade de um movimento estudantil (PELEIA, CENTELHA), a identidade do movimento sindical e a compreensão do papel de luta democrática para o socialismo foram elementos centrais da construção da DS, bem como sua visão internacionalista do combate ao capitalismo mundial.
3 – Um dos episódios mais conhecidos da história do jornal foi a divulgação de uma lista com o nome de 233 torturadores, em 1978. Essa edição, que voltou a ter destaque recentemente, por conta da divulgação dos arquivos de Luis Carlos Prestes, foi a de maior repercussão do jornal e atraiu a ira de grupos de direita, que inclusive promoveram ataques às sucursais do “Em Tempo”. Como foi a decisão de fazer a divulgação dessa lista? A reação dos grupos de direita foi maior do que a esperada? 
A denúncia do sistema, das torturas, das condições em que viviam os(as) presos(as) políticos e como eram tratados(as) estava no objeto editorial do EM TEMPO. Essa edição teve uma repercussão enorme. As listas foram elaboradas por presos(as) políticos(as), pela movimentação pela anistia e por setores da Igreja que em São Paulo dedicavam-se a levantar e organizar os dados, as informações. No Rio Grande do Sul, conforme íamos colocando nas Bancas, em breve chegava a polícia para recolher. Mudamos de tática, não deixamos nada na sucursal que foi invadida na busca dos jornais. Transformou-se num fato político com repercussão pública, na Assembleia Legislativa etc. Pedro Simon, presidente do MDB gaúcho, foi à sucursal para prestar solidariedade, enfim, cumprimos o papel de denúncia. Foi a edição de mais tiragem e mais vendagem da história do EM TEMPO. Como a conjuntura já era outra, apesar da truculência, da invasão nas sucursais, não houve prisões nem fechamento definitivo do jornal.
4 – Durante seus principais momentos, quantos colaboradores e quantas sucursais chegou a ter o jornal?
O jornal contava com uma equipe em São Paulo, responsável maior pela edição, onde a maior parte era trabalho militante, voluntário. Foi decisivo para o jornal circular  a vinda dos(as) companheiros(as) de Minas Gerais, onde estava o grupo mais organizado e preparado para tocar o jornal. As primeiras edições estiveram sob a direção do Bernardo Kucinski. Para garantir a primeira fase do jornal, o papel do Flavio Andrade, do Nadai, que estavam na editora e gráfica que tirava o jornal de Pinheiros, foi decisivo.
A frente jornalística resistiu pouco tempo e se dependesse da maioria o EM TEMPO teria fechado. Foi a resistência e recusa da minoria em manter o EM TEMPO que garantiu sua sobrevivência. Nesse momento, a identidade entre as sucursais de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo foi decisiva. Mas, o jornal teve que mudar sua periodicidade, a definição pelo movimento pró PT restringiu seu alcance, diminuíram as sucursais, mas, voltamos a crescer com o crescimento do movimento pró PT.
Não tenho dados de cada sucursal, mas no Rio Grande do Sul tínhamos entre contribuintes e apoiadores umas cento e cinquenta pessoas e trabalhando na sucursal, todos voluntários, umas vinte, vinte cinco pessoas para distribuir o jornal, vender assinaturas, discutir e elaborar matérias regionais e fazer a difusão do Projeto. No nosso caso a frente também foi ampla, mas a definição pelo projeto PT fez com que perdêssemos pessoas. Alguns foram para o projeto do PDT como a Dilma, o Araujo e outros companheiros(as). Outros(as) foram para o PMDB, em menor número. Os(as) que ficaram, ingressaram no PT e a maioria na sua corrente interna, a Democracia Socialista – DS. Já vínhamos de um trabalho organizado no movimento estudantil, no setor jovem e na Tendência Socialista do MDB e isso facilitou nossa coesão em torno do projeto. 
5 – Diferente da maioria das publicações alternativas daquela época, o “Em Tempo” continuou sua história e deu origem à Democracia Socialista. Como foi o processo de transição do jornal para a construção de um grupo político? Qual a importância do jornal para a construção programática do movimento pró-PT?
 Para a Democracia Socialista, o EM TEMPO cumpriu o papel clássico do jornal – organizador partidário. Sua periodicidade, sua distribuição, sustentação e o debate de sua linha editorial organizaram a corrente. Já tínhamos uma identidade entre o Peleia (RS) e o Centelha (MG), assim como referências históricas e programáticas das experiências da DRM – Política Operária e o POC, assim como, fortes referências da obra do Mandel e do Trotsky.
A identificação do editorial com o Movimento pró PT, fez do EM TEMPO, assim como outros jornais de grupos que também assumiram o PT (Companheiro, Trabalho, Versus – na fase de controle da Convergência Socialista), um organizador da corrente DS como tendência interna do PT.
Desde o primeiro momento, sempre víamos o PT como um Partido e não como uma frente eleitoral ou frente política, algo tático para lá na frente romper ou sair maior do que havia entrado. Combatemos as visões e sempre defendemos a construção de PT como Partido, mas com direito de tendência, com direito das correntes internas serem reconhecidas e respeitadas em seu tamanho e com proporcionalidade nas direções partidárias.
Nossa corrente, a DS, cumpriu e cumpre um papel relevante na construção do PT por sua visão estratégica socialista, sua visão sobre o papel da luta democrática na construção do socialismo e na forma como construímos a democracia petista em seus estatutos e organização.
6 – Com o fim da ditadura militar, começamos a perceber o aparecimento de uma espécie de “ditadura midiática”, que durante anos foi a grande responsável pela disseminação do chamado “pensamento único” na sociedade brasileira. Nos últimos anos, o aparecimento das novas tecnologias de comunicação, com destaque para os blogs e para as redes sociais, fez surgir a possibilidade de se fazer um contraponto ao poder da grande mídia. Na sua opinião, qual a importância desses veículos alternativos no contexto atual da nossa sociedade? 
No Brasil, a forma como foram distribuídas as concessões públicas de rádio e TV constituiu grandes monopólios familiares, o que, num país desta dimensão, fortaleceu oligarquias regionais e os interesses do grande capital. Assim, os “donos” da mídia exerceram durante décadas um poder superior ao de decidir o que publicar: a decisão do que não será publicado, tornando invisíveis e inaudíveis as opiniões divergentes, os movimentos e os partidos de esquerda. Ainda hoje muito deste poder se mantém. 
O surgimento da internet já no início da década de 90, sua massificação na década atual, nos propiciam um conjunto de ferramentas que nos permitem desenvolver “uma outra comunicação possível”. O papel que os blogs e as redes sociais vêm desenvolvendo hoje vai muito além de um mero espaço informativo. Têm se revelado num potente instrumento de mobilização, debate e reflexão seja através de um vídeo, um artigo ou numa síntese de 140 caracteres. Neste cenário, os movimentos sociais, os partidos de esquerda ganham capacidade de fazer o contraponto imediato à mídia tradicional, um contraponto que não se limita mais à tiragem de um boletim ou de um panfleto, mas que se expande numa verdadeira conexão global. São exemplos disso a Primavera dos Povos Árabe o movimento por democracia real já, na Espanha.
Daí a importância dos investimentos que garantam a expansão da banda larga gratuita de qualidade a todas as regiões do país, com pontos de acesso público (lan houses, telecentros e pontos de cultura). Iniciativas como estas, somadas a um novo marco regulatório da mídia, se traduzem na possibilidade Nossa corrente política tem o desafio de se fazer presente neste novo cotidiano digital. Isso significa lançar mão de todas as ferramentas e canais de comunicação que as redes sociais colocam à nossa disposição. Temos que ter a capacidade de traduzir nossa reflexão política e programática na linguagem própria destes novos meios, sem abdicar do conteúdo que sempre nos diferenciou. Ao mesmo tempo em que entramos com força nesse ambiente virtual temos o desafio de manter uma comunicação impressa com uma periodicidade mais larga, dentro da compreensão de que ainda há muito que avançar em termos de inclusão digital.
Entre os dias 21 e 22 de janeiro, a DS realiza seu primeiro Ativo Nacional de Comunicação. Como somos uma corrente que nascemos de um veículo de comunicação, o jornal Em Tempo, nada melhor do que revisar a história desse jornal no momento que a tendência se reúne para atualizar sua política de comunicação. 
Pensando nisso, fizemos, por email, uma entrevista com o companheiro Raul Pont, onde ele conta um pouco da história desse jornal e debate a atualidade da comunicação na sociedade brasileira, após o advento dos novos meios de comunicação.
Nesta entrevista, o atual Deputado Estadual e presidente do PT gaúcho, conta como nasceu a ideia da fundação do jornal, os atritos com a cencura do regime militar e a evolução do jornal na formação de um grupo político, entre outros temas, em um importante relato histórico para a nova geração de militantes da DS.  

Portal DS: Em uma época de censura (imposta ou voluntária) nos grandes veículos de comunicação do país, o papel de denúncia das atrocidades do regime militar e da divulgação de ideologias contrárias à do regime coube aos jornais alternativos. Como você vê a importância desses veículos para a esquerda brasileira naquele momento? 
Raul Pont: A partir de 68, com o AI nº 5, o regime, que já era autoritário, tornou-se mais arbitrário e ditatorial em relação à sociedade, ao Congresso, que já era uma farsa consentida, e aos meios de comunicação. A autocensura já existia pela cumplicidade dos meios com o regime. Com o fim das garantias individuais e do hábeas corpus, a situação piorou. Jornais eram suspensos, circulavam com grandes tarjas pretas, matérias inteiras eram substituídas por receitas de bolo, etc. Sobreviviam boletins e panfletos de pequenos grupos de resistência, dos partidos clandestinos. Todos de pequena tiragem, de curto alcance e circulação dirigida.
No final de 1972, buscando romper a censura da ditadura e a cumplicidade dos grandes, surgiu o Jornal Opinião, primeiro alternativo a ir para as bancas em escala nacional.  Havia jornais de bairro de pequeno alcance, não clandestinos, tratando de reivindicações e de temas das comunidades que não sofriam um controle diretamente e eram permitidos por seu pequeno alcance.
O Opinião expressava uma parcela do MDB mais autêntica e com vínculos empresariais, como um de seus mentores, Fernando Gasparian. Contava com jornalistas combativos(as) como Raimundo Pereira e intelectuais e professores(as) universitários(as) cassados como Fernando Henrique Cardoso e outros que atuavam no CEBRAP em São Paulo. O jornal tinha uma ligação editorial com o Le Monde para a cobertura internacional e estimulou a organização de grupos de apoio nos principais Estados. Espécie de sucursais para difusão, organização de apoiadores. 
Ao sair da prisão, em dezembro de 72, encontrar o Opinião nas bancas foi um grande alento. Enfim, algo para ler. Com toda a censura de tarjas e recortes.O Opinião tinha, também, limites editoriais por sua composição e sustentadores. Mantinha viva a luta democrática, trazia fatos extremos que, por analogia, criticavam o regime e informavam um pouco mais que os jornalões das grandes capitais. Mais tarde, surgiu o Movimento, com Raimundo Pereira de editor. Mais ousado, mais popular. Menos tijolos de análise e mais notícias do povo, de estudantes e alguns sindicatos se mexendo e apontando novidades.
A derrota eleitoral da Arena em 1974 foi uma virada. O voto era contra a Arena, contra o governo. Na ausência de outra alternativa, o protesto desembocou no MDB e começaram a surgir novas lideranças mais combativas nas Assembléias, nas Câmaras Municipais e no Congresso. As entrevistas e as opiniões de vereadores(as) e deputados(as) esquentavam matérias e repercutiam acontecimentos.
A linha do Movimento mais ousada e popular procurava assentar-se em setores do MDB que defendiam posições democráticas e nacionalistas, buscava alargar divergências que começavam a aparecer no meio militar, entre “duros” e “legalistas” e setores submissos ao imperialismo e outros mais “nacionalistas”.
O jornal expressava a visão clássica da esquerda de apoio aos “setores progressistas” da burguesia e aos “nacionalistas” das forças armadas e de um discurso anti-imperialista vago e não classista. 
O jornal teve um destaque e um papel importantíssimo nesse período. Estimulou sucursais e buscava apoiadores de forma mais orgânica e popular que o Opinião. As sucursais não eram monolíticas e coesas em torno de um único projeto editorial e esse debate foi crescendo e revelando fissuras até que uma cisão no Movimento criou as condições para o nascimento do EM TEMPO.

Portal DS: Durante os anos 70 foram fundados dezenas de jornais alternativos no país. Qual eram as principais diferenças do Em Tempo em relação aos outros?
Raul Pont: Como já falei, em todas as capitais e regiões do país ocorreram iniciativas locais e/ou regionais de impressos alternativos de associações de bairro ou de pequenos grupos que usavam entidades ou associações como fachada para jornais de reivindicação ou de denúncias e que, aos poucos, adquiriram uma feição mais opinativa, mais política. As grandes experiências, no entanto, de caráter nacional, foram o Opinião,  o Movimento e  o EM TEMPO que, deliberadamente, buscavam ser nacionais.
O Versus também cumpriu esse papel. Nasceu como um jornal de Cultura e difusão da América Latina com literatura, música, teatro, numa perspectiva de esquerda, crítica. Mais tarde, transformou-se num jornal mais de organização política com o controle editorial do jornal pela Corrente Convergência Socialista. Na primeira fase, seu principal editor era o jornalista Marcos Faerman. O Versus teve também caráter nacional.
Outro grande projeto regional foi o Coojornal, de uma Cooperativa de Jornalistas de Porto Alegre que constitui-se como editora, jornal e prestação de serviços jornalísticos e de publicidade. Manteve o jornal com grande qualidade jornalística, grandes reportagens e foi uma das mais ricas experiências de imprensa alternativa. Apesar de regional era reproduzida como fonte na grande imprensa e teve repercussão nacional.
O EM TEMPO nasceu como uma Cooperativa Jornalística. Nasceu de uma ruptura de pessoas que colaboravam com o Movimento, mas tinham divergências de linha editorial e da forma de funcionamento desse projeto. Defendiam um jornal que lutasse pela democracia, mas que já o fizesse numa perspectiva socialista, privilegiando a cobertura das lutas sindicais, da denúncia do caráter capitalista da ditadura, da propaganda ideológica do socialismo, da incorporação de temas novos e polêmicos como o feminismo, o combate ao racismo, a disputa ideológica via a cultura etc... As principais sucursais que deram origem ao EM TEMPO foram as de Minas Gerais e São Paulo, logo reforçadas pelas sucursais do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. A ideia era de uma Cooperativa de Jornalistas, com sócios que entravam com recursos (cotas) e que, além disso, comprometiam-se de viabilizar o jornal com trabalho voluntário, militante. Havia também a categoria de sócios apoiadores(as), que comprava cotas, mas não tinha o mesmo direito de decisão daqueles(as) que militavam na sustentação do projeto.
O projeto era inovador, democrático, mas tinha pouca coesão programática e muito amadorismo administrativo. Como o jornal era uma grande frente jornalística, em cada sucursal já havia grupos pré organizados ou com pretensão de se organizar e todos(as) tinham uma visão programática de ter no projeto um instrumento de crescimento nacional.
Como o jornal nasceu quase junto com o Movimento pró PT e em seu interior essa proposta não era unânime, rapidamente as divergências sobre esse tema afloraram. O debate se era oportuno ou não o Movimento pró PT; se o jornal não deveria manter equidistância dos projetos partidários; a defesa de outros projetos na reorganização partidária que iniciava etc. Essa disputa quase inviabilizou o projeto que só sobreviveu quando unificou uma linha editorial pró PT e com a saída de vários(as) fundadores(as) e o fechamento de sucursais. 
Na defesa do Movimento pró PT, o EM TEMPO ainda manteve um caráter de frente em torno desse projeto. Mas, aos poucos, a sobrevivência e a manutenção do jornal foi recaindo em torno de algumas sucursais com mais coesão política, com maior identidade. Daí é que nasceu o ORM-DS (Organização Revolucionária Marxista – Democracia Socialista). Na defesa do projeto jornalístico e na identificação da construção partidária em torno do Movimento pró PT.
A identidade entre os grupos que sustentavam as sucursais do RS, MG e São Paulo é que determinou a sobrevivência do jornal e a organização da DS, movimento que não se reconhecia como UM PARTIDO mas que queria ser parte da construção de um partido classista, um PARTIDO DOS TRABALHADORES. A identidade de um movimento estudantil (PELEIA, CENTELHA), a identidade do movimento sindical e a compreensão do papel de luta democrática para o socialismo foram elementos centrais da construção da DS, bem como sua visão internacionalista do combate ao capitalismo mundial.

Portal DS: Um dos episódios mais conhecidos da história do jornal foi a divulgação de uma lista com o nome de 233 torturadores, em 1978. Essa edição, que voltou a ter destaque recentemente, por conta da divulgação dos arquivos de Luis Carlos Prestes, foi a de maior repercussão do jornal e atraiu a ira de grupos de direita, que inclusive promoveram ataques às sucursais do “Em Tempo”. Como foi a decisão de fazer a divulgação dessa lista? A reação dos grupos de direita foi maior do que a esperada? 
Raul Pont: A denúncia do sistema, das torturas, das condições em que viviam os(as) presos(as) políticos e como eram tratados(as) estava no objeto editorial do EM TEMPO. Essa edição teve uma repercussão enorme. As listas foram elaboradas por presos(as) políticos(as), pela movimentação pela anistia e por setores da Igreja que em São Paulo dedicavam-se a levantar e organizar os dados, as informações.
No Rio Grande do Sul, conforme íamos colocando nas Bancas, em breve chegava a polícia para recolher. Mudamos de tática, não deixamos nada na sucursal que foi invadida na busca dos jornais. Transformou-se num fato político com repercussão pública, na Assembleia Legislativa etc. Pedro Simon, presidente do MDB gaúcho, foi à sucursal para prestar solidariedade, enfim, cumprimos o papel de denúncia. Foi a edição de mais tiragem e mais vendagem da história do EM TEMPO. Como a conjuntura já era outra, apesar da truculência, da invasão nas sucursais, não houve prisões nem fechamento definitivo do jornal.

Portal DS: Durante seus principais momentos, quantos colaboradores e quantas sucursais chegou a ter o jornal?
Raul Pont: O jornal contava com uma equipe em São Paulo, responsável maior pela edição, onde a maior parte era trabalho militante, voluntário. Foi decisivo para o jornal circular  a vinda dos(as) companheiros(as) de Minas Gerais, onde estava o grupo mais organizado e preparado para tocar o jornal. As primeiras edições estiveram sob a direção do Bernardo Kucinski. Para garantir a primeira fase do jornal, o papel do Flavio Andrade, do Nadai, que estavam na editora e gráfica que tirava o jornal de Pinheiros, foi decisivo.
A frente jornalística resistiu pouco tempo e se dependesse da maioria o EM TEMPO teria fechado. Foi a resistência e recusa da minoria em manter o EM TEMPO que garantiu sua sobrevivência. Nesse momento, a identidade entre as sucursais de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo foi decisiva. Mas, o jornal teve que mudar sua periodicidade, a definição pelo movimento pró PT restringiu seu alcance, diminuíram as sucursais, mas, voltamos a crescer com o crescimento do movimento pró PT.
Não tenho dados de cada sucursal, mas no Rio Grande do Sul tínhamos entre contribuintes e apoiadores umas cento e cinquenta pessoas e trabalhando na sucursal, todos voluntários, umas vinte, vinte cinco pessoas para distribuir o jornal, vender assinaturas, discutir e elaborar matérias regionais e fazer a difusão do Projeto. No nosso caso a frente também foi ampla, mas a definição pelo projeto PT fez com que perdêssemos pessoas. Alguns foram para o projeto do PDT como a Dilma, o Araujo e outros companheiros(as). Outros(as) foram para o PMDB, em menor número. Os(as) que ficaram, ingressaram no PT e a maioria na sua corrente interna, a Democracia Socialista – DS. Já vínhamos de um trabalho organizado no movimento estudantil, no setor jovem e na Tendência Socialista do MDB e isso facilitou nossa coesão em torno do projeto. 

Portal DS: Diferente da maioria das publicações alternativas daquela época, o “Em Tempo” continuou sua história e deu origem à Democracia Socialista. Como foi o processo de transição do jornal para a construção de um grupo político? Qual a importância do jornal para a construção programática do movimento pró-PT?
Raul Pont: Para a Democracia Socialista, o EM TEMPO cumpriu o papel clássico do jornal – organizador partidário. Sua periodicidade, sua distribuição, sustentação e o debate de sua linha editorial organizaram a corrente. Já tínhamos uma identidade entre o Peleia (RS) e o Centelha (MG), assim como referências históricas e programáticas das experiências da DRM – Política Operária e o POC, assim como, fortes referências da obra do Mandel e do Trotsky.
A identificação do editorial com o Movimento pró PT, fez do EM TEMPO, assim como outros jornais de grupos que também assumiram o PT (Companheiro, Trabalho, Versus – na fase de controle da Convergência Socialista), um organizador da corrente DS como tendência interna do PT.
Desde o primeiro momento, sempre víamos o PT como um Partido e não como uma frente eleitoral ou frente política, algo tático para lá na frente romper ou sair maior do que havia entrado. Combatemos as visões e sempre defendemos a construção de PT como Partido, mas com direito de tendência, com direito das correntes internas serem reconhecidas e respeitadas em seu tamanho e com proporcionalidade nas direções partidárias.
Nossa corrente, a DS, cumpriu e cumpre um papel relevante na construção do PT por sua visão estratégica socialista, sua visão sobre o papel da luta democrática na construção do socialismo e na forma como construímos a democracia petista em seus estatutos e organização.

Portal DS: Com o fim da ditadura militar, começamos a perceber o aparecimento de uma espécie de “ditadura midiática”, que durante anos foi a grande responsável pela disseminação do chamado “pensamento único” na sociedade brasileira. Nos últimos anos, o aparecimento das novas tecnologias de comunicação, com destaque para os blogs e para as redes sociais, fez surgir a possibilidade de se fazer um contraponto ao poder da grande mídia. Na sua opinião, qual a importância desses veículos alternativos no contexto atual da nossa sociedade? 
Raul Pont: No Brasil, a forma como foram distribuídas as concessões públicas de rádio e TV constituiu grandes monopólios familiares, o que, num país desta dimensão, fortaleceu oligarquias regionais e os interesses do grande capital. Assim, os “donos” da mídia exerceram durante décadas um poder superior ao de decidir o que publicar: a decisão do que não será publicado, tornando invisíveis e inaudíveis as opiniões divergentes, os movimentos e os partidos de esquerda. Ainda hoje muito deste poder se mantém. 
O surgimento da internet já no início da década de 90, sua massificação na década atual, nos propiciam um conjunto de ferramentas que nos permitem desenvolver “uma outra comunicação possível”. O papel que os blogs e as redes sociais vêm desenvolvendo hoje vai muito além de um mero espaço informativo. Têm se revelado num potente instrumento de mobilização, debate e reflexão seja através de um vídeo, um artigo ou numa síntese de 140 caracteres. Neste cenário, os movimentos sociais, os partidos de esquerda ganham capacidade de fazer o contraponto imediato à mídia tradicional, um contraponto que não se limita mais à tiragem de um boletim ou de um panfleto, mas que se expande numa verdadeira conexão global. São exemplos disso a Primavera dos Povos Árabe o movimento por democracia real já, na Espanha.
Daí a importância dos investimentos que garantam a expansão da banda larga gratuita de qualidade a todas as regiões do país, com pontos de acesso público (lan houses, telecentros e pontos de cultura). Iniciativas como estas, somadas a um novo marco regulatório da mídia, se traduzem na possibilidade concreta de democratização da comunicação no Brasil.

Portal DS: Na sua opinião, quais os principais desafios da DS na adaptação de sua comunicação aos novos tempos?
Raul Pont: Nossa corrente política tem o desafio de se fazer presente neste novo cotidiano digital. Isso significa lançar mão de todas as ferramentas e canais de comunicação que as redes sociais colocam à nossa disposição. Temos que ter a capacidade de traduzir nossa reflexão política e programática na linguagem própria destes novos meios, sem abdicar do conteúdo que sempre nos diferenciou. Ao mesmo tempo em que entramos com força nesse ambiente virtual temos o desafio de manter uma comunicação impressa com uma periodicidade mais larga, dentro da compreensão de que ainda há muito que avançar em termos de inclusão digital.

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Îvîtu-Yepivu mental(1)

Iara Borges Aragonez por email

Em férias!!! 
Entretanto, a dinâmica da vida recoloca questões relacionadas ao cotidiano laboral, por mais distantes que estejam do bom e restaurador ócio.
Digo isso frente a algumas situações ocorridas, as quais vêm instigando algumas reflexões acerca dos debates e formulações dos últimos meses no contexto da reestruturação do ensino médio no RS. Cito algumas.
 
Episódio um: Navio encalhado, avariado, quebra ao meio (isso depois de muitos acontecimentos), afunda e joga coisas ao mar, dentre elas, containers com carne, fazendo com que tubarões se aproximem da praia e, portanto, dos banhistas; óleo ao mar e inúmeras espécies da fauna marítima atingidas fatalmente; mais de 600 containers ainda vagando ao mar, sendo que alguns com carga não sabida; economia em suspense frente ao impacto dos acontecimentos, pois, o lugar é, sobretudo, turístico. Episódio dois: bactéria atinge grande parte dos parreirais da região, em conseqüência da importação de pólen, podendo comprometer em mais de 25% as exportações do produto, além de comprometer definitivamente a produção de uma variedade em particular. Episódio três: chuvas e ventos ininterruptos nesse verão, incluindo, em uma região mais distante, neve. Segundo informações locais, condições climáticas nunca antes vistas nesse período. Episódio quatro: Eu, no convívio com muitos jovens, ouvindo as suas leituras e interpretações sobre os fatos elencados (dentre outros, menos recentes), impactada com as diferentes e originais visões expressas, reflito.... Episódio quatro: Eu, pessoa que sou, conectada na internet, sigo recebendo artigos desconstituindo (generosamente falando) a reestruturação do ensino médio no nosso querido Rio Grande do Sul e, assim, sigo refletindo...
 
E então, o que uma coisa tem a ver com a outra?
O fato é que tem muito a ver, a ponto de me transportar, nesse período, para o debate no RS e aguçar a minha convicção sobre a relevância das mudanças em curso, impulsionando-me a escrever a respeito. E, nesse contexto, vem em minha mente, dentre muitas falas do nosso Secretário da Educação, José Clóvis de Azevedo, demonstrando com uma garrafa com água, uma frase muito interessante e sábia: “A realidade é interdisciplinar”. Valho-me dessa afirmação e olho para os fenômenos em pauta. Toco a biologia, a geografia, a matemática, a
 
história, a cultura, a ecologia, a sociologia, a agricultura, o futuro, o trabalho. Impossível tratar de um acontecimento sem tratar do outro e pensar essa realidade sem pensar nas diferentes áreas do conhecimento e suas disciplinas e a partir delas repensar os acontecimentos, suas inter-relações e conexões.
 
Aqui, nesse momento, vivo de forma muito intensa a relevância da compreensão da realidade imediata onde estamos inseridos para projetar o futuro. Percebo a minha frente, o quanto à interpretação e a busca de informações, motivadas pelos acontecimentos locais, enriquece, de imediato o meio e o conhecimento das pessoas envolvidas; o quão determinante para a análise é a informação básica e o quanto, instigar e fazer perguntas mobiliza para ir atrás de elementos explicativos e seguir na reflexão; o quanto o estar integrada no lugar dos acontecimentos e buscar entender causas e consequências, traz junto o sentimento de pertença e o desejo de atuar junto para mudar...enfim...
 
Na condição de quem teve participação direta, integrando a equipe multidisciplinar que elaborou a proposta de reestruturação do ensino médio, frente às inúmeras leituras equivocadas as quais tive acesso, tomo a iniciativa de escrever essas reflexões para contribuir no debate na condição de cidadã e militante social, retomando o que fiz em período anterior, através do Blog Coletivo Desenvolvimento Sustentável.
 
Ao fazê-lo nesse momento, é preciso deixar claro que não me manifesto enquanto ou em nome da Secretaria da Educação. Estou em férias e essa manifestação é de minha inteira iniciativa e responsabilidade pessoal.
Na minha avaliação, a reestruturação em tela, tem como um dos seus grandes méritos o fato de criar as condições, do ponto de vista pedagógico, para ultrapassar duas das grandes barreiras, dentre outras, para o desenvolvimento pleno dos jovens que são a descontextualização e a fragmentação do processo de ensino-aprendizagem.
 
Os jovens, nessa etapa da educação básica, buscam o seu passaporte para um futuro profissional a partir da continuação de seus estudos via ingresso na Universidade ou, para já, no presente, ter uma habilitação profissional capaz de lhes garantir renda e dignidade. Entretanto, a educação que encontram hoje apenas corrobora para que essas expectativas sejam frustradas. Nem sucesso no vestibular, nem possibilidades de inserção imediata, com qualidade, no mercado de trabalho. Sim, falei no mercado de trabalho, pois grande parte dos jovens que freqüentam a escola pública, senão a maioria, precisa trabalhar agora para garantir já a sua subsistência, e, para tanto, a inserção imediata no mercado de trabalho, gerando renda, é a solução necessária.
 
A barreira que separa a Escola da concretude do mundo – descontextualização e fragmentação - mantendo-a de costas para a dinâmica da Vida, para as frenéticas mudanças tecnológicas (tanto a serviço do bem como do mal), para a urgência de outro(s) paradigma(s), os quais exigem, em conseqüência, a revisão dos princípios e valores fundantes dos atuais,
negando a reflexão sobre os complexos processos, historicamente estabelecidos para a reprodução social e seus impactos, faz com que o ensino médio hoje se torne esvaziado de significado, etéreo, sem identidade clara, desinteressante, enfadonho e à deriva. Para onde esse Ensino conduz mesmo?
 
Os níveis atuais de reprovação e de evasão do ensino médio, na escola pública do RS, os quais somados atingem índices próximos de 35%, refletem essa escola incapaz de estabelecer um efetivo diálogo com os seus educandos e, sobretudo, de constituir-se em ponte para que estes estabeleçam o diálogo necessário com o mundo ao qual fazem parte para, de fato, dele fazer parte, desfrutando de suas possibilidades e incidindo nas suas “impossibilidades”. Ou seja, propiciar a interação com os processos sociais, econômicos, culturais; compreendê-los, compreender a sua lógica; como se estabelecem as relações de poder; como, pelo trabalho e determinados processos produtivos é possível transformar a realidade, seja esta transformação para o bem ou para o mal (esta última situação tão comum nos dias atuais); como, esse mesmo trabalho, que garante a vida de tantos trabalhadores e famílias, pode, também, representar a morte de populações, culturas, natureza e da ética?
É disso que a proposta de reestruturação do ensino médio fala: superar o fosso existente entre a sala de aula e o mundo que vibra aqui fora para fazê-lo vibrar com outros tons e sons.
 
Traduzir essa Proposta como subserviente ao Sistema; criadora de mão-de-obra barata, escrava, adestrada; de jovens incapazes de pensar e cujo direito de sonhar com um futuro digno, na universidade, lhes passa a ser negado, tem sintonia com a realidade da Proposta?
Não é possível que pessoas ilustradas, como os autores de alguns textos que chegaram até mim, leiam o documento da Secretaria da Educação e continuem afirmando tais iniqüidades. E mais, confundir o ENSINO MÉDIO POLITÉCNICO com a EDUCAÇÃO PROFISSIONAL INTEGRADA AO ENSINO MÉDIO, afirmando de forma renitente que agora todo o ensino será profissionalizante, ou que o politécnico vai jogar os jovens no mercado para servir graciosamente ao capital? Sinto muito, mas não é essa a proposta da Secretaria. Devem ter lido outra.
 
O ENSINO MÉDIO POLITÉCNICO se constitui, inequivocamente, para a superação do conhecimento fragmentado; para que a capacidade de estabelecer relações entre os fenômenos sociais, culturais, ambientais, políticos, etc., seja instigada na sua máxima potência; para que a técnica seja compreendida a partir dos seus fundamentos científicos e não se encerre no conhecimento dela mesma (Saviani); para que o contexto em que os jovens vivem seja conhecido e compreendido em suas múltiplas dimensões. E, nesse caso, inclui-se a dimensão produtiva, econômica. Conhecer e entender como se organiza a economia na região em que vivem faz parte desse processo de imersão e reflexão. Não significa render-se a ela, mas sim, se for o caso, reunir os elementos para sabiamente recusá-la.
Como curvar-se e ficar passivo frente a um dado que demonstra que mais de 80% do valor gerado pela economia de uma determinada região de nosso Estado é proveniente de uma cadeia produtiva que mata do início ao fim? Entender os impactos nocivos dos processos produtivos, como nesse caso, na saúde dos trabalhadores e de suas famílias, dos consumidores, do ambiente natural e na soberania alimentar é crucial e apenas possível se dada à oportunidade de práticas pedagógicas focadas nas realidades locais e na compreensão da essência dos fenômenos.
 
Valer-se da proximidade dos impactos para entendê-los em toda a sua intensidade e magnitude é potencialmente superior do ponto de vista da aprendizagem. A idéia é retirar do trabalho as suas propriedades educativas, positivas ou negativas, para que o discernimento se faça e as escolhas futuras sejam balizadas da melhor forma possível, a partir do diálogo social e da crítica orientada.
Essa pedagogia construirá cidadãos subservientes ou indignados? Mobilizará corações e mentes para escolhas profissionais alinhadas com um modelo que destrói VIDAS ou para escolhas profissionais e lutas que possibilitem transformar a realidade desvelada?
 
O novo ensino médio, o médio politécnico, prevê Seminários Integrados, os quais possibilitarão (dentre outros espaços) dar materialidade a alguns de seus princípios orientadores, como o da interdisciplinaridade, diálogo de saberes, relação parte-totalidade, teoria e prática e pesquisa.
Alunos e professores debaterão, a partir de eixos temáticos, linhas de pesquisa e definirão os projetos os quais irão desenvolver. Escolhas serão feitas a partir do acesso a múltiplas informações das realidades locais e outras questões de interesse coletivo. Os projetos, a partir da abordagem interdisciplinar, propiciarão estabelecer as relações com as áreas de conhecimento e seus componentes curriculares, assim como com diferentes outros elementos, como a CULTURA, TRABALHO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA. A partir destas dimensões e relações será possível estabelecer os caminhos que possibilitarão vislumbrar como a humanidade forjou o mundo até aqui através das sucessivas e complexas transformações; como construiu histórica e coletivamente o conhecimento a partir da prática (do fazer) e do aprimoramento da prática pelo conhecimento (pensar)... enfim...que belo debate, que bela reflexão coletiva...orientada pelo diálogo entre as disciplinas e promovendo uma formação científica, social, histórica e cultural. E todo esse processo a partir da compreensão da realidade vivida concretamente.
 
Estamos falando aqui, também, do TRABALHO COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO, pilar da concepção em pauta, e não do ATO DE TRABALHAR, DA ATIVIDADE LABORAL, assumindo função didático-pedagógica na perspectiva do aprender fazendo, como querem alguns, nas interpretações feitas.
Rapidamente vamos tentar elucidar a concepção que organiza a idéia do trabalho como princípio educativo e da politecnia, agregando aqui fragmento do texto “Trabalho e Educação: fundamentos ontológicos e históricos” de Demerval Saviani, cuja contribuição para o entendimento do conceito é valiosa.
 
“...Assim, no ensino médio já não basta dominar os elementos básicos e gerais do conhecimento que resultam e ao mesmo tempo contribuem para o processo de trabalho na sociedade. Trata-se, agora, de explicitar como o conhecimento (objeto específico do processo de ensino), isto é, como a ciência, potência espiritual, se converte em potência material no processo de produção. Tal explicitação deve envolver o domínio não apenas teórico, mas também prático sobre o modo como saber se articula com o processo produtivo. Um exemplo de como a atividade prática, manual, pode contribuir para explicitar a relação entre ciência e produção é a transformação da madeira e do metal pelo trabalho humano (cf. Pistrak, 1981, p. 55-56). O trabalho com a madeira e o metal tem imenso valor educativo, pois apresenta possibilidades amplas de transformação. Envolve não apenas a produção da maioria dos objetos que compõem o processo produtivo moderno, mas também a produção de instrumentos com os quais esses objetos são produzidos. No trabalho prático com madeira e metal, aplicando os fundamentos de diversificadas técnicas de produção, pode-se compreender como a ciência e seus princípios são aplicados ao processo produtivo, pode-se perceber como as leis da física e da química operam para vencer a resistência dos materiais e gerar novos produtos. Faz-se, assim, a articulação da prática com o conhecimento teórico, inserindo-o no trabalho concreto realizado no processo produtivo. 

O ensino médio envolverá, pois, o recurso às oficinas nas quais os alunos manipulam os processos práticos básicos da produção; mas não se trata de reproduzir na escola a especialização que ocorre no processo produtivo. O horizonte que deve nortear a organização do ensino médio é o de propiciar aos alunos o domínio dos fundamentos das técnicas diversificadas utilizadas na produção, e não o mero adestramento em técnicas produtivas. Não a formação de técnicos especializados, mas de politécnicos. Politecnia significa, aqui, especialização como domínio dos fundamentos científicos das diferentes técnicas utilizadas na produção moderna. Nessa perspectiva, a educação de nível médio tratará de concentrar- se nas modalidades fundamentais que dão base à multiplicidade de processos e técnicas de produção existentes...”
 
Nesta perspectiva, no médio politécnico, em implantação no RS, os jovens terão a oportunidade de VIVÊNCIAS as quais darão conta da aproximação com o mundo do trabalho na perspectiva de desvelá-lo e de conhecer os seus mecanismos, a sua lógica, bem como os processos produtivos e suas técnicas, tecnologias e os fundamentos científicos que as explicam. Para tanto será adotado o trabalho de campo orientado, que, através de pesquisa investigativa possibilitará conhecer a realidade local em toda a sua diversidade e dimensões, como a econômica, a social e a cultural e atividades produtivas específicas.
 
Compreender os fundamentos científicos da técnica (ou das múltiplas técnicas), a essência da politecnia, é superar a idéia da escola dual, ou seja, daquela que compreende que aos trabalhadores ou aos filhos dos trabalhadores basta à técnica, o saber fazer; para a elite, os elementos para pensar o fazer. A escola unitária, segundo Gramsci, rompe com essa idéia de que aos pobres a técnica e a elite a reflexão, o pensamento, a história, a abstração. E, o Estado do RS, visa exatamente essa idéia com a reestruturação do ensino médio. Dar acesso aos jovens da escola pública, a reflexão sobre as diferentes técnicas desenvolvidas pela humanidade e seus
fundamentos, a partir da realidade de hoje, em movimento e, portanto, em rápida mutação, acompanhando as mudanças.
 
Considerando que a reestruturação não se reduz a implantação do médio politécnico, mas também inclui a implantação da EDUCAÇÃO PROFISSIONAL INTEGRADA AO ENSINO MÉDIO, falo rapidamente sobre o significado dessa mudança. Rapidamente porque os elementos que a justificam já estão colocados na abordagem anterior, pois, acabar com a separação existente hoje entre o ensino médio e a educação profissional, significa justamente, romper com a idéia da apropriação de conhecimentos técnicos de forma apartada dos conhecimentos gerais, os quais propiciam a formação integral dos indivíduos.
 
Na atualidade a escola pública do RS que oferta educação profissional, oferece duas matrículas e o aluno cursa em um período o médio e em outro período o técnico. Nesse caso, sequer o trabalho cumpre a função didático-pedagógico do aprender fazendo, pois os professores de ambos os cursos não dialogam entre si e as disciplinas do ensino médio passam ao largo do aprendizado técnico.
Como será agora?
 
Uma matrícula apenas, planejamento coletivo, interdisciplinar entre professores do técnico e do médio politécnico e projeto de pesquisa a partir de eixos temáticos escolhidos de acordo com o curso técnico o qual o aluno está cursando. As disciplinas das diferentes áreas do conhecimento serão aplicadas, mas também serão desenvolvidas em seus aspectos gerais os quais garantem a formação geral necessária, por exemplo, para o vestibular, no caso desse aluno desejar fazê-lo. Evidentemente a carga-horária para essa modalidade será ampliada, excedendo às 3000 horas previstas para o médio politécnico.
Além disso, metodologicamente a abordagem também deverá garantir todas as questões relacionadas à práxis social. O conhecimento deverá ser construído a partir das transformações sócio-históricas que a humanidade viveu até hoje, tendo como foco a temática do curso em realização e a dinâmica local de cada realidade na qual a Escola e os jovens estão inseridos.
 
A realidade em movimento e a leitura crítica das possibilidades e impossibilidades que ela apresenta serão os grandes protagonistas desse processo.
Bem, espero ter elucidado algumas questões. Por enquanto sigo por aqui, expectadora e ao mesmo tempo participante dessa outra partezinha do mundo, instigada, curiosa e algumas vezes perplexa...com a vida aí e aqui...
Avante!

 1 Îvîtu-Yepivu - "um vento em redemoinho", que, segundo a tradição indígena, só passou a existir no Rio Grande do Sul quando os "...primeiros europeus, no século XVII, vieram explorar os recursos naturais do rio Uruguai num nível além da simples economia de subsistência preconizada pela religião guarani..."( Barbosa Lessa, Historiador e Folclorista do Rio Grande do Sul). Já, a expressão Îvîtu-Yepivu mental, é um “neologismo”, fruto de uma brincadeira, que tomo emprestado...

* Iara Borges Aragonez
Cooperativa GiraSol - Comércio Justo e Consumo Consciente
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www.coopgirasol.com.br
Fone: (51) 84046136 (OI)          (51) 93116773 (Claro)

FÓRUM SOCIAL TEMÁTICO

Assembleia sediará central de imprensa e mais de 80 atividades durante o Fórum Social Temático
Letícia Rodrigues* - MTB 9373 | Agência de Notícias - 16:55-18/01/2012 - Edição: Sheyla Scardoelli - MTB 6727 - Foto: Marcelo Bertani
Espaço de Inclusão Digital Homero Simon abrigará central de imprensa
 
A Assembleia Legislativa sediará debates e exposições em vários espaços da Casa, além de uma central de imprensa do Fórum Social Mundial, que será realizado de 24 a 29 de janeiro em Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo e Novo Hamburgo. A programação oficial do evento foi divulgada nesta quarta-feira (18).
 
O Plenário 20 de Setembro, o Teatro Dante Barone, o Plenarinho, o Espaço da Convergência Adão Pretto, além das salas das comissões técnicas, serão os locais onde ocorrerão os eventos previstos para serem realizados no Parlamento gaúcho. Ao todo, serão mais de 80 atividades na Casa entre os dias 25 e 28 de janeiro.
 
Já a central de imprensa funcionará no acesso principal (térreo) do Palácio Farroupilha, das 8h30 às 22 horas, nos dias do FST. No Espaço de Inclusão Digital Engenheiro Homero Simon, estarão disponíveis 25 computadores com acesso à internet. Ao lado, na Galeria dos Municípios, haverá uma estrutura de 15 mesas com tomadas e acesso wireless para o uso de notebooks.
 
Conforme a organização do evento, mais de 600 profissionais já se cadastraram para cobrir as mais de 900 atividades, entre palestras, oficinas, seminários, shows e apresentações artísticas nas quatro cidades onde o FST ocorre. Para efetuar o cadastramento é necessário acessar o site www.fstematico2012.org.br.
 
Em Porto Alegre, haverá atividades ainda no campus central da UFRGS, na Câmara de Vereadores, Usina do Gasômetro, Largo Zumbi dos Palmares, Auditório dos Correios, BRDE, Casa de Cultura Mário Quintana, Gigantinho, Instituto de Educação Flores da Cunha, Memorial do Rio Grande do Sul, Ministério Público do RS, Museu Júlio de Castilhos, Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região e no Parque Harmonia – onde ficará o Acampamento Intercontinental da Juventude. Em São Leopoldo, os trabalhos devem se concentrar no Centro de Eventos; em Novo Hamburgo, no centro de eventos da Fenac; e em Canoas, na Unilasalle e no parque esportivo Eduardo Gomes.
 
Confira a programação que ocorre na Assembleia Legislativa
 
Quarta-feira (25)
Manhã – 9h
- Desenvolvimento sustentável, Rio+20 e trabalho decente (CUT/FS/CTB/CGTB/NC)
- Crise, movimento sindical e perspectivas dos trabalhadores (Centrais Sindicais)
- Agricultura familiar: segurança e soberania alimentar, sustentabilidade no marco da Rio +20 (Contag – Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura)
- Desenvolvimento, cidadania e direitos humanos (ALAS – Asociación Latinoamericana de Sociología)
- Regularização fundiária (Assenar)
- Rochas ornamentais - resgate de cantareiros (Cootramar)
- Seminário sobre carvão mineral (Cootramar)
 
Manhã – 10h- Garantia de direitos e incidencia em políticas públicas - a participação cidadã no século XXI (Secours Catholique – Caritas Francia)
 
Tarde – 13h- Eco-arteterapia como meio de sensibilização (Fórum Social Temático – FST)
- Ética, religião e a Rio+20 (Koinonia)
- Exposição de telas tridimencionais em graffiti e workshop/oficina de graffiti (Nação Hip Hop Brasil-Es)
- Geração de renda na Casa Brasil Porto Alegre (Moradia e Cidadania)
- I Encontro do ponto de articulação nacional do Fora do Eixo (Fora do Eixo)
- O impacto Socioeconômico com a Copa do Mundo e Olimpíadas: especulação ou oportunidades (FENAJOVEMTur)
- O que existe!  (CMDUA)
- Pela humanização da perícia médica do INSS (Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho – Diesat)
- Seminário Crise capitalista mundial, movimento sindical e perspectivas para os trabalhadores (Centrais Sindicais do Rio Grande do Sul)
 
Quinta-Feira (26)
Manhã – 9h
- Desafios da Sustentabilidade e desadaptação criativa (Instituto Marina Silva)
- 3ª Idade uma odisséia no FST 2012 (Fritid - Federação Riograndense da Terceira Idade)
- A ordem é não passar fome (Fórum de Políticas Públicas para pessoas em situação de Rua)
- Acesso universal a Internet (Associação Força)
- Afetividade, vetor de transformação social (Karina Tatim)
- Aldous Huxley e o sec. XXI (Samuel de Oliveira)
- América Latina: socialismo, integração e a universidade que queremos (Reconquistar a UNE)
- Apresentação do plano local de desenvolvimento sustentável (Fórum da Agenda 21 Local de Contagem/MG)
- Direitos humanos, direitos constitucionais e RAP (Instituto Parrhesia Erga Omnes)
- Sementes crioulas e agroecologia (Comitê Gaúcho prá Rio+20)
 
Tarde – 13h - Questões estruturantes da educação: gênero, sexismo, homofobia, lesbofobia, racismo e direitos humanos (UNEGRO e UBM)
- Aproveitamento de resíduos da Secretaria do Meio Ambiente (Atelier do Agave)
- Articulação entre sindicatos e movimentos sociais para a produção de micro-macro mudanças sociais (Sindicato Nacional dos Aeroviários)
- Conhecer para lutar e nós da rua (Movimento Nacional da População de Rua)
- Democracia participativa - o desafio da capacitação para a participação (Capacitapoa - Prefeitura de Porto Alegre, Conselho do Orçamento Participativo de Poa)
- Democratização da comunicação - o desafio da década (Altercom - Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação)
- Nós estamos colaborando com o FST 2012 (GTs FST 2012)
- Os impactos socioambientais da pecuária industrial (Humane Society International – HSI)
- Os pilares da democracia participativa (Resistência Participativa/Despertar Coletiva)
- Política 2.0 - uma nova forma de fazer política? (Instituto Democracia e Sustentabilidade)
- Reiventar o mundo e o papel das religiões ( CEBs-Porto Alegre e Parcerias)
- Seminário Desenvolvimento sustentável, Rio+20 e trabalho decente (Centrais Sindicais do Rio Grande do Sul)
 
Tarde – 14h - Mudanças climáticas e segurança (FST)
- Sentido da democratização (FST)
 
Tarde – 17h- Convenção 151 e seus impactos na organização e estrutura sindical nos serviços publicos no Brasil (Federação de Sindicatos de Trabalhadores Tecnicos Administrativos das Instituições de Ensino Superior)

Sexta-Feira (27)
Manhã – 9h
- Bioma Pampa (Associação Força Verde)
- Debate “Os 10% do PIB e a renda do petróleo na construção do financiamento público para educação” (Sindicato dos Petroleiros do Rio De Janeiro/Campanha O petróleo tem que ser nosso)
- Engajamento público em nanotecnologia (Rede de Pesquisas em Nanotecnoogia, Sociedade e Meio Ambiente – Renanosoma)
- Extractivismo y bienes comunes (Secours Catholique -Viva La Ciudadanía)
- Fórum aberto, danças e músicas (Doze Tribos)
- II Tecendo Redes de Saberes e Cooperação - Oficina: a erosão cultural alimentar e seus impactos socioambientais (Universidade Federal De Santa Maria - Programa de Formação Socioambiental – NEPALS)
- Integração Latinoamericana razões macro econômicas e politicas (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil -CTB ,Encontro Nossa America -ESNA e o Institut)
- Projeto de proteção a nascentes (Associação Força Verde)
- Melhora do solo: rochagem (Cootramar)
- Cambio climatico y soberania alimentar (Secours Catholique)
 
Tarde – 13h - A organização política dos assistentes sociais no Mercosul e nos países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa – CPLP (Conselho Federal de Serviço Social – CFESS)
- Catadores e sua particiapação na sustentabilidade (COAAFI)
- Centro Historico de POA: resgate da Cidadania (AMICH- Rede de Amigos do Centro Historico)
- Movimentos sociais, política e revolução no século XXI (Brasil Autogestionário)

Atividades Paralelas14h - Sentidos da Democratização
 
Sábado (28)
Manhã – 9h
- Mercofito (ABES/Fepam)
- Boas práticas para a sustentabilidade: Programa Cultivando Água Boa (Conselho dos Municípios Lindeiros ao Lago de Itaipu, Cooperativa Biolabore e Instituto Nacional e D)
- Educação popular e UFRGS - Faculdade de Direitos Humanos (Associação dos Educadores Populares do Ceará - Movimento Ceará)
- Encontro das Redes da Malha da Rebea (Rede Brasileira de Educação Ambiental)
- Seminário “Vigencia da educação popular em um mundo de crises” (Conselho Latino Americano de Educação de Jovens e Adultos – CEAAL)
- II Teendo Red de Saberes e Cooperação. Oficina Sensibilização para mudança de comportamento (Retrans, Cristina Haas, Eduardo Cezimbra)
- Justiça sem Fronteiras: Tribunal Penal da História (MDD - Movimento Democracia Direta)
- Oficina de Comunicação: escuta como principio dialógico (PET - Programa de Educação Tutorial – Psicologia)
- Oficina de Filosofia Ecologica: conhecimento, visão de mundo e meio ambiente (Sociedade Brasileira de Ciência Cognitiva – SBCC. Marilia/SP)
- Oficina sobre desastres naturais (Associação Força Verde)
- Oficina Sobre PPP (Cootramar)
- Produção agroecologica, merenda escolar e vida orgânica sustentável (Biolabore Cooperativa de Trabalho e Assistência Técnica do Paraná)
- Vinte anos do projeto Mar de Dentro (Associação Força Verde)
 
Tarde – 13h - A atualidade da Carta da Terra e a Rio+20 (Associação Civil Alternativa Terrazul)
- Ar, água e terra: vida e cultura Guarani (Instituto ee Estudos Culturais e Ambientais – IECAM)
- Dança Afro Primitivo (Criativus Centro de Dança e Cultura)
- Defesa de direitos, emancipação social e sustentabilidade na perspectiva freiriana (Instituto Paulo Freire)
- Esfinge – Decifra-me ou devoro-te (Observatório Social Mundial)
- Gobernanza mundial y la cambiante arquitectura de poder institucional: propuestas y retos (UBUNTU - Foro Mundial)
- IV Mercofito (ABEMA, Itaipu, Centrais Sindicais)
- Para a ação, um debate: a Copa, os mega projetos e os UFRGS - Faculdade de Direitos dos Explorados e Oprimidos – a situação indígena, negra, quilombola e popular no Brasil (Com Pop Da Copa Poa/Centro, Frente Nac Defesa Terrquilombolas E AGB-RS)
- Pré-Enuds 2012 (Assembléia Nacional de Estudantes Livre)
- Racismo como determinante social em saúde: AIDS e população negra-reflexões para garantir uma efetiva justiça social (Rede Lai Lai Apejo-População Negra E AIDS)
- Se nós somos por nós quem será contra eles (Associação Artística e Cultural da Periferia, Associação Gaucha dos Videos Amadores e Associação Gaú)
 
Tarde – 17h  - As lutas de combate as opressões no Brasil (Sindisprev-RS)
- Assédio moral, produtividade e impactos na saúde do trabalhador (Central Única dos Trabalhadores - CUT Nacional)
- Conselho Internacional FME (Fórum Mundial de Educação)
 
* Com informações do site do Fórum Social Temático 2012

Lições de Che Guevara: juventude


“Eu acho que a primeira coisa que deve caracterizar um jovem comunista é a honra que sente por ser jovem comunista. Esta honra que o leva a mostrar para todo o mundo sua condição de jovem comunista, que não se submete à clandestinidade, que não o reduz a fórmulas, mas que ele manifesta a cada momento, que lhe sai do espírito, que tem interesse em demonstrar porque é o seu símbolo de orgulho.
Junto com isso, um grande sentido do dever para com a sociedade que estamos construindo, com nossos semelhantes como seres humanos e com todos os homens do mundo.
Isso é algo que deve caracterizar o jovem comunista. Ao lado disso, uma grande sensibilidade para com todos os problemas, grande sensibilidade diante da injustiça; espírito inconformado sempre que surja algo que esteja errado seja quem for que o tenha dito. Colocar tudo o que não se compreender; discutir e pedir que deixem claro o que não estiver; declarar guerra ao formalismo, a todos tipos de formalismo. Estar sempre aberto para receber as novas experiências, para se ajustar à grande experiência da humanidade, que leva muitos anos avançando pela senda do socialismo, às condições concretas de nosso país, as realidades que existem em Cuba: e pensar – todos e cada um – como ir mudando a realidade, como torná-la melhor.
O jovem comunista deve propor-se a ser sempre o primeiro em tudo, lutar para ser o primeiro e sentir-se incomodado quando em alguma coisa ocupa outro lugar. Lutar para melhorar, para ser o primeiro. Claro que nem todos podem ser o primeiro, mas podem estar entre os primeiros, no grupo de vanguarda. Ser um exemplo vivo, ser o espelho onde mirem seus companheiros que não pertençam às juventudes comunistas, ser o exemplo onde possam mirar-se os homens e as mulheres de idade mais avançada que perderam certo entusiasmo juvenil, que perderam a fé na vida e que diante do estímulo do exemplo sempre reagem bem. Essa é outra tarefa dos jovens comunistas.
Junto com isso, um grande espírito de sacrifício, um espírito de sacrifício não somente para as jornadas heróicas, mas para todo o momento. Sacrificar-se para ajudar os companheiros nas pequenas tarefas, para que possa assim cumprir seu trabalho, para que possa cumprir com seu dever no colégio, no estudo, para que, de qualquer maneira, possa melhorar. Estar sempre atento a toda a massa humana que o rodeia.
Ou seja: o que se propõe a todo o jovem comunista é que seja essencialmente humano, ser tão humano que se aproxime daquilo que há de melhor no ser humano, que purifique o melhor do homem por meio do trabalho, do estudo, do exercício da solidariedade permanente com o povo e com todos os povos do mundo, desenvolver ao máximo a sensibilidade até se sentir angustiado quando se assassina um homem em qualquer lugar do mundo e se sentir entusiasmado quando em algum lugar do mundo se levanta uma nova bandeira de liberdade (aplausos).
O jovem comunista não pode estar limitado pelas fronteiras de um território; o jovem comunista deve praticar o intercionacionalismo proletário e senti-lo como coisa própria. Aperceber-se, como devemos nos aperceber todos nós, aspirantes a comunistas aqui em Cuba, que somos um exemplo real e palpável para toda a nossa América e mais que isto, para outros países do mundo que lutam também em outros continentes por sua liberdade, contra o colonialismo, contra o neoliberalismo, contra o imperialismo, contra todas as formas de opressão dos sistemas injustos; aperceber-se sempre que somos uma tocha acesa, que somos o mesmo espelho que cada um de nós é individualmente para o povo de Cuba, e somos esse espelho para que se olhem os povos da América, os povos do mundo oprimido que lutam por sua liberdade. E devemos ser dignos desse exemplo. A todo o momento e a toda hora devemos ser dignos deste exemplo.”

(Extraído do texto O que deve ser um jovem comunista, Ernesto Che Guevara, Edições Manoel Lisboa)

Elis Regina representa síntese da MPB, mostra estudo


Por Bruno Yutaka Saito | Valor Econômico


SÃO PAULO – Era comum encontrar pelos muros de cidades brasileiras a pichação “Elis Vive”. A morte da cantora, então no auge, aos 36 anos, em 19 de janeiro de 1982, fora tão inesperada, que deixou fãs inconformados. Trinta anos depois, Elis vive como referência incontornável para quem faz, pensa ou ouve música brasileira. Na celebração da data, CDs com shows na íntegra, a nova edição de uma biografia e um estudo lançam novas luzes sobre a cantora.
Folhapress  A cantora Elis Regina em foto de 1975
A música de Elis é, antes de mais nada, um dos principais símbolos da chamada MPB (Música Popular Brasileira). Ainda que rejeitada por muitos artistas, a sigla “MPB” representa inegavelmente um gênero estabelecido, quase um sinônimo para a “música de qualidade feita no país”. Segundo a historiadora Rafaela Lunardi, a cantora foi fundamental para o estabelecimento do gênero _a tese foi defendida na dissertação de mestrado “Em Busca do ‘Falso Brilhante’. Performance e Projeto Autoral na Trajetória de Elis Regina (Brasil, 1965-1976)”, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
“Na década de 1960, Elis foi uma espécie de porta-estandarte na defesa da música popular brasileira, contribuindo para a formação do rótulo MPB, de características comerciais e ideológicas a um só tempo, pois, do ponto de vista estritamente musicológico, não era possível enquadrar o samba, a bossa nova, o baião, a marcha e, na década de 1970, o pop, o rock e o soul”, afirma Rafaela. “Elis foi uma artista que vivenciou todas as etapas do processo de legitimação da MPB nas décadas de 1960 e 1970, passando por todas as fases e dialogando com as diversas demandas do mercado de música no Brasil.”
Augusto/Folhapress   
No show "Trem Azul", em 1975
Nascida em Porto Alegre (RS), Elis começou a carreira na rádio, ainda criança, e transitou por diversos gêneros durante a carreira. Ao lançar o primeiro disco, “Viva a Brotolândia” (1961), era vista como um novo nome do nascente rock, ao estilo de Celly Campelo. Mas o grande público só tomou conhecimento da cantora quando ela participou dos populares festivais de música daquela década, o que lhe rendeu o convite para apresentar, ao lado de Jair Rodrigues, o programa de televisão “O Fino da Bossa”, em 1965, na TV Record.
Elis, antes de mais nada, conquistou o público por questões artísticas. Aliada à voz potente estava sua capacidade de revelar então novos compositores, como Ivan Lins, Belchior e Milton Nascimento. Mas a figura pública de Elis também fascinava. Seu apelido, “Pimentinha”, indicava tanto uma performance explosiva no palco quanto um temperamento forte. Participou, por exemplo, da (hoje surreal) passeata contra a guitarra elétrica, ao lado de Gilberto Gil, em 1967, em plena ditadura militar. Sua posição em relação ao regime também foi alvo de muitas especulações no período. Por ter cantado na Olimpíada do Exército, em 1972, sofreu perseguição por parte do semanário “O Pasquim”, de Henfil. Mas Elis não era colaboradora, como mostrou tempos depois, ao fazer shows de arrecadação de dinheiro para o fundo de greve do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Em sua voz, “O Bêbado e o Equilibrista” foi uma espécie de hino da abertura política.
Folha Imagem   
A cantora durante apresentação em 1967

Nesse ponto, a historiadora Rafaela Lunardi e a autora da biografia “Furacão Elis”, Regina Echeverria, divergem. “A Elis relembrada hoje é a Elis do final de sua vida e carreira, uma artista ligada às questões sociopolíticas de seu tempo, a Elis que atuou artisticamente na oposição ao regime militar”, afirma Rafaela. Já Regina tem outra visão: “Ela não foi um símbolo político da época. Tinha o Chico Buarque, o Caetano Veloso, que eram mais engajados. Ela era uma intérprete. A sorte é que ela gravou o hino da anistia, em 1979. O papel dela foi cantar os novos compositores, e não cavar trincheiras”.
Rafaela lembra que a cantora “não possuía uma formação política e/ou universitária que pudesse compará-la intelectualmente a Nara Leão, Chico Buarque ou Edu Lobo, jovens artistas típicos do altamente elitista meio universitário brasileiro da época”. No entanto, essa formação não teria impedido que Elis fosse engajada politicamente. Para a historiadora, a cantora ajudou a “formatar a ideia de ‘moderna MPB’, interpretando ‘canções de protesto’ e atuando na luta em defesa da música nacional”. “Tal resistência apareceu em sua arte ao defender a música popular brasileira contra a invasão estrangeira, numa estratégia nacionalista de luta contra o ‘imperialismo’, liderada pelas esquerdas, sobretudo na década de 1960, e nos setores mais estritamente políticos a partir de ‘Falso Brilhante’, em 1976, quando, segundo seus próprios depoimentos, tornou-se uma artista engajada.”
Para Regina Echeverria, Elis poderia ter extrapolado as fronteiras brasileiras, caso cantasse em inglês. “Mas ela dizia que seu lugar era aqui”, conta a escritora, que lança uma terceira edição, revisada e com novas entrevistas, de “Furacão Elis” (a primeira foi em 1985; a segunda, em 2007). Se Elis não buscou uma carreira no exterior, dentro do Brasil a cantora nunca foi tímida ao buscar o público. Muitos críticos na época acusavam a cantora de ser excessivamente comercial, pela sua resposta positiva às demandas do mercado fonográfico.
As posturas da cantora eram reflexo direto da espontaneidade e honestidade, acredita Regina. Muitas vezes foi incompreendida. “Ela tinha fama de Pimentinha, de brigar muito, mas ela falava: “Peraí, você acha que tenho sangue de barata? Pisa no meu pé e não vou reagir? Não é normal?”. Ela assumia o que falava. No Brasil é difícil as pessoas assumirem o que pensam”, diz a escritora e jornalista.
Shows
Nas celebrações da data, dois lançamentos retomam shows da cantora. No dia 27, sai pela Warner o CD duplo “Um Dia”. São duas apresentações de Elis no Festival de Jazz de Montreux realizados em 20 de julho de 1979. Já havia uma versão anterior do CD, mas com apenas nove músicas. Desta vez, os shows aparecem na íntegra –são 27 faixas no total, incluindo músicas como de “Triste” (Antonio Carlos Jobim) e “Corrida de Jangada” (Edu Lobo). E, pela Universal, “Transversal do Tempo”, traz na íntegra show realizado em abril de 1978, no Rio. Na época, a apresentação divulgava o disco “Elis” (1977).

Racismos, incêndios e ditaduras

  Tito Tricot   no CORREIO DA CIDADANIA

Os caminhos da memória são indissociáveis, como o canto das corujas nas noites sombrias de inverno. Não se sabe de onde vem, tampouco para onde se dirige aquele ulular obscuro e melancólico que parece buscar companhia, mas que, na verdade, apenas esconde os mistérios do universo na caverna do esquecimento. Porque os humanos não entendem a memória sem o esquecimento e aqueles no poder se encarregam de pouco a pouco nos recordar que é melhor esquecer do que revelar segredos da história que são seus próprios segredos.

Terríveis e ferozes são, como o medo de que se descubram e redescubram, escrevam e reescrevam, os racismos, incêndios, ditaduras das classes dominantes que de tanto ocultá-los terminaram por fazer muitos acreditarem que jamais existiram. Mas, apesar dos oligarcas de antigo ou novo signo, no barco da memória sempre viajam marinheiros irredutíveis que guardam ânforas de prata com lembranças dolorosas da barbárie daqueles que dizem ter construído a república em nome da civilização, ou que, um século depois, clamam ter restaurado a democracia em nosso país, instalando somente um regime militar, não uma ditadura. São os mesmos que chamam de terroristas os índios mapuche enquanto os assassinam à bala.

Mas chamemos as coisas pelo seu nome: aqui não há nada novo. Basta de enterrar a superfície de nossa historia para exumar aquilo que se pretendeu esconder por vergonha ou descaro. Entre eles, o racismo entronizado nas elites chilenas, que é de longa data e se transformou em ideologia e política pública desde as origens da república, que, aliás, nada teve de democrática. Pois teve um parlamento elitista, excludente e oligárquico que permitia que um reputado intelectual e político, como foi Benjamin Vicuña Mackenna, declarasse, referindo-se aos mapuche, que o índio era “... se não um bruto indomável, inimigo da civilização porque só adora todos os vícios em que vive submergido, a ociosidade, a embriaguez, a mentira, a traição e todo esse conjunto de abominações que constituem a vida selvagem...”.

Apesar de ter a delicadeza de assinalar que “a conquista não quer dizer sob nenhum conceito extermínio; e que é possível subjugar os indígenas sem matá-los”. O objetivo, sem dúvida, era se apropriar do território mapuche para – como propunha claramente o diário Mercurio em 1859 – “fazer das duas partes separadas de nossa república um complexo interligado; trata-se de abrir um manancial inesgotável de novos recursos em agricultura e mineração; novos caminhos para o comércio em rios navegáveis e passagens finalmente acessíveis sobre as cordilheiras dos Andes... enfim, trata-se do triunfo da civilização sobre a barbárie, da humanidade sobre a bestialidade”.

Nem para Vicuña Mackenna nem para o jornal El Mercurio importavam os mapuche, pelo contrário, constituíam um estorvo para o que consideravam o desenvolvimento e progresso chilenos. É o mesmo que aconteceu mais de um século depois, quando se fomentou a expansão da indústria florestal em território mapuche, acrescentando-se o despojo desse povo originário. Depois de tudo, como sustentou Juan Agustín Figueroa, ex-ministro da Agricultura da Concertação, deve-se reciclar os mapuches.

Assim como o lixo, supomos, como o desperdício ou a limpeza étnica, supomos, como a limpeza que se fez com suas terras para a instalação de colonos estrangeiros no século 19, porque o maior incêndio que se tem memória em nosso país não foi provocado pelos mapuche, turistas ou cidadãos comuns e contemporâneos, mas pelo Estado do Chile. Claro, porque a colonização do sul do país foi uma política de ocupação impulsionada pelo Estado com grandes recursos econômicos e institucionais. De fato, o presidente Manuel Montt designou Vicente Pérez Rosales como agente da Colonização de Valdivia e Llanquihue e esse último procedeu não somente em facilitar a chegada de alemães e outros imigrantes europeus, como também em arrasar o bosque nativo, incendiando a floresta valdiviana para “limpar” o território e torná-la apta à agricultura e usufruto dos europeus. Uma vez mais, não importou que ali habitassem os mapuche, que, imaginamos, contemplavam estupefatos como ardiam suas terras, lugares sagrados e espaços de reprodução cultural.

Os incêndios foram atos de terrorismo de Estado, como foram as violações dos direitos humanos verificadas no Chile durante a ditadura militar. Pela mesma razão, a mudança que o governo pretende realizar nos textos escolares para suprimir o termo ditadura e trocá-lo por regime militar não é algo inocente. É um perigoso giro ideológico que busca bloquear a memória e seguir escondendo os ferozes segredos das classes dominantes, como sempre fizeram.

Loreto Fontaine, coordenadora nacional da Unidade de Currículo e Avaliação do Ministério da Educação, sustentou que a “mudança é de índole mais geral. Não se refere só a uma palavra, mas a ensinar a pensar”. Ensinar a pensar o que?! Que não existiram os torturados, os assassinados, os presos, as mulheres estupradas, os desaparecidos? Que não se viveram e sobreviveram 17 anos de repressão e terror?

Pode ser que os caminhos da memória sejam sinuosos e que aqueles no poder tentem de qualquer maneira esconder seus segredos, mas no barco da memória sempre viajam marinheiros irredutíveis que conservam em suas vetustas lembranças a verdade oculta: que o Estado provocou mais incêndios que qualquer um; que o racismo aflora o tempo todo, seja em relação aos atuais e lamentáveis incêndios no sul contra a causa mapuche – sem prova alguma – ou na aplicação da Lei Anti-terrorista também contra os mapuche, simultaneamente pretendendo atingir a história recente, eliminando por decreto uma ditadura terrorista das salas de aula. Se é pra falar de racismos, incêndios e ditaduras, deve-se chamar as coisas pelos seus nomes.

Dr. Tito Tricot é sociólogo, diretor do Centro de Estudos da América Latina e Caribe (CEALC), Chile.

Tradução: Gabriel Brito, jornalista do Correio da Cidadania.