terça-feira, 31 de agosto de 2010

Revolução mexicana serviu para romper com a Europa e gerar cultura própria, diz historiador mexicano



A Revolução Mexicana, iniciada em 20 de novembro de 1910, foi uma resposta aos mais de 30 anos de governo do general Porfirio Díaz, uma ditadura que suprimia os direitos da maioria dos cidadãos e permitia grandes abismos na sociedade, favorecendo as classes mais abastadas do país – as únicas que gozavam dos benefícios da prosperidade mexicana. A falta de liberdades políticas, a pobreza que atingia grande parte dos mexicanos e as fraudes eleitorais de Díaz foram criando no país uma agitação que levou à irrupção da violência armada.

Em 1917, o ex-presidente Venustiano Carranza promulgou a Constituição, que não só foi o documento decisivo para a organização do Estado pós-revolucionário como também codificou várias das demandas que haviam dado início à revolução, como a inclusão dos direitos humanos, o fim da reeleição do presidente e do vice, a reforma agrária, a divisão do Poder Legislativo e uma maior soberania das entidades federativas, entre outras. 


Rosas: "México não conseguiu erradicar a impunidade,
corrupção e discricionariedade na aplicação da lei"


Cem anos depois da revolução, o historiador e escritor mexicano Alejandro Rosas analisou em entrevista ao Opera Mundi as contribuições do movimento armado, os retrocessos e o futuro político do país, entre outros temas.

Quais são as contribuições mais importantes da Revolução Mexicana para o país?
Ela contribuiu para proporcionar uma série de elementos jurídicos fundamentais. Ou seja, todas as demandas que sustentaram a Revolução Mexicana e não foram reconhecidas pelo ditador Porfírio Diáz terminaram codificadas na Constituição promulgada em 1917. Dentre os exemplos, o direito à greve, à associação e à educação.

Qual a herança positiva da Revolução Mexicana no país?
É o fato de que, apesar de tudo o que os mexicanos enfrentaram – crises econômicas e repressão – melhoramos na cidadania. Se a classe política continua comportando-se com os vícios de antes, se os sindicatos continuam corruptos como no passado, a cidadania se transformou. Hoje, mais de 80% da população sabe ler e escrever, as pessoas sabem exercer seu direito ao voto, criou-se uma consciência social importante. A cidadania já se organiza para se opor contra certos abusos de autoridade, para se posicionar com o governo e partidos políticos. O ponto mais forte é que, apesar de tudo o que aconteceu no século XX, houve a construção de uma sociedade, de uma cidadania que foi se consolidando de maneira firme. E este é o motor que nos permite esperar uma verdadeira mudança na mentalidade do país. 
Leia mais:
Revolução Mexicana começou há 100 anos como rebelião contra ditadura de Porfirio Díaz

O México conseguiu uma revolução, mas quais foram os problemas posteriores?
Depois da Revolução Mexicana, houve uma ruptura do processo de desenvolvimento econômico e político do país. O problema é que, depois do século XX, o que sobra no México é um sistema que melhora os mecanismos do Porfiriato. O sistema político do PRI (Partido Revolucionário Institucional), que nasce em 1929, recupera do Porfiriato a submissão do Poder Legislativo ao Executivo, o controle dos Estados por parte do presidente, o controle e a submissão dos governadores pelo Executivo, da imprensa. Não vivemos sob uma ditadura, mas vivemos sob um regime autoritário durante 70 anos, um regime que construiu uma série de redes e interesses por sob a mesa, com impunidade, com privilégios, com certos compromissos com os grupos importantes do país, fossem legais ou não. 
Segob (Secretaría de Gobernación de México)

Forças de Emiliano Zapata - líder histórico da revolução mexicana - em 1914

E é exatamente por causa dessa rede que a transição nos dá tanto trabalho hoje. Durante 70 anos, os mexicanos viveram sob um regime de impunidade, no qual todos cresceram de algum modo. Assim, a corrupção continua presente por causa desses anos de construção de um sistema que permitia a corrupção e a simulação. Era um sistema que dizia ser democrata, mas tolerava fraudes eleitorais; que dizia apoiar o campo, mas usava o controle político e social dos camponeses; que dizia respeitar o direito à greve, mas tinha centrais operárias totalmente corruptas.

Pela dimensão da Revolução Mexicana (um milhão de pessoas mobilizadas, vítimas, a diminuição da população e grandes batalhas), o país que nos resta está realmente muito abaixo das próprias expectativas em torno do movimento. Pode-se dizer, por exemplo, que a revolução trouxe segurança social, mas hoje o sistema previdenciário está à beira da bancarrota. O que temos hoje como país é o mínimo que o sistema poderia ter oferecido como produto da Revolução Mexicana. Hoje temos 40 milhões de pobres e só chegamos a um suposto regime democrático 70 anos depois.

Quais avanços a Revolução Mexicana permitiu em relação aos demais países da América Latina?
Em termos políticos, o México é um dos países mais vanguardistas em legislação até 1920. Todas as demandas, como o direito à greve, jornada de trabalho de oito horas, educação gratuita, recuperação da terra, são demandas que quase nenhum país havia atendido até aquele momento, e o México as codificou na Constituição de 1917.

Em termos culturais, há uma descoberta importantíssima sobre o que é a “mexicanidade”, pois a partir da revolução começamos a enxergar nós mesmos. Ocorreu um importante processo educativo e cultural nos anos 1920, com os muralistas, o surgimento da música mexicana e das letras. A revolução serviu para parir o México, pois o Porfiriato era um afrancesamento e uma europeização que se manifestavam em todos os âmbitos da cultura. Com a revolução surgiu uma cultura mexicana que se colocou à vanguarda dos países europeus.

Que retrocessos ocorreram no México depois da revolução?
Ainda não conseguimos estabelecer um estado de direito. A lei continua sendo aplicada de um modo discricionário em alguns casos. Setores que já deveriam ter sido sanados, como a segurança pública, vivem seu pior momento. Agora que supostamente já avançamos na transição rumo à democracia, temos os piores momentos na segurança pública, com a corrupção ainda reinando nas esferas do poder. Mais que retroceder, não conseguimos vencer certas etapas que já deveriam ter sido superadas, como a impunidade, a corrupção e a discricionariedade na aplicação da lei.

Qual o futuro da sociedade do México?
A classe política atual ficou abaixo das expectativas no que diz respeito às necessidades do país para consolidar essa transição política à democracia, pois não vivíamos em um regime democrático. Diante de uma ausência de poder e de um projeto nacional, o papel da sociedade é continuar exercendo essa responsabilidade e ampliá-la. É na sociedade civil que está a solução para que o país avance e encontre uma renovação geracional nas estruturas políticas, uma maior participação e uma maneira de enfrentar os problemas. Se não retomarmos a ideia defendida por Francisco I. Madero, a do cidadão livre independente, livre e comprometido com seu país, não poderemos dar o próximo passo.

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Uma análise do poder midiático na Argentina


O discurso que Cristina Fernández de Kirchner fez em 24 de agosto foi mais além do que tinham ido todos os discursos dos presidentes argentinos até hoje. Ninguém – nem sequer o primeiro Perón ou Evita – fizeram tal desconstrução da estrutura do poder na Argentina. De quê ela estava falando? Do poder nas sombras, do poder detrás do trono, do verdadeiro poder. Qual é? É o poder midiático. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia. O artigo é de José Pablo Feinmann.

A filosofia ocidental dos últimos 45 anos se equivocou gravemente. Para sair de Marx e entrar em Heidegger (como crítico excelente da modernidade, mas a partir de outro lado, que não o de Marx) se viu obrigada a eliminar o sujeito, tal como Heidegger o havia feito com inegável brilho no seu texto A época da imagem do mundo. Também Foucault deu o homem por morto. Barthes, o autor. Ao estilo. Deleuze, a partir de Nietzsche, a negatividade, ou seja: o conflito na história. E a academia norte-americana sistematizou tudo isso incorporando com fervor os heróis da French Theory. O fracasso é terrível e até patético. Enquanto os pós-modernos postulam a morte da totalidade, o Departamento de Estado postula a globalização. Enquanto propõem a morte do sujeito, o império monta brilhantemente o mais poderoso sujeito da filosofia e da história humana: o sujeito comunicacional. E esta – há anos que sustento esta tese que na Europa causa inesperado assombro quando a desenvolvo – é a revolução de nosso tempo.

O sujeito comunicacional é um sujeito centrado e não descentrado, logocêntrico, fonocêntrico, alheio a toda possível disseminação, informático, bélico, mascarador, submetedor de consciências, sujeitador de sujeitos, criador de realidades virtuais, criador de versões interessadas da realidade, da agenda que determina o que se fala nos países, capaz de derrubar governos, encobrir guerras, de criar a realidade, essa realidade que esse sujeito quer que seja, quer que todos acreditem que é, que se submetam a ela e que, submetendo-se, submetam-se a ele, porque aquilo em que o sujeito comunicacional acredita é a verdade, uma verdade na qual todos acabarão crendo e que não é a verdade, mas a verdade que o poder absoluto comunicacional quer que todos aceitem. Em suma, sua verdade.

Impor sua verdade como verdade para todos é o triunfo do sujeito comunicacional. Para isso, deve formar os grupos, os monopólios. Deve apoderar-se do mercado da informação para que só a sua voz seja escutada. Para que só os jornalistas que lhe são fiéis falem. Uma vez se consiga isso, o triunfo é seguro. A arma mais poderosa da supraposmodernidade do século XXI radica no domínio maior possível dos meios de informação. Que já não informam. Que transmitem à população os interesses das empresas que formam o monopólio. Interesses nos quais todas coincidem.

Assombrosamente, nenhum filósofo importante advertiu essa revolução. Foucault passou a vida inteira analisando o poder. Mas não o comunicacional. É claro! Se tinha negado o sujeito como iria analisar os esforços do poder para constituí-lo de acordo com seus interesses?

Ninguém viu – ademais, e isso para mim é imperdoável – o novo monstruoso sujeito que se havia consolidado. Superior ao sujeito absoluto de Hegel. Algo observado por Cornelius Castoriadis. Mas pouco. Relacionou as campanhas eleitorais com as empresas que as financiam. Mas – insisto – aqui o essencial é que o tema do sujeito voltou ao primeiro plano. Colonizemo-nos o sujeito, façamos-lhe crer no que nós cremos, e o poder será nosso. O poder começa pela conquista da subjetividade. Começa pela construção de algo a que darei o nome de sujeito-Outro.

Formulemos – como ponto de partida desta temática essencial – a pergunta obrigatória: o que é o sujeito-Outro? É o Outro do sujeito. Escrevo Outro com esse "O" maiúsculo enorme para marcar o caráter alheio que o Poder consegue instaurar entre o sujeito e o Outro de si. Heidegger transitou bem esta temática. O que eu chamo sujeito-Outro é esse sujeito que – segundo Heidegger – caiu “sob o senhorio dos outros” (Ser e Tempo, parágrafo 27). Ele fez aí uma observação brilhante e precisa: o senhorio dos outros. Heidegger amplia o conceito: quem cai sob esse senhorio (o dos Outros) “não é ele mesmo, os outros lhe hão arrebatado o ser”. “O Poder, ao submeter a subjetividade, elimina meus projetos, meu futuro mais próprio, o que houvera querido fazer com minha vida. Minhas posibilidades (...) são as do Outro; são as do Poder, as que me vêm de fora. Já não sou quem decide, sou decidido” (JPF, La historia desbocada, Capital Intelectual, Buenos Aires, 2009, p. 128). Heidegger, no entanto se remete à esfera ontológica: o que se perde é o ser.

Não creio que devamos pôr o acento nisso; o que se perde é a subjetividade, a consciência, a autonomia de pensar por nós mesmos, pois pensamos o que nos fazem pensar, dizemos o que nos fazem dizer e nos convertemos em patéticos, bobos, manipulados defensores de causas alheias.

CFK manejou a temática com precisão e com uma audácia que – eu, ao menos, e já tenho meus anos vivendo sempre neste país – não vi em presidente algum. Quando retoma a frase da capa do Clarín e a da contra-capa é onde revela o que é o Poder. O Clarín tem a manchete: “O Governo avança na Papel Prensa para controlar a palavra impressa”. Por detrás desta frase está toda a campanha “desgastante” (para usar um conceito do revolucionário popular agrário Buzzi, fiel a suas bases até a morte, até a matar a FA, submetendo-a aos interesses da Sociedade Rural, controlada hoje pelo “Tanto” Biolcati, descendente da “chusma ultramarina” que Cané desdenhava e não por Martinez de Hoz ou pelo elegante senhor Miguens) da oposição.

Quer dizer, o governo é autoritário, doente pelo poder e sempre empenhado em silenciar a todos. CFK dá razão ao Clarín:

“O Clarín pensa que quem controla a Papel Prensa controla a palavra impressa. Quero nisto coincidir com o Clarín. Claro, quem controla a Papel Prensa controla a palavra impressa. Por que? Porque a Papel Prensa Sociedad Anónima é a única empresa que produz pasta de celulose para fabricar papel jornal no país; ela fabrica o papel jornal, o distribui e o comercializa no que se conhece em termos econômicos e jurídicos como uma empresa monopólica integrada verticalmente. Por que? Porque vai da matéria prima até o insumo básico, mas não somente produz esse insumo básico como determina a quem vende, por quanto vende e a que preço vende. Por isso coincido com o Clarín em que quem controla a Papel Prensa controla a palavra impressa na República Argentina”.

O Poder – em cada país – tem de formar monopólios para ter unidade de ação. Não se tem todo o poder se se tem só a Papel Prensa, que implica, é verdade, o controle da palavra impressa. Mas há que ter outros controles. Sobretudo – hoje, no século XXI, nesta supraposmodernidade manejada pela imagem – o poder da imagem. E o da voz do rádio, sempre penetrante, omnipresente ao longo do dia. Trata-se da metralhadora midiática. Não deve parar. Por que este governo se complica nesta luta com gigantes sagrados, intocáveis? Ou o faz ou perece a qualquer momento.

Desde a campanha do senhor Blumberg se advertiu que os meios de comunicação podiam armar uma manifestação popular em poucas horas. Toda a cambada de Buenos Aires saiu com sua guarda atrás do engenheiro e impulsionada por Haddad e a ideologia-tacho que – então – era uma criação da Rádio 10. A ideologia-tacho é uma invenção puramente argentina. Como o ônibus, o doce de leite e Maradona. Alguém toma um táxi em qualquer parte do mundo e o taxista não o agride com suas opiniões políticas. Deixa-o viajar tranquilo. Sigamos: o segundo, terrível sinal de alarme foi durante as jornadas “destituintes” e “desgastantes” do “campo”.

Sem o apoio imoderado dos “meios de comunicação” teria sido um problema menor. Mas a fúria midiática chegou aos seus pontos mais estridentes. A “oposição”, não essa essa galeria patética de ambiciosos, torpes e imprestáveis políticos que peleiam melhor entre si do que com seus adversários, são os meios de comunicação. A direita não tem pensadores, tem jornalistas audazes, agressivos. E a mentira ou a deformação pura e plena de toda notícia é sua metodologia.

A análise de CFK foi excessivamente rica para uma só nota. Até aqui temos: Videla convocou La Nación, Clarín e La Razón e os entregou a Papel Prensa. Ao ser o Estado desaparecedor o sócio da sociedade que se formou, esses jornais não só apoiaram ou colaboraram com um regime abominável como foram seus sócios. Para quê? CFK o disse assim:

“Durante esses anos se escutava muito o tema da defesa de nosso estilo de vida. Nunca pude entender exatamente a que se referiam quando se falava de defender nosso estilo de vida. Eu não creio que a desaparição, a tortura, a censura, a falta de liberdade, a supressão da divisão dos poderes possam ter formado em algum momento parte do estilo de vida dos argentinos”.

Sim, no momento em que se constitui a Papel Prensa e Videla pede aos grandes jornais que – agora sim, a morte – defendam a luta em que estão empenhados, o estilo de vida argentino, para ser defendido, requeria os horrores da ESMA. Há um livro de Miguel Angel Cárcano: El estilo de vida argentino. Em suas páginas se traça uma imagem idílica, campestre, cotidiana e senhorial do general Roca. Esse é - para Cárcano– um herói de nosso estilo de vida. É o deles, o da oligarquia que fez este país a sangue quente e a sangue e a fogo sempre o defendeu sempre que se sentiu atacada.

Os herdeiros de Cárcano e Roca ainda o defendem. Se lhes deixa o poder de “formar a opinião pública” como sempre o fizeram, voltaremos ao país que desejam: o do neoliberalismo, o dos gloriosos noventa. Conservarão o poder. Farão o que CFK desenhou assim: “Se há um poder na República Argentina, é um poder que está por sobre quem exerce a Primeira Magistratura, neste caso a Presidenta; também está por sobre o Poder Legislativo e, seja como for, também por sobre o Poder Judiciário (...) é invisível aos olhos”. É o poder que tão impecavelmente um outrora misterioso personagem definiu: “Presidente? Este é um posto menor”.

(*) José Pablo Feinmann é professor de Filosofia, ensaísta, escritor e roteirista.

Tradução: Katarina Peixoto

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Aquilo que não ouvimos sobre o Iraque

Antes da invasão americana do Iraque em 2003, a percentagem da população urbana que vivia em bairros de lata situava-se abaixo dos 20%. Hoje em dia essa percentagem subiu para 53%. Por Adil E. Shamoo, Foreign Policy In Focus
Na última década a maior parte dos países conseguiu reduzir os habitantes de bairros de lata. Mas o Iraque caminhou, rápida e perigosamente, na direcção oposta. Footo The U.S. Military
Na última década a maior parte dos países conseguiu reduzir os habitantes de bairros de lata. Mas o Iraque caminhou, rápida e perigosamente, na direcção oposta. Footo The U.S. Military
O Iraque tem uma taxa de desemprego que se situa entre os 25% e os 50%, um parlamento disfuncional, uma epidemia de doenças sem controlo, um flagelo de doenças mentais e bairros de lata com um crescimento descontrolado. O assassínio de pessoas inocentes tornou-se parte da vida quotidiana. Que devastação os Estados Unidos da América desencadearam no Iraque!
O UN-HABITAT, um organismo das Nações Unidas, publicou recentemente um relatório de 218 páginas intitulado “State of the World’s Cities, 2010-2011” (“O Estado das Cidades do Mundo 2010-2011”). O relatório está repleto de estatísticas sobre as condições de cidades por todo o mundo e sobre a sua demografia. Define os habitantes dos bairros de lata como aqueles que vivem em centros urbanos sem uma das seguintes infraestruturas: estruturas estáveis que os protejam dos agentes ambientais, espaço de habitar suficiente, acesso à água satisfatório, acesso a instalações sanitárias e defesa contra a expulsão.
Há um facto chocante sobre as populações urbanas iraquianas que está oculto, quase intencionalmente, nestas estatísticas. Ao longo das últimas décadas, antes da invasão americana do Iraque em 2003, a percentagem da população urbana que vivia em bairros de lata situava-se ligeiramente abaixo dos 20%. Hoje em dia essa percentagem subiu para 53%: 11 milhões do total dos 19 milhões de habitantes urbanos. Na última década a maior parte dos países conseguiu reduzir os habitantes de bairros de lata. Mas o Iraque caminhou, rápida e perigosamente, na direcção oposta.
De acordo com o censo dos EUA de 2000, 80% dos 285 milhões de indivíduos que vivem nos Estados Unidos da América são habitantes urbanos. Os que vivem em bairros de lata situam-se abaixo dos 5%. Se traduzíssemos as estatísticas iraquianas para o contexto norte-americano, 121 milhões de pessoas nos EUA viveriam em bairros de lata.
Se os Estados Unidos da América tivessem uma taxa de desemprego de 25% a 50% e 121 milhões de indivíduos a viver em bairros de lata, os motins suceder-se-iam, o exército tomaria o poder e a democracia desvanecer-se-ia no ar. Assim sendo, por que é que as pessoas nos EUA não se preocupam nem se entristecem com as condições do Iraque? Porque a maior parte das pessoas nos EUA não sabem o que aconteceu no Iraque nem o que se passa lá agora. O nosso governo, incluindo o actual, vira a cara para o lado e mantém o mito de que a vida melhorou no Iraque depois da invasão. Os nossos principais meios de comunicação social reforçam esta mensagem.
Eu tinha grandes esperanças de que o novo governo iria dizer a verdade aos seus cidadãos sobre a razão por que invadimos o Iraque e o que é que andamos a fazer actualmente no país. O presidente Obama prometeu andar em frente e não olhar para o passado. Por muito problemática que esta recusa de examinar o passado seja – em particular para os historiadores – o presidente deveria pelo menos informar o público americano sobre as condições actuais no Iraque. De que outra forma podemos esperar que o governo estabeleça uma política adequada?
Audições no Congresso mais alargadas sobre o Iraque poderiam ter-nos permitido conhecer os mitos propagados sobre o Iraque antes da invasão e a dimensão dos danos e da destruição que a nossa intervenção provocou no país. Ficaríamos a conhecer o grande aumento da pobreza urbana e a expansão dos bairros de lata nas cidades. Estes factos sobre as condições actuais do Iraque iriam ajudar os cidadãos dos EUA a compreender melhor o impacto de uma retirada rápida dos EUA e quais deveriam ser as nossas responsabilidades morais no Iraque.

Adil E. Shamoo é um analista sénior da Foreign Policy In Focus e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland. Escreve sobre ética e políticas públicas. O seu contacto é: ashamoo@umaryland.edu.
Tradução de Ana Carneiro para o Esquerda.net

Rabino diz que palestinos deveriam ‘desaparecer deste mundo’



Ovadia Yosef usou duras palavras durante seu sermão semanal no sábado
Ovadia Yosef usou duras palavras durante seu sermão semanal no sábado

Lamentável essa manifestação do rabino Ovadia Yosef, demonstrando todo o ódio e o desejo de aniquilação de irmãos semitas.A matéria está no Jornal do Comércio de hoje...

O influente rabino Ovadia Yosef disse, durante seu sermão semanal no sábado, que o líder palestino Mahmud Abbas e seu povo deveriam “desaparecer deste mundo”. “Que todas essas pessoas sórdidas que odeiam Israel, como Abu Mazen (o nome popular de Abbas), desapareçam deste mundo”, declarou Yosef, líder espiritual do partido religioso Shas que faz parte da coligação de governo de Israel.
“Possa Deus atingir com a praga todos os horríveis palestinos que perseguem Israel”, falou ele, dias antes de o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu reunir-se com Abbas em Washington para a retomada das conversações diretas de paz. O negociador-chefe dos palestinos, Saeb Erekat, condenou as palavras do rabino, destacando que elas eram “um incitamento ao genocídio” e pediu que o governo israelense “faça mais pela paz e pare de espalhar o ódio”.
“O líder espiritual do Shas está literalmente convocando um genocídio contra os palestinos e parece não haver resposta do governo israelense”, disse Erekat em comunicado. “Yosef está pedindo particularmente o assassinato do presidente Abbas que, em poucos dias, estará sentado frente a frente com o primeiro-ministro Netanyahu. É assim que o governo israelense se prepara para um acordo de paz?”
Com a iminência do encontro de quinta-feira em Washington, Erekat pediu à comunidade internacional que “condene o incitamento ao genocídio por figuras públicas de Israel”. Segundo Nissim Zeev, deputado do Shas, cujo partido tem 11 cadeiras no Parlamento de 120 integrantes, Yosef estava tentando expressar o desejo transmitido pelos textos sagrados judaicos segundo os quais Deus eliminaria os inimigos de Israel para abrir caminho para a paz.
No passado, o poderoso mentor do Shas, um rabino nascido em Bagdá que está perto dos 90 anos, se referiu aos árabes e palestinos como “cobras” e “víboras” que estavam “reunindo-se como formigas”. No final dos anos 1980, porém, ele apoiou um compromisso territorial com os palestinos.

domingo, 29 de agosto de 2010

A opinião de um perito



Reflexões de Fidel Castro no granma



SE me perguntassem quem é o mais conhecedor acerca do pensamento israelense, responderia sem hesitar que é Jeffrey Goldberg. Jornalista incansável, capaz de se reunir dezenas de vezes para indagar sobre o pensamento de um líder ou de um intelectual israelense.
Naturalmente, ele não é neutral, é, sem dúvida, pró-israelense. Quando algum deles não concorda com a política desse país também não adota um meio-termo como posição.
Para meu objetivo, o que interessa é conhecer o pensamento que norteia os principais líderes políticos e militares desse Estado.
Sinto-me com autoridade para opinar, porque nunca fui antijudeu e partilho com ele um profundo ódio contra o nazi-fascismo e o genocídio perpetrado a crianças, mulheres e homens, jovens ou anciãos judeus nos quais Hitler, a Gestapo e os nazis, saciaram seu ódio contra esse povo.
Pela mesma causa aborreço os crimes do governo fascista de Netanyahu, que assassina crianças, mulheres e homens, jovens e anciãos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.
Em seu ilustrado artigo "O ponto de não retorno" que será publicado na revista The Atlantic, no mês de setembro de 2010, já conhecido através da Internet, Jeffrey Goldberg inicia o trabalho de mais de 40 páginas do qual tiro as idéias essenciais para conhecimento dos leitores.

O artigo, na íntegra voce pode ler no sitio do granma.cu

Aníbal Diniz: “a tendência nacional pró-Dilma terá reflexos no Acre”


A situação do Acre que está na contramão da tendência nacional de eleger Dilma Rousseff (PT) à presidência no primeiro turno, segundo as recentes pesquisas, parece começar a mudar. Pelo menos ao que se refere à visibilidade da campanha da petista. Já se pode ver placas com a propaganda de Dilma nas ruas das cidades acreanas. Além disso, o diretório regional do PT tem promovido diversos atos para tornar a presidenciável mais conhecida no Estado. Sem falar no esforço dos candidatos majoritários da FPA, Tião Viana (PT), Jorge Viana (PT) e Edvaldo Magalhães (PCdoB) que têm colocado a questão como prioritária nos seus discursos.
Anilbal-Diniz
Suplente do senador Tião Viana e um dos coordenadores da campanha da FPA, Aníbal Diniz (PT), conversou, ontem, com A GAZETA, sobre o assunto. “Têm dois fatores importantes: o empenho das nossas lideranças se esforçando para mostrar à população o quanto uma eleição da Dilma é importante para o Acre. Que isso poderá nos deixar com um canal mais aberto para o diálogo e conseguir os pleitos junto à Brasília. O segundo foi o efeito do crescimento da Dilma no plano nacional que passou o Serra (PSDB) e deu um salto fenomenal. Uma diferença que nem o presidente Lula candidato à reeleição conseguiu. Esse efeito começa a ser sentido por aqui e a tendência é a gente ainda melhorar muito mais esse crescimento no Acre até chegar a uma vitória”, garantiu.

A relação política do AcreAníbal Diniz, acredita que uma eventual vitória eleitoral da Dilma no Acre facilitaria o diálogo com o futuro governo. “Agora, está de maneira clara que Dilma pode ganhar no primeiro turno. Isso nos facilita o diálogo com os eleitores. Neste caso, o Acre sendo um Estado dependente das verbas federais não fica bem a gente contrapor as ordens das coisas políticas no plano nacional. Uma mudança do quadro também significará que a nossa população é atenta politicamente. Nós conseguimos fazer uma transformação que estado nenhum conseguiu graças à decisão da nossa população. E essa vitória da Dilma pode nos abrir portas importantes”, avaliou.

Indagado sobre a questão contrária que acontece no Acre onde as lideranças regio-nais são mais influentes que as nacionais, Aníbal, respondeu:  “este é um fator que precisa ser estudado. Conversei nessa semana com o chefe do Gabinete do presidente Lula,  ministro Gilberto Carvalho, e ele nos cobrava um estudo melhor do povo do Acre. Ele indagava por quê o Serra está na frente por aqui. O normal seria a Marina Silva (PV) estar na frente. Mas imagino que com a nova pesquisa do Ibope, que sairá amanhã, o resultado deverá ser mais favorável à Dilma. Até o dia da eleição poderemos reverter completamente essa situa-ção”, prognosticou.
O fator LulaO suplente de senador, explicou as razões da transferência de votos de Lula para Dilma em todo o Brasil. “Lula durante cinco eleições esteve no horário gratuito. Foram 20 anos de exposição. Mesmo nas derrotas ele teve uma exposição positiva e nas duas vitórias muito mais. Depois como presidente fez um governo com as melhores ações para o Brasil em todas as áreas. O mesmo período que também foi o mais profícuo para o Acre. Crescemos e reduzimos as desigualdades sociais. isso tudo justifica a transferência. O Lula só está pedindo ao povo brasileiro para que permita a continuidade do projeto. E quem é a Dilma? Ela é a pessoa número um da equipe do presidente Lula que coordenou os programas de maior impacto junto à população”, argumentou.

Outra questão relevante para Aníbal é o fato de Dilma poder ser a primeira mulher presidente do Brasil. “A mensagem do Lula é que se as pessoas gostaram do seu governo muito se deve a Dilma que poderá avançar ainda mais. Também o fato dela ser mulher é impactante para o Brasil que amadureceu no sentido de ter uma mulher presidente. O Lula rompeu o preconceito maior como pobre e metalúrgico e virou um dos melhores presidentes da nossa história. Ele chegou com a maior aprovação popular de todos os tempos no final de oito anos de mandato”, analisou.

A reversão no EstadoAníbal acredita que todos estes fatores deverão ter reflexos por aqui. “No Acre a gente espera que a força da própria Dilma começará a ser notada pelo eleitorado. Inclusive, ela já está participando do nosso programa eleitoral com gravações pedindo votos para o Tião Viana e isso vai fazê-la mais conhecida ainda. Nós já temos no dia 13 de setembro uma atividade organizada pelas mulheres acreanas que terá como foco a campanha da Dilma e fora isso em todos os nossos eventos é dito pelas nossas lideranças o quanto é importante a sua vitória no Acre”, ressaltou.

Os próprios dirigentes e militantes da FPA já sentem uma mudança na relação eleitoral do povo acreano com Dilma. “Nós já fizemos uma rodada de visita completa em todos os municípios acreanos sempre levando o nome dela. Quando se anda pela cidade já se vê placas com as suas propagandas. Há dois meses as pessoas queriam os adesivos do Jorge, Tião e Edvaldo e não queriam da Dilma. Agora, não só querem a propaganda da Dilma como tem muita gente buscando material dela nos comitês o que demonstra que o efeito nacional já se sente no Acre”, finalizou.

Apenas três anos atrás



 "Apenas três anos atrás era impensável um Fórum Social das Américas no Paraguai. Este país ausente começa a se fazer presente. O Paraguai renasce", disse Hugo Ferreira no ato de abertura do IV Foro em Assunção, cantando Mi Pais, que ele tinha deixado de cantar por falta de esperança e liberdade. Apenas 11 anos atrás, na noite de 24 e madrugada de 25 de março de 1999, 7 manifestantes foram mortos na praça frente ao El Cabildo, mesma praça de abertura do Foro, por franco-atiradores postados no alto dos edifícios, na luta por democracia e por um Paraguai livre, no que foi chamado Massacre do Março Paraguaio.
Apenas alguns anos atrás os indígenas bolivianos não se apresentavam num Foro com toda altivez, pregando ao mundo o Bem Viver da harmonia entre as pessoas e a harmonia das pessoas com a natureza, e são reconhecidos como povos na Bolívia plurinacional.
Apenas poucos anos atrás a maia e guatemalteca Rigoberta Menchú, Prêmio Nobel da Paz/1992, não pôde visitar o Paraguai, porque não lhe garantiam segurança, o que pode fazer em 2010 sob as asas da liberdade e da democracia. Apenas pouco tempo para cá indígenas brasileiros, peruanos, equatorianos, guatemaltecos e de todos os países latino-americanos tornaram a anunciar com orgulho suas raízes, sua forma de produzir, sua cultura e reverenciar os ancestrais e seus valores.
Apenas há pouco tempo era impossível reunir na mesma mesa num foro latino-americano um presidente boliviano indígena, um presidente paraguaio bispo da Teologia da Libertação, um presidente uruguaio ex-guerrilheiro tupamaro.
Apenas há muito, muito poucos anos dos mais de quinhentos desde sua colonização não são generais os presidentes eleitos, ou mandaletes dos poderosos de plantão ou lacaios do poder econômico dependente ou ditadores de plantão.
Apenas há poucos anos é eleito um presidente brasileiro metalúrgico e sindicalista, um presidente equatoriano que vem das Comunidades Eclesiais de Base, um presidente venezuelano dissidente das forças militares conservadoras, um presidente salvadorenho aliado de históricas forças guerrilheiras.
Apenas há poucos anos o povo começou a votar livre e soberanamente seus governantes sem o poder das armas e o tacão do fuzil nas costas.
Apenas há pouco tempo os golpes de direita, as ditaduras, as eleições fraudadas eram a marca registrada da América do Sul e América Central e Caribe.
Apenas há poucos anos o FMI e o Banco Mundial eram os únicos interlocutores da política econômica e social dos países do continente latino-americano e de seus governos.
Apenas poucos anos atrás as ordens vinham de fora, do estrangeiro, e os governantes batiam continência para o poder econômico externo.
Apenas quatro ou cinco atrás não havia UNASUL, ALBA, Banco do Sul e a integração latino-americana.
Apenas há poucos anos trabalhadores sem terra, catadores de materiais recicláveis, moradores de rua, pescadores, pequenos agricultores, negros e quilombolas, indígenas, o povo LGBT eram escorraçados dos corredores do poder, aos quais jamais tinham acesso, muito menos participação.
Apenas há pouco tempo os pobres latino-americanos não tinham voz nem tinham vez, sendo apenas bucha de canhão para ‘servir’ a pátria ou dar seu voto na eleição.
Apenas algumas décadas atrás, como retrata o filme Diários de Motocicleta, Che Guevara pregava a unidade latino-americana em sua viagem de (re)conhecimento do povo latino-americano, que hoje torna-se realidade.
Como disse Rigoberta Menchú em praça pública, sobre o tratamento de saúde do presidente paraguaio Fernando Lugo que acontecia durante os dias do Foro, "as aves agourentas e mafiosas voltaram a se movimentar no Paraguai". Por isso, toda prudência é pouca e toda vigilância é urgente e necessária.
Diz a canção Guaranis de Gildásio Mendes: "Ah! Quanta luta na fronteira,/ tanta dor na cordilheira,/ que o Condor não voou./ Ah! Dança e terra guaranis,/ de uma raça tão feliz que o homem dizimou./ Ah! Vou nos passos de um menino,/ no meu coração latino a esperança tem lugar./ Ah! Quando bate a saudade,/ abre as asas liberdade, que não para de cantar."
Ou o cantador Zé Vicente, em Pelos Caminhos da América: "Pelos caminhos da América, bandeiras de um novo tempo,/ vão semeando, ao vento, frases teimosas de paz./ Lá na mais alta montanha, há um pau d’arco florido,/ um guerrilheiro querido, que foi buscar o amanhã. /Pelos caminhos da América há um índio tocando flauta,/ recusando a velha pauta que o sistema lhe impôs./ No violão um menino e um negro tocam tambores,/ há sobre a mesa umas flores, pra festa que vem depois."
É, o tempo da unidade latino-americana sonhada por Che chegou.

* Assessor Especial do Presidente da República do Brasil. Da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

Alerta vermelho! Os russos estão chegando!


 Pepe Escobar, Asia Times Online

Tradução de Caia Fittipaldi no viomundo

Executivos de Hollywood e políticos de Washington são russófobos maníacos. Considerando o muito lamentável nível do discurso político nessas duas capitais do entretenimento de massa, ninguém deve esperar que os “formadores de opinião” locais tenham lido o recente trabalho do professor Paul Kennedy, no qual a história da Europa é narrada em formato de rota de colisão com os EUA, a partir da inevitável retração dos EUA na nova ordem do novo mundo multipolar emergente.
A russofobia hollywoodiana sempre emerge como caricatura completa, como no [filme] atualmente em cartaz “Salt”, veículo para exibir a irrepreensivelmente sem graça Angelina Jolie – com rapto de bebês pela ex-KGB, os quais são convertidos em superagentes infiltrados nos EUA, onde fazem carreira e pacientemente esperam o momento de porem-se a infernizar e sabotar a democracia ocidental, sempre começando por tentar assassinar o presidente dos EUA. Jolie é tão convincente quanto aquelas super-toupeiras eslavas que aparecem nos roteiros escritos pela CIA para vídeos de Osama bin Laden.
Por sua vez, a russofobia de Washington emerge como uma Cortina-de-Ferro-ao-contrário, erguida pelos EUA, os quais, como rezam os termos da doutrina do Pentágono, de dominância militar de pleno espectro, combinados com a OTAN, comandam um anel de bases militares para cercar completamente a Rússia, do Báltico ao Cáucaso e à Ásia Central.
E o que respondem os russos? Tanto no Afeganistão quanto no Irã, a resposta leva a marca do bom jogador de xadrez, discreto, calado, direto ao ponto e com vistas de acertar no milhar.
Todas as jihads levam a Sheberghan
No Afeganistão, a liderança em Moscou sempre soube que o muro tinha a ver com o plano, de EUA e OTAN, para estabelecerem uma nova hegemonia na Ásia Central – a sempre mesma história da dominância militar de pleno espectro. Mas em seguida Moscou descobriu – ao seguir o exemplo dos chineses, que investiram US$3 bilhões em minas ao sul de Cabul – que o melhor dos mundos seria fazerem muito dinheiro, enquanto o ocidente bate cabeça naquele atoleiro de guerras que jamais vencerá. A isso se chama o plano da Organização de Cooperação de Xangai, para erguer o cerco à volta da OTAN.
O presidente afegão Hamid Karzai acaba de visitar Moscou, onde foi saudado pelo presidente Dmitry Medvedev com uma cesta de projetos no valor de US$1 bilhão – de usinas hidrelétricas a exploração de minérios, os mesmos minérios que levaram o Pentágono, recentemente, a desenterrar suas predições exageradas de que o Afeganistão seria uma Arábia Saudita do lítio.
A história, às vezes, tem meios para tornar a realidade cada vez mais espantosa. A indústria de mineração afegã, baseada em Sheberghan, na remota província de Jowzjan, hoje controlada pelas milícias do general Abdul Rashid Dostum, foi, simplesmente, inventada pelos soviéticos. Dostum, guerreiro uzbeque, atualmente ministro no governo de Karzai, começou a construir sua carreira no exército afegão pró-soviético dos anos 1970s, antes de espertamente migrar para os mujahideen durante a jihad dos anos 1980s, quando se tornou um dos “guerreiros da liberdade” do ex-presidente Ronald Reagan dos EUA.
Reza a lenda que, quando Dostum visitou o Texas, no final dos anos 1990s, levava com ele o mapa do tesouro – toda a prospecção que os soviéticos haviam feito das riquezas minerais do Afeganistão. Chama-se a isso posicionamento perene; hoje, Dostum está no lugar certo para se beneficiar da prodigalidade dos russos. O Dr. Zbigniew “O Grande Tabuleiro de Xadrez” pode ter negociado um golpe crucial contra a União Soviética – sob a forma da jihad dos anos 1980s.
Mas é possível que os russos riam por último. O Afeganistão sempre será visto por Moscou como sua esfera de influência. A Rússia, além de ter boas conexões com a facção uzbeque, também tem bons contatos na facção Panjshir do governo Karzai – através do general Mohammed Fahim, vice-presidente do Afeganistão e líder supremo incontestável da espionagem local.
O novo ‘El supremo’ norte-americano da guerra do Afeganistão, general David “Estou sempre de olho em 2012” Petraeus – que se dedica atualmente a reescrever a guerra “Af-Pak” como se os EUA estivessem derrotando os Talibã – talvez provoque ondas de risinhos em Moscou (para não falar de Quetta, onde vivem os líderes da al-Qaeda). Mas, hoje, Moscou pode dar-se até o luxo de ser magnânima e deixar passar por território russo os suprimentos da OTAN. Os russos sabem que onde interessa – onde estão os bons negócios, no norte do Afeganistão – seu futuro não poderia ser mais luminoso.
Tudo que seja nuclear vira ouro
A nova usina nuclear de Bushehr – a primeira, no Oriente Médio – inaugurada conjuntamente sábado passado por Rússia e Irã, posiciona o Irã, sem qualquer dúvida, como umas das 29 nações que produzem energia nuclear no mundo. Mas é também grande negócio para a indústria nuclear russa, nesse caso representada pela estatal Rosatom.
Há seis meses, o primeiro-ministro Vladimir Putin disse que a Rosatom tem capacidade para construir 25% das usinas nucleares em todo o mundo (atualmente, construiu 16% delas). Atomstroiexport, o braço de construção civil da Rosatom, construirá uma grande usina na Turquia, e já pôs os olhos em Bangladesh e no Vietnam. Bushehr, que custou mais de $1 bilhão, gerará 2% da eletricidade do Irã. Cada um dos quatro reatores a serem construídos na Turquia, ao custo de $20 bilhões, produzirá 20% mais energia que Bushehr.
O principal executivo da Rosatom Sergei Kiriyenko anda dizendo que Bushehr é um “grande projeto internacional” do qual participaram mais de dez países da União Europeia e do Pacífico asiático. O que ninguém sabe com certeza é por que demorou tanto a ser inaugurado, dado que a Rússia assumiu o projeto em 1992 (Bushehr começou a ser construída em 1974, pela alemã Kraftwerk Union, empresa que resultou de uma fusão entre Siemens e AEG. Em 1980, a Siemens deixou o Irã).
Já se falou de tudo, para justificar os muitos atrasos – sanções dos EUA e ONU; desconfianças em Teerã, quanto aos russos; o fato de que Teerã não pagava em dia. Agora, são águas passadas. Kiriyenko acertou, pelo menos em parte, ao dizer que Bushehr “confirma a posição da Rússia, de que todos os países do mundo têm direito à energia nuclear para fins pacíficos” – desde que se deixem monitorar pela Agência Internacional de Energia Atômica, IAEA.
Nos termos do acordo Teerã-Moscou, a Rússia fornecerá combustível nuclear para Bushehr e encarregar-se-á dos resíduos (de modo que o Irã não possa extrair plutônio dos resíduos), e tudo sob monitoramento da IAEA. Centenas de engenheiros russos permanecerão trabalhando em Bushehr até 2013, antes de que Teerã assuma total controle sobre a usina.
No início de agosto, até o Departamento de Estado dos EUA, pelo principal porta-voz Philip Crowley, teve de admitir que “Bushehr foi projetada para fornecer eletricidade ao Irã. Não é considerada ameaça de proliferação, porque a Rússia fornecerá o combustível necessário e retirará os resíduos, dos quais nasce o risco de proliferação.” Washington está focada, como laser, é na usina de enriquecimento de urânio de Natanz; a segunda, que está em construção, em Qom; e no reator de água pesada em Arak, também em construção.
A ideia de que Teerã poderia construir uma fábrica “secreta” de bombas no subterrâneo de Bushehr é ridícula; num flash, seria descoberta pelos muitos satélites-espiões. Assim, enquanto os estridentes guerreiros-de-sofá neoconservadores norte-americanos desfilam sua estupidez, e tratam como se fossem coisas iguais uma usina nuclear monitorada internacionalmente e uma fábrica de bombas atômicas, os russos servem-se alegremente da mesma usina para construir novas oportunidades de negócios.
Moscou sabe que o que realmente está em jogo na chamada ‘questão nuclear iraniana’ é que os EUA – com seu arsenal nuclear gigante – e Grã-Bretanha e França – com seus arsenaizinhos – simplesmente não querem que outro país do mundo em desenvolvimento (além de Índia e Paquistão) intrometam-se no aconchegante ninho dos senhores de bombas atômicas. E a Rússia tampouco tem interesse em meter-se em mais um confronto estratégico, no caso de o Irã chegar à bomba atômica (Moscou, assim, joga seu jogo de xadrez geopolítico). Fato é que o ocidente e Moscou só querem, mesmo, que tudo continue exatamente como está.
Com o quê chegamos ao xis da questão. Enquanto EUA, Grã-Bretanha e França não aceitarem que o Irã enriqueça seu urânio, simplesmente não há qualquer possibilidade de contarem com o Irã como parceiro colaborativo numa agenda de cooperação global de não-proliferação. Até lá, a indústria russa de construção de usinas nucleares continuará a encher-se de dinheiro.

Escola vira ponto de cultura e transforma vila em centro cultural

Na Vila da Prata, em Mogi das Cruzes (SP), tem pessoas que valem ouro. Entre elas está a dona Ana. Voluntariamente ela iniciou um projeto que mudou a cara da comunidade e das pessoas que moram nela. Tudo isso a partir do espaço da escola da região. O local que antes estava abandonado hoje já é ponto de cultura e esporte da Vila da Prata. O Tá na Escola, da Opção Brasil, é o segundo episódio da série Interprogramas, que você vê todos os sábados aqui na TV Vermelho.


A 2ª edição do Prêmio Cultura Viva, idealizado pelo Ministério da Cultura (MinC), com patrocínio da Petrobras, produziu uma série de seis interprogramas. Essas peças audiovisuais foram veiculadas nos intervalos da programação do Canal Futura, no evento Teia/2007 e em eventos do Prêmio.

Para o desenvolvimento deste projeto, que abordou o tema da 2ª edição do Prêmio Cultura, educação e comunidade, foram selecionados seis Pontos de Cultura que atuam na área do audiovisual: Amanda Associação Mundo Animado das Artes (CE), Espelho da Comunidade TV Ovo (RS), Instituto Marlin Azul (ES), Opção Brasil (SP), Paraiwa Coletivo de Assessoria e Comunicação (PB) e Vídeo nas Aldeias (PE).

Veja o primeiro episódio da série na sequência do vídeo acima ou clique:
-Animação recria cotidiano das aldeias de pescadores do Brasil

Ovos podres e nossa democracia rompida

28 de agosto de 2010, coluna semanal de Amy Goodman

Qual é a relação entre 500 milhões de ovos e a democracia? A retirada em massa de ovos infectados com salmonela do mercado de consumo, o maior recolhimento de produtos primários na história dos Estados Unidos, permite-nos ver o poder que as grandes corporações transnacionais têm. Poder este que se exerce não apenas sobre nossa saúde, senão também sobre nosso governo.

Ainda que sejam muitas as marcas retiradas do mercado de consumo, todas estas podem ser rastreadas até chegar a só duas granjas de produção de ovos. Cada vez mais, a provisão de alimentos está em mãos de enormes companhias, crescendo vertiginosamente, e que exercem um enorme poder sobre nosso processo político. A mesma situação que ocorre com a indústria alimentícia, dá-se também com as petroleiras e os bancos: são corporações gigantescas (algumas com orçamentos superiores a maioria dos países do planeta), estão controlando nossa saúde, nosso meio ambiente, nossa economia e, cada vez mais, nossas eleições.

O surgimento de salmonela é só o episódio mais recente de uma série de outros que demonstra uma indústria alimentícia desenfreada. Patty Lovera, subdiretora do grupo pela segurança alimentar Food & Water Watch, me disse: “Historicamente, sempre tem havido resistência por parte da indústria a todo tipo de norma de segurança alimentar, seja esta ditada pelo Congresso ou por outros organismos governamentais. Existem grandes associações comerciais para cada setor de fornecedores dos nossos alimentos, desde os grandes produtores agroindustriais até as lojas produtos comestíveis.”

Os ovos contaminados com salmonela provinham de apenas duas granjas com porte de fábrica, a Hillandale Farms e a Wright County Egg, ambas do estado de Iowa. Por trás deste surgimento da doença está o empório do ovo de Austin “Jack” DeCoster. DeCoster é proprietário da Wright County Egg e também da Quality Egg, provedora de frangos e de alimentos para frangos das duas granjas de Iowa. Patty Lovera afirma que: “DeCoster é um nome que se escuta muito quando alguém começa a falar com conhecedores da indústria do ovo ou com pessoas que provem dos estados de Iowa, Ohio ou dos outros estados em que DeCoster opera. Por isso achamos que DeCoster é o perfeito exemplo do que sucede quando temos este tipo de concentração e produção em grande escala. Não se trata só de segurança alimentar ou só de dano ambiental ou do tratamento que recebem os trabalhadores. Quando estamos em frente a este tipo de produção em massa, responsável por enormes quantidades e variedades de nossos alimentos, se trata de um pacote completo de efeitos colaterais negativos.”

A agência de notícias Associated Press produziu um resumo das violações às normas sanitárias, de segurança e de leis trabalhistas presentes nas operações de DeCoster com ovos e porcos em vários estados. Em 1997, a empresa DeCoster Egg Farms aceitou o acordo da Justiça e resolveu de pagar uma multa de dois milhões de dólares pouco depois que o então ministro de Trabalho Robert Reich qualificou sua granja de “tão perigosa e opressora como qualquer empresa maquiladora (ver nota 1 no final do texto). Em 2002, a companhia de DeCoster pagou USd 1 milhão e meio de dólares para chegar a um acordo fruto de uma demanda legal apresentada pela Comissão Federal de Igualdade de Oportunidades Trabalhistas, que representou judicialmente contra a empresa, em defesa de mulheres mexicanas que informaram ter sido submetidas a assédio sexual, inclusive violação e estupro, incluindo abusos e represálias por parte de seus supervisores. Este verão, outra companhia vinculada a DeCoster teve de pagar USd. 125 mil dólares ao estado de Maine por ser acusada de trato cruel contra os animais.

Apesar de tudo isto, DeCoster tem prosperado no negócio de ovos e porcos, o que o põe à altura de outras grandes corporações transnacionais, como a British Petroleum (BP) e os grandes bancos. O derramamento de petróleo da BP, o maior na história deste país, esteve precedido por uma longa lista de fatos criminosos e graves violações às normas de segurança no trabalho. Sendo que todas estas denúncias já datam de vários anos. Um dos mais conhecidos destes atos foi a grande explosão da refinaria da cidade de Texas, desastre esse que custou a vida de quinze pessoas no ano 2005. Se a BP fosse uma pessoa física (um cidadão qualquer), teria ido a prisão faz muito tempo.

A indústria financeira é outro delinqüente crônico. Pouco tempo após o maior desastre financeiro mundial (desde a Grande Depressão iniciada com o Craque da Bolsa de Valores de Nova York em 1929), bancos como Goldman Sachs, cheios de dinheiro depois resgate financeiro governamental - quando os cofres públicos jorraram dinheiro para a salvação da Banca - interferiram no processo legislativo que justamente os tentava controlar.

O resultado foi um novo e amplamente ineficaz organismo governamental de proteção ao consumidor, além de uma implacável oposição à designação, para a direção deste organismo, da defensora dos direitos do consumidor Elizabeth Warren, que seria a pessoa quem supervisionaria aos bancos tanto como o novo organismo lhe permitisse. Este é o motivo pelo qual se opõem a sua designação os banqueiros, dentre eles, Timothy Geithner e Larry Summers. O primeiro foi nomeado pelo Presidente Obama nomeou como Secretário do Tesouro e Assessor Econômico.

Permite-se às corporações transnacionais operar praticamente sem supervisão e nem regulação. Permite-se que o dinheiro das grandes empresas exerça influência sobre as eleições, e por tanto, sobre a conduta de nossos representantes. Depois da decisão da Corte Suprema no caso apresentado pelo grupo de direita Citizens United, permitindo doações corporativas ilimitadas às campanhas, o problema vai de mau em pior. Para ser eleitos e manter no poder, os políticos deverão satisfazer mais e mais a seus doadores empresariais. Se poderia dizer que o lobo vigia ao galinheiro (e aos ovos podres que há nele). No entanto, há esperança. Existe um crescente movimento para reformar a constituição dos Estados Unidos, para tirar das corporações transnacionais o status legal de “pessoa jurídica”, conceito pelo qual estas empresas têm os mesmos direitos que as pessoas normais.

Isto faria que as corporações estivessem sujeitas à mesma supervisão que existiu durante os primeiros cem anos da história dos Estados Unidos. Mas para que as pessoas sejam as únicas com direito à participação política será necessário um verdadeiro movimento de base, dado que o Congresso e o governo de Obama parecem não ser capazes de implantar nem sequer as mudanças mais básicas. Como diz o refrão: “para se fazer um omelete, é preciso quebrar alguns ovos”.

1 Observação do tradutor: maquiladoras são empresas de montagens de peças industriais localizadas na fronteira entre os EUA e o México, que basicamente emprega mulheres, paga salários aviltantes e oferece tratamento desumano.


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Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna.


© 2010 Amy Goodman: Âncora de Democracy Now!, um noticiário internacional transmitido diariamente em mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em mais de 250 em espanhol. É co-autora do livro "Os que lutam contra o sistema: Heróis ordinários em tempos extraordinários nos Estados Unidos", editado por Le Monde Diplomatique Cono Sur.

Texto traduzido do castelhano e revisado do original em inglês por Bruno Lima Rocha; originalmente publicado em português por Estratégia & Análise. É livre a difusão em língua portuguesa, desde que citando a fonte do original e neste idioma.
Imagem: The Quality Egg of New England, uma das gigantescas empresas de Austin “Jack” DeCoster, empresário da alimentação e acusado de ser o responsável final pela praga de salmonela nos ovos. Tal como no ramo alimentício, a concentração produtiva e de poder, faz com as corporações transnacionais estejam acima da cidadania.